Eu Acho que Amo Você

Allison Pearson · Capítulo 10 de 27

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Eu Acho que Amo Você

Capítulo 8

8

 

– Não m e deixe esquecer – Bill pediu. Ele olhou para dentro da sua xícara. Algum a coisa estava escondida no m eio da borra de café.

– Esquecer o quê, querido? – perguntou Zelda.

– Ah, desculpe. Não m e deixe esquecer de j am ais chegar perto do hotel Paraíso novam ente, pelo resto da m inha vida. Quer dizer, irei para lá de qualquer m aneira depois de m orrer, com o todos, para passar m ilhões de anos ali, sendo purificado. – Ele tom ou um gole do café, esperando não engolir o que quer que estivesse escondido ali. – Tenho m uitos m otivos para não ir enquanto estiver vivo.

– Bem , você não precisou se hospedar lá, não é? Foi apenas um a coletiva de im prensa. Quanto tem po durou?

– Menos de um a hora.

– Ora, então! – Zelda bateu as palm as das m ãos de leve, com o costum ava fazer quando um a discussão estava resolvida – para ela não se tratava de ganhar a discussão, esse não era o j ogo dela, m as apenas deixar educadam ente o assunto esfriar.

Bill ficou parado no escritório de Zelda, atrás das plantas, de onde ela o avistara assim que ele apareceu sorrateiram ente, e para onde o havia cham ado com o faria com um a criança que fez algo errado. Havia um boato de que Zelda fora professora prim ária quando j ovem , m as o boato estava errado. Ela queria ser enferm eira.

– Não – disse Bill.

– Com o disse?

– Não acredito! – Ele pegou algum a coisa de dentro da xícara. – Zelda, sou m uito agradecido por esse em prego e entendo realm ente que é um a boa experiência e tudo o m ais, m as, francam ente, não pode esperar que eu engula tachinhas. – Ele m ostrou a tachinha.

– São m igalhas.

– Foi o que pensei. Um pedaço de biscoito de gengibre. Até os restos de um lápis apontado não teria sido tão ruim . Pelo m enos é tudo carbono. Mas aquela coisa podia ter m e m atado. Por sorte não sou um daqueles am ericanos da Nova Inglaterra, ou j á teria processado você.

– Minha nossa, é m esm o. – O que seria preciso para fazer essa m ulher xingar, m as xingar decentem ente, com o qualquer outro j ornalista na face da Terra? Bill im aginou com o seria deixar um a tachinha na cadeira dela, com o na verdade deixou, e depois ficar escutando o que acontece. Mas ela provavelm ente só daria um pulo e gritaria “Santo Deus”, com o alguém que saiu de um livro de Charles Dickens, guardando a tachinha para usar no futuro.

– Com a um biscoito, William . Tenho cookies e biscoitos recheados. Estão ali, na frente das canetinhas. Não? Então. Sr. Cassidy . Ele foi sim pático? Algum a coisa que você possa usar?

Bill se sentou, sem ser convidado.

– Acho que ele está cheio.

– Com o é?

– Bom , você sabe que ele disse que essa é sua últim a turnê. Ele vai parar de fazer shows.

– Ele diz que sim .

– Ele disse m esm o. E acredito nele.

– Bom , não vam os nos deixar levar pelas em oções. Esse é apenas um lado de sua atratividade, as apresentações ao vivo. – Zelda m udou de posição em sua cadeira. Esse tipo de conversa a deixava desconfortável. Se a atratividade de David Cassidy chegasse ao fim , a revista tam bém chegaria, e com ela o em prego de todos – o de Bill, Chas, Pete e todos os que estão a serviço da indústria que se aglom erou ao redor do astro. E ela, para onde iria? Para a revista m ensal da banda Mott the Hoople? Os Wizzard Fanzine? Im agine trabalhar para prom over um a banda que escrevia “wizard” errado, com dois Zs.

– Estou feliz que tenha acabado.

– Perdão, não há nada acabado. E para você dizer isso, William , é franca...

– Não sou eu que estou dizendo que acabou. Ele disse, Cassidy disse. – Bill enfiou a m ão no bolso de sua j aqueta e tirou um bloco de anotações. Ruth com prara para ele um pacote com seis. Na frente do bloco estava escrito “Caderno do Repórter”, com letras um pouco m aiores do que Bill teria gostado, e ele pensou duas vezes antes de levar o bloco para a coletiva de im prensa, na frente de repórteres de verdade.

– “Estou feliz por ter term inado, estou feliz por estar quase term inando.” Então alguém perguntou a ele o m otivo pelo qual não estaria m ais fazendo apresentações no palco, e ele disse espere um pouco, está aqui em algum lugar... – Bill virou as páginas. Zelda sorriu e olhou de relance para os cookies.

– Está aqui. “A única m aneira de eu realm ente poder crescer” – isso ainda é ele: – “A única m aneira de eu realm ente poder crescer e dedicar tem po suficiente para fazer um bom álbum não é fazendo turnê durante seis m eses do ano, ficando...” – Desculpe, estou tentando entender m inha letra. Parece “acabar”. – Zelda m anteve o sorriso.

– Ah, sim , “ficando acabado, cansado e enfraquecido”. Fecha aspas. Viu o que eu queria dizer sobre ele estar cheio? Olha só, eu não posso sim plesm ente soltar essa bom ba na próxim a carta às fãs, posso? “Oi, garotas, preciso contar um a coisa: estou acabado e m e sentindo fraco no m om ento, tá um a barra. Querem m e aj udar a aliviar esse peso?”

Bill fizera a m elhor im itação de sotaque am ericano que conseguia, considerada pela grande m aioria com o a pior im itação do escritório.

– Não, entendo o que está dizendo. – Zelda tam borilou suas unhas no m ata-borrão sobre sua m esa. – Mas aquela parte sobre crescer você poderia fazer algum a coisa com aquilo, não acha? Tenho certeza de que nossas garotas iriam adorar isso. – Ela soava com o um a diretora de escola falando sobre um novo bebedouro no corredor. – É tão... – Zelda inclinou a cabeça para um lado, procurando pelo adj etivo m ais exagerado – ... tão californiano.

– Ah, claro – Bill retrucou, consciente apenas em parte do com pleto absurdo que era dois adultos britânicos discutindo calm am ente um estado – na verdade, um a nação – que nenhum deles havia visitado. Eles poderiam m uito bem estar falando sobre a lua.

– Bom , m as com o ele é? Fale! – Zelda estava m ais anim ada agora, de volta ao terreno seguro.

– Difícil dizer. Até que o cara é legal. Não consegui saber com o foi a coisa toda, porque sem pre que os fotógrafos com eçavam a disparar seus flashes, o que basicam ente era toda vez que ele levantava os olhos, ele piscava um pouco e depois colocava aqueles óculos espelhados.

– Que m áxim o! – disse Zelda, que gostava de pensar que estava atualizada com a cabeça das leitoras.

– Hum m . É... Bom , o que ele disse foi o seguinte, ele falou sobre todas essas, o que era, ah, “essas pequenas coisas, coisas sobre nossas personalidades, que escondem os e m antem os guardadas dentro de nós”.

– Perfeito! – Zelda j untou as m ãos, com o se estivesse se preparando para rezar. – E o que eram essas pequenas coisas?

– Foi só isso. Ele disse “Com certeza não vou revelar o que é para 850 m il pessoas”.

– Ooh, que m alvado. E de onde ele tirou esse núm ero, posso saber? Por que toda essa gente não estava lendo essa revista? – Bill não sabia dizer se Zelda estava falando sério. Tudo parecia bom para ela, até as m ás notícias. Principalm ente as m ás notícias. Quando chegasse o fim do m undo, ela iria anunciá-lo com o um j ingle de um CD gospel.

– Algum a coisa sobre a Inglaterra? – continuou ela.

– Sim , ele disse estar encantadora. Desculpe, que ela é encantadora e que ele estava encantado.

– Excelente. Aí está praticam ente m etade do seu trabalho escrito para você. O interesse patriota.

– Só que ele disse exatam ente a m esm a coisa sobre a Austrália. E a Alem anha. E agradeceu aos fãs pelo apoio.

– Muito bom . Gosto quando os artistas fam osos são educados.

– Alguém perguntou a ele sobre a histeria, você sabe, o rastro de destruição que ele deixa por onde passa. Não um a destruição no sentido literal, ninguém m orre, m as com o que ele precisa lidar, a choradeira das m eninas e aquela coisa toda.

– E o que ele disse?

– Ele disse que odeia ficar indiferente com relação a isso, m as que acontece, é parte da vida dele. E, o que era aquilo... Espere um segundo... – Bill virou as páginas novam ente. – Ah, está aqui: “Acho que é algo que passa, tudo passa.” – Bill fechou suas anotações. – Bastante filosófico, nosso Dave.

– Muito. – Zelda estava incom odada, era perceptível. Ela baixou o olhar para o m ata-borrão. A conversa sobre “tudo passa” fez com que ela sentisse estar discutindo a m orte de um ente querido. Então ela se lem brou de algo m ais anim ador e levantou o olhar para Bill.

– E com o foi ir até a suíte dele no hotel para um a conversa cara a cara? Só para nossas m eninas. Foi tudo bem ?

Foi a vez de Bill hesitar. Ele se m ovim entou um pouco, acalm ou os nervos e respondeu:

– Não tive sorte. Fizeram um a confusão com o horário. Duas pessoas puderam dar um a palavra rápida e m andaram o restante de nós em bora. Fiquei furioso, você pode im aginar. Fiz um estardalhaço, m as ele aparentem ente j á tinha saído do prédio. Foi visto pegando a direção de Queensway em um a BMW, com duas garotas de um convento penduradas em seu escapam ento.

– Obrigada, William . Que pena. De qualquer m aneira – Zelda se levantou de sua cadeira –, devem os usar aquilo que tem os. Você tem o suficiente para continuar, não tem ? Não é preciso inventar um m onte de coisas. O sentim ento de David é o que querem os transm itir, afinal, sua essência, e isso deve ficar m ais fácil agora que você o viu de perto. Estou certa?

– Totalm ente.

– É engraçado dizer isso, William , com seu trabalho sendo o que é, m as... – Ela esticou os braços, com o se fosse com eçar a cantar, e disse: – Tente dizer a verdade.

 

– David Cassidy? – Ruth se sentou na cam a. – David Cassidy ?

– Bom , com o eu disse...

– David Cassidy? – Era com o se alguém estivesse anunciando seu nom e em um aeroporto. – Você foi ver David Cassidy ? O que você é, um a m enina de 12 anos de idade?

Ela se levantou e andou até a pia, deixou a água fria correr dentro da xícara usada para enxaguar a boca e bebeu. Então ela se virou para encarar Bill.

– David Cassidy ?

– Esse é o nom e dele, eu adm ito.

– Não banque o espertinho com igo, Bill. Eu sei que no seu trabalho você tem que fazer a cobertura de um m onte de coisas, m as... David Cassidy ? – Ruth fazia gestos com suas m ãos que ele m al podia ver à m eia-luz.

Eles haviam acordado com a chuva da prim avera batendo no telhado de zinco do galpão no j ardim do vizinho e, j á que estavam acordados, fizeram am or. Sendo extrem am ente inglês, Bill pensou enquanto estava deitado ali: sexo não por um a louca urgência, com o o pulsar de algo irrefreável e forte, m as com o algo trazido pelo tem po – m au tem po, no caso – para preencher o tem po. Por outro lado, fazer am or às três da m adrugada (a hora m ais m isteriosa de todas, quando você geralm ente acorda, se é que acorda, para ficar rum inando sobre a falta de dinheiro ou a m orte prem atura) dava ao acontecim ento um ar suspenso e estranho e Bill pensava se, quando am anhecesse, não seria difícil lem brar, com o um sonho. Para que isso acontecesse, ele teria que cair no sono de novo, m as até agora isso não aconteceu; eles ficaram deitados ali, aconchegados um ao outro, falando de banalidades, agradáveis ou não, e Bill de algum m odo se convencera de que seria um bom m om ento para tocar em um assunto delicado. Aquilo, ele via agora, fora seu prim eiro grande erro do dia, e ainda nem havia am anhecido. Cedo dem ais para um erro, com certeza, até m esm o para seus padrões falhos.

– David Cassidy ?

– Olha, am or, com o eu disse, foi um a exceção. Geralm ente é outra pessoa que lida com esse tipo de coisa. Você m e conhece. Eu só funciono quando estou trabalhando nas coisas que conheço, sabe, bandas que eu realm ente gosto. – Ele tossiu, com o se sua respiração não pudesse suportar o fluxo abrupto de m entiras que estavam sendo despej adas por ele, no rastro de um a pequena verdade. – Então, fui escolhido para fazer o trabalho com o Led Zeppelin, um a chance fantástica de falar com eles, nada a ver com um show, portanto não havia pressa envolvida, só eu e eles em algum lugar. – Ruth estava sentada na beira da cam a agora, olhando para ele. Ela estava usando um a das cam isetas dele, um a com a barra queim ada devido ao encontro azarado com um incenso um pouco antes das provas finais.

– E, e... e então esse cara, Scott, do escritório, ele chega e diz: “Você pode m e fazer um favor, Bill? Tenho um horário m arcado no m édico e m inha nam orada não pode saber, e precisa ser hoj e. Preciso fazer um exam e sacal.” Provavelm ente algo a ver com o saco, pra falar a verdade. – Ruth suspirou, e Bill se apressou:

– Bem , ele disse “Você pode ir à coletiva de im prensa por m im ? Talvez haj a tam bém um a entrevista individual. É com David Cassidy, aquele que todas as m eninas gostam . É só fazer algum as anotações, trazê-las de volta para cá e eu farei o texto para a revista. Por favor, por favor, e blá-blá-blá.” Portanto, com o sou um babaca, eu disse sim , e ele prom eteu m e substituir um dia desses. Ficar no m eu lugar na turnê de ônibus dos Stones durante três dias na Suécia. – Bill fez um a pausa para dar um a risada, que não saiu. Ruth estava m ais m uda que a chuva. – Então eu fui, e quer saber de um a coisa? Na realidade, é bem interessante, sabe, é com o um docum entário sobre anim ais selvagens. Ver pop stars no seu habitat natural. Você entra na coletiva de im prensa e todos aqueles caras esquisitos estão sentados ali com suas listas de perguntas. Ruth, você precisava vê-los. Esses caras das... sei lá, revistas cham adas Sintonize-se!, Arquivo do Rock e Sha-La-La. Não apenas a NME e a Melody Maker, esses caras até que são relativam ente norm ais, m as revistas das quais você nunca ouviu falar. E ninguém sorri, ninguém tom a banho, e está na cara que todos eles vão voltar para casa à noite, ficar chapados e ouvir Kraftwerk. Sinceram ente, eu era o cara m ais norm al ali. Você ficaria orgulhosa de m im .

Ruth puxou a m anga de sua cam iseta e coçou o om bro, bocej ando.

– Todos fazem a Cassidy as m esm as velhas perguntas, o que você vai fazer depois, que tipo de som você estava tentando fazer no seu disco novo, blá-blá-blá, e o coitado, quer dizer, o cara, fica sentado ali respondendo às perguntas, e você percebe o quanto ele está desanim ado com aquilo tudo. Então um a m ulher com o cabelo da Carole King se levanta e pergunta o que ele realm ente detesta na sua vida, o que eu achei m eio ousado, nenhum dos hom ens faria um a pergunta dessas. Em prim eiro lugar, acham os que é rude ser tão pessoal assim . Em segundo lugar, todos nós pensam os: que vida boa, trilhões de discos vendidos, tem seu próprio j atinho, o que há para reclam ar? E David a olha e diz...

– David? Ele agora é David? Onde isso vai parar, Bill? – Ele não saberia dizer se Ruth estava com pletam ente zangada ou se estava se divertindo, saboreando sua hum ilhação com um a risada. Será que contaria para suas am igas durante o café? Será que iria para a cam a com ele de novo?

– OK, você venceu – disse ele. – Olha, Ruth, sinto m uito, tá? Sei que você queria que eu passasse cada m inuto do m eu dia escrevendo sobre Pink Floy d ou Fleetwood Mac, ou atendendo a ligação de John Lennon pedindo apoio para sua m anifestação contra a guerra, m as, pense bem , am or...

Bill não era bom com ira. Não tinha habilidade para isso, nem resistência, principalm ente quando seus m otivos eram fracos. Ele lidava bem com a decepção; invej a tam bém , na época em que fum ava m aconha, quando m eninos saíam com m eninas; a preguiça precisava ser trabalhada, era preciso colocar m ais esforço, ele ainda não era lá m uito dedicado; a ira, contudo, nunca seria um a arm a para ele. Im aginava se Cassidy ficava com raiva, enfurecido com sua com itiva, se batia portas e destruía guitarras. Sem chance. E o que isso im portava, de qualquer m aneira?

– Quer um a xícara de chá? – Bill ofereceu. Era assim que os ingleses, nos últim os 200 anos, gentilm ente tentavam apagar as cham as de um a briga. Quando estavam na dúvida, quando estavam nervosos, quando abandonados pela sorte e aos olhos de outros hom ens: coloque a água para ferver.

– É um pouco cedo – Ruth respondeu, irritada consigo m esm a por aceitar a oferta de paz, m as m orrendo de vontade de um a xícara.

– Bem – disse Bill, arriscando, enquanto se levantava –, estou com sede depois de todo esse exercício. A culpa é sua por ter m e acordado e exigido esforço físico.

– Ah, é? – Ruth j ogou um travesseiro nele, errando por m etade do quarto. As m ulheres podiam fazer tudo, e logo iriam m esm o fazer tudo, boa sorte para elas, m as ainda assim , m esm o com a m elhor das intenções, não tinham m ira nenhum a. Jam ais teriam . Aquilo era algo a que o sexo m asculino podia se agarrar, Bill pensava.

Ele encheu a chaleira elétrica que com partilhava a m esm a tom ada do aparelho de som de Ruth e seu secador de cabelos, e fez o chá. O leite de caixinha j á tinha tido dias m elhores, ele podia sentir os pedaços coagulados enquanto servia, m as os retirou com um a colher e m exeu. De volta à cam a, Ruth agarrou sua xícara com as duas m ãos e soprou o vapor: outra m arca inevitável das m ulheres. Nenhum hom em j am ais usaria as duas m ãos para segurar um a xícara de chá, a m enos que estivesse no polo Sul, com um am igo m orto na neve e seis dedos quase caindo. E ainda assim ele iria olhar ao redor da tenda vazia para checar, caso alguém pensasse que ele fosse veado.

– Bill, posso falar um a coisa?

– O quê?

– Eu te am o, m as... não, escute. Você é engraçado e inteligente, até m ais inteligente do que eu, de um m odo estranho, em bora você m e irrite com sua invenção de palavras anglo-saxônicas. E acho que, não im porta o que você diga, lá no fundo você leva j eito para ser rom ântico, m as alguém terá de cavar durante anos para chegar lá. E só Deus sabe o que irá encontrar.

– Moedas.

– Fica quieto, estou falando. – Ruth pôs seu chá de lado e olhou para o nam orado. A claridade do am anhecer passava por entre as venezianas, deixando a luz do quarto dourada e granulosa. A luz pousava no corpo nu de Bill, delineando seu om bro, seu braço e a curva do seu bum bum . Exposto, seu pênis, que estivera sem energia e adorm ecido, com eçou a acordar, curioso para ver se haveria m ais. Bill era m uito bonito, m as j am ais seria m ulherengo, Ruth pensou com satisfação. Para ser m ulherengo, era preciso ter um senso m asculino com pletam ente destituído de ironia. E Bill tinha um a arm adura de ironia. Tinha tam bém um radar que detectava a chegada de qualquer tipo de seriedade, derrubando-a antes que chegasse perto dem ais. Se ele parasse de brincar, se tirasse a arm adura, Ruth não tinha certeza do que iria sobrar. Um a pequena parte de Ruth, secreta até para ela m esm a, suspeitava de que ele não a am ava; ela estava a salvo, contudo, pois ele era educado dem ais para term inar com ela. O uniform e diário de Bill era um a j aqueta de couro e calça de boca larga, m as ela sabia que no fundo ele era um cavalheiro que poderia m uito bem estar vestindo gravata e fraque. Era hereditário. O pai dele, que trabalhou para um a em presa de seguros depois de se aposentar prem aturam ente da Força Aérea Real, pode não ter lido nenhum dos poetas que Bill adorava, m as tinha a m esm a nobreza. Saber que Bill nunca a deixaria, a m enos que ela lhe pedisse educadam ente e com firm eza, fazia Ruth se sentir poderosa e triste ao m esm o tem po.

– Continue – ele disse, bocej ando e puxando os lençóis sobre eles. – Você m e pediu para ficar quieto e depois parou.

– Estava pensando que toda essa história de m úsica significa m uito para você. Pode ser, estou só supondo, acho que a m úsica pode na verdade lhe trazer dinheiro. Pois é, Jim i Hendrix pode acabar se tornando o seu tesouro enterrado. Seu am or verdadeiro. O que para m im tudo bem , ele j á está m orto m esm o. E queim ou todas as suas guitarras. Ou se não for ele, então outra pessoa. Mas, pelo am or de Deus, Bill, odeio dizer isso, m as David Cassidy. – Ela soltou um suspiro profundo e afundou os om bros.

– Eu sei, eu sei. Mas foi um a única vez, pelo am or de Deus! – Bill escutou a si próprio, um pouco confuso. Ele soava com o se Ruth o tivesse pego dorm indo com alguém fam oso, e não escrevendo anotações em um bloco. – E além do m ais... – Essa era sua últim a cartada, em bora pudesse dar terrivelm ente errado. Decidiu j ogá-la m esm o assim : – Ele gosta de Jim i Hendrix.

– Quem ?

– David. Quer dizer, Cassidy .

– Sério? – Ruth levantou a cabeça e o encarou, curiosa. A estratégia funcionara. – Com o você sabe?

– Ele m e disse. Melhor que isso, ele m e m ostrou.

– Você quer dizer que fez um a pergunta na tal coletiva?

– Não, depois, no quarto dele.

– Você foi ao quarto dele? Ao quarto do hotel? O quê, ele reservou um quarto naquela tarde para vocês dois? – Ruth teve a elegância de rir disso. – Ele deixou você usar o frigobar depois? Espero que ele tenha pago.

– Bem , com certeza eu fiquei bastante desapontado por isso não ter acontecido – Bill disse. Ele tom ou um gole de chá e sentiu que estava despertando. – O que aconteceu foi o seguinte: antes que sua m ente deturpada vá longe dem ais, basicam ente eles pegam um andar inteiro daquele lugar horrível, e todos se sentam ali na antessala da sua suíte...

– Com o aquelas fãs fanáticas que andam atrás dos fam osos.

– Exatam ente. E tam bém sem sutiã, com o a m aioria delas. Você espera sua vez e a cada 15 m inutos m ais ou m enos vem um cara, do tipo bem -vestido e educado, m as truculento tam bém , do tipo que usa gravata e paletó, e o cham a para entrar. Então você tem seu tem po e pergunta a Cassidy em que direção sua m úsica está indo, se ele gosta da Inglaterra, se tem algum a m ensagem para as fãs. Depois você se levanta, troca um aperto de m ãos e sai.

– Mas não foi isso o que aconteceu com você.

– Não foi o que aconteceu com igo. Houve um pequeno intervalo na rotina, por algum m otivo. Então eu ouvi m úsica, por incrível que pareça...

– Música? De um pop star?

– Eu sei. É a últim a coisa que você esperaria. Então o cara de paletó sai e m e leva para dentro, depois dá um aceno de cabeça para Cassidy e vai em bora. E, Ruth, j uro, o cara estava sentado ali, no sofá, com a guitarra atravessada sobre os j oelhos e fazendo...

Bill com eçou a tocar no ar, na claridade do am anhecer, cantarolando um a nota aguda. Ruth franziu as sobrancelhas, não entendendo m uito bem , e então ele cantou para ela, com a voz ainda rouca, a m úsica “The Wind Cries Mary ”, de Jim i Hendrix.

– Não brinca.

– Não. Juro.

– Deixa ver se eu entendi direito. – Ruth tinha as m ãos estendidas, com alguns centím etros de distância, com o gostava de fazer quando estava confirm ando um ponto im portante. Não era a prim eira vez que Bill pensava que deveria estar dirigindo um a em presa, em vez de escavando m ontanhas de livros. – Você foi ver esse, esse adolescentezinho bobo, e ele...

– Bom , ele j á tem 24 anos, m as...

– E ele estava tocando “The Wind Cries Mary ”.

– Isso aí.

– Que por acaso é um a das suas m úsicas favoritas de Hendrix.

– Um a das m inhas m úsicas favoritas. Período. É com o os am ericanos dizem “ponto final”.

Ruth estreitou os olhos para ele.

– Ele faz isso para todos os repórteres? – ela perguntou. – Descobre qual é o disco que o cara m ais gosta e, por pura coincidência, está dedilhando a m úsica quando ele entra, para am ansá-lo, para que escreva algo legal em sua m atéria? Quanto trabalho! Im agine se o cara depois de você gostasse de Wagner ou algo do tipo.

Bill pensou naquilo. Tom ou um gole do chá, que estava com eçando a ficar frio.

– Não, eu acho... considerando tudo... – Ele baixou o nariz para olhar para Ruth, com óculos im aginários. Era um j ogo de dissim ulação que eles, de m aneira indolente e sem iconsciente, criaram entre si, durante m eses, para desarm ar a am eaça de parecer pom posos. – Eu acho, milady, que o acusado concebeu um a genuína e bem -inform ada adm iração pelos trabalhos do falecido sr. Jam es Hendrix.

– O cavalheiro da névoa púrpura? – Ruth falou no tom de voz m ais baixo que conseguiu e seu rosnado a fez tossir. Sem pre fazia.

– O próprio, milady.

– E qual foi a sua reação, m e diga, quando o acusado, hum ... expressou, ou m elhor, deu vazão, às m ais calorosas, hum ... devoções?

– Bem , milady. Não querendo enrolar, entende, e com todos os pré-requisitos e advertências levados em plena consideração, eu, hum ... cantei.

– Você o quê? – Ruth parou a encenação. – Que m erda você fez? – Ela raram ente xingava, e Bill ficou levem ente chocado por ela, por ouvir a palavra em ergir, e secretam ente envergonhado, de sua parte, por aquilo o ter excitado. – Você cantou com David Cassidy ?

– Com o fiz com você agora. Cantei um pedaço da m úsica.

– E ele fez o quê? Cham ou o segurança? Acionou o alarm e de incêndio? Diga que ele riu. Diga pelo m enos que ele riu.

– Nem um pouco. Ele disse “Ei”. Não “Ei!”, com o se fosse um integrante da banda The Monkees, m as apenas “Ei”. Com o em um a cena de reconhecim ento.

– Com o as que Shakespeare escrevia.

– Exato.

– E depois? – Ruth havia caído, sem dúvida algum a. Ele j á estava com eçando a se preocupar se ela contaria para suas com panheiras de apartam ento, e para quem elas contariam durante um happy -hour depois de um dia de trabalho. Até segunda-feira, com m uitos floreios acrescentados, a história com pletam ente fictícia sobre seu encontro com David Cassidy j á estaria espalhada pela capital. Na terça-feira, chegaria até seus pais. Na quarta, obviam ente, ele teria de se m atar, em bora, Deus sej a testem unha, esse fosse um preço pequeno a pagar. Seria possível continuar envergonhado depois da m orte?

– Bom , nós falam os sobre Hendrix. E, caram ba, ele sabe m uito sobre isso, sabe m esm o. Todos os álbuns, claro, e rum ores sobre piratarias e gravações perdidas de Hendrix. Quero dizer, se tivesse fechado os olhos, seria com o se estivesse falando com um a pessoa de 35 anos com inform ações abundantes, um especialista. Com o m eu am igo Carl, da faculdade, aquele que tem partes da letra de Cream gravadas na parte de dentro do carro. Você está dirigindo e abaixa o quebra-sol, ou abre o porta-luvas, e está escrito “Restless Diesels” ou algo do tipo, em letras góticas. Loucura total. E tem m ais isso. Ele não sabia sobre Cream .

– Quem , Carl?

– Não, David. Ele sabia tudo sobre Hendrix, Muddy Waters e B.B. King; é um superfã de B.B. King, pelo que pude perceber. Mas a cena na qual Hendrix se envolveu aqui era novidade para ele. Porque é claro que ele não conhece esse lugar. Ele vem para cá e fica em hotéis e anda em lim usines, não pode nem sair para com prar um par de m eias, pois pode ser violentado por m eia dúzia. Está cheio de patricinhas na esquina da Carnaby Street. Ele tam bém conhece m uito bem os Beatles e m e contou que vai fazer um a versão de “Please Please Me” no dom ingo à noite, m as... tá bom , eu sei.

Ruth fez um a careta.

– Você quer ouvi-lo arruinando as m úsicas dos Beatles? Mesm o sendo seu m ais novo m elhor am igo?

– Bom ...

– Bill – Ruth disse, de um a form a tão rígida quanto sua m ãe lhe dizendo para escovar os cabelos. – Além do m ais – continuou –, o que vai haver no dom ingo à noite? Você m arcou um encontro com ele? Ele vai levá-lo para a sessão de fotos?

– Sai fora! Não, é um show. Em White City. O últim o de sua vida. – Bill desatou em um choro falso. Ruth não se deixou enganar:

– Você vai a esse show, não é? Você quer ir, na verdade.

– Não, a m enos que eu sej a obrigado – Bill disse, em polgado pelo fervor de dizer a verdade. – Além do m ais, eu não sobreviveria. Seria agarrado pelas patricinhas por ser o único hom em além dele.

– Você quer.

– Bom , eu iria, se achasse que ele poderia ficar doidão ou ter algum tipo de ataque. “Cassidy quebra a guitarra.” “Ídolo teen incendeia as fãs.” Eu seria o único j ornalista ali. Seu últim o show, m eu prim eiro furo de reportagem .

– Mas ele não vai fazer isso, vai?

– Que nada. Ele é um profissional e a produtora o esfolaria vivo. Acho que ele até gostaria, pense só: m andar todos pro inferno. Dizer a eles: vocês m e fizeram cantar essas m úsicas ridículas sobre sonhar acordado e ser carinhoso, nada de drogas ou de sexo, e por m uitos anos eu aguentei isso, m as agora vou cantar as m úsicas que eu gosto. É um a apresentação ao vivo, m inha últim a, e portanto vocês não podem m e im pedir, então aqui vai: “The Wind Cries Mary ”, “Cocaine”, “Killing Floor” do Howlin’ Wolf, algum as dos asquerosos Stones, com m inha língua para fora com o Mick Jagger. Deus do céu, am or, j á im aginou a cara das m eninas? Suas pobres cabecinhas explodiriam .

Bill se levantou e abriu as cortinas. A luz do dia em Londres, fatigada e im pura, inundou um canto do quarto. Ele se deitou ao lado de Ruth e beij ou seu cabelo.

– Com o eu disse, ele não vai fazer, m as aposto que sonha com isso. Eu sonho com isso. – Ruth esticou os braços para cim a, fechou os dedos das m ãos e se espreguiçou.

– E então, com o isso tudo term inou?

– Com o o que term inou?

– Sua linda am izade. Você e Davey. Deram um aperto de m ãos? Trocaram núm eros de telefone?

– Bom , você não vai acreditar nisso, m as…

– Oh, céus. Lá vai você de novo.

– Ele m e fez um a pergunta. Meus 15 m inutos j á haviam term inado e eu ainda tinha de fazer um a pergunta decente. Que droga de repórter eu sou. Então, nosso tem po estava estourado, o grandão entra e faz um aceno de cabeça para ele para dizer que nosso tem po se esgotara, e Cassidy diz não, faça o próxim o cara esperar. Ele se vira para m im e pergunta com o sei tanto sobre Jim i Hendrix e tudo o m ais. Digo a ele que tenho um a banda. “Com o cham a a sua banda?”, ele pergunta. “Spirit Level”, digo.

– E então, é claro, ele pergunta – Ruth diz – o que você toca. E você responde que toca baixo, então ele vai até a outra porta, pega um baixo e o pluga, e depois, durante a próxim a hora, enquanto j ornalistas frustrados batem à porta, você e David Cassidy im provisam um som j untos, fum am m aconha e paqueram as garotas. Foi isso o que aconteceu?

– Nos seus sonhos.

– Nos seus sonhos. – Ruth sorriu para Bill. – E sobre aquilo que ele não gostava na vida dele?

– O quê?

– Na coletiva de im prensa, antes, quando a m ulher perguntou o que ele odiava. O que ele disse?

– Por que você quer saber?

– Porque sim .

– Bom , prim eiro ele disse que detestava coletivas de im prensa com o essa, brincando. Mais ou m enos brincando. Depois ele olhou para a m ulher, olhou bem para ela, e ela foi ficando sem j eito. Houve um a longa e em baraçosa pausa, e ele disse, com um a voz toda sexy : “Desonestidade.”

– Sério?

– Claro. “Eu detesto desonestidade.” Aparentem ente tem os de viver na verdade ou algo parecido. – Bill coçou seu antebraço. – Com o se ele se im portasse. Vam os encarar os fatos, ele é um cara legal e até m uito bom na guitarra, m as, no fim das contas, milady, ele é um artista pop. Se ele quer a verdade, escolheu a profissão errada.

– Desonestidade – Ruth repetiu, deitando-se e olhando para o teto. A pia pingou. Ruth pensou em tirar sua cam iseta, m as m udou de ideia. O quarto estava frio após a noite longa. – Bill – ela cham ou.

– Hum ?

– Ah, nada. É que... – Ela esfregou o rosto com o alguém que estivesse em ergindo de um sonho.

– É que o quê?

– Eu quase te cham ei de... David. – Então, enquanto ficou ali deitado, rindo, ela girou as pernas para fora da cam a. – Mais chá?

Q UE TIPO DE G AROTA DEIXA DAVID LIG ADO?

“Gosto das loiras porque acho os cabelos claros e dourados atraentes, principalm ente se forem longos. Gosto das m eninas de cabelo escuro porque acho esse tipo de cabelo rom ântico. Curto dem ais as garotas de cabelos castanho-claros, com o o m eu, acho charm osos, especialm ente se forem brilhantes e bem cuidados. Ah, e quase esqueci de dizer que gosto das ruivas tam bém . Parece que sim plesm ente adoro todas as garotas. Período!”