Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Fabrizio Forma Sua Família
Sem avisar ninguém, a não ser a família, Fabrizio chegou dos Estados Unidos em 1958. Ele não sabia
que algumas coisas tinham mudado por aqui, relata Daisy: “Acontece que a certa altura eu não sabia mais
se aquele namoro continuava, se Fabrizio ainda me queria, e decidi que devia levar minha vida e tive vários namorados. Aqueles namoricos de juventude, que hoje chamam ficar, só que o ‘ficar’ nosso era
diferente, menos ousado, com menos liberdades. Nesse meio tempo, meu pai morreu, fiquei cuidando de
mamãe, ela estava por demais abalada; meu pai morreu muito novo. Comecei a namorar sério com um
jovem que estudava medicina, hoje é um profissional conhecido, estávamos bem firmes.
Naquele mesmo ano, meu irmão se casou e chamou para padrinho exatamente o irmão de meu
namorado. Quase na véspera do casamento, recebi um telefonema de dona Ida, mãe de Fabrizio.
– Daisy, você pode vir até aqui?
– Ir aí? Fazer o que, dona Ida?
– Preciso de você.
– Precisa?
– Na verdade. Vou te dar um presente. Você vem?
Fui. Quando entrei, o maior susto. Dei com Fabrizio, que tinha acabado de chegar. Esfriei. Ao mesmo
tempo, uma alegria, senti naquele momento uma emoção boa me atravessando. Mas caí em mim. E meu namorado? Estávamos engrenando a conversa, quando Fabrizio, feliz, me anunciou:
– Vamos nos ver amanhã.
– Amanhã?
– Sim, vou ao casamento do seu irmão.
‘Agora sim é que estou arranjada’, pensei. Teria que driblar meu namorado ou o Fabrizio? Este foi,
colocou-se ao meu lado, comportado, mas ainda se achando o dono da bola. Foi quando meu namorado
chegou, me deu dois beijos efusivos e grudou em mim. Fabrizio ficou estatelado, compreendeu, mas era
vivo, esperto. Na festa, aproximou-se de meu namorado, falaram que falaram, beberam que beberam,
ficaram amigos. Namorei o moço mais um tempo, até que um dia Fabrizio veio à minha casa, me olhou
nos olhos e disse simplesmente:
– Então? Vamos casar!
Foi muito para minha cabeça, não disse nada. Mas de repente lembrei que, nas conversas, meu namorado dizia que iríamos casar, mas ele não queria ter filhos de modo algum. E eu não me imaginava
uma mulher casada e sem filhos, não tinha sentido, razão de ser. Casar por casar, não ter família? Além
de tudo, era um homem ciumentíssimo, desses de ficar no pé, cheio de exigências, pedidos de explicação.
Logo comigo, que era uma moça de cabeça aberta, gostava de aprontar? Não foi sem razão que tive de
mudar de colégio várias vezes. Num deles, católico, descobri que um dos padres estava dando em cima
de uma freira e denunciei à diretora. Quem caiu fora fui eu. Era um colégio tradicionalíssimo, está ai até
hoje.”
Assim chegou setembro de 1960 e os dois se casaram no dia 3. Houve muita negociação para decidir
se haveria uma grande festa ou se a cerimônia seria íntima. O velho Ruggero ponderou que se fossem
chamar todos com quem se relacionavam, poderiam lotar o estádio do Pacaembu. Os clientes do Fasano
acabavam sendo amigos, fiéis, habituais, constantes. Também não era possível fazer apenas um coquetel
à base de canapés. Fazer uma seleção? Complicado. Os que ficassem de fora iriam chiar, e com razão.
Daisy e Fabrizio casaram-se na Igreja da Imaculada Conceição, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, seguindo para a casa do irmão dela, onde cortaram um bolo, tomaram champanhe. Os padrinhos eram mais do que vips: Laudo Natel, que governaria o estado por duas vezes e levantou recursos para a
construção do estádio do Morumbi, e Amador Aguiar, fundador do Banco Bradesco, célebre por não usar
meias.
Os recém-casados viajaram para Santos e seguiram para Campos do Jordão. Para comprar o enxoval,
Daisy vendeu o piano que tinha ganhado do pai, pouco antes de ele morrer. “Um enxoval lindíssimo, da
Carolina, loja da rua Augusta, paraíso das noivas”, diz ela. Ao voltarem, foram morar com a mãe de
Daisy num apartamento da avenida Angélica. Meses depois a mãe mudou-se para São Vicente, perto da Ilha Porchat. O apartamento da Angélica ficou pequeno, eles se mudaram para a rua Peixoto Gomide,
para um apartamento pertencente a Lia, filha de Amador Aguiar, casada com Fábio, irmão de Fabrizio.
Lia e Daisy eram grudadas, como que irmãs. “Vivíamos em apartamentos confortáveis, grandes, mas
alugados. Demorou muito para termos nossa primeira casa. Fabrizio continuava com o pai, dava duro,
tinha uma retirada boa, mas as despesas com a família aumentavam. Da rua Peixoto Gomide fomos para a
rua Artur Ramos e dali para a Campo Verde; a gente não parava, procurando se ajeitar. É a eterna
inquietação de Fabrizio e seus projetos.”
O primeiro filho, Fabrizio Júnior, chegou no dia 5 de maio de 1961. Ela ainda amamentava quando foi
ao ginecologista, que anunciou: “Você está grávida de quatro meses.” Em abril de 1962 nasceu Rogério,
que ganhou em família o apelido de Tico.5 “Veja só!”, diz Daisy, “um ano e meio de casados, eu com
dois filhos. Era fogo!”
A década de 1960 começou com uma grande prosperidade dos países ricos. Houve uma explosão do
consumo, 90% dos americanos tinham televisão e desde 1959 uma em cada três famílias inglesas tinha automóvel. Vieram grandes transformações no Brasil e no mundo. Elvis Presley já tinha aberto caminho
aos Beatles e aos Rolling Stones. Descobria-se a contracultura, havia lirismo e idealismo, depois de
Cuba parte da juventude aderiu ao socialismo, combatendo o imperialismo americano, falando em povo e
defesa do povo. Foi também a época da sexualidade exacerbada, das drogas, do LSD, da nudez, da
liberação feminina, dos grandes protestos. Foi eleito um papa liberal, João XXIII, que mudou a cara do
Vaticano, vieram os hippies, o paz e amor, faça amor, não faça a guerra. Nada mais seria como antes.
Nesta altura, Ruggero e Fabrizio comandavam não apenas o pequeno “império” da Paulista, como
ainda a casa da Vieira de Carvalho, o bufê. A marca Fasano era sinônimo de qualidade.
5 Somente durante uma conversa nossa em junho de 2013 Rogério se referiu ao apelido, sem saber o motivo. Lembrei que seus pais começaram o namoro durante o filme Tico-tico do Fubá.