Eu Acho que Amo Você
Capítulo 17
17
Eu era o verdadeiro David Cassidy. Ah, claro, tam bém havia aquele outro: o cara que cantava, por quem as garotas se apaixonavam , que usava aquelas cam isas, que arrasava corações. Mas a história de David Cassidy teve pouco a ver com a m úsica pop, ou a cultura pop, ou m esm o a cultura da fam a. Era algo m uito m ais sim ples que isso. Era um a história de am or. E fui eu quem a escreveu.
Term inei a faculdade em 1973 com um diplom a, um a nam orada e m etade de um
Mini Cooper que dividia com um am igo. Acontece que eu só tinha m etade da nam orada tam bém , e ela preferiu a outra m etade, m as foi preciso que um a briga aos berros em um a ruela próxim a de Bay swater, às 3h da m adrugada, para que eu ficasse sabendo a verdade. Fiz m inha graduação em inglês, com ênfase nos poetas do Rom antism o. A prova de que havia m e form ado veio com um diplom a enrolado por um veludo falsificado e um espaço em branco onde m eu futuro aconteceria. O poeta John Keats não só não m e aj udou a conseguir em prego: ele praticam ente m e garantiu que ninguém m e daria um em prego. Os em pregadores se sentavam com m eu currículo de um a página, escrito com espaçam ento duplo, entre nós na m esa e contorciam os lábios ao pronunciar as palavras “literatura inglesa” com o se estivessem dizendo “acusação crim inal” ou “perversões conhecidas”. Com certeza pensavam que eu fosse chegar no prim eiro dia com um a capa e um a pena para escrever, ao passo que o que m ais queria era virar a página relacionada a John Keats: escapar da j aula de sua vida e am ores para m ergulhar em m inha própria liberdade. E, se isso significasse fazer o café, tudo bem para m im . As m eninas tom am café. Até aí eu sabia.
Bill fechou seu arquivo e o laptop. Essa sim ples ação, com o sem pre, disparava um a dupla reação dentro dele: a necessidade de fum ar um cigarro e a necessidade m ais profunda ainda de um drinque. O fato de não fum ar há 20 anos e de não ter bebido m uito nos últim os dez não propiciou m elhora nenhum a. O im portante é que fum ar e beber eram o tipo de coisa que os escritores deveriam fazer – com portam entos condicionados que deveriam surgir ao pé de cada página, ou até m esm o ao com pletar um parágrafo. Eram sím bolos da m á conduta, presos à escrita para lhe dar um brilho extra. Quando você vê a foto de um rom ancista e ele está sentado em frente à m áquina de escrever, respirando através de um Marlboro, com um copo de uísque ao lado do seu cotovelo e a luz da m anhã às suas costas – bom , isso j á prova 60 por cento, não é? O cara adquiriu seu estilo; seus livros têm de ser escritos com dificuldade, com base em um cam po de batalha de bebedeira e corações bastante m achucados. Com o levar a sério os pensam entos de um escritor que sobrevive com chá e biscoitos?
Bill estava envergonhado de si próprio, pensando autom aticam ente no escritor do sexo masculino, m as não podia evitar; quando pensava na escrita, era a im agem de um hom em que vinha à sua m ente. Parte dele, Bill achava, ainda estava arraigada em 1973, quando um autor ainda era um cara que usava j eans ou, se estivesse m orto, um a sobrecasaca com um tinteiro e tinta preta para corresponder ao uísque escocês. Im agine George Eliot, rosnando em frente ao seu café da m anhã ainda intacto, tentando abrir o prim eiro m aço de Lucky Strike do dia, com um a das m ãos esfregando a barba por fazer, tentando não sentir o cheiro da exalação do fum o da noite anterior, com sua atm osfera ruim ...
As pessoas m ais inteligentes que Bill conhecia eram m ulheres. Pensou em Marie, do escritório. Apenas as m ulheres pareciam m anter o tráfego entre o cérebro e a boca fluindo suavem ente, enquanto os hom ens ficam com pletam ente engarrafados no trânsito, enfrentando desvios e ruas sem saída. Quando o assunto é com unicação, os hom ens são valas. E, nem é preciso dizer, os hom ens não leem ; não leem os próprios hom ens e com certeza não leem as m ulheres. Pouquíssim os hom ens ainda leem , com o m onges, m as não conversam com outros hom ens sobre os livros que leram e, se leem bons livros, escondem com o pornografia. Im agine se o sexo m asculino lê poem as: debaixo dos lençóis, com um a lanterna na m ão, enquanto suas esposas dorm em desconfortáveis ao lado deles.
Quando os hom ens pararam de ler? Quando os hom ens se voltaram contra a leitura ou a leitura se voltou contra os hom ens? Talvez tenham espalhado rum ores, Bill pensou, de que os livros faziam bem , com o frutas, ioga ou ir à igrej a. Nutrindo e sustentando. Em outras palavras, os livros eram um a m á ideia. Talvez o único m odo de os hom ens lerem hoj e sej a através de um a ação do governo. O governo poderia com eçar a proibir os livros, com eçando pelos bons. Proibi-los e queim á-los, negá-los e picá-los em pedaços. Os hom ens iriam querê-los de volta. Um livro seria com o crack, adultério ou traição; o livro seria ruim . E isso seria um a coisa boa.
E, apesar de tudo isso, lam bendo o indicador e virando a página, as m ulheres continuaram a ler. De todas as m ulheres inteligentes que Bill conheceu, a m aioria era de leitoras. E o que elas liam , na m aior parte das vezes, eram outras m ulheres. Quando não estão m uito ocupadas com suas próprias vidas, o que ocorre boa parte do tem po, elas leem sobre a vida de outras m ulheres, a m aioria das quais, de acordo com o que Bill pôde perceber, eram m ais ocupadas até do que as anteriores, m as se isso tinha o efeito de censurá-las ou consolá-las, ele não tinha ideia.
Seu apartam ento ficava em um arm azém convertido perto da Tower Bridge, apenas sete m inutos a pé do escritório, com um a vista parcial do rio. Fora um bom lugar tem porário; 11 anos m ais tarde, às vezes ele se parecia com um lar. Bill olhou ao redor da sua sala de estar. Era lim pa, ele achava, e acolhedora; não havia m anchas no tapete, queim aduras não identificadas ou restos de com ida. Era claram ente o lugar onde um profissional adulto buscaria relaxar no fim do dia. Mas, obviam ente, era tam bém um lugar onde as m ulheres não iam – ou não tinham ido nos últim os tem pos, ou não tinham ido o suficiente. Havia livros, m as nenhum virado para baixo, suas lom badas j á rachadas, com as abas das páginas am assadas e viradas. Havia outra coisa que ele j am ais entenderia sobre as m ulheres: com o suportam ler na banheira; um rom ance apoiado na saboneteira, com vapor subindo e transform ando o livro de ficção em revista barata.
Aqui, contudo, nessa sala, os livros estavam organizados com o sentinelas, com o um exército do conhecim ento. Som ente um estava faltando. Era possível ver seu lugar escuro na prateleira, um buraco escuro. O livro estava na m esa de centro com um m arcador, ao lado da pilha de revistas, e Bill não conseguia ler o título de onde estava sentado, em sua m esa, m as o conhecia tão bem com o seu próprio nom e, e sabia de onde o autor o tirara, sob a cobertura da escuridão. Os pensam entos e sentim entos das outras pessoas, tem pos atrás, transform avam -se em poem as, e partes desses poem as fluíam na m ente dos rom ancistas, e os rom ances ficavam nas m esas de centro de hom ens cansados dem ais e preocupados com outras coisas, com o lançar revistas, para pensar sobre os sentim entos que eles próprios podem ter tido um dia, há m uito tem po. “Quando a j uventude se torna pálida, m agra com o um espectro, e m orre...”
Bill foi até a cozinha. No ano passado, ele fez um a nova aquisição. Alem ã. Custou um pouco m enos do que seu pai ganhou em dez anos enquanto tentava m anter um a fam ília de cinco pessoas. Ele correu sua m ão sobre a m esa de granito e deu um sorriso am arelo para a torneira com m isturador, com o um a cobra píton feita de aço. A quem estava querendo enganar? Um a torneira que tinha pressão suficiente para apagar o Grande Incêndio de Londres só era usada para lavar o prato da torrada que Bill com ia de m anhã. Ele olhou para a prateleira de garrafas, algum as nunca abertas. Quem , no decorrer da história da hum anidade, pediu um brandy de abricó? Todas aquelas bebidas para visitas, am antes, festeiros: pessoas que gostava de relem brar, outras ávidas para esquecer. Não havia cigarros na casa. Ele fez um chá, pegou dois biscoitos, sentou-se à m esa e com eçou a m ergulhar o biscoito no chá. Não havia nada em sua cabeça. Quando term inou, j ogou as m igalhas na pia e fez um a pausa. Então saiu da cozinha, passou pela sala de estar com o um sonâm bulo, abriu um a porta e apertou o interruptor.
A m úsica circundou o am biente, cruzando o espaço de um lado até outro, de cim a até em baixo, com o em um a pauta m usical. LPs no final do côm odo, am ontoados em pilhas, com as lom badas arranhadas e ilegíveis, m esm o de perto. Por todo lado havia centenas, m ilhares de CDs. E fora do cam po de visão, em gavetas no nível do chão, fitas cassete em pilhadas de seis em seis, algum as presas com elástico. Fitas cassete, que piada: caixinhas de plástico com os cantos quebrados que rangiam com o ervilhas secas. Proj etadas para serem derrubadas e ficar perdidas nas laterais dos assentos dos carros; e proj etadas tam bém para conter tudo o que você m ais gostava em um a banda ou, m elhor ainda, tudo o que você conseguisse inventar, m isturando um a banda que você adorasse com um a dúzia de outras bandas, fazendo um a com pilação que era passada para os am igos. Em m eados de 1972, o que Bill sentia com relação à com pilação de fitas cassete era a m esm a coisa que outras pessoas sentiam sobre a National Gallery ; de certo m odo, ainda é assim . Ele abriu um a gaveta e tirou um a pilha de fitas cassete. Havia um cartão com o índex visível através da caixinha transparente, com um a m úsica em cada linha. As prim eiras palavras eram “Floy d, Pink”. Bill riu baixinho e depois olhou rapidam ente em volta, com o se um intruso tivesse interrom pido com o intuito de assistir um hom em de m eia-idade rindo do seu j ovem eu presunçoso.
Caram ba, será que ele tinha sido tão ruim assim ? Isso não queria dizer m uita coisa para a agitação do sr. Finn. Com o a m úsica poderia transportá-lo, transportar seu espírito para fora de si, em direção à estratosfera, se ele a arquivava com o “Floy d, Pink”? Bill ficou pensando o que ele deve ter feito com o quarteto Crosby, Stills, Nash e Young: quatro catálogos separados, provavelm ente, ou talvez quatro ao cubo. Sessenta e quatro arquivos. O que acontecia com sua coleção de discos quando um deles descascava e se transform ava em Young, Neil? É um a surpresa que todo aquele sistem a não tenha desm oronado.
Certa vez, há alguns anos, ele levou um a m ulher para casa. Eles haviam se conhecido em um a festa um pouco antes do Natal, e conversaram , não sobre m úsica, m as sobre m uitas outras coisas m enos controversas. Ele se lem brava, por algum m otivo, de que ela usava um casaco de veludo preto com o m esm o corte de um sm oking, um a cam isa branca e um colar de pérolas com duas voltas. Alguém que passava levando bebidas disse que ela estava linda, e ela respondeu: “Estou m e sentindo um hom em ”, vendo Bill sorrir. Ela se ofereceu para dar carona a Bill e, assim que seu carro encostou no m eio-fio, disse: “E então, você não vai m e convidar para entrar? É Natal, sabia?” Confuso e não percebendo conexão entre eles, fez o que ela pediu. Com seu j eito alegre e seguro, ela andou pelo apartam ento, inspecionando tudo antes de se com prom eter, enquanto ele brigava com a m áquina de café na cozinha: a conversa fiada de sem pre, m ais triste que divertida, de adultos que j á decidiram ir para a cam a e sabem disso, m as devem m esm o assim passar pelas etapas de um flerte apressado e cortês, m esm o que o café, com toda certeza, nem fosse ser bebido.
Ela fez com entários em sua breve excursão, parando para rir, conform e solicitado, dos acessórios espartanos de seu banheiro. Depois houve um silêncio com pleto. Ele a cham ou. ( Com o era o nom e dela? Bill estava assustado com sua m em ória ultim am ente, cheia de rem endos e buracos. Helen? Harriet? Ele conseguia ver as pérolas, m as o nom e perdera seu brilho e desaparecera.) Ele desligou a m áquina de café e foi à procura dela. Ela estava ao lado da porta da sala de m úsica, olhando fixam ente para a concentração de pilhas e para o aparelho de som , parecendo m ais um fogão preto onde um dia havia sido um a lareira.
– Seus discos – ela dissera – estão todos em ordem.
– Sim – Bill respondeu. Foi nesse m om ento que ele falou o que não devia. Bill pensava que ordem era algo para se orgulhar. – Por ordem cronológica, por tem as e tam bém por ordem alfabética. Se pegarm os Bob Dy lan, prim eiro vam os para o D... – Ele parou. Ela olhou para ele de um j eito estranho, inclinando a cabeça com o um a m ãe exam inando o filho estranho de outra pessoa, e disse:
– Acho m elhor eu ir andando. – E se foi. Ele escutou o carro dela se afastando, depois fez café e ficou escutando Bob Dy lan até de m adrugada. Na fila da desolação, “Desolation Row”, com o j á dizia o próprio Dy lan.
Bill não pensava na m ulher do colar de pérolas há m uito tem po. Tinha certeza de que ela não havia pensado nele um a vez sequer depois daquela noite, a não ser para elevá-lo à espécie côm ica, a piada sem anal durante o alm oço com outras m ulheres: “Prim eiro vam os para o D... não, m eu caro. Você não vai chegar nem no A essa noite, pode acreditar...”
Não havia a m enor chance de encontrá-la agora, para pedir desculpas e confessar que agora tam bém entendia a piada. Antes tarde do que nunca. Com o refazer seus passos de volta ao passado? Não relem brar ou reviver, m as encontrar verdadeiram ente o velho cam inho floresta adentro? Ele recolocou as fitas no lugar, desligou a luz e fechou a porta. Depois m archou de volta para o laptop. Sua tela reluzia para ele em m eio à luz fraca do am biente, com o um a j anela em um a cidade à noite.
Respondi ao anúncio que estava no j ornal. Não esperava conseguir o em prego; nem sabia se realm ente o queria. Lem bro-m e de ter saído da entrevista, onde a exata natureza do trabalho – e o nom e do garoto bonito que estava no centro daquilo tudo – tinha pela prim eira vez sido revelada. Eu poderia ter m e levantado e declarado à entrevistadora: “Madam e, cuspirei em sua oferta para esse árduo trabalho, pois ele j am ais será bem rem unerado. Desej o-lhe um bom dia.” Em vez disso, disse sim , tudo bem . A m úsica não significava nada, considerei, m as dinheiro seria bom .
Naquela noite, fui ver m inha nam orada. Vou cham á-la de Rachel. Sabendo que
tinha ido para um a entrevista, ela perguntou com o havia sido. Foi bem , eu disse.
Consegui o em prego no ato. Dali em diante, ela poderia m e apresentar com o j ornalista de m úsica. Resultado: aquelas palavras a derreteram . O em prego dela era m ais estável e m ais bem -pago, m as esse – e lem bre-se, estam os falando de 1974 – tinha a vantagem do glam our.
– Sobre quem você vai escrever?
– Ah, você sabe, Robert Plant, Jim m y Page, Clapton. Talvez Jim i Hendrix... Tente im aginar a cena: eu não estava apenas m entindo sobre m eu forte desej o de
conhecer astros do rock decentes e cabeludos; estava m entindo com total ciência de que j am ais os conheceria, pois estaria ocupado dem ais escrevendo sobre um duende que nem barba tinha ainda, e que esperava ardentem ente nunca ter de conhecer. O garoto secreto, aquele de quem ela j am ais deveria saber.
Duas sem anas depois, estava sentado à m inha m esa olhando para um a pilha de
correspondência.
– Zoe – cham ei m inha chefe –, essas cartas são de m eninas para David. – O que elas querem ? – ela perguntou.
– Ah, nada de m ais. Prom essas de am or eterno por elas e som ente elas. Pedidos
de casam ento. Seu lenço. Seus cavalos no Havaí. Sua cor favorita. Esse tipo de coisa.
– Sim – Zoe respondeu –, o de sem pre.
Perguntei o que fazer com as cartas.
– O que fazer? – ela respondeu. – Responda-as, é claro. Não de m aneira pessoal.
Faça um rascunho com algum as respostas gerais e m e entregue. Vou pedir para fazerem o lay out da página em um m inuto. Vam os cham ar sim plesm ente “Um a carta de David”.
Olhei para ela com o um a criança sendo em purrada para a peça de final de ano
pela prim eira vez. Depois disse baixinho:
– Mas eu não sou ele.
E Zoe sorriu de volta.
– Agora você é, querido.
E assim foi.
E quer saber? Foi fácil. Peguei a prim eira carta. Era um a sobre a cor favorita de
David. Obviam ente teria de escavar um pouco para encontrar a resposta; tinha de haver um a, no fim das contas. Todo m undo tinha um a cor favorita. Fui até um colega e perguntei:
– Qual é a cor favorita de David? Onde posso procurar? Ele sorriu para m im e disse algo com o:
– Não procure, im becil. INVENTE.
Mesm o assim , estava desconfortável. Aquilo era j ornalism o, afinal, e não ficção.
Não era? Para chegar a um acordo, dei a David m inha própria cor favorita, esquecendo que poderia não ser a escolha m ais convincente porque eu era daltônico. Voltei-m e para m inha m áquina de escrever e com ecei: “Oi, m eninas! As pessoas sem pre m e perguntam qual é m inha cor favorita. Então tenho que lhes contar que é o m arrom .”
Bill se sentou e pensou em Ruth. O que aconteceria se ela pegasse um a revista, dali a três m eses, e visse um artigo seu? Bill não sabia se pensava nisso porque tem ia as consequências ou se era porque as desej ava – queria que ela pensasse nele tam bém , procurasse por ele, encontrasse o núm ero, ligasse... “Bill, oi. É a... hum m m ... Ruth. A Ruth dos velhos tem pos. Do tem po de David Cassidy . Li seu artigo e tinha que te ligar...”
Havia m ais. Eu não apenas criava as escrituras sagradas de David Cassidy . Eu m ontava a Bíblia. Aprendi a m ontar um a página e fazer o lay out do texto. Aprendi a recortar e colar, m as não sublinhando frases e dando um clique no m ouse. Naqueles tem pos, cortar significava tesoura, e colar significava um pote com algo tão branco, fedorento e grudento que nos convencíam os de que aquilo devia ter vindo da baleia cachalote. Para m im , a cola fedia a ossos cozidos, m as aquilo não era noj ento o suficiente para m eus am igos.
– Provavelm ente é esperm a – falou um deles. – O esperm a da baleia cachalote. A partir daquele dia, etiquetam os nosso pote de cola com o nom e Moby Dick. – Passe a Moby pra cá – dizíam os um para o outro, respirando pela boca. Quando
m ilhões de hum anos se lem bram de David Cassidy, eles se lem bram de um a voz, e depois de... sei lá, o cheiro de queim ado dos secadores, talvez, da época em que elas se arrum avam para o pop star inatingível enquanto liam nossa revista. E eu? Bem , devo ser a única pessoa que, sem pre que a palavra “Cassidy ” surge em um a conversa, pensa em “Moby Dick”. E vice-versa.
Bill sentiu um a chave virando em sua cabeça. Algo parecido com isso; algo se libertando. Ele não encontrara o cheiro de cola no fundo dos seus sentidos, debaixo de todo aquele outro lixo, por 25 anos, m as ali estava, libertado por algum as palavras fúteis. Bill não escreveu nos últim os tem pos, a m enos que fossem levados em conta recados em Post-its presos na lateral do com putador ou na porta da geladeira. E e-m ails, é claro: os rosários do século XX – um interm inável clicar de dedos, únicos para cada alm a, enviando reclam ações, arrependim entos e súplicas para o desconhecido, esperando que encontrassem seu alvo. Mas aquilo não era escrever. Ele não havia escrito nada longo em anos, nem m esm o um a carta de pêsam es; carta de qualquer tipo, com caneta, seria tão im pensável ainda, tão fisicam ente im possível quanto escrever o tipo de poem a que ele tentava escrever na faculdade para garotas cuj os nom es nunca pareciam rim ar com nada. Que palavra faz um a boa sonorização com Bethany ou Jenny ? Ou Pippa, a não ser tripa? Ou Am anda, tirando am êndoa. Ou Ruth, tutti frutti?
Ruth. Bill não tinha ideia de onde ela estava m orando atualm ente. Tentou não fazer um a sugestão ainda m ais apavorante para si m esm o, do tipo que vinha à noite: e se ela não estivesse m ais viva? Eles perderam contato logo depois de term inarem e, sem m uitos am igos em com um , seria difícil retom ar.
Um am or verdadeiro. Essa era a porção alocada para todos? Havia um velho m ito, um a lenda grega m aluca, que diz que cada pessoa tem um a m etade, com o a m etade de um pote quebrado, e é preciso observar e esperar, vagando por aí, esperando que sua outra m etade apareça, encaixando-se no seu lugar. Um par perfeito form ando algo inteiro. Se for assim , Bill ainda estava esperando; se prestava atenção, aí j á era outra questão. Ele havia parado de procurar. Ruth tinha chegado perto, m as os dois sabiam que as extrem idades não haviam realm ente se encaixado direito. Alguns cacos estavam faltando, algum a coisa não estava certa.
Bill lera m uitas das suas próprias revistas fem ininas para saber que as coisas nunca são absolutam ente perfeitas, não existe par perfeito, e nossa aposta é passar a vida com alguém , aparando arestas, fazendo consertos, acostum ando-se às rachaduras. Então, com sorte, quando as extrem idades se aproxim am , é possível perceber, de repente, que o pote foi finalizado e que as duas partes se tornaram um a.
E aquelas garotas, as que liam seus pensam entos sobre David Cassidy toda sem ana? Elas tinham certeza do seu am or verdadeiro. O fato de que m ilhões delas tinham o m esm o am or verdadeiro não parecia incom odá-las. Obviam ente, David era o par perfeito para todos os tam anhos. Aquela m ulher que veio ao escritório no outro dia: “A galesa velha e estranha”, um a das recepcionistas a cham ara. Só que quando ela chegou não parecia nem um pouco estranha. Nem velha. Um a das pessoas m enos m alucas que Bill j á conhecera, em bora a parte galesa fosse verdade. Petra. E o m odo com o falava do seu passado, os tem pos de David Cassidy, com o se tivesse ciência do quanto deve ter parecido m aluca naquela época e, contudo, não estava preparada para renegar tudo agora – recusando-se a fazer a opção adulta m ais fácil e desprezar os anos que passaram . É m elhor se agarrar a um a bobagem da j uventude, com certeza, defendendo sua im portância pelo lugar que ocupou em seu coração, em vez de fingir que nunca aconteceu... O am or fora verdadeiro para Petra, intensam ente verdadeiro, m esm o que a verdade tenha sido inventada. Bill tentava im aginar o que aconteceria quando e se ela descobrisse que ele, um desaj eitado aluno de literatura, inventou a m aior parte daquilo tudo. Ele esperava que ela não arrancasse seus olhos. Ela não parecia ser desse tipo. Ela não parecia ser de tipo nenhum . Parecia ser ela m esm a.
Então, onde foi que tudo deu errado? David e eu? Ele m e deu um gelo, ou encontrou outra pessoa? Ou fui eu quem forçou a situação dizendo que precisava de m ais espaço?
Eu realm ente precisava de espaço; quando m e vi com prim ido dentro de White
City, em m aio de 1974, no últim o show de David, com garotas adolescentes em volta de m im , desm aiando, não pela em oção, m as porque a m ultidão estava quebrando seus ossos e, em um caso particular, esprem endo a vida de seus corpos. Queria sair dali. Lem bro de andar noite afora, afastando-m e do estádio, sorvendo golfadas de ar.
Pouco tem po depois, David Cassidy parou. Pouco tem po depois, a revista Tudo
sobre David Cassidy tam bém fechou suas portas; a escolha certa, acho, tendo em vista que é difícil m anter um tem plo quando o deus anunciou sua aposentadoria.
Para onde foi a congregação?, eu ficava pensando. Cuidar das suas vidas adultas:
fazendo provas, trabalhando, arrum ando m aridos; em prim eiro lugar, arquivando os pôsteres de David e os recortes de j ornais e revistas, com as cópias da m inha revista e, depois, em algum ponto da vida, perdendo-os nos porões e nas m udanças de casa. Com o devem ter ficado horrorizadas, aos 13 anos de idade, em pensar que chegaria o dia em que não saberiam , ou não se im portariam , onde suas posses m ais valiosas estavam – aquele disco, aquela cópia arranhada de Cherish...
Na verdade, eu nunca tive esse álbum . Nunca com prei um disco de David
Cassidy ; para falar a verdade nua e crua, não posso j urar que j á m e sentei e ouvi um a
m úsica do David Cassidy – nunca até o fim , da introdução até o últim o acorde. Ah, eu sabia as m úsicas bem , m as era porque tinha cópias das letras grudadas com fita adesiva na parede acim a da m inha m esa. Sem pre que a inspiração falhava, erguia os olhos para as letras na m inha frente, roubava um a frase e a lançava no texto que estava escrevendo. “Am or é a palavra que uso para descrever os sentim entos que venho escondendo de você.”
Quão difícil é trabalhar com isso em um a carta? Bom , pra com eço de conversa,
isso j á é parecido com um a carta. O cara estava fazendo o m eu trabalho por m im .
Bill parou e foi até o arm ário que ficava ao lado do banheiro, abrindo-o, e encontrou um a pilha de m alas. Ele as puxou com força, um a por um a, surpreso com a própria afobação. No fundo, debaixo de um saco de dorm ir enrolado, havia um a caixa de papelão. Ele a carregou até a sala de estar e com eçou a escavar. Estava cheia de recortes de revistas, am arelados com o um a pele envelhecida. Ele rem exia nos papéis com rapidez, deixando alguns caídos pelo tapete. Por fim , parou com um a pequena revista nas m ãos. Ele a levou para a m esa, alisou-a e com eçou a teclar novam ente.
É tão fantástico sentir a água fria sobre meu corpo quente e urbanizado! E então fico ali deitado ao lado da piscina, me secando e olhando o vale. É uma vista magnífica...
Não eu me secando! O vale!
Som ente agora, com essa distância, Bill conseguia com preender a com pleta estranheza do seu prim eiro em prego. Petra o fez pensar nisso. Quem ele preferia ter sido, ele m esm o ou David Cassidy ? Aos 24 anos, a carreira de Bill estava decolando. A carreira de Cassidy tinha voado m il vezes m ais alto, estava term inada, ou em queda livre. Para ele, não era a curva norm al de um a vida: um com eço trôpego, seguindo na direção de um pico distante, que por fim foi atingido na m eia-idade, m uito em bora o obj etivo, um a vez atingido, pareça não ter valido a escalada.
Com o seria ter seu m elhor m om ento antes de chegar aos 30? Keats. Todos aqueles livros de poesia rabiscados com anotações durante a noite e guardados com vergonha na prateleira, quando Bill punha de lado coisas infantis para adentrar o m undo do trabalho, pareciam estar certos o tem po todo. E o astro pop, brilhando m uito e rapidam ente se apagando, acabou sendo pouco m ais do que a reescrita do poeta rom ântico. Se Cassidy tivesse m orrido em White City – se fosse ele, e não sua fã, que tivesse ficado sufocado no m eio da m ultidão –, teria sido m elhor? Será que ele não teria se tornado im ortal, aprisionado na arm adilha de seu m om ento de perfeição?
O destino do ídolo adolescente é o m esm o das garotas bonitas de todas as épocas. O ídolo precisa ser visto com o um a pessoa casta, porém m uito desej ável. Desej ável, m as intocado.
Vej a só, Cassidy ainda está vivo, m ais velho e m ais esperto, com algum as coisas a dizer sobre sua condição, sorte dele. Ele se casou, até aí Bill sabia. Duas vezes, talvez três. A prim eira deve ter sido quando ele ainda estava em sua câm ara de descom pressão, recuperando-se da fase em que era um a celebridade global. Kay algum a coisa. Um a loira baixinha com bochechas cor de pêssego. “Um a fofa”, com o a tia Rita de Bill costum ava dizer, quando lhe perguntavam com o ela era. Rita usava vestidos de verão durante quase o ano todo. Era casada com o tio Douglas, que costum ava se inclinar com o se tivesse um a articulação na cintura, presenteando Bill com um a nota de cinco pratas em seu aniversário. Um ano a nota sacudiu um pouquinho enquanto ele a colocava na m ão agradecida do garoto. Um ano depois, o farfalhar se transform ou em trem or, o papel trem ia e chacoalhava contra a palm a da m ão de Bill, e depois Douglas não estava m ais ali; sua com pleição alta ficou confinada a um a cadeira, por fim a um a cam a, com os espasm os – assim Bill ouviu de um prim o, aos cochichos – ficando incontroláveis. Rita, a essa altura, era o espectro de um a m ulher, com olheiras, exaurida pelo am or que doou ao seu hom em , outrora im ponente, agora trem endo e atordoado. Mesm o assim , no Natal, ela estava usando am arelo ou azul m editerrâneo, sorrindo enquanto distribuía os pratos. “Um fofo, obrigada, Bill”, dizia.
Quem Bill am ou? De quem ele quis cuidar, depois que Ruth desapareceu? Ele fez am or, Deus sabe, algum as vezes não durante sem anas, m eses, para depois entrar em um turbilhão de confusões de pouca duração. Vestindo-se silenciosam ente na m adrugada, em um hotel em Edim burgo, enquanto um a m ulher dorm ia, para pegar o trem para Londres e no horário do alm oço encontrar com outra, que esperava na sala de estar, quando ele chegava, usando sapatos altos e m ais nada, recebendo-o ali e puxando-o para ela, contra seu casaco m olhado de chuva. Depois, j antar com um a velha am iga, infeliz agora, precisando de consolo. Bill foi dorm ir sozinho naquela noite, sentindo-se com o um poço de petróleo exaurido, e dorm iu durante 13 horas.
Ou aquela italiana incrível, bonita dem ais para ele, sem nom e; talvez ela não o tenha visto direito, talvez aquela brum a em seus olhos cor de violeta fosse um borrão de m iopia. Se esbarraram na frente de um a pintura em ... onde era? Milão talvez, quando ele teve 90 m inutos para um a passadinha rápida em um m useu, no intervalo entre um a reunião e outra. Falando em voz baixa sobre a pintura, com o se costum a fazer na igrej a, ela com seu inglês hesitante, Bill com seu italiano relutante; depois um a pausa, um olhar passado de um lado para outro, depois no andar de baixo, sem pressa, corredores de m árm ore silenciosos, saltos estrepitando. Por fim , um a sala destrancada foi descoberta, aberta e trancada pelo lado de dentro, Bill derrubando um esfregão ou vassoura, a bela tentando não rir m uito alto, depois virando o rosto para a parede e levantando, de um m odo quase recatado, a barra do seu vestido. Quando foi isso, sete, oito anos atrás? Não parecia real agora, depois de tanto tem po.
Essa é a questão sobre fazer am or; com o tem po, fica a sensação de um a história term inada, ou o lam pej o de um film e, com o algo que aconteceu a outra pessoa. (Com o am or em si, o am or verdadeiro, acontece o oposto: conform e ele cresce, você não se im agina m ais sem ele. O am or faz você.) O sexo abria um a fissura no m undo, deixando-o redundante por um m inuto, ou um m ês. Certa vez, em Londres, em 1981, ficou ocupado durante três dias, perdeu com pletam ente o casam ento de Charles e Diana. Saía da cam a apenas para fazer xixi no vaso sanitário, fam into com o um leão, sem tem po para com er: quem havia sido aquela devoradora? Mary, era isso, a virtuosa Mary, com o corte de cabelo de um m enino, com o Peter Pan, ficou com ele durante seis sem anas ao todo, e nunca conheceu nenhum de seus am igos.
E Melody tam bém . Que Deus a aj ude, Melody. Bill ainda sorria quando pensava em seu colega, Pete Espinhento, que foi inform ado, enquanto tom ava sua cervej a, de que Bill conhecera um a garota cham ada Melody .
– Você só pode estar m e zoando – Pete duvidou. – Bill, isso não é um a garota. Isso é o nom e de um a gravadora. Um xam pu. Isso é a m etade da m erda do nom e daquele j ornal sobre música, o Melody Maker.
Naquela época, todo m undo, m as todo m undo m esm o, lia o Melody Maker e seu concorrente, o New Musical Express, e é óbvio, a partir daquele dia no pub até o final do nam oro, Pete e seus am igos cham avam Melody de “NME”. Na cara dela.
– Tudo bem , NME? – Eles faziam coro enquanto ela cam inhava lentam ente, com sua saia longa encostando no chão, tom ando sua cervej a. Certa vez, ela foi para um j ogo de futebol carregando um a flauta. Melody acreditava que em um a vida anterior ela tinha sido um gato egípcio, e seu j eito de fazer am or era com toda certeza felino, todo sensual, um a com odidade egoísta m isturada com um a voracidade louca. “Dorm indo com iNMEgo” era a observação de Pete. Bill, desesperado para encontrar um em prego para ela, forçara-a a preencher um questionário sobre carreira. Três horas depois, descobriu que debaixo da pergunta “Onde você se vê em dez anos?” ela escrevera som ente a palavra “Cachoeira”.
Melody evaporara com o um a nuvem , e o alívio tinha sido tão grande que só duas sem anas m ais tarde Bill percebeu, checando sua conta bancária, que ela havia levado o que havia.
Naqueles tem pos, Bill estava ocupado trabalhando na Puzzle Time, revista que vendia de form a consistente e trazia m ais dinheiro para a editora Nightingale do que quase todos os outros títulos, com exceção de três. Ele ficou nessa revista por seis m eses, antes de fazer um a m udança lateral para outro j ornal e, um ano depois, para outro, m as sem pre dentro da m esm a em presa. Estava se tornando cria da em presa. Ainda assim , nas noites úm idas de sexta-feira, sem tem po nem para tom ar um banho, ele puxava sua guitarra de trás do sofá, ou debaixo do aspirador de pó, e corria para Kentish Town ou para os interm ináveis salões de festa de igrej a em Tooting Broadway para tocar em bandas que pareciam m udar de nom e, identidade ou obj etivo com m ais frequência do que ele m udava de em prego.
A que m ais durou, de 1975 a 1978, e a m ais inj ustificável, foi a Green’s Leaf, a prim eira e única investida de Bill no rock progressivo. Ele ficara sem banda e desconfortável durante um ano, sem Ruth e com seu outro am or, o Spirit Level, lançado aos ventos. O Spirit Level havia durado tanto, vencido tantas dificuldades e colocado tanto esforço em nunca m elhorar, apesar de sua m udança incessante de integrantes, que Bill achava que a banda nunca m orreria. Para ele, era com o j ogar no gol de um tim e de futebol incorrigível, m as respeitável, que nunca sairia da quarta divisão. E então veio a notícia: não apenas um , m as dois integrantes da banda resolveram em segredo e independentem ente prestar exam es de contabilidade, e de fato se encontraram , cara a cara, na porta do salão m unicipal de esportes onde os exam es estavam sendo feitos. Os dois usavam terno. O horror dessa coincidência fez, naturalm ente, com que a banda acabasse.
Então Bill foi levando, tocando os discos de Hendrix, até que um dia foi apresentado a um trio de garotos de escola pública. É claro que eram de escola pública: esse era o trato no rock progressivo. Era m ais fácil fantasiar sobre um a Inglaterra m ítica se você pudesse olhar pela j anela do seu quarto no dorm itório de estudantes e visse a pequena cidade de Glastonbury. Ou de Wenlock Edge. A escola de Bill no ensino m édio ficava bem em frente a um a loj a de com ida de anim ais cham ada Rruff Trade.
Os garotos da escola pública eram da m esm a idade dele, porém ainda garotos. Ainda olhando, por trás das j ubas acanhadas, com o se estivessem esperando que alguém lhes m andasse cortar o cabelo. Quando tinham só 15 anos e as vozes com eçando a engrossar, dois deles, Roger e Miles, form aram um dueto de m úsica folk cham ado Pendragon. Depois, um terceiro, Piers, entrara no 9º ano com bateria própria, e eles cresceram – ou “am adureceram ”, com o Miles gostava de dizer – para Stone Circle. Agora, com Bill no baixo, eram o Green’s Leaf, e nenhum a de suas m úsicas durava m enos de nove m inutos. Às vezes, Miles saía no m eio de um dos solos de guitarra uivantes e interm ináveis de Roger, e m udava de roupa, reaparecendo para o final vestido de árvore. Na m úsica “Golden Bole”, ele cantarolava com um a lâm pada dentro da boca, acesa. Bill ficava na lateral do palco, provocativam ente usando j eans e cam iseta, beliscando as cordas do baixo, com a m ente a quilôm etros de distância. “David Cassidy era m elhor que isso”, dizia a si m esm o em voz alta para o espelho do banheiro atrás do palco, e baixava a cabeça, envergonhado, porque era verdade.
Em prim eiro lugar, Cassidy fazia m úsicas curtas. Nem sem pre rom ânticas, m as curtas. Digam os que o que gostávam os em “Cherish” estava dentro de dois m inutos e m eio. Não é para m enos que um a m úsica pop tinha um núm ero. Green’s Leaf não tinha núm eros, tinha equações; e a som a dessas equações era, com o Pete Espinhento dizia, “zero tesão”.
A essa altura, a sala j á estava com pletam ente às escuras. Bill procurou seu com putador em m eio às som bras.
A vida pode ser cruel para o ídolo adolescente que tenta crescer. Seu trabalho é lem brar aos fãs a inocência perdida, e não os anos que avançam .
Donny Osm ond recorda que, um a vez que os pôsteres foram destruídos e “Puppy
Love” perdera a força, ele foi ridicularizado por estar ultrapassado. Desesperado para se ver livre da im agem do bonzinho, Donny contratou um publicitário que sugeriu sim ular um a apreensão de drogas pela polícia para criar credibilidade nas ruas. O problem a é que Donny não usava drogas, cafeína e nem m esm o fazia sexo antes do casam ento.
– Será que preciso fazer coisas erradas para que m e achem interessante? –
perguntou. – Na m inha m ente, j á estive nos lugares m ais som brios que você possa im aginar, m as fisicam ente não quero ir lá.
Os ídolos teen ainda fazem show aos 30, 40 e até aos 50 anos, enquanto as entradas
no cabelo aum entam e a cintura alarga e os locais dos shows dim inuem em grandeza, do estádio para um a casa de shows, para um ginásio de escola e, por fim , para um pub.
Seria um erro achar que David Cassidy era algo novo. Ele era com o um batim ento
cardíaco ou um a força vital, o m aior do m undo, m as, quando parou de pulsar, outros o substituíram , assim com o ele havia seguido pulsações anteriores. Quando m ilhões de garotas gritavam por Cassidy – e pode crer, aquilo era gritaria de verdade –, elas pensavam que j am ais houve ou haveria alguém assim , pois o desej o delas por ele era singular e im possível de se repetir, o grito e o choro de cada garota era tão particular para ela quanto seu próprio espirro ou – ainda por vir – seu grito de orgasm o.
Enquanto isso, é claro, o pobre coitado estava em poleirado com certa insegurança,
vestindo seu m acacão cintilante, nos om bros de gigantes. Antes dele houve – para pegar som ente exem plos não em baraçosos, e deixando de lado os Monkey s e Johnnie Ray – os Beatles, Elvis e Sinatra.
As garotas de m eia-soquete que esperavam na fila pelo j ovem Sinatra sentiam que
o planeta se inclinava a seu favor na presença dele. Certa vez, durante a guerra, outubro em Nova York, deixaram as fãs entrar e pegar seus lugares para um a sessão de um dia inteiro com Sinatra na tela e ao vivo, contanto que elas continuassem a ocupar seus lugares. Essa não foi um a regra inteligente; a m aioria das garotas teria ficado feliz da vida em seus lugares, reclinando-se, dando à luz, criando m ini-Frank Sinatras e m orrendo ali m esm o. Portanto, das 3.600 que com eçaram o dia ali, som ente 250 saíram . Não se abandona Frank Sinatra assim . Aos olhos delas, e com base nas provas de seus ouvidos, ele foi posto na Terra para lançar seus galanteios a elas, e elas nasceram com a m issão de pegá-lo, abraçá-lo apertado e gritar para ele que sim , sim , elas eram todas dele.
E David Cassidy ? A m esm a coisa – com apenas um a fração da voz de Sinatra,
m as com o m esm o apelo. Os gritos continuaram os m esm os. E se David tivesse parado e se virado, durante o coro, e apontado um dedo para um a m oça e dissesse: “Tudo bem , então. Se você é m inha, posso ficar com você?” O que ela teria feito, além de desm aiar? Na verdade, sabem os a resposta.
Fui um dos únicos hom ens, acredito, que com prou a autobiografia de Cassidy,
C’mon Get Happy, quando o livro foi lançado em 1994. Isso faz de m im , acho, um dos poucos leitores que não estava afobado. Parece seguro presum ir que a m aioria das pessoas que correu para com prar o livro eram fãs do artista, anteriorm ente conhecido com o David. Elas não queriam saber especificam ente sobre seu casam ento, ou se ele ia voltar (o que elas avidam ente acolheriam , em qualquer cidade, a qualquer hora); não estavam interessadas no agora. Queriam os velhos tem pos. Queriam relatórios da linha de frente de 1973, quando a batalha por David estava bom bando. Queriam se certificar de que seu am or tinha valido, apesar de platônico, cada lágrim a derram ada, cada noite sem dorm ir debaixo do pôster gigante, e cada grito.
E o que leram ? Coisas do tipo: com o David ficou fascinado com m ulheres que
realm ente apreciavam a arte do sexo oral. Que ele raram ente teve qualquer ligação em ocional com as garotas com quem transou, chegando a com pará-las com m asturbação.
Esqueça o am or platônico. O cara estava m andando bala em todo lugar. Atrás do
palco, na suíte do hotel, do j eito que desse. E o que eu desej ava saber era o seguinte: com o era para aquelas m ulheres que cruzavam o lim iar? Ficaram decepcionadas, devastadas pela breve realidade, ou perceberam que aquilo era, logicam ente, onde todas as ilusões que ele cantava estavam predestinadas a term inar?
É im portante saber, a essa altura, qual a faixa etária dessas m ulheres. Cassidy
confessa que a m aior parte, se não todas, foi de pessoas aj oelhadas aos seus pés, com o adoradoras; m as tam bém adm ite que houve fãs m ais velhas – m ulheres do m undo, e não só j ovens garotas sem experiência de vida. Ele se lem bra de ter rej eitado um a linda m enina de 14 anos que queria que sua prim eira vez fosse com David Cassidy. Para um a divindade, ele era incrivelm ente gentil e atencioso. Então, talvez o m istério estivesse condenado a não ser resolvido; j am ais poderem os saber o que as fãs adolescentes, as leitoras das m inhas revistas, teriam feito se apresentadas em carne e osso ao verdadeiro rom ance, coisa a que elas nunca tiveram acesso. Eram livres, em
outras palavras, para gritar seu desej o, pois ele nunca seria satisfeito. Seus gritos eram sonhos.
A partir desse ponto, estou na escuridão. Nenhum hom em j am ais conheceu os
pensam entos de um a m ulher...
Bill parou. Um a vez que você se percebe adm itindo a derrota em um a transa, é hora de parar. Caso contrário, pensou, com sua m ente cansada e se contorcendo, acontece um a Clare em sua vida. Clare, luz da m inha vida, m eu fogo; “sua perda de tem po”, com o Pete preferiu definir depois que tudo j á tinha acabado.
Rápida e revigorante, com o um a cam inhada em um dia de geada. Clare, com seu portfólio de clientes internacionais e sua regra de três orgasm os, um antes, obrigado, um durante, e outro para term inar, j untos, se possível. Com os cabelos presos para cim a em um coque, sem necessidade do espelho enquanto se arrum ava com esm ero de m anhã, pegando o m etrô para o banco onde trabalhava antes m esm o de Bill acordar. Um caso, sim ; a extensão de um prazer eficiente, nas m ãos capazes de Clare; m as casado, por dez anos... Com o isso foi acontecer? Com o Bill perm itiu que isso acontecesse? Ainda hoj e ele m al conseguia evocar aquele período, recriar seus contornos em sua cabeça; não chegou a ser um evento, foi m ais um a ausência, um deserto onde duas pessoas com patíveis o suficiente estiveram j untas, de form a algum a infelizes, m as pareciam não ter deixado pegadas.
Qual era m esm o o nom e daquela história de Fitzgerald? O últim o conto do livro, onde um cara encontra outro, um antigo conhecido, e tenta entender onde ele esteve por tanto tem po, fora do circuito. Fora do país, doente ou sim plesm ente afastado? Acaba descobrindo que ele esteve bêbado. Com o era m esm o a frase? “Jesus. Bêbado por dez anos.” Bom , era assim que Bill se sentia às vezes; não sentia raiva, quanto a isso estava tranquilo, m as triste e perplexo, entretanto. Jesus. Casado por dez anos. “A Década Perdida”, era assim que o conto se cham ava.
Clare fora bem firm e com relação a não querer filhos. E ele concordara, não querendo forçar a situação, enquanto notava, de relance, o quanto gostava de ser o Tio Bill para suas seis sobrinhas. De fora, Clare e Bill tinham o brilho do sucesso. Eles subiram profissionalm ente; ela, a um alto cargo no tem plo do investim ento, um a sacerdotisa cuj os ritos ele nunca pretendeu conhecer. Ele, “O Hom em das Revistas”, com o Clare costum ava dizer com um terço de sorriso, folheando seu cam inho de páginas sem pre reluzentes de um título após o outro, até se tornar sênior o suficiente – “suficientem ente debilitado”, nas palavras de Pete, quando eles se encontraram perto do trabalho – para deixar de lado a cam isa e a gravata e, no lugar, vestir um a m alha preta abotoada até o pescoço por baixo do terno.
Ele vira a galesa, Petra, olhando para ele outro dia, analisando-o, reparando em suas roupas, sapatos (sem barulho, no tapete do escritório), e até a laca de sua caneta-tinteiro. Até esse dia ele nunca havia sentido a força da expressão “m edir de cim a a baixo”. Com o um entom ologista com um besouro ainda vivo. Ela teria dado um a batidinha na sua carapaça para descobrir se havia algum a coisa dentro. Havia algo no olhar dela que Bill não conseguia localizar. Ela era o oposto total de um a tiete, isso era certo. Sej a o que for que as m ulheres m ais velhas tenham feito para David Cassidy, desej ando-o sem saber o porquê, era o oposto do que Petra procurava, com seu crachá de visitante e sua carta de 25 anos.
Ela não estava de j oelhos; a galesa tinha um a postura ereta e olhava para o “Hom em das Revistas”. Ela não gostava totalm ente do que via, isso ele sabia. Mas nem Bill sem pre gostava do que via quando se olhava de relance em um espelho, no escuro. Ele colocara de lado coisas infantis, tem endo – e tam bém m eio que esperando – que essas coisas reaparecessem . Flashes e erupções do j ovem William , no rosto flácido do sr. Finn. Será que Petra tinha esses pensam entos? Será que duas pessoas podem pensar a m esm a coisa sem saber?
Era estranho ele im aginar coisas sobre ela. Ele a conheceu faz, sei lá, um a hora ou duas, no m áxim o. Ainda assim , ela o tocara, com o se faz com um gongo ou um acorde – e o som não se extinguia. Ele conseguia vê-la com detalhes agora, evocando-a com m ais exatidão nesses poucos m inutos do que conseguia com Clare, sua outra m etade, com quem passou um a década. Clare estava esvaecendo, e essa estranha – essa outra outra – estava ficando cada vez m ais clara a cada hora. Petra. Perdida e encontrada. Suave é a Noite. Ruth, Melody e Clare. A Mulher de Pérolas. Spirit Level e Green’s Leaf. David Cassidy e Puzzle Tim e. Petra. Quero m eu prêm io.