Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
O Tsunami Branco e a Derrocada
“Eu estava bem, viajava, enviava grupos de amigos, jornalistas, publicitários e empresários para
Europa e Estados Unidos, comandava delegações que iam ao Texas, à Flórida e à Inglaterra para discutir
problemas de expansão do mercado de bebidas no Brasil e no mundo, e várias vezes participei de megaconvenções sobre supermercados e negócios em regime global. Tinha uma sala confortável no
prédio da Heublein na avenida Morumbi, onde hoje funciona a universidade FMU, antiga FIAM. Minha
relação com o dinheiro sempre foi sem neuras, ele vem, ele vai”, revela Fabrizio Fasano, exatamente 40
anos depois de ter vendido o Old Eight, que incluiu o nome dele na antologia dos negócios pioneiros e
bem-sucedidos do Brasil
“Dois anos naquela vida de executivo sem pasta e alguma coisa começou a mexer comigo, a dar
coceira. Uma insatisfação, necessidade de agitar, não ser homem de gabinete, solucionando problemas
triviais, quebrando galhos rotineiros. Sentia-me parado, não avançava. Como se patinasse. Estava
arrependido de ter vendido o Old Eight. No entanto, fazer o quê? O jeito era ir em frente. Tinha que me
movimentar. O que eu conhecia? Uísque. Do que gostava? De uísque. Aquilo me provocava uma
coceira.”
A “carência” dele em relação à Heublein, a de manter-se distanciado de um negócio que pudesse ser
concorrente, tinha terminado e uma ideia começou a rondar sua cabeça. “Repetir tudo?”, pensava. Desistia, só que dali a pouco estava imaginando que era hora de criar um novo uísque, a experiência com
o Old Eight tinha sido gratificante e rica. Cada dia mais alimentava a ideia de produzir um uísque que
fosse genuinamente brasileiro. Mais ou menos nesse período, Fabrizio Júnior conta que, de um momento
para o outro, passou a ver “na porta de sua casa carrões de onde desciam homens vestidos sobriamente,
que entravam e saíam, constantemente. Eram empresários, donos de bares, boates, discotecas,
restaurantes, supermercados, distribuidores, transportadores. Ficava intrigado. O que faziam, o que
queriam?”
Em uma de suas viagens a Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, onde tinha muitos amigos, Fabrizio
dialogava com enólogos, circulava de uma vinícola para outra. Então, foi apresentado a um produtor que
afirmou ter obtido um excelente malte. “O nome dele nunca me saiu da cabeça, está gravado a fogo, ainda
dói. Um filho de uma puta. Não digo o nome, porque até hoje, apesar de terem me alertado, não tive
certeza se fui traído, enganado de propósito, se foi um erro de um químico, um técnico mal-intencionado, um acidente, uma sabotagem. Todas essas coisas vêm à cabeça quando você enfrenta uma situação como
essa. A verdade é que realmente o malte que ele tinha era bom, me agradou, achei que poderia produzir
bom blend brasileiro. Estava ali o que precisava para desenvolver a minha bebida, mesmo sabendo que
lutaria contra o preconceito que rezava: Uísque? Só o escocês.”
Os dois filhos homens estavam morando no exterior. Fabrizio Júnior, também chamado de Fabrizinho,
apesar do tamanho, um gigante, tinha ido para os Estados Unidos fazer a high school, depois tentaria a
medicina. “Meu pai me levou ao aeroporto de Mercedes Benz, estávamos com tudo.” Quanto a Rogério,
vivia na Inglaterra, queria estudar cinema e inglês. Ele conseguiu entrar no curso de cinema na segunda
tentativa. “Estava com 19 anos, e como todo jovem, sentia-me meio perdido no mundo, adorava cinema,
queria fazer filmes, entrar de cabeça. Gostava muito de Londres, fiquei um ano e meio lá, viajei por
França e Alemanha. E as coisas acontecendo por aqui, éramos poupados, meu irmão e eu, dos
problemas.” O cinema foi uma das paixões da juventude nesse período, apesar da censura extrema
exercida pela ditadura militar. Foi uma década de filmes marcantes no estrangeiro, de Laranja Mecânica, de Kubrick, a Taxi Driver, de Scorcese, de Um Estranho no Ninho, de Milos Forman, a Cabaré, de Bob Fosse, de O Último Tango em Paris, de Bertolucci, a Apocalipse Now, de Copolla. No
Brasil, desenvolveu-se um cinema autoral, chamado de underground, ou “udigrudi”, no linguajar
coloquial, do qual resultaram obras-mestras como O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.
A esta altura, boa parte do dinheiro da venda do Old Eight tinha sido consumida em propriedades,
viagens, estaleiros, terrenos, concessionárias de automóveis e uma vida confortável e divertida. “Muitas
vezes, meu pai se aventurava em coisas que não eram do DNA dele”, diz Rogério. “Só que ele era assim,
fazer o quê?” Generoso, Fabrizio pai sempre foi. Usou parte do que restava e, mesmo alertado, para a situação econômica e os juros, buscou financiamento em bancos, principalmente no Bradesco, para
montar uma estrutura complexa, mas na qual apostava. Não podia dar errado, tal a certeza de que faria o
mesmo sucesso que tinha tido com o Old Eight.
Bastaria fazer saber que era um produto de Fabrizio Fasano. Seu nome desfrutava de excelente imagem.
O nome da bebida? Só poderia ser Brazilian Blend. A produção foi iniciada, a propaganda estruturada. A
campanha de marketing atingiu o Brasil inteiro. Jornais, revistas, rádio, outdoors e televisão foram
invadidos em escala nunca vista. Acentuemos que a publicidade brasileira havia dado um salto na década
de 1970, com mudanças radicais, como a libertação dos padrões americanos (antes, muita coisa era
simplesmente traduzida e adaptada) e o surgimento de uma geração impaciente, irreverente, audaciosa,
além do aparecimento do Clube de Criação de São Paulo, essencial, com seus anuários e novas teorias,
destinado a criar normas, a regulamentar a profissão, a construir valores, a defender a profissão e
ordenar a distribuição de prêmios anuais. Mesmo em plena ditadura, a propaganda brasileira avançou, se
modernizou, criticou e alavancou indústria e comércio.
Os publicitários eram estrelas de uma nova época, semideuses com salários fabulosos, roupas
descoladas e ideias fascinantes. Tempo áureo na propaganda brasileira. Com uma equipe de marketing na
retaguarda, Fabrizio montou a operação Brazilian Blend.
Patrocinando Copa do Mundo na tevê
A distribuição do uísque começou. Carretas lotadas direcionavam-se para o interior do estado, desciam
ao sul, rumavam ao norte, chegavam ao Amazonas, Pará, Maranhão. No norte e nordeste, Fabrizio
contava com a amizade, quase sociedade, de Paes Mendonça, megaempreendendor com sua poderosa
rede de supermercados, que já tinha sido um grande distribuidor do Old Eight. Não se poupou dinheiro, a
tal ponto que o Brazilian Blend foi um dos patrocinadores da Copa do Mundo de 1978 na televisão.
“Você podia estar ligado na Globo e entrava o comercial do uísque; se quisesse mudar para a Record,
para a Bandeirantes, Tupi, para qualquer emissora e suas associadas e repetidoras, o que via? O
Brazilian Blend. Porque tínhamos comprado todos os horários pagando um alto adicional, para que nos
mesmos intervalos o que se visse? O nosso uísque”, diz Fabrizio Júnior com orgulho. Uma pequena
fortuna foi gasta em produção, comercialização e lançamento. Agora era sentar, esperar o dinheiro voltar,
continuar produzindo para repor estoque. Fabrizio diz que 200 mil caixas estavam colocadas e outras 100
mil nos depósitos em São Paulo.
Tudo calmo, até que meses depois nuvens pesadas, cinzentas, logo se tornaram negras. Foi um ventinho
que se transformou em ventania e virou tsunami, abalou tudo, deixando Fabrizio assombrado. Ele perdeu
o pé, sem entender. Começaram a chegar reclamações, protestos, queixas, até insultos por telefone,
telegramas, cartas, pessoalmente. Um atrás do outro, sem parar.
– Que brincadeira foi essa, Fabrizio?
– Brincadeira?
– O que significa isso? Uísque branco?
– Que uísque branco?
– O seu. Está embranquecendo.
– Como embranquecendo?
– Eu é que sei??? Você é que tem de explicar.
– Espere, espere, conte tudo. Está a maior confusão.
– Um milagre, uma brincadeira, uma safadeza? O seu uísque perde a cor. Aquele caramelo lindo some, desaparece, vira água.
– Água...?
– Parece água, pode ser vodca, gim, qualquer coisa.
Fora de si, sem compreender nada, Fabrizio agiu imediatamente, começou a fazer ligações, mandou
buscar litros e litros do Brazilian Blend, tão novo, há poucos meses no mercado. Centenas de garrafas
começaram a chegar, vindas dos mais diferentes pontos do Brasil. Bebida branca, alva. No desespero ele
convidou amigos, contratou especialistas para analisar. Ninguém atinava com o problema. Então,
Fabrizio convocou o homem do malte, o que cuidara de tudo. Ele pareceu surpreso, assustou-se,
confessou:
– Você não poderia esperar anos para envelhecer o uísque. Usei um recurso, água oxigenada. Sempre
funcionou. É legal...
– Legal ou não, por que não me avisou? Teríamos esperado mais tempo.
– Esperado? Acha que não sei os custos, não sei os juros que se paga por mês, não conheço a inflação a 80 por cento? Você quebraria...
– E não vou quebrar? Água oxigenada...?
Conhecedores acentuam que o blender devia saber o efeito da água oxigenada, que nem era legal nem
ilegal. Pode, sem avisar Fabrizio, ter tentado uma experiência que funcionou em alguns lotes. A água
oxigenada, dependendo da proporção, provoca uma reação, anulando a cor do uísque, no qual, em geral,
para ficar uniforme, é adicionado um caramelo de milho, neutro. No caso do Brazilian Blend, passado um
certo tempo, num grande lote, a cor do uísque desapareceu. Não somente a cor, o gosto fora alterado
também. O uísque era um chá amargo, intragável. “Destruíram meu uísque”, desabafou Fabrizio. O
Brazilian Blend tinha nascido morto. Em três meses, tudo o que havia em estoque era uma substância
incolor, impossível de ser bebida.
Abismado, desorientado, Fabrizio viu a onda contra o “uísque branco” se avolumar como um furacão.
Em sua cabeça rondava uma grande dúvida. Aquele blender tinha errado na fórmula ou agido de má-fé? Ele repetiu inúmeras vezes, justificando-se, dizendo que era um problema econômico, ele tinha pensado
em ajudá-lo. Por outro lado, não foram duas nem três pessoas, mas dezenas que afirmaram de pés juntos
que o Brazilian Blend tinha sofrido um ato de sabotagem. Por conta de quem? Dos concorrentes? Como
saber? A quem acusar?
“Não havia tempo para investigar mistérios, era preciso trabalhar”, afirma Fabrizio. “Remodelar tudo,
mudar o fornecedor, produzir uísque sem água oxigenada. Mas a esta altura, quem queria comprar bebida
de mim? A onda tinha sido forte, o mercado é impiedoso.”
Por outro lado, o comércio exigiu o reembolso. Iniciou-se o complexo processo de repatriação das
milhares de caixas do Brazilian Blend. Trazer do Amazonas, Pará, Maranhão, Brasília, Paraná, Rio
Grande do Sul, de todos as partes, de capitais a vilas do interior, pagando os fretes, compensando
prejuízos. Muitas e muitas vezes, Fabrizio simplesmente dizia: “Joguem tudo fora”. Era mais barato.
Com o correr do tempo, nos bancos, os prazos expiravam, vinham as cobranças. Foram meses e meses
em que o caixa se esvaziou, os prazos apertaram, dívidas foram renegociadas, estendidas. “O problema de papai”, afirmam tanto Fabrizio Júnior e Andrea, “foi que ele, em lugar de parar com tudo, tentou
salvar seu uísque, mudar de fornecedor do malte, afundando-se mais. Era um pouco o orgulho italiano, a
integridade do empresário, a luta para manter-se de pé. A pressão chegou ao insuportável. Era triste vê-
lo ridicularizado nas páginas dos jornais, criticado no mercado, alvo de zombarias, chacotas”. Fabrizio,
apelidado de “uísque branco”, chegou ao fundo do poço.
A pressão continuava. As descidas são rápidas, o que é plano torna-se ladeira escorregadia, e os que
estão em volta, com raras exceções, não estendem as mãos. Os credores apertando, o dinheiro em caixa evaporou.
Concordata, o dia mais feliz
No dia 5 de maio de 1979, Fabrizio Júnior recebeu nos Estados Unidos um telefonema do pai. Ele achou
que fosse para cumprimentá-lo pelo aniversário. Fabrizio começou:
– Hoje, meu filho, é o dia mais feliz de minha vida...
– Que bom, pai. Pelo meu aniversário?
Fabrizio pareceu não tê-lo ouvido, continuou:
– Hoje é também o dia mais triste de minha vida, meu filho.
– Por que, pai?
– Daqui a pouco estarei assinando minha concordata.
– Significa o quê? Vai ter algum dinheiro?
Fabrizio riu ao telefone, explicou ao filho:
– Terminou, terminou tudo. Agora vou procurar me reabilitar, me levantar.
Pouco depois, Daisy foi para os Estados Unidos para pedir ao filho que voltasse para ajudar o pai.
Fabrizinho, com 18 anos na época, estava com tudo engatilhado, tinha uma proposta para ficar, ia jogar
futebol americano, ia ter faculdade e dormitório de graça e ainda ganharia 300 dólares por mês. Mas regressou ao Brasil com a ideia de mais tarde voltar aos Estados Unidos e fazer medicina. O pai o
advertiu assim que entrou em casa:
– Está bem, fico feliz que voltou, vai me ajudar. Só não vou permitir que não estude.
– Não se preocupe, vou estudar...
Na época, o escritório de Fabrizio era no bairro do Pacaembu, muito próximo à FAAP. O jovem foi até
lá, acabou se inscrevendo em um novo curso, o de economia. Era um momento em que economistas
estavam em alta, procurados por empresas ou pela mídia como consultores e colunistas. Formado, fez um
curso na Bolsa de Valores de Nova York e completou com um MBA em administração. Por essa época,
também, Rogério regressou e acompanhou parte da trajetória do pai buscando sair da concordata. Uma
vida inteiramente nova se iniciava.
Chegou a hora de vender os bens. A fazenda se foi, depois os terrenos, um a um, conforme a
necessidade de caixa. Daisy resistiu à venda do terreno de oito mil metros quadrados do Morumbi, uma
preciosidade, não houve jeito. Um a um os apartamentos e escritórios foram liquidados, e também a casa do Guarujá, os automóveis. No entanto, as vendas foram insuficientes, a dívida era enorme, o
empreendimento vultuoso.
Na Europa, Rogério conta que “começaram a chegar notícias de que aqui as coisas não estavam indo
bem. Mas eu jamais poderia imaginar que não ir bem significasse perder tudo. Perdemos casa, fazenda,
barcos, tudo, tudo”.
A família mudou-se para uma casa menor na rua Dráusio, no Butantã. O imóvel da rua Gália foi colocado à venda, demorou meses, as ofertas recebidas eram ridículas. No mercado, Fabrizio ganhou o
apelido de “uísque branco”. Ironizavam, donos de bares e boates tornaram-se zombeteiros, convites para
jantares e festas evaporaram. “Amigos se afastaram. Quando você tem tudo, vive rodeado”, disse
Rogério. “Mas quando perde tudo, descobre os que são verdadeiros amigos. Sobram tão poucos.”9
“A descida foi vertiginosa, uma queda radical, nos vimos reduzidos a quase nada”, sintetiza Andrea.
Tudo foi sendo levado. “Cansei de correr com mamãe para esconder tapetes, quando os fiscais, ou seja lá
o que fossem, chegavam com um mandado para confiscar peças, quadros, móveis, esculturas, o que havia. Enrolávamos os tapetes e jogávamos embaixo da cama e fazíamos cara de bobos, infelizes. Lembro-me
como cada confisco doía em papai. Ele sentia por nós. Era muito triste olhar para ele. Não podíamos
manifestar nenhum desejo, vontade, ele corria para nos satisfazer. Como se nada tivesse acontecido. E
gastava mais, não queria que nada faltasse, não queria que a gente sofresse um pingo.”
Ao voltar da Europa, a memória que ficou em Rogério daquela época era muito triste. “Ele, que sempre
foi exuberante, ativo, tornou-se um homem abatido, deprimido. Era difícil para todos. Ele cresceu muito
rápido e de repente explodiu, mas continuou lutando e dizendo que ia se recuperar, tudo ia dar certo de
novo. Acordava muito cedo, dormia tarde em busca de soluções, caminhos, não entregava os pontos.”
Ao mesmo tempo, outra questão abalou Fabrizio, empurrou-o mais para baixo. Daisy pediu o divórcio.
Não foi uma decisão súbita, ocasionada pela situação econômica. Foi o clímax de uma série de situações
provocadas pela vida boêmia de Fabrizio. Parecia ser mais forte do que ele, vivia aquela vida há anos,
não percebia que ultrapassava os limites. Daisy acendia a luz amarela, dizia “atenção, cuidado, posso
suportar por um tempo, mas não o tempo inteiro”. Havia algum tempo os desentendimentos e discussões se arrastavam. “Éramos testemunhas das brigas constantes, da falta de diálogo, dos desencontros. Nós, os
filhos, sofríamos também. Então, eles se separaram. Quando as coisas chegam, chegam para valer, vêm
em avalanche. Pressentíamos que aquilo aconteceria”, comentou Andrea, apelidada Deca, que nessa
época estava com quinze anos. “Ali o mundo de meu pai caiu de vez, veio abaixo, caiu tudo”, lembra.
Em casa, de repente, entravam oficiais de justiça e iam afixando nos quadros, móveis, esculturas,
tapetes, rótulos, vários tipos de bens, aprisionados, marcados: “Embargado, propriedade do banco tal”.
9 Numa das entrevistas que fiz em março de 2013, ao pedir a ele uma lista de amigos com os quais eu gostaria de conversar, ele me olhou, triste: “Tenho muito poucos amigos. Pouquíssimos.” (N. do A.)