Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 8 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

O Pileque de Nat King Cole

Passado mais de meio século desde aquelas noites que lotavam o Jardim de Inverno Fasano, Fabrizio

tem um brilho no olhar e uma expressão algo zombeteira quando lembra algumas das celebridades que

recebeu e ciceroneou. Infelizmente, os arquivos se perderam depois que o Fasano foi vendido à Liquigás, do grupo italiano Agip, no final dos anos 1960. Mudanças de casas e de escritórios fizeram com que tudo

– recortes fotografias, programas, cardápios, o Livro de Ouro de presenças – desaparecesse.

Ele contou, certa vez, a um jornalista especializado em gastronomia, que o primeiro conselho que o pai

lhe deu ao assumir o emprego foi marcante:

– Meu filho, você é novo, quer fazer bem as coisas, receber bem. Mas ouça o conselho de quem

conhece. Não vá muito às mesas dos casais. Receba e deixe correr. Os maridos são ciumentos. Mais

ainda se estão com as amantes.

Há uma versão em que Ruggero teria dito “mulheres de programa” ou “putas”. Fabrizio questionou:

– Como vou saber se são amantes?

– Fácil. Toda amante, toda mulher de programa, pede coquetel de camarão como entrada. Depois,

estrogonofe com vinho Mateus Rosé. Finalmente, a sobremesa é o crepe suzette. E encerra com licor de

menta.

“Inesquecível o telefonema que recebi, em uma noite de 1960, do Departamento de Ordem Política e Social, DOPS. Uma voz se identificou como delegado e perguntou se a casa estava lotada. Naquela noite

tínhamos apenas cinco mesas ocupadas.

– Por favor, o senhor pode fechar a casa, não aceitar mais reservas? Guardar discrição?

– Por quê?

– Um estadista estrangeiro está em São Paulo e vamos levá-lo ao Fasano.

Concordei, sabia também que àquela hora não devia chegar mais ninguém, seria fácil despistar

retardatários, e aguardei. Uma hora depois, o estadista chegou, rodeado por uma grupo de homens

armados, todos barbudos. No meio deles, altíssimo, estava El Comandante, inconfundível, carismático

para o Brasil e o mundo.”

 

El Comandante, todos sabiam, era Fidel Castro, no auge da fama após a revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista, instalando o socialismo em Cuba em janeiro de 1959. “Ele esteve no Brasil no

ano anterior, quando foi recebido pelo presidente Juscelino Kubitschek. Alto, imponente, carismático,

profundamente simpático, Fidel veio, jantou, cumprimentou um a um, foi à cozinha, elogiou a comida e

distribuiu charutos e gorjetas em dólares para todos os funcionários e garçons.” O autógrafo que El

Comandante deu a Fabrizio está guardado até hoje – relíquia.

 

A canseira que Nat King Cole deu

 

Fabrizio se diverte ao contar os apuros que passou com Nat King Cole. Quando chegou ao Brasil, em

abril de 1959, Cole, pianista e cantor de jazz, era um dos maiores sucessos mundiais, com discos que se

vendiam aos milhões. Canções como “Nature Boy”, “Mona Lisa”, “Unforgetable”, “Too Young”, “Love

Letters”, “Pretend”, “Laura”, “Autumn Leaves”, “When I Fall in Love Love is a Many Splendored Thing”

faziam parte do cotidiano brasileiro, dominado pela música americana. Não menos sucesso foram suas

coleções de músicas em espanhol, emplacando hits como Cachito, El Bodeguero, Adelita, Quizás, quizás, quizás, dançadas nas domingueiras e festinhas juvenis. “Alto, negro, orgulhoso, tinha a pinta de um

lorde”, recorda-se Daisy Fasano.

Ele era tão célebre que foi recebido em almoço por Juscelino Kubitschek. No Brasil, cantou no Rio de

Janeiro em um Maracanãzinho lotado por 20 mil pessoas, no Tijuca Tênis Clube e no Golden Room do

Copacabana Palace. Foi levado a São Paulo pela TV Record e se apresentou no Teatro Paramount e no

Jardim de Inverno Fasano.

“O show no Jardim de Inverno foi no dia 25 de abril e eu estava com a casa lotada, eram 480 pessoas que pagaram muito caro”, conta Fabrizio. Rogério, o filho do meio de Fabrizio e Daisy, acrescenta uma

informação: “Quando morou nos Estados Unidos, meu pai conheceu um empresário americano, um

homem que tinha muitos contatos no meio artístico. Assim, ajudava Paulinho Machado de Carvalho nas

escolhas de estrelas. Os dois, papai e Paulinho, tinham um acordo que funcionava meio precariamente,

mas funcionava. Trouxeram gente de gabarito.”

A TV Record era a emissora de maior audiência na época e possuía um teatro na rua da Consolação,

para onde iam as grandes estrelas internacionais. Vez ou outra, porém, os shows iam para o Teatro

Paramount, na avenida Brigadeiro Luís Antonio, uma sala enorme e tradicional, inaugurada em 1929,

sendo o primeiro cinema sonoro do Brasil. A parte de shows e musicais da Record era comandada por

Paulinho Machado de Carvalho, filho de Paulo Machado de Carvalho, que o Brasil conheceu com o

“marechal da vitória” na conquista dos nossos primeiros títulos mundiais de futebol. Fabrizio e Paulinho

se aproximaram e firmaram acordos que eram convenientes para ambos numa bem urdida operação.

Fabrizio explica: “Eu arcava com 20 ou 30 por cento do custo das atrações, com a condição de que após o show no teatro ela fosse para o Fasano. Eu buscava pessoalmente os artistas depois do show e levava

para o Jardim de Inverno. Naquela noite, quando cheguei ao Paramount, Nat King Cole tinha ido embora

para o hotel, argumentando que já tinha feito dois shows seguidos e jamais na vida fizera um terceiro.

“Pânico. Me deu um frio na espinha, apanhei o carro e voei para o hotel Othon Palace, no Centro, por

sorte não distante. Todos os famosos ficavam no Othon ou no Jaraguá, eventualmente no Lord. Nat não

atendeu o telefone, eu queria subir, a recepção não deixava. Finalmente um gerente me reconheceu, subi.

Batemos, batemos, Nat abriu a porta, entre bêbado e sonado, querendo saber o que eu fazia ali.

Expliquei. E ele:

– No, no, no... Já fiz meu show, já fiz meu show.

“Como eu falava inglês muito bem, argumentei, acenei, pedi, implorei, chorei. Ele, quase dormindo,

irredutível. E mais de uma da manhã, expliquei que a casa estava lotada, iam quebrar tudo, o Fasano ia

falir. Quase me ajoelhei. Finalmente, num raro acesso de lucidez, ele concordou e fomos para o show. Faltava pouco para as duas, parte da plateia tinha ido embora raivosa, reclamando muito, protestando.

Pensei: preciso devolver o dinheiro, amanhã. Seria o mínimo. Levei Nat ao camarim e na passagem ele

viu a crooner Marta Janete cantando, tentando segurar o público irritadíssimo. Não confiando no

americano, fiquei no camarim, esperando que trocasse a roupa. Ele usava um cuecão até o joelho, uma

ceroula listrada, breguíssima, e meias de seda transparentes (exigência que obrigou a Record a girar pela

cidade em busca, encontrando finalmente na Casa Kosmos), e disse que só ia para o palco se transasse

com aquela crooner linda. Prometi que arranjaria as coisas.

“Ele entrou no palco e corri para avisar para Marta desaparecer. Disse a ela: Vou enrolando aqui e,

quando ele estiver para terminar, dou um sinal com as luzes, você cai fora, se manda.’” Solteiro, boa

pinta, Fabrizio já tinha um olho para Marta Janete, uma bela mulher, cantora que emplacara vários

sucessos e tinha sido candidata a rainha do rádio, mas que ainda nos anos 1960 retirou-se de cena.

“Nat King Cole subiu ao palco e o drama começou. Ele não conseguia tirar o microfone do pedestal,

ficava irritado, desafinava, arrastava tudo, e, como o palco era oco por baixo, vinha um barulhão, dava microfonia o tempo inteiro. Não havia, é evidente, a tecnologia de hoje, apuradíssima, ainda que o

Fasano tivesse o que existia de melhor. Só que o melhor era ruim, precário. O público começou a vaiar.

Os músicos, irritados com o atraso, tocavam mais alto, para sabotá-lo. Tinha virado um pandemônio, as

pessoas levantando, vaiando. Ele punha o copo de uísque em cima do piano branco (branco, outra

exigência dele, tivemos de pintar um), e, como o piano se deslocava em cena, o público percebeu que o

copo deslizava, até chegar um momento que todos gritavam: ‘O copo vai cair, o copo vai cair.’ No último

segundo ele levantou a cabeça e agarrou o copo praticamente no ar, e o público levantou-se e aplaudiu. De certo modo, a cena salvou a noite. O show, que deveria durar uma hora, teve apenas 20 minutos. Os

minutos mais longos de minha vida. Um suplício para meu pai. O velho Ruggero saiu às quatro da manhã,

foi para casa e a tensão fez o coração dele estourar. Foi o primeiro infarto.

“Quanto a King Cole, nem conseguia andar; eu o carreguei no colo até o hotel e entreguei-o ao porteiro.

O pior é que eu já tinha pago, a Record exigia de mim o pagamento antecipado de cada atração. E o que

nos custou reparar a catástrofe? A vantagem é que o Jardim de Inverno tinha um cacife muito alto, as

pessoas compreenderam o que se passou. Acabou ficando no anedotário do show business paulistano.”

 

A generosidade de Sammy Davis Jr.

 

Quando Sammy Davis Jr. veio ao Brasil estava com 35 anos. Já era conhecido não apenas como ator, mas

como músico, cantor e dançarino. “Minúsculo, 1,59 metro, era um artista milagroso, um prodígio do

show-business, capaz de pegar instantaneamente coreografias complicadas, cantar como um talento inato

e aprender a tocar qualquer instrumento que lhe pusessem nas mãos.”3 Quando aqui chegou era também

membro do Rat Pack, o grupo fechado, inacessível, liderado por Frank Sinatra, que se chamou

inicialmente o Clã. Dele faziam parte Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Joey Bishop e Peter

Lawford, galã que depois de um bom início de carreira (era muito bonito) se sustentava por ser cunhado

do presidente Kennedy. Foi casado com Patricia Kennedy e teve quatro filhos. A certa altura, drogado e alcoólatra, era célebre por arranjar mulheres para o grupo. Foi ele quem levou Marilyn para o

aniversário do presidente, quando ela cantou o mais famoso “Happy Birthday” de todos os tempos, num

vestido de tecido finíssimo, costurado no corpo, como segunda pele. Enquanto ela cantava, as costuras

começaram a se romper, revelando que não havia nada por baixo. O Rat Pack era um grupo poderoso

dentro do show-business, conhecido pelo talento, pelas farras e bebedeiras. Todos dizem que foi a época

áurea do show-business em Las Vegas. As drogas devastaram o final de carreira de Sammy Davis Jr.4

 

O assunto do momento era o romance entre ele e a loira atriz sueca May Britt, que provocava celeuma

racial nos Estados Unidos e ameaças da Ku Klux Klan. Ele tinha terminado também um relacionamento

com a loira Kim Novak, por imposição da máfia e dos racistas, que prometeram matá-lo. Ao voltar da

viagem ao Brasil, Sammy casou-se com May em 1960.

Homem acostumado a tudo, Fabrizio confessa que se emocionou com Sammy Davis Jr. “Ao contrário de astros muito menores, cheios de si, Sammy teve uma única exigência ao chegar ao Brasil. Queria uma

câmera fotográfica Nikkon, que a Record deu. O tempo inteiro, passava fotografando. Quando fui buscá-

lo no teatro, Sammy disse também que tinha feito dois shows, não faria um terceiro. Vieram as

conversações, expliquei meu acordo com Paulinho. Ele quis saber se eu já pagara. Estranhei, porque já

tinha pago tudo, mas percebi que havia algo no ar, ninguém da equipe dele tinha ido ao Jardim de Inverno

olhar, vistoriar o lugar do show, coisa mais do que normal. Não hesitei, respondi que não. Ele me olhou e

teve a atitude mais surpreendente que já vi em toda a minha vida por parte de uma estrela.

– Está bem! Traga o dinheiro que na hora do show vou entregar para uma entidade beneficente. Você

escolhe qual.

“Surpreso, convidei o Luiz Rodrigues, presidente da Federação Espírita. Na hora, Sammy veio ao

palco, recebeu o dinheiro de minhas mãos, era algo como 10 ou 20 mil dólares, e repassou à Federação.

Depois, cantou, dançou, sapateou, fez imitações de Cary Grant e Frank Sinatra. Lembro-me de ele

ironizar a maneira de andar de John Wayne e do sacar o revolver rapidamente como um bom caubói.

Aliás, ele contou que aquele andar de “macho” tinha sido inventado por John Ford, que implicava com Wayne, dizendo: ‘Você anda como uma bicha.’ Fui com ele à boate Michel uma ou duas vezes, era o lugar

mais granfino da cidade, reduto dos socialites. Sabíamos, nós, os dos bastidores, que algumas famosas

atrizes brasileiras o procuraram no Othon, ali pernoitando. Uma delas, alta, loira, símbolo sexual da

época. Deixou, para que eu e a Record pagássemos, uma dívida considerável com a Telefônica. Foram

longas ligações internacionais para May Britt. Ligava do teatro, ligou do Jardim de Inverno. Estava

apaixonado.”

 

As pernas de Marlene Dietrich

 

“Os homens comentavam, espantados: 59 anos, e que corpo! As mulheres, em lugar de ironias, queriam

saber como ela mantinha aquelas pernas que a tinham feito famosa.” Marlene Dietrich, uma das

personalidades mais fascinantes do show-business mundial, atriz, cantora, dançarina, chegou ao Brasil

em agosto de 1959, pouco depois da exibição de seu filme Testemunha de Acusação (Wittness for the

Prosecution), um suspense que foi um êxito incomparável pela direção de Billy Wilder. Tinha acabado

de filmar com Orson Welles o clássico A Marca da Maldade (Touch of Evil).

Marlene apresentou-se no Rio de Janeiro, no Copacabana Palace, e foi para São Paulo. O colunista

social do Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, Chuck Woodward, garantiu que ela tinha se apaixonado

por Ricardinho Fasanello, um playboy milionário, descendente do fundador da rede de lotéricas Fasanello, a maior do Brasil. Excêntrico, Ricardinho costumava andar num carro esporte conversível,

levando uma onça no assento ao lado. Os playboys paulistanos de plantão nada conseguiram, mas

Fabrizio garante que Alvaro Assumpção, o Meninão, ficou apaixonado por Marlene, e fez as maiores

investidas, viu o show na mesa da primeira fila.

Fabrizio tem lembranças agradáveis: “Uma tarde, Marlene estava ensaiando e o iluminador, que nada

sabia de inglês, não conseguiu ler as indicações de luz. Ela não gostava de determinadas cores que não a

favoreciam. Quando o sujeito errou as luzes, ela parou com tudo, raivosa, e disse que não ia cantar

naquele lugar. Entrei em cena, apanhei o roteiro e disse para deixar por minha conta. Na emergência, fui

para a luz. Tinha minhas noções. Ela exigia: ‘Ilumine as minhas pernas. Utilize a sua luz para realçá-las,

torná-las misteriosas e excitantes.’ Você não tem ideia de como ela tinha as pernas lindas, as mulheres

ficaram abismadas. Acho que fui bem, porque, à noite, na hora do show, ela me chamou:

– Se você não me iluminar, não faço o show!

“Assim foi, todas as noites. Antes de entrar, vinha a recomendação:

– Deixe meu rosto à meia-luz, na penumbra, o importante é minha voz.

“Ela tinha vestidos colantes, casacos de plumas, e no final veio vestida de homem, sensual, excitante.

Cantava em inglês, francês e alemão, tinha a voz rouca, um charme extraordinário, um carisma que raras

vezes vi. Foi aplaudida de pé ao cantar “Lili Marlene”, “I‘ve Grown Accostumed to Her Face”, “Falling

in Love Again”, “Lola”, “La Vie en Rose”, “Lazy Afternoon”. Não garanto, mas tenho quase certeza de

que o pianista dela foi Burt Bacharach, hoje com 86 anos, e autor de músicas de sucesso como Raindrops Keep Falling on My Head.

“Depois, fomos conhecer a noite, e ela se mostrou incansável. Fomos ao Baiuca, ao Cave, do Jordão

de Magalhães, ao Michel, do Jimmie Christie, ao Oasis, que se rivalizava com o Fasano em matéria de

cantores internacionais. Passamos por dez lugares, entrávamos, bebíamos alguma coisa, partíamos.

Levei-a para o hotel às cinco e meia da manhã e a mulher estava inteira. Apesar do que publicaram, e

Daisy desconfiou, nunca tive nada com ela.”

Naqueles anos, estrelas e mais estrelas passaram pelo Fasano, nacionais e internacionais, como Jane Russell, Domenico Modugno, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Harry James (casado com Betty Grable, as

mais belas pernas de Hollywood), Julie London, Sammy Davis Jr., Caterina Valente, Ginger Rogers, Roy

Hamilton, com seu clássico “Unchained Melody”, sucesso que durou décadas, Renato Carrozone, Ima

Zumak. Dos brasileiros, ele ainda tem na memória os sucessos de Dick Farney, Cauby Peixoto, Angela

Maria, Miltinho, Agostinho Santos, Jair Rodrigues.

 

O beijo na boca de Jane Russell

 

Fabrizio diz que Tony Bennett veio apoiado no sucesso de canções como “I left my heart in San

Francisco” e “Tender is the night”, do filme homônimo de Henry King, baseado no livro de Scott

Fitzgerald em 1962. Jane Russell, dona dos mais belos seios do cinema, saía do sucesso do filme Os

Homens Preferem as Loiras, ao lado de Marilyn Monroe. Era das mulheres mais sensuais de Hollywood,

símbolo sexual de uma época. “Uma noite, levei o maior susto”, lembra Daisy. “Quando vi, Jane

atravessou lentamente o salão, olhada por todos, e chegou diante de Fabrizio, que, claro, se levantou. E

recebeu um beijo na boca digno de cinema... e mais do que de cinema... esfriei... enraiveci...” Fabrizio,

por sua vez, diz que “Jane tinha uns seios lindos, umas pernas incríveis, longas, mas não era muito bonita

de rosto”.

A italiana Caterina Valente emplacou um dos maiores hits daquele tempo, “Istambul”, que explodiu no mundo e teve várias versões no Brasil, onde todos cantavam “Ô, Istambul, foi Constantinopla”. Cantava

com perfeição em várias línguas, principalmente alemão. Seu repertório ia de Granada e “Malaguena a

Ganz Paris Traumnt von der Liebe”. Julie London chegou na onda do “Fly me to the moon”. Ima Sumak

criou a imagem de exótica. Peruana, seu verdadeireo nome era Zoila Augusta Emperatriz Chavarri del

Castillo, cantora lírica que interpretava estranhos ritmos incas e também boleros e mambos. Domenico

Modugno chegou na esteira do “Nel Blu dipinto di blu”. Era daqueles que gostava de cantar, ser

aplaudido, levantar o público. Não havia ninguém que não conhecesse “Nel blu dipinto di blu”, quase um

hino nacional na época. Tanto ele quanto Renato Carosello divertiam-se durante o show, adoravam o que

faziam. Conquistaram a cidade. Por eles, fariam cinco shows por noite.

 

Para Rogério, filho de Fabrizio, o pai sempre foi “charmoso, ativo, esperto, cheio de manhas e de

conversas. Homem da noite, adorava sair, frequentar, movia-se bem em vários círculos, conhecia gente de todo tipo, do empresário ao industrial, ao político, ao socialite e atores, atrizes, manequins, cantores,

jornalistas, garçons, maîtres. Sempre foi amado, um grande relações públicas”.

 

3 Segundo James Kaplan em Frank: a Voz, Companhia das Letras, São Paulo, 2013

 

4 Sammy veio ao Brasil entre 1959 e 1960. Sei disso porque trabalhava no Última Hora como repórter e fiz todas as coberturas nos dias em que ele passou em São Paulo, quase uma semana.