Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Uma Casa Cinematográfica no Morumbi
Como se fosse um segundo piso de mil metros sobre o gramado, pufes e tapetes persas estendiam-se
por onde circulavam os convidados, cobrindo todo o chão. Muitos sentavam-se, protegidos da leve
umidade que o sereno provocava na grama. Alguns dançavam descalços ao ar livre, embalados pelo som potente de Josias, na época o top em matéria de instalações nas casas, bares, boates, discotecas. Josias
era quem produzia o somzão. Foi em meados de 1974 que os jornais anunciaram que Daisy e Fabrizio
tinham inaugurado uma “mansão cinematográfica” no Morumbi, na rua Gália. “Foi o auge financeiro de
meu pai”, assinala Fabrizio Júnior. “Quando meus pais decidiam dar uma festa, em dois dias estava
produzida, impecável. Festas que hoje custariam entre 600 mil e um milhão.”
Quando a casa foi comprada, um aterro gigantesco acrescentou cerca de mil metros quadrados ao
terreno, totalizando três mil metros de área e mil metros de área construída. Gramados e jardins mudaram
a paisagem. Havia uma equipe permanente de jardineiros para manutenção. A visão da cidade, do outro
lado do rio Pinheiros, era deslumbrante, como se fosse uma tela panorâmica, uma vista aérea de enormes
proporções. “Em geral, escolhíamos as noites de sexta-feira para dar festas e jantares, porque o Jockey
se iluminava inteiro lá embaixo e a visão era feérica.”
Por outro lado, corriam notícias dizendo que, muitas vezes, no meio da semana, quando havia um
convidado ultravip (altos executivos de empresas estrangeiras de bebidas), Fabrizio tinha um acordo com o Jockey Club, que ficava aos pés da casa. Acendiam-se todas as luzes da pista e das arquibancadas.
Algo como, em Paris, naqueles anos, Claude Ferrail costumava fazer para seus convidados ilustres no La
Tour d’Argent: iluminava-se inteiramente a catedral de Notre Dame. Na rua Gália, rolavam festas para
mil pessoas, jantares black-tie para duzentas, coquetéis para quatrocentas. Era quase irreal
Quando Daisy entrou pela primeira vez na casa, espantou-se:
– Parece um templo.
Pés-direitos altíssimos, abóbadas. Mas a casa ainda não estava terminada, levaram meses para se
instalar. Os filhos ficaram meio ressabiados: “Lugar amplo, com cinco suítes, uma casa de muitos planos,
escadas, rampas, pavimentos, ao contrário da casa da rua Alberto Silveira, que era de apenas um andar,
facilitando corridas, brincadeiras. Para chegar à piscina havia uma escada em caracol”, assegura Rogério
Fasano. “Meus pais contrataram uma decoradora, que, levada pelas tendências dos anos 1970, colocou
aço inox por toda parte. Hoje seria engraçado, talvez vintage. Mas a vista... a vista era espetacular, de tirar o fôlego.” Já Andrea alegra-se ao recordar a atitude dos que chegavam: “Quando entravam para um
jantar ou alguma festa, as pessoas não acreditavam que pudesse ter uma casa assim em São Paulo.”
A criançada, entre doze e catorze anos, se acostumou e gostou, porque as festas acabaram dando o tom.
“Havia sempre bandos de crianças, depois adolescentes e jovens dentro das casas em que moramos”,
conta Andrea com um brilho nos olhos. “Papai gostava de meus amigos, dos amigos de Fa (como
Fabrizio Júnior é chamado em família) e do Rogério. Nisso, ele e mamãe se assemelhavam, no aglomerar
pessoas em torno. Assim, fomos redescobrindo aquela casa, que era outro momento de nossas vidas, o
auge dos sonhos de papai, que sempre se disse colecionador de sonhos.”
A família nunca se esquece de uma noite em que Luis Carta usou a casa para o lançamento do novo
carro Fiat, um modelo de luxo, numa festa promovida pela revista Vogue. Estava, na linguagem dos
colunistas, le tout São Paulo. Quanto os convidados entravam, davam com o carro no meio da sala e se
espantavam. O espaço era maior do que o de qualquer concessionária.
Daisy, na manhã seguinte à festa da Vogue, acordou tarde com alguém testando o som na sala: “Não acredito. O que está acontecendo? Fui ver, eram meus filhos preparando outra festa, para aproveitar o cenário, a cobertura do jardim, o som instalado. Eles passaram o dia se revezando ao telefone e à noite a
casa se encheu de ‘brotos’, na gíria, adolescentes ruidosos. Só que, pena, choveu, e a turma festejou
dentro.”
Fabrizio Júnior descobriu a manha. “Era só saber que haveria uma festa da Vogue na quinta ou na
sexta-feira, e eu começava a montar a continuação, no dia seguinte, com os jovens, porque sobrava coisa
demais. Vinham uns duzentos. Mudava um pouco a bebida, a balada era na base do cuba libre.”
Com um ar sonhador, Fabrizio pai recorda: “As festas deram o tom à casa. Sentávamos, Meninão e eu e programávamos algo monumental para promover uma bebida minha, ou para servir à Vogue, ou
simplesmente para nos divertirmos. Meninão seria aquilo que hoje se chama promoter, ia atrás de tudo,
produzia, selecionava convidados, sabia quem se dava com quem, aqueles que agitavam, os excêntricos,
os bem vestidos. Eu perguntava:
– Quantas pessoas vamos convidar?
– Setecentas.
E eu acrescentava:
– Tudo bem, convido cinquenta, você traz o resto.
Não havia ninguém mais bem relacionado que ele, que vinha de família tradicional, os Assumpção
(hoje é nome de uma curta rua no bairro de Campo Belo). E olhem que eu conhecia gente, depois de
tantos anos vivendo nos restaurantes de papai, circulando pela noite e em sociedade, negociando com
bancos, viajando. Quantas e quantas vezes fiquei à porta recebendo e não conhecia 70 por cento dos que
me apertavam a mão? Fazia parte. Ali estavam empresários, produtores, artistas, publicitários, banqueiros, penetras, donos de boates, bares, restaurantes, lojas, cantores, diretores de cinema e
televisão, mulheres bonitas, lindas, chiques, empetecadas de joias.
Ali estiveram Baby Pignatari (que raramente ia a festas dos outros), levado pela Alik Kostakis, Rudi
Crespi, o conde, Sérgio Mendes, que veio para a inauguração do meu Kentucky Fried Chicken, Emerson
Fittipaldi, Tavares de Miranda, Danuza Leão. Como me lembrar todos ou da maioria? Lá se foram
quarenta anos! Quem contava estava ali, de formadores de opinião aos que comandavam o mundo
financeiro e artístico. Para não dizer dos cantores ou cantoras que eu conhecia da noite e que iam dar
canja pela amizade. Eram centenas de pessoas, mas paradoxalmente acabava sendo íntimo, amigável.
Havia outro fato importante. Muitos daqueles poderiam vir a ser meus clientes.
Foram festas faraônicas. Depois daquelas, nunca mais se fez festa daquele tamanho em São Paulo.
Promovíamos jantares com setecentas pessoas sentadas fora, as mesas sobre o gramado, debaixo de
tendas e coberturas que faziam um lindo design no terreno e podiam ser vistas lá de baixo, iluminadas. Tempos que não voltaram neste Brasil, não havia a violência de hoje. Agora, quando há uma festa, as
pessoas vão para serem fotografadas, não para se divertir, beber, comer, dançar, se relacionar, paquerar.
Muitos, quando convidados, querem saber se irá alguma celebridade; se não for, declinam o convite.
Aqueles foram tempos de prazer. Não era preciso chegar em carros blindados, acompanhados de
segurança.”
Daisy era sócia das academias de dança mantidas por Marika Gidalli, criadora do balé Stagium, o
mais avançado de São Paulo, e um de seus orgulhos foi ter hospedado Fernando Bujones na sua casa.
“Bujones, cubano naturalizado americano, principal bailarino do American Ballet Theatre, era chamado
‘a lenda viva da dança’. O primeiro americano a dançar na Ópera de Paris e também no Kremlin, em
Moscou. O jantar que demos a ele foi memorável, eu emocionada, porque balé sempre foi uma de minhas
paixões. Ele era casado com Marcia Kubitscheck, filha do ex-presidente JK. Ambos morreram muito
cedo, ele aos 50 anos, ela aos 57.”
Andrea entrava na adolescência, mas confessa que “tentava não dormir, ficava olhando, cheia de alegria, aquele movimento, a música, o agito. Aos 13 anos, eu, que fazia balé, ficava deslumbrada com a
presença em casa de Mikhail Baryshnikov, um superstar. Fui, na época, apaixonada pelo professor dele,
Alexander Minz. Nunca vi tantas festas como as que meus pais fizeram naqueles anos. Fomos felizes
naquela casa”.