Eu Acho que Amo Você
Capítulo 15
15
– Ah, Bill, esta é Petra, a vítim a da produção de hoj e. Petra, este é William Finn, nosso diretor editorial.
– Oi, Petra – ele diz, estendendo a m ão e franzindo as sobrancelhas. – Petra, com o a do cachorro do Blue Peter?
– Petra, com o a terrorista da Facção do Exército Verm elho – ela responde.
– Ah. Percebi m eu engano. Você se im porta se eu m e sentar?
– As cadeiras são suas – ela diz.
Ele se senta desconfortável na cadeira de m aquiagem ao lado dela, um a poltrona reclinável preta com um descanso de cabeça. Faz Bill se lem brar de seu dentista; depois de um episódio recente de tratam ento de canal, essa não é um a associação feliz. Com essa com ovente lem brança, Bill com eça a cruzar as pernas, depois m uda de ideia, quando se vê com eçando a deslizar para trás. Antes que perceba, colocarão um a daquelas capas lilás em volta do seu pescoço e pedaços de papel alum ínio em seu cabelo.
Ele se pergunta vagam ente o que pode ter feito para ofender essa m ulher que nunca vira antes. Até m esm o para seus padrões, é m uita coisa levar um gelo tão grande depois de um a única frase. A frase sobre o cachorro de Blue Peter obviam ente não foi tão divertida quanto ele esperava. Talvez ela j á tenha ouvido isso antes.
Quando as leitoras chegam na revista para um a produção, a tendência é ficarem constrangedoram ente agradecidas, gorgolej ando de anim ação por estarem na m atriz da revista que com pram no superm ercado, para aliviar o fardo de fazer as com pras sem anais. Algum as vezes, descendo o elevador, Bill encontrava por acaso algum as candidatas da seção Antes e Depois: alegres com o canarinhos com seus cabelos escovados, elas andam aos tropeços pela recepção, com suas m alas de rodinhas cheias de am ostras grátis e algum as fotos profissionais, banhadas em esplendor engenhoso para surpreender seus m aridos em casa. Bill sem pre ficava im aginando com o exatam ente o Hom em Antigo responderá à Nova Mulher que as m ulheres tanto querem ser hoj e em dia. Quando os hom ens ficam m ais velhos, tendem a ver m udanças com certa desconfiança, isso se eles chegarem a notar algum a coisa. Ruth costum ava dizer que poderia m udar toda a m obília do apartam ento deles e Bill não notaria, tão pouca era a atenção que prestava ao am biente físico que o cercava. Aquilo não era totalm ente verdadeiro, em bora ele se lem brasse de um dia em que, arrastando-se para casa depois de 14 horas no escritório, ele serviu, m isturou, ergueu e acabou com seu gim -tônica antes de perceber que o obj eto no qual estava bebendo era, na verdade, um m inúsculo vaso para plantas de vidro fosco. Em pânico, ele j ogou o gelo e o lim ão na lixeira, secou o vaso e até que conseguiu disfarçar bem sua estupidez, em bora Ruth, voltando dez m inutos depois com alguns cravos, tenha se perguntado em voz alta, com certa perplexidade, por que o vaso estava tão gelado. Por sorte ele escapou; a idiotice do sexo m asculino era um interm inável assunto de pesquisa para as m ulheres.
Naquele dia, a seção Antes e Depois tem um tipo diferente de cliente. A m aioria das predecessoras ficava feliz em ser tratada com o porquinho-da-índia, cobaias por um dia, contanto que fossem para casa m ais cham ativas do que chegaram . Essa não agia com o porquinho-da-índia, agia m ais com o um gato. Misteriosa, contida e cautelosa. “A Mulher Maluca”, Marie a cham ou, m as não era verdade, a m enos que a loucura estivesse escondida, enterrada bem lá no fundo. Não havia nada desengonçado em seus m ovim entos, nenhum gritinho de alegria ou queixum e em sua voz. Difícil definir. Ela parece quase estar observando o processo de produção a distância, com o se estivesse acontecendo com outra pessoa.
Bill quer perguntar sobre o teste – o teste deles, com o prefere pensar. Ela vencera; ele o criara, apesar de ela não saber disso. Ainda. Ele tem certeza de que essa notícia será recebida com surpresa, m as precisa de m ais tem po com Petra para descobrir se a surpresa será agradável ou não. Ele tem um a vaga lem brança, a som bra de um a lem brança, de Zelda lhe dizendo para fazer o teste, e rápido, para não perderem o prazo. O Superteste de David Cassidy .
– Sej a duro, William querido! – Zelda gritara de sua sala, ou algo parecido, presum ivelm ente para provocar os risinhos dos hom ens em volta. Faça com que sej a trabalhoso o suficiente; em outras palavras, para selecionar as fãs extrem am ente apaixonadas das m eras diletantes que dividem seus sonhos entre Donny Osm ond ou David Essex. E agora, ali estava, desenterrada, trazida à luz um a geração m ais tarde, com o o punho da espada do tesouro secreto de um anglo-saxão, difícil de ser decifrada. Marie não conseguiu achar o teste em si, m as conseguiu desenterrar um m aterial antigo do arquivo de Cassidy, que Deus a abençoe, m as o que im pressionou Bill foi o quanto o teste era absolutam ente indecifrável, até para alguém que j á havia se debruçado sobre as curiosidades de Cassidy. Mesm o para alguém que, por 18 m eses, j á havia sido o próprio David.
O tem po havia trazido diversão, m as não encantam ento, para o período em que ficou na editora Worldwind. Tem po em que ficou na cola daquele velho e sórdido Roy Palm er. Tem po com a form idável Zelda. Sob sua prontidão gentil e, para ser honesto, seus padrões exigentes, Bill aprendera praticam ente tudo o que precisava para adm inistrar sua própria revista. Ela teria ficado eletrizada – verdadeiram ente tocada, sem o m enor traço de ironia – em pensar que ele está agora com um a leitora devota da revista Tudo sobre David Cassidy. Foi Zelda quem o alertou a j am ais subestim ar o poder prim itivo que um ídolo exerce sobre as fãs, e ali, na cadeira ao lado, com os olhos firm em ente fechados enquanto seus cabelos escuros e com pridos são aparados, está a prova viva de que Zelda estivera certa.
Qual a idade de Petra? Bill é péssim o para adivinhar idade. Ela era criança em 1974, isso ele tem certeza, então... Mas isso não tem a ver com m atem ática. Enquanto ele a exam ina no espelho, Bill calm am ente registra sem qualquer indício de desej o o fato de ela ser bonita. Bela estrutura física, belos olhos castanhos, com um ar sonolento m esm o quando bem abertos. Violoncelista, alguém com entou. Um a verdadeira profissional da m úsica, não com o ele.
Vej a bem , ficar sentado ali olhando para ela não vai funcionar. Ele é o anfitrião, seu trabalho é dar as boas-vindas. Além disso, Bill acabou de decidir, está ali para estabelecer um a conexão, construir algum tipo de ligação; é preciso, se é que leva a sério o caráter de Cassidy que está tom ando form a em sua cabeça com o um avião de m ontar. Parte m em ória, parte reflexão sobre o fenôm eno do ídolo pop adolescente. “Eu era o David Cassidy Verdadeiro”, esse tipo de coisa. Poderia funcionar m elhor na revista de Gavin, nunca se sabe, para os leitores do sexo m asculino que gostam de ler. Ou sej a, som ente para eles três que trabalham na revista.
– Não m e lem bro da Facção Verm elha ter um a terrorista cham ada Petra – Bill com eça, inutilm ente, cinco m inutos depois do seu com eço desastroso. Não é para m enos que ela o está ignorando. – Sei que havia um a Ulrika.
– Ela tinha 19 anos. A Petra. Era cabeleireira – Petra diz, com os olhos fechados. As pálpebras estão sendo pintadas com um violeta vivo. – Saiu debaixo de um a saraivada de balas. Com o Bonnie e Cly de.
– Ah, os cabelos dos anos 1970 com certeza eram m otivo suficiente para levar um a cabeleireira a extrem os – Bill diz.
Ouve-se um a risada, m as não de Petra. É um riso vigoroso e despudorado, da loira que está na cadeira ao lado dela.
– Nem m e fale – a m ulher diz. – Você se lem bra daquele m eu corte desfiado, Petra?
– Com o se eu pudesse esquecer. – Petra sorri. – Você parecia um carneiro tosado por um bêbado.
A loira anim ada, sej a quem for, tem um efeito positivo na am iga m agra de cabelos escuros. Bill vê Petra relaxar enquanto elas conversam .
– Achava que o m eu cabelo nunca m ais iria crescer direito, para ser sincera. Você tinha o cabelo desfiado naquela época? – Sharon pergunta a Bill.
– Ah, desculpe – Petra diz. – Esta é m inha am iga, Sharon Lewis. Desculpe, Sharon Morgan. Sharon, este é o sr. Finn, o chefe aqui, que veio dar um as risadas das m ulheres trágicas que vão para Las Vegas conhecer seu ídolo j ustam ente no período da perim enopausa.
– De j eito nenhum – Bill diz. Seus ouvidos ainda estão se habituando ao tom de Petra. Ela é rápida dem ais para ele. – Eu tive um corte de cabelo parecido com o de David Bowie. Meu obj etivo era ficar parecido com Ziggy Stardust.
– E funcionou?
– Não ficou ruim . Na realidade, eu acabei ficando parecido com outro Ziggy. Só não era o Ziggy certo.
– Com quem você ficou parecido, então? – Sharon pergunta.
– Com o gato da vizinha.
Quando Petra anunciou que elas haviam vencido a com petição, Sharon não perguntou “Que com petição?” ou “Do que você está falando?”, ou ainda “Depois desse tem po todo?”, ou, pior, “E daí? Nós m al nos vim os nos últim os dez anos”. Só Deus sabe que qualquer um a dessas teria sido um a resposta razoável. Mas quando o hum or tom ava conta de Sharon, ou quando a felicidade a roubava, ela prontam ente perdia a razão. Nesse caso, ela gritou com o se os anos não tivessem passado e ainda fosse 1974, e Petra tivesse acabado de abrir a porta do quarto:
– Você está brincando com igo. Nós vencem os? Nós vencemos! – E então ela caiu na gargalhada.
Com o Petra se lem brou instantaneam ente, ninguém conhece bem a palavra explosão até ver Sharon dando um a gargalhada. Parecia um a dúzia de sacolas de papel sendo infladas e estourando ao m esm o tem po. Um pouco m ais alto e os vizinhos com eçariam a bater nas paredes. Só Deus sabe o que acontece quando ela e Mal fazem sexo; deve ser com o em um daqueles grandes incidentes onde a polícia é forçada a evacuar a área.
Arm ada com o núm ero de telefone que Sharon enviara em um cartão de Natal, Petra a rastreara até chegar em um as casas localizadas em um a rua sem saída. Conform e Sharon prom etera, era um local encantador. O j ardim dava vista para o m ar prateado até Pem brokeshire, onde as m ontanhas se elevavam com o fum aça. Aquele condom ínio não existia quando elas eram garotas; se existisse, teriam dito que era esnobe ou m uito acim a de sua condição. Petra chegara até ali para levar a boa notícia; duas décadas depois, m as antes tarde do que nunca. E Sharon, quando parou de rir, rapidam ente entrou em um a segunda explosão, não m enos enérgica que a prim eira – de lágrim as, desta vez, porque Mal não era confiável para cuidar dos dois m eninos enquanto ela estivesse em Las Vegas.
– Eles terão febre tifoide ou algo do tipo – ela disse, am assando e rasgando um bolo de papel higiênico que Petra pegara no banheiro assim que a explosão com eçara. – Não posso, desculpe – Sharon repetia, e foi dizendo isso até Petra deixar claro que perder a viagem da vida delas para conhecer David Cassidy era até mais im possível do que deixar Mal ficar com as crianças.
As duas eram surpreendentem ente tím idas. Cada um a tentava m edir o que o tem po fizera com o rosto e o corpo da outra, sem dar qualquer sinal de que essa vistoria estava acontecendo.
Sharon, que sem pre tivera o rosto rechonchudo, não tinha nenhum a ruga. Definitivam ente, parece m ais nova que eu, Petra pensou.
Petra tinha a aparência m ais cansada, m as, por outro lado, quase não m udara; ainda era elegante, com a pele de Branca de Neve e cabelos escuros, sem um fio grisalho. Definitivam ente, parece m ais nova que eu, Sharon pensou.
Na cozinha grande em estilo rústico, com o balcão am ericano para café da m anhã e banquetas altas, Petra adm irou as fotos na parede enquanto Sharon fazia chá. As gravuras pareciam ser j aponesas, até Petra encontrar seus óculos e ver que eram aquarelas em um tipo de pergam inho, a representação de paisagens que ela conhecia com o a palm a da m ão.
– Essas gravuras são incríveis, Sha – Petra disse. – Esta é a Three Cliffs Bay. É possível atravessar essas ondas e nadar.
– Fui para Londres. Vi aquela exposição enorm e de Hokusai na Roy al Academ y. Lindo. Entrei no curso de caligrafia, estou trabalhando com pincéis bem finos. No início era um a bagunça danada, m as agora estou pegando o j eito. Fiz o curso de arte e design na City & Guilds Art School. A graduação é o próxim o passo. Tenho um pouco m ais de tem po agora que os m eninos estão na escola. Vou ser bacharel em artes, e não dona de casa. Um dia você ficará orgulhosa por m e conhecer, Petra.
Petra sentiu o choque da surpresa por Sharon ter feito algo com o ir à exposição de Hokusai sem ela. No m esm o instante ela se censurou. Que horror, era exatam ente o tipo de atitude arrogante com a qual Marcus a infectara, descrevendo Sharon com o “personagem colorido”, com o se ela fosse um a atriz em um a peça de Shakespeare que entretém o público da classe m ais baixa enquanto os atores trágicos m ais im portantes trocavam de figurino para a próxim a cena im portante. Agora Petra com preendia por que estava ali. Não era porque precisava de com panhia para a viagem ao passado para conhecer David. Ela estava ali para se desculpar com Sha pelos anos perdidos, por ter se tornado o tipo de m ulher que pensava em Sharon Lewis com o entretenim ento.
– Você está ótim a – Sharon elogiou, colocando sua m ão em cim a da m ão de Petra e a deixando ficar. – Pelo que contou depois que Marcus term inou com você, pensei que fosse estar acabada.
Todos esses anos em Londres, Petra pensava em si m esm a com o a garotinha galesa m eiga, a inocente m orando no exterior. “Coitadinha de m im , um a garota dos vales na cidade grande e perigosa”, essa era sua m anha em m eio ao novo círculo de am igos que a ensinaram a falar palavras com o manha. No entanto, não era ela a m eiga. Era Sharon. Aquele tipo de m eiguice estava perdido nela para sem pre; Marcus fora seu professor no intelectualism o enfadonho e ela fora um a aluna talentosa.
– O que você quer dizer com “em ocionalm ente ele ainda está com você”? – Sharon quis saber. – Ele está m orando com aquela esnobe. Algum as vezes, para um a m ulher inteligente, você é com pletam ente pancada, Petra. Honestam ente. Aquele babaca... – ela acrescentou, com m ais rancor do que achou que conseguiria.
Estava tão quente que entraram no carro e foram até a praia. Sha colocou alguns sanduíches em um Tupperware, com praram um saco grande de batatas fritas em um posto de gasolina e um a garrafa das bebidas inglesas dandelion e burdock.
– Não pensava que ainda fabricassem isso – Petra disse.
– Não fabricam . Está extinto desde 1977. Essa aqui é a terra que o tem po esqueceu. Espero que você tenha trazido sua receita de bacalhau, a taram asalata.
Elas eram as únicas ali, com exceção de Jack Russell, que latia para cada onda que avançava, cum prim entando-a com fúria, com o um árbitro pequeno e m uito indignado. Depois de discutirem com o as batatas Quavers dissolviam na língua, Sharon concentrou-se na séria tarefa de procurar seixos.
– Com exceção de David, Steven William s e Marcus, que outros hom ens você am ou, Pet?
Petra se deitou, pressionando o corpo sobre os seixos, deliciando-se com o calor que se infiltrava em seus ossos, atravessando suas roupas.
– Andrew Marvell. Rom ântico, espirituoso, brilhante nas prelim inares. Um a incrível percepção sobre o que faz um a m ulher se m otivar.
– Fabuloso. O que houve de errado com ele, então? É casado?
– Morreu em 1678. Poeta. Tam bém era m em bro do Parlam ento de Hull.
– Um poeta m orto? – Sharon soltou um a risada de descrença.
– O único tipo no qual se pode confiar – Petra disse com firm eza. – Um poeta vivo por perto não dá certo. São com o gafanhotos. Eles a despem de tudo que você j á sentiu e depois a usam com o m aterial para suas sensíveis narrativas em prim eira pessoa.
– Legal. E quem m ais?
Petra pensou um pouco.
– O m oreno do seriado Smith & Jones. Pete Duel. Sem pre tive um a queda por ele. O sorriso m ais m aravilhoso da história. Lem bra que costum ávam os assistir depois que vocês com praram a TV em cores para ver as Olim píadas?
– 1972 – Sharon confirm ou. – Ele se suicidou, não foi? Descanse em paz, Pete Duel. É sério, Petra, sei que você opta por caras em ocionalm ente indisponíveis, m as caras vivos j á seria um bom com eço.
– Não quero um com eço – Petra afirm a. – Acabou para m im .
– O quê? Am or, acabou? – Sharon pressionou um seixo na palm a da m ão de Petra. Petra abriu os olhos. A pedra era de um azul esverdeado bem claro, salpicado com pontinhos pretos.
– Perfeito. Você sem pre encontra os m elhores. Há m uito m ais seixos na praia. Não conseguiria, sabe. Não suportaria contar toda m inha vida para outra pessoa de novo. Seria um grande esforço contar m inha história para um estranho. – Ela se sentou e sacudiu os cabelos. – Já sei, poderíam os fazer um anúncio, então. “Mulher galesa danificada, rom ântica, violoncelista, procura...”
Nesse m om ento ela estava chorando e sua cabeça estava no colo de Sharon.
– Está tudo bem , acredite – Sharon disse. – Vai ficar tudo bem . Vam os para Las Vegas conhecer David e ele se casará com as duas, com o um daqueles m ongóis...
– Mórm ons, Sha – corrigiu Petra, rindo lágrim as e chorando risos. – Mórmons.
Ao voltarem para casa, Sharon abriu um a garrafa de vinho, serviu um a taça grande para cada um a e rapidam ente deu prosseguim ento ao lanche dos m eninos, descascando as batatas e cortando-as, enquanto as duas conversavam sobre os preparativos da viagem e – m uito m ais im portante – o que cada um a iria usar quando chegasse o grande dia.
– Estilo retrô – disse Sharon com firm eza. – Calças de boca larga. Poncho. Para enlouquecer David. Com o se ele tivesse entrado em um a m áquina do tem po.
– Bem – Petra disse –, é um a ideia. Mas, escuta: – e aí a inspiração bateu – sem sutiã. Ninguém usava em 1970...
– Oh, meu Deus! – Sharon colocou as m ãos em concha nos peitos. – Você só pode estar brincando. Dois filhos e 20 anos depois? Im agine tudo isso aqui balançando na frente do pobre coitado. Ele iria tentar cum prim entá-los com um aperto de m ãos.
– Ah, eu acho que você não conseguiria passar pela alfândega – Petra brincou. – A segurança am ericana está m uito m eticulosa ultim am ente. Seus peitos poderiam ser considerados arm a ofensiva.
– Tudo bem , engraçadinha. Senhorita Atrevida. Olhe só para os seus, presentes e corretos. Olhe só para você. Está exatam ente com o m esm o corpo de quando Steven William s deixou você m al...
– Ele não fez nada... – Petra corou. Para ela, desenterrar o passado era parte agonia, parte arqueologia: m uito esforço, desconforto e pouco alívio para suas dores. Tantas coisas reduzidas a pó. Para Sharon o passado era um tesouro para ser aberto e com entado, com arrependim entos m isturados a recordações felizes, tudo à disposição.
Com o se em resposta a esses pensam entos enterrados, Sharon de repente parou no m eio da conversa e colocou os óculos.
– Meu baú do tesouro – ela disse. – Estou ficando louca. – E com isso ela subiu correndo as escadas. Ficou lá em cim a um bom tem po. Houve ruídos, silêncio, duas pancadas e um a sequência de j uram entos em galês. Ela retornou com um a caixa de papelão nos braços. A fita adesiva que fechava a tam pa estava am assada e escurecida, há m uito havia perdido seu poder de grudar. Sharon a arrancou e abriu a caixa.
Dentro estava o arquivo das duas, ou pelo m enos a seleção do m elhor que tinham daquela época: pôsteres, cartões, folhetos, recortes de j ornais, revistas. Pilhas de revistas Tudo sobre David Cassidy presas com elásticos que endureceram e racharam , ou que arrebentaram . Havia álbuns de recortes de revistas com a cola evaporada e os recortes se desprendendo com o pele de cobra.
Deus do céu. Aquele rosto. Petra estava atônita. Os olhos, com os cílios espessos. Os lábios entreabertos. O rosto para o qual olhara todos os dias e desej ara beij ar. Mesm o depois de passado tanto tem po, ela conhecia aquele rosto m elhor do que qualquer um a das grandes pinturas do m undo.
– Oi, garoto m aravilhoso – disse Sharon, cum prim entando um pôster de David em um cavalo. – Olhe para ele, Pet. Ele é um gato, não é? Quantos anos ele deve ter agora?
– Vinte e quatro – Petra respondeu im ediatam ente.
– Não, ele tinha 24 naquela época. Não é o m esm o que agora, não é? Então, quantos anos nós tem os? Nós som os antigas. Ele é 11 anos m ais velho que nós. Quando é o aniversário dele?
– Doze de abril – Petra respondeu de pronto.
Ela não havia pensado em David. Nem um a vez, não até aquele m om ento. Aquilo não tinha nada a ver com ele. De repente, a ideia de que estavam prestes a viaj ar para conhecê-lo – viaj ar no tem po, e não apenas atravessar o Atlântico – parecia im provável e estranha. Se o David que ela am ara ainda tivesse 24 anos, m as David Cassidy era agora um hom em de m eia-idade, então quantos anos tinha a Petra que estava seguindo para Las Vegas?
Ela pensou na garota de 13 anos (“a am iguinha de Gillian”, foi assim que Gwennie, do m ercado, a cham ara), que preenchera o Superteste de David Cassidy rastreando cada resposta com o se estivesse buscando o Santo Graal. O prêm io não pertencia à Petra de agora, era esse o problem a. Pertencia à garota que ela foi um dia. E Petra desej ava que a garota tivesse aquilo. Ela gostaria tanto de poder dar a ela: passar de fininho por sua m ãe de guarda, trabalhando sobre o tam po de m árm ore da cozinha, escalar as escadas e seguir na direção do quarto frio com a cam a dura de solteiro com a colcha m arrom e dizer: “Aqui está, querida. Você venceu.”
Com o Petra e Sharon, com seus filhos, seus corpos adultos, seus pais enterrados e seus casam entos, um saudável e o outro arruinado: com o poderiam conhecer David? Era im possível, ela percebia isso agora. O David Cassidy que ela am ara não estaria ali, m uito m enos a garota que o am ara.
– E então, será que nosso quarto de hotel vai ter um a jacuzzi, Pet? Isso é bem am ericano, não é? Petra?
– Desculpe. Muitos quilôm etros de distância.
– Nem m e fale. Olhei no atlas de Mal. É no m eio de um m aldito deserto. Basicam ente você voa sobre a areia por um tem po, depois olha para baixo, certo, e lá está David Cassidy , parado ali acenando para você. Com o um oásis.
Oásis não é um a palavra m uito usada no País de Gales. Do m odo que Sharon a pronunciou, as vogais dem oram m eio m inuto para sair.
– É típico – Petra disse.
– O quê?
– Bom , você acabou de dizer que eu procuro os hom ens em ocionalm ente indisponíveis.
– Não, não quis dizer isso.
– Bom – Petra suspirou –, não pode haver hom em m ais em ocionalm ente indisponível que um cantor pop que m ora a oito m il quilôm etros de distância. E como se não bastasse, você tem 30 m ilhões de rivais.
– É verdade – Sharon concordou. – Mas, sabe, talvez sej a m elhor assim . – Ela fez um a pausa, ouvindo o eco de suas palavras. Depois, com eçou a cantar. Sem qualquer aviso, Petra se viu sentada, tom ando vinho, com a personificação de George Michael. Sharon parou e tom ou outro gole. – Gosto um pouco do George. Sem nenhum a ofensa a David, é claro.
– Ele não se ofenderá, tenho certeza – Petra garantiu, pensando pela m ilésim a vez na capacidade da am iga de se deixar levar pelo fluxo dos próprios pensam entos para ver aonde eles a levariam . Seria esse o segredo da felicidade da am iga, esse tem po todo? Cantar quando se está com vontade?
– Vou lhe dizer um a coisa – Sharon recom eçou, voltando ao passado. – Se David tivesse saltado daquele cavalo e saído do pôster para nossos quartos e quisesse ficar conosco, o que teríam os feito, hein? Não teríam os transado com ele, teríam os? Nós nunca tínham os beijado ninguém .
– Você eu não sei – Petra disse. – Eu teria tocado m eu violoncelo. Tinha ensaiado um a m úsica especialm ente para ele. Ele teria ficado im pressionado, tenho certeza.
– Pelo que ouvi dizer, ele ficava m uito anim adinho quando estava im pressionado – Sharon disse com sua gargalhada de bruxa. – O m ais engraçado é que nunca vim os David pessoalm ente – continuou –, a não ser em White City, quando ele estava a 800 m etros de distância. Mas eu m e lem bro m elhor dele do que a m aioria dos garotos que conheci, sabe. Só porque ele não estava ao nosso alcance não significava que não estava ali. Certo?
– Certo – concordou Petra. Ela sentia a cabeça leve, com o riso borbulhando, com o se o absurdo daquela coisa toda – esse apuro, essa oportunidade, essa piada antiga – estivesse com eçando a ficar claro para ela. Ela sabia que sua obsessão com David fora estranha, desbalanceada; um sinal de que algo estava faltando em sua infância. Molly adorava Leonardo DiCaprio, m as não da m aneira desesperada e intensa com que Petra adorara David com a m esm a idade. Molly era m ais feliz, é isso. Havia m ais em sua vida. Sua carência não era tão grande.
– Bom – Petra disse tentando parecer decidida –, tendo em vista que o sr. Cassidy não viria até nós, então vam os até ele, não vam os?
– Um pouco tarde, não acha? – Sharon perguntou, em um a rara centelha de dúvida. – Olhe só para m im , Pet. Estou ultrapassada.
– Para com isso, você é linda – Petra contestou. – De qualquer m aneira, concordo com o que dizem . Quarenta agora são os novos 30.
Sharon fez um a careta.
– Tente dizer isso para o m eu traseiro.
O que usar para um a produção? Petra decidiu usar sua saia estam pada e o blazer de linho preto que com prara para o enterro de sua m ãe, por cim a de um a cam isetinha de renda preta e sandálias pretas. Em volta do pescoço estava o elegante pingente de ouro que Marcus lhe com prara no Natal, com os brincos com binando. Vendo-o brilhar, ela im aginou quanta culpa contribuíra para aquela com pra. Olhando-se no espelho do hall de entrada, antes de sair de casa, Petra notou que os sapatos, na m oda dois anos antes, pareciam um pouco gastos agora. Tarde dem ais para fazer qualquer coisa. Ela se sentia com o um a daquelas m ulheres que correm para lim par a casa antes da faxineira chegar. Ninguém quer chegar para um a produção toda avacalhada, m as tam bém não vá se enfeitar e se em belezar dem ais, fazendo com que a foto de “Depois” pareça pior do que a de “Antes”.
Anos de com paração com sua m ãe tinham levado Petra a nutrir o que as revistas identificam com o “im agem corporal distorcida”. Provavelm ente ela não estava m al para sua idade, e o divórcio dem onstrou ser a m elhor dieta j á inventada. Ainda assim , quando se tratava de beleza, sua m ãe havia determ inado o padrão. Toda sua vida, Petra se identificaria com as filhas com uns de m ulheres bonitas. Com o seria ser um a daquelas pobres garotas cuj a m ãe é um a superm odelo e o pai é um roqueiro fam oso narigudo? Os astros do rock sem pre deixavam um rastro de filhas sem queixo e narigudas atrás deles. Garotas que estavam fadadas a viver à som bra de suas m ães m aravilhosas. Às vezes Petra pensava se essas m ães achavam difícil, com o a sua claram ente achara, não dar à luz um a m enina sem elhante à sua própria im agem .
Durante a lua de m el, no Egito, Petra e Marcus estavam vasculhando um bazar quando se depararam com um suporte giratório com cartões-postais, em um café. Em vez de cenas do Nilo ou das pirâm ides, os cartões-postais tinham fileiras e m ais fileiras de bebês perfeitos, loiros e de olhos azuis; exatam ente o oposto fisicam ente das crianças locais. Se sua m ãe tivesse visitado o Cairo, teriam fundado um a religião com o nom e dela.
– Até que você não é tão sem grraça, Petra – sua m ãe dissera, virando o rosto da filha na direção da luz do banheiro. – Sabe, você realm ente não é tán sem grraça.
– É tão sem graça, m ãe. Eu não sou tão sem graça.
– É exatam ente o que estou dizendo, Petra. Você não é tán sem grrraça para um a garota da sua idade.
Então, quando Petra, anos depois, se viu com a própria filha nessa idade, fez seu m elhor para reverter o processo. Para cada palavra de elogio que lhe fora tirada quando criança, Petra encontrava cinco para gastar com Molly. No início, era difícil dom inar esse novo vocabulário de encoraj am ento e adm iração. Ela tinha que forçar sua boca a pronunciar as palavras, com o forçar para baixo um a com ida estranha.
– Você está linda – ela dizia experim entalm ente. – Azul fica m uito bem em você, am or.
– Para com isso, m ãe – Molly dizia, rej eitando o elogio, m as, m esm o assim , satisfeita.
Petra estava tão aliviada por poder curtir sua filha: o frescor de sua pele e a surpreendente firm eza de seus m em bros elegantes dilaceravam seu coração. Ela se preocupara se a briga m ãe-filha estaria fadada a se repetir por gerações, com o as m aldições de fam ília nas tragédias gregas, m as parecia que talvez, apenas talvez, o padrão pudesse ser quebrado. Pelo m enos Molly não ficaria presa, m uda em seu próprio casulo, com o Petra ficara aos 13 anos. Ela não seria tán sem grraça.
– Você poderia não m exer no com prim ento, por favor? – Petra estava à m ercê de Maxine, que fazia o cabelo e a m aquiagem para as fotos de m oda. Petra fora inflexível ao dizer que não queria cortar seus cabelos, m as, um a vez lavados, percebeu que Maxine com eçou a cortá-los. – Deixe-os no m esm o com prim ento – Petra acrescentou, para se certificar. Maxine balançou a cabeça em concordância, e continuou cortando. Era um caso claro de audição seletiva de cabeleireiro. Só escutam o que querem .
Quando se chega à idade de Petra, as pessoas com eçam a sugerir o corte de cabelo de Annette Bening. Um corte bem curto tem o obj etivo de ser m ais atraente e, realm ente, em Annette Bening, é m uito atraente. Em qualquer outra com traços m enos privilegiados, entretanto, que são todas as m ulheres que j á viveram , com exceção de Audrey Hepburn, o corte traz certa protuberância às bochechas. Petra não conseguia suportar ver seus cabelos caindo no chão. Ela fechou os olhos. Aquele lugar era assim , desde o m om ento em que passaram pela porta. Ela e Sharon se encontraram na Paddington Station e pegaram um táxi j untas. Se chegassem separadas, as duas concordaram , seria bem m ais intim idador. Contudo, a intim idação acontecera de qualquer m aneira, com força total.
Não aj udava ter o chefe da revista ali, observando. William sei lá o que, o diretor editorial, entrara e perguntara se seu nom e era com o o de Petra de Blue Peter. Depois de todos esses anos, ainda havia algum tapado rindo por conta do cão da TV. Quando ela respondeu secam ente, ele ficou m uito quieto e sentou-se ali olhando para o espaço até que Sharon o fez rir. William Finn, era isso. Bill.
– Olhos lindos – Maxine disse para Petra. – Precisam os destacá-los m ais.
Um a lem brança se contorceu em Petra, com o um nervo.
– Quando eu era adolescente, as revistas diziam que se você tivesse olhos afundados deveria usar som bra am arela – ela disse.
– Ah, diziam todo tipo de besteira naquela época. Ainda dizem . – Maxine m ergulhou um pincel pequeno no seu kit de som bras, que m ais parecia um a caixa de bom bons. Sua voz se m antinha sem pre no m esm o tom , portanto as falas de adm iração e sarcasm o saíam do m esm o j eito.
– Você tam bém enxaguou os cabelos com água da chuva, é? – perguntou.
– Nós duas enxaguam os com água da chuva – Sharon disse com orgulho –, m esm o tendo vivido em um a cidade de produção de aço com o ar cheio de partículas pretas.
Bill, Petra reparou, estava prestando m uita atenção enquanto Maxine aplicava m áscara nos seus cílios. Com seus cabelos fartos e despenteados e o visual levem ente desleixado, Bill lem brava algum ator. Sharon saberia. Petra tam bém notou Bill sorrindo sem pre que Sharon falava. No início, Petra sentiu um a súbita raiva, pois pensou que estava rindo de sua am iga com o Marcus costum ava fazer. Depois ela se acalm ou e percebeu, para sua grande surpresa, que ele sim plesm ente gostava de Sharon e tinha gostado logo de início. Eles gostaram um do outro, depois de, o quê, uns três ou quatro m inutos? Sharon sem pre fizera am igos com facilidade, diferente dela. Escutando-a em Londres e fora do País de Gales, Petra de repente notou com o o sotaque galês de Sharon era forte, e sentiu a saudade de casa surgir rapidam ente, agitando dentro dela com o o balanço do m ar. Foi assim que Petra falou durante m ais da m etade de sua vida, sem perceber. Que outras coisas sobre si m esm a você não sabe?
Algo que ela sabia com toda certeza era o seguinte: quando alguém lhe dá a oportunidade de um encontro com um fantasm a, o hom em pelo qual estava apaixonada um quarto de século atrás, m ais da m etade de sua vida, há som ente um a coisa inteligente a fazer. Sim plesm ente diga não. Sorria educadam ente e diga: obrigada, m as não. Sou um a m ulher adulta, nem um pouco parecida com a m enina apaixonada por aquele garoto. Sou um a m ulher bem -casada... Correção: logo serei um a m ulher m alcasada, com um a filha para criar. Nada pode ser m ais em baraçoso do que rem exer no passado; nada pode ser m ais trágico, ou m ais hilário.
E tem m ais. O prim eiro am or é o m ais profundo. Você não se apaixona apenas, você entra de cabeça. É com o se afogar, m as pensar sobre o resgate não é um pensam ento bem -vindo. Outros am ores podem vir depois, m as o prim eiro continua respirando dentro de você. E as coisas que ainda sei sobre ele: a data de nascim ento, o nom e da m adrasta, a paixão por cavalos, seu esconderij o na praia, o instrum ento que aprendeu a tocar quando estava se sentindo sozinho.
Bateria.
Durante dois anos, usei m arrom porque era a cor favorita dele. Você acredita nisso? Eu fui um a adolescente pálida, ficava horrível de m arrom . Ficava amarela de m arrom . Mas aquilo era um sacrifício pequeno a se fazer. Por David seria um prazer. Graças a m im , ele nunca m ais se sentiria só.
– Julia Roberts.
Petra acordou de suas reflexões com um pulo.
– O quê? – ela disse.
Sharon não estava falando com ninguém em particular, estava falando para qualquer um ouvir, ou sej a, todos na sala.
– Estava dizendo para Maxine m e deixar parecida com a Julia Roberts. Você sabe, basicam ente fantástica. Com cachos até a cintura. Caso Richard Gere estej a em Las Vegas passando de carro pela rua principal, vai parar e gritar: “Ei, eu te conheço!”
– Sharon, m eu am or – disse Petra –, a personagem que você está descrevendo é um a m orena alta de Los Angeles com botas de saltos altos e cano longo. Ela tam bém era um a prostituta. Você é um a galesa loira, dona de casa, tem 1,60m de altura e, que eu saiba, ninguém paga você para fazer sexo.
– Depende.
– Depende de quê? – Esse foi Bill, genuinam ente intrigado.
– Bem , um a vez Mal m e trouxe um a m áquina de sorvete no Dia dos Nam orados; isso foi um a sexta-feira. Eu dei um a olhada naquilo e m andei as crianças para a casa da avó até o alm oço de dom ingo. – Ela deu a risada m ais m aliciosa que a Nightingale j á ouvira em 20 anos. Depois acrescentou, fazendo graça: – Vocês deviam ter visto m inhas bananas split.
Maxine deixou sua tesoura cair. Petra enterrou a cabeça nas m ãos, sentindo seu corte de cabelo pela prim eira vez, fios m acios entre os dedos. Levantou depois o olhar e encontrou o sorriso de Bill com o seu. Ele disse:
– Vocês m e dão licença?
– Oh, Deus, desculpe – Petra disse. – Não queríam os parecer grosseiras...
– Não, não, por favor, fiquem à vontade. Quanto m ais à vontade, m elhor. Estava com eçando a aprender algum a coisa sobre sorvetes. Honestam ente não há nada que eu prefira fazer do que ficar sentado aqui fingindo ser cabeleireiro e ouvindo as fantasias das m ulheres. Metade das revistas que produzim os aqui é feita disso. Eu poderia literalm ente anotar tudo o que Sharon diz e transcrever diretam ente para a próxim a edição...
– “Com o um a Máquina de Sorvete Salvou Minha Vida Sexual”, escrito pela Mãe de Dois Meninos – Sharon diz. – “Com ou sem Cerej a? Você Decide.”
– Exatam ente. Você claram ente é nossa leitora perfeita – disse Bill. – Quer um em prego?
Sharon sorriu para ele pelo espelho e torceu o nariz.
– Nem pensar. Tenho m uito que fazer em casa. Obrigada pela oferta.
– Quando quiser – Bill respondeu, acrescentando: – Não, é que eu tenho um a teleconferência em ... – Ele olhou para o relógio. – Noventa segundos. – Ele foi em direção à porta e depois olhou de volta para Petra.
– Hum ...
– Petra, por favor.
– Petra. Quando você term inar, poderia dar um a passadinha no m eu escritório? É no andar de baixo, à esquerda, saindo do elevador. Tenho de lhe entregar um a papelada chata antes da viagem .
– Entregar m inha vida por escrito, assinando com sangue.
– Mais ou m enos isso. Pode ser daqui a m eia hora?
– Está m ais para cinco horas com isso tudo no cabelo – Sharon disse. A porta se fechou. – Oh, Pet, o que você achou disso? Dê um a passadinha no m eu escritório para m e ver.
– Sha... – Petra olhou no espelho para sua cabeleireira, que sacudiu a cabeça, espantada, com o se quisesse dizer: sua am iga é sem pre assim ?
– O que é um a teleconferência? – Sharon perguntou.
– Ah, você fala com várias pessoas ao m esm o tem po, de um a só vez. Mas na realidade não é bem isso – disse Petra. – Todos falam ao m esm o tem po e nada é resolvido.
– Ah, entendi – Sharon diz. – Ele deveria ir para Gower, em nosso País de Gales, não acha? Lá pode fazer isso de graça, perto de m im , sem custo nenhum . Mal não term ina um a frase faz 20 anos. Pobrezinho – acrescentou com a voz cheia de am or.
– Com o você vai querer?
– Ah, só leite, por favor.
– Algo para com er? Vocês devem estar exaustas depois de ficarem sentadas naquelas cadeiras a m anhã inteira, cortando o cabelo.
– Não, obrigada. Sharon e eu vam os sair para alm oçar em m eia hora, e acho que ela está pensando em um banquete m edieval ou algo parecido. Poderíam os até ir de barco até Ham pton Court vendo os cisnes, ou algo assim . Acho que a ideia dela de Londres é bem ...
– Baseada em história?
– Eu ia dizer m aluca, m as, sim , isso soa m elhor. Só chá, por favor.
Eles estão sentados a um a m esa redonda em um canto no fundo da pequena lanchonete. “O coração pulsante da editora Nightingale”, Bill dissera, enquanto a levava ao andar de baixo; eles viram os detalhes da viagem em m enos de dez m inutos – tão rápido que ela im aginou, por um instante, por que ele se incom odara em cham á-la. Sua secretária poderia ter levado os papéis até a sala de m aquiagem e feito isso lá. Depois ele a convidara para tom ar um café. “Gostam os de pensar que é o café m ais estranho de South Bank, e querem os que tenha algo para se lem brar desse dia”, ele disse. Ela concordou, depois de um a pausa, esperando que ele não notasse a perturbação em sua expressão. Ela, então, acabara escolhendo chá.
– Bom , o que você esteve fazendo esse tem po todo? – pergunta ele.
– Com o disse?
– Quero dizer, depois do concurso... em que ano foi?
– Em 1974.
– Antes ou depois de Cristo?
– Agora é você quem está sendo grosseiro.
– Me desculpe. É que, você sabe, j á faz um bom tem po...
Petra resm unga:
– Nem m e fale. Será que sou um a bruxa velha e m aluca? Foi isso o que pensou quando lhe disseram que liguei?
– Sinceram ente?
– Sinceram ente.
– Bem , estava esperando um a bruxa, é claro. A Sam antha do seriado A Feiticeira. Com o truque do nariz, os feitiços e tudo o m ais.
– E quanto à m aluca?
– Pode parecer estranho, m as não achei isso tão m aluco. Lem bre-se de que eu sou velho tam bém . Na verdade, tenho o dobro da sua idade. – Petra abriu a boca para protestar, m as ele não parou: – Então eu m e lem bro de toda aquela coisa com Cassidy . Estava bem no m eio de tudo aquilo.
– Você não poderia estar. Os m eninos não podiam entrar.
– Você ficaria surpresa.
– Com o quê?
– Não im porta. De qualquer m aneira, eu m e lem brava o bastante para saber que era um a loucura na época, e teria ficado um pouco desapontado se aquela loucura tivesse desaparecido com pletam ente. Mesm o agora.
– Então você pensa mesmo que eu sou m aluca. – Por algum m otivo, ela descobre que está gostando disso.
– Não, acho que a loucura... am adureceu. Com o vinho. Virou algo diferente, talvez. – Bill a observa de perto. Mãos incríveis. Dedos longos. Violoncelista, ele se lem bra de repente. Ele tenta se lem brar de algum a peça da qual possa conversar de m aneira inteligente. Borodin, Segundo Quarteto de Cordas. A que sua m ãe m ais gostava. Foi tocada com o um a valsa lenta no enterro dela. É um a daquelas m úsicas tão belas que acalm a as preocupações do m undo enquanto lhe diz que o m undo é belo dem ais para durar. Com o a m ãe de Bill. Petra com certeza conhece essa peça.
– Então sou um a m aluca vintage. – Petra ri.
– Perfeito.
– Com o esse chá.
– Nossa, espero que não. É m esm o tão ruim quanto parece?
– É pior. Parece a água do Tâm isa.
Ela pega um a colher e m exe. E então continua:
– Em resposta à sua pergunta, não passei os últim os 25 anos pensando em David Cassidy, se é isso o que está querendo dizer.
– Não pensei que tivesse.
– E isso significa?
– Significa que você parece... – Bill para.
– Cuidado.
– Estou sendo extrem am ente cuidadoso. – Ele tom a um gole do café. – Significa que você é obviam ente alguém que am pliou sua visão de m undo.
– E isso é tão incom um ?
– Muito m ais do que você pensa. Conheço um m onte de pessoas que não querem saber nem um pouco m ais do que sabiam aos 15 anos. Eu digo saber m esm o. Com o se tivessem dado um a olhada para o m undo e pensado: isso não é pra mim, cara. A m aioria hom ens.
– Bom , algum as vezes não se pode culpá-los – Petra diz. Ela está falando baixo agora, tão baixo que Bill se vê inclinado sobre a m esa.
– É verdade – ele diz. – Jam ais subestim e o desej o de não saber.
Ele olha para Petra enquanto ela desvia o olhar para seu chá.
– Ou o desej o de não ter descoberto – ela diz, depois de algum tem po.
– Ah, sim , as verdades repulsivas. A m aior parte delas vem dos hom ens, de novo.
– Você quer dizer hom ens descobrindo verdades sobre as m ulheres?
– O contrário – ele diz. – O que você vê nas folhas do seu chá, cigana que lê a sorte?
Petra m ergulha a colher e m exe o chá.
– Seu futuro parece ser m arrom – ela diz por fim .
– Minha cor favorita – ele responde, e é pego de surpresa quando Petra levanta o olhar, séria. Com o ela não diz nada, Bill continua:
– E então, o que você quis saber? O que aprendeu durante todo esse tem po?
– Bom , eu estudei na Roy al Academ y. Violoncelo e um pouco de piano. Toquei profissionalm ente e ganhei um a fortuna. Algum as vezes cheguei a ganhar 23 libras por noite. Agora trabalho com m usicoterapia.
– Musicoterapia?
– Isso m esm o. Uso a m úsica para aj udar na saúde m ental e espiritual. – Ela sente com o se estivesse lendo um roteiro.
– Para alm as problem áticas, você quer dizer. A m úsica tem encantos para serenar o coração m ais selvagem – Bill declam a, citando o poeta William Congreve.
– Tenho contato com m uitos corações selvagens. Na m aioria, crianças que sofreram m aus-tratos. – Petra detesta falar sobre seu trabalho. As pessoas sem pre tiram conclusões erradas. Com m ais cautela, ela tenta novam ente: – Quando ouvem sobre um trabalho com o o m eu, as pessoas sem pre dizem que é “atraso de vida”.
– E não é?
– Sinto que recebo m ais das crianças, e da m úsica, do que eles... Sinto que m e preenche – ela foi baixando a voz.
Bill sorri.
– Então é verdade.
– O quê?
– Eu sabia.
– O que você sabia?
– Você vem pensando em David Cassidy todos esses anos.
Petra olha para ele e estreita os olhos.
– Nunca parei.
Bill se reclina na cadeira.
– Conte-m e tudo – ele diz.