Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 10 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

O Declínio do Jardim de Inverno

No Brasil, a travessia de 1963 para 1964 foi tensa, com os movimentos da classe média, da alta

burguesia e dos militares, todos amedrontados com a possibilidade de o Brasil se tornar comunista. Era o

que mais se ouvia, comunismo. Várias marchas de conservadores e religiosos pelo Brasil exigiam mudanças, enquanto o presidente Jango pregava reformas de base, principalmente a agrária.

Para Daisy, 1964 foi um ano de sobressaltos. Não bastasse uma situação político-econômica que

afetava a vida diária de cada brasileiro, eles foram mudando de casa continuamente. Da rua Peixoto

Gomide passaram para a Campo Verde e em seguida rua Maranhão. Houve um momento de pânico em

família. Fabrizio Júnior diz que tem flashes daquela época, era muito pequeno, mas via a mãe sempre

triste. Ele sabia que havia qualquer coisa com o pai, que se mostrava abatido, prostrado, sem o vigor que

o caracterizava, enérgico, antenado. Logo ele, que jamais tivera uma doença. Veio uma bateria de

exames, nenhum detectou as causas. A pele e os olhos amarelados, sem forças, sempre com náuseas;

afinal, um dos exames teria apontado câncer, provavelmente no fígado. Câncer. Aos 29 anos?

“Sei que passei a ouvir duas palavras estranhas dentro de casa, meio sussurradas: câncer e testamento.

Naquele tempo, crianças eram mantidas fora dos assuntos da família. Testamento, era a palavra que

parecia deixar todos assustados. Soube depois que papai fizera o testamento, o que significava que ele ia

morrer”, comenta Fabrizio Júnior. “Porém mamãe se impôs, firme:

– Vamos é atrás de uma segunda, terceira opinião. Vamos consultar outros médicos.

Ela bateu de frente com um conformismo geral que pregava que quando essas coisas acontecem, é

porque tinham de acontecer. Tem de vir. Passaram a buscar novas respostas. Foram momentos de

angústia, os médicos não chegavam a uma conclusão. Finalmente, decidiu-se: cirurgia. Novas ansiedades.

Fabrizio, fraco, suportaria? A família exigiu a presença de um oncologista amigo. Quando abriram o

paciente, o especialista olhou, nem titubeou, mandou fechar. Não havia câncer algum, era apenas hepatite,

sobre a qual ainda não havia estudos desenvolvidos na época. Curável com repouso, ausência de

gorduras e de álcool. Fabrizio guardou para sempre a enorme cicatriz na barriga. Mal recuperado da

primeira, veio uma segunda hepatite que o manteve por seis meses na cama. Imagine o que significava

isso para um homem inquieto, hiperativo como ele?”

Da rua Maranhão a família foi para a Artur Ramos. Daisy fecha os olhos por um momento: “Nem sei

mais por que mudávamos tanto, ainda que mudanças tenham sido uma tônica de minha vida, desde a juventude, quando mudei tanto de colégio que no fim estava tendo dificuldade de terminar um curso. O

ano de 1964 foi complicado, cheio de altos e baixos. Fabrizio estava no hospital, eu com dois filhos

pequenos e grávida da Andrea, e o dinheiro curto, tudo contado.”

Nesse clima, nasceu Andrea. No Fasano, a rotina começava a se alterar gradualmente.

 

Tempos turbulentos no Brasil

 

Depois do golpe de abril de 1964, quando o regime militar se instalou no poder, muitas coisas

começaram a mudar nos costumes dos paulistanos. A sociedade se retraiu na chamada “badalação

social”. Megafestas (de arromba, definiam) e jantares diminuíram consideravelmente, para não chamar a

atenção. A situação era instável, corriam todos os tipos de rumores, inclusive alguns que salientavam que

a esquerda retomaria o poder em pouco tempo, estava apenas retraída, se preparando. Fofocas,

mexericos, boatos circulavam junto a notícias cassações de mandatos políticos, de prisões de professores, líderes sindicais e estudantis. Muita gente buscou o exílio. O medo permeava.

Até então, todo tipo de gente frequentava o Jardim de Inverno, de nomes conservadores a empresários

conhecidos pelo pensamento liberal. Evidente que se tratava de pessoas de posses que, lentamente,

passaram a não se mostrar em público. Ou para se preservarem, diante das incertezas, ou por não

quererem mesmo se exibir, o que poderia ser considerado uma provocação. As reservas diminuíam dia a

dia, os shows eram raros e cada vez mais caros com o custo dólar. Os que ofereciam grandes recepções

em casa deram um tempo, os casamentos passaram a ser íntimos, o movimento do bufê era lento. “O Fasano era sinônimo de dinheiro, gente de poder aquisitivo. Naquele momento, pós-Cuba, em pleno

regime militar, com a Guerra Fria em curso, ninguém sabendo o que ia acontecer entre Rússia e Estados

Unidos, a sociedade ‘panicou’, se fechou. Foi aí que o Fasano começou a decair”, avalia Fabrizio Júnior.

Cada vez que alguém entrava no Jardim de Inverno e dava com um militar graduado à mesa do

restaurante, ficava incomodado. Ou tinha medo. Fabrizio Júnior lembra-se de comentários feitos em

família, anos depois, contando como o Fasano vivia cheio de altas patentes. Eram os donos do país.

“Quem era visto ali por um militar, quem chegava num carro importado, às vezes passava noites sem

dormir, achando que, de um momento para o outro, podia perder tudo, ser chamado pela polícia política.”

Muitos, hoje, passados cinquenta anos, se esqueceram ou tiveram as lembranças suavizadas. Os que

tinham assumido o poder não estariam dispostos a acabar com a alta burguesia perdulária, que vivia um

nível de vida incompatível com o país? E quem garantia que aquele senhor em outra mesa não fazia parte

dos “conspiradores” que iam derrubar o governo e proceder a uma limpa, uma devassa? Tudo era

confuso. Falava-se que o paredón (fuzilamentos sumários) de Fidel Castro seria instalado no Brasil. Ninguém atentava para os paradoxos, as contradições. Os militares derrubaram Jango acreditando que ele

ia tornar o Brasil comunista, assim como Fidel fez com Cuba. Quem era o verdadeiro inimigo, afinal?

Por via das dúvidas, desconfiava-se de tudo e de todos, daí o estranho clima instaurado.

Acrescente-se aqui uma situação econômica em que a nova ordem buscou legitimar-se junto à classe

dominante e o governo dos Estados Unidos, com uma política econômica liberal, simpática ao capital

estrangeiro, facilitadora da oligopolização dos bancos e concentradora da renda em favor dos estratos

mais ricos da população. As diferenças de classes se acentuaram. As classes média e média alta sentiram

o baque, o dinheiro se retraiu. Havia um imenso agravante para quem era empresário,

industrial, comerciante ou simples cidadão. A “inflação galopante”, como a imprensa a denominava. A

instabilidade começou a partir da renuncia de Jânio Quadros em 1961 e a posse – e posterior queda – de

Jango. Veio a inflação a corroer dia a dia os salários, os investimentos, os empréstimos, os

financiamentos. Um cruzeiro pela manhã eram cinco cruzeiros, ou dez, ao final do dia. As máquinas remarcadoras tornaram-se um objeto familiar nos supermercados.

Neste mix, a frequência ao Fasano foi se retraindo, as despesas cresceram, era uma grande estrutura a

sustentar, Ruggero lutava para não despedir ninguém, manter sua organização, acreditando que a situação

mudaria. Afinal, tinha passado por momentos difíceis desde que restaurara o nome Fasano. Mas o que

entrava diminuía, havia impostos, inflação, mal se pagavam as despesas. Ruggero foi, pouco a pouco,

dando as propriedades para garantir empréstimos bancários. Ele estava apenas com 57 para 58 anos, o

que, nos dias de hoje, é ainda plena maturidade e força, mas não naquele tempo. A expectativa de vida

estava entre os 60 e 62 anos, em boas condições. Hoje, atingiu os 75 anos. Ruggero também tinha tido um

segundo enfarto e seu coração protestava com a tensão e os grandes esforços.

Foi quando ele criou o cargo de superintendente e trouxe Giovanni Grignani, um velho amigo, chegado

e de confiança. Abriu-se a empresa familiar para a profissionalização, o que significou um gesto de

modernidade. Com Grignani foram abertas pequenas rotisseries, casas sem mesas, apenas balcões, com

comida para viagem, antecessoras dos deliveries. Foram três, na avenida Santo Amaro, na rua São Gabriel e na rua Turiassu, em Perdizes. O nome Fasano atraiu clientela classe média, era um bom

movimento. “Na São Gabriel, nos vimos diante de um problema insolúvel: a colocação de uma porta

automática que comprei nos Estados Unidos. Aquela dotada de sensores, a porta se abre quando você se

aproxima. Seria uma novidade. Tenho a sensação, e não devo estar enganado, de que foi a primeira de

São Paulo. Não houve um só técnico capaz de fazer a porta funcionar, para se ter ideia de como eram as

coisas no Brasil então. Na época, o Fasano significava um pequeno império com mil e duzentos

funcionários”, avalia hoje Fabrizio.

Grignani era igualmente diretor da Liquigás, uma potência. De comum acordo, ele vendeu as ações da

família para a Liquigás, capitalizando Ruggero. Era muito dinheiro, mas foi consumido pelas demissões,

causas trabalhistas, impostos, encerramento das casas. Como eram todos imóveis próprios, ele foi

vendendo um a um. A Liquigás manteve o Jardim de Inverno aberto até 1968, enquanto a confeitaria no

térreo funcionou até 1973. Os letreiros permaneceram na fachada por mais de dez anos, mantendo “viva”

a grife Fasano.

Antes que ficasse reduzido a zero, Fabrizio e o irmão Fábio procuraram o pai:

– Calma, administre as coisas, segure ao menos um apartamento para você.

O patriarca manteve um apartamento para ele e Ida, e um para cada filho. Rogério, muito criança,

visitava o avô e o encontrava sempre sentado numa poltrona, bravo, vociferando. Sobre esta imagem

sobrepunha outra, a o do avô colocando-o sentado no balcão e trazendo uma das famosas coxinhas da

confeitaria. Era seu temperamento. Morreu em julho de 1968. Ida, sua mulher, viveu até quase os 90 anos,

falecendo pouco antes da inauguração do Fasano da rua Hadock Lobo.