Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Uma Experiência Editorial
Nesse período, era preciso sustentar a família, ganhar algum dinheiro. A ideia salvadora surgiu em uma
conversa entre duas famílias amigas, lembra-se Daisy, a deles e a do Luis Carta. Neste momento, Luis,
jornalista profissional, tinha aportuguesado o nome Luigi. Fabrizio era bom de conversa, sabia convencer as pessoas, tinha tino comercial. Por que não tentava o mundo editorial, em franca expansão com o
crescimento da Editora Abril? Fundada em 1950 por Victor Civita, a Abril começou lançando o Pato
Donald. Pouco mais de dez anos depois, deu uma arrancada com revistas como Claudia, que logo se
tornou a mais importante revista feminina do Brasil. Vieram as fotonovelas, que tinham imenso público, e
uma série de outras publicações. O eixo editorial brasileiro começava a se deslocar do Rio de Janeiro,
que não era mais a capital do país, onde havia as muito lidas O Cruzeiro e Manchete, para São Paulo.
Luis era diretor editorial e Domingo Alzugaray, o diretor comercial. Ambos, alicerces da Editora Abril
dos Civita. O argentino Alzugaray era uma figura curiosa, alto, bonito, galã de fotonovelas, que obtivera
sucesso em filmes dirigidos pelo argentino Carlo Hugo Christensen, como Matemática Zero, Amor Dez e
Meus Amores no Rio. Um homem empreendedor.
“A Abril, cuja sede era no centro da cidade, na rua João Adolfo, era pequena, mas grande para São
Paulo. Faturava muito com as infantis, com a Claudia e as fotonovelas”, diz Fabrizio. “Fiquei pouco
tempo como assistente do Luis, vi que o editorial não era meu mundo, e o Domingo me levou para o departamento dele. No comercial, eu me senti à vontade, conhecia o ofício. Peguei a Capricho com 150
mil exemplares, vendemos muito anúncio, a tiragem cresceu, chegou a 500 mil. Uma grande jogada foi
com Intervalo, a primeira revista de serviços da televisão no Brasil. Era um formato pequeno, 15 por 23
centímetros. Criei uma novidade para a época, a dos brindes. No meio da revista vinha um envelope
preto, lacrado. Dentro, os prêmios, que variavam de assinaturas de Intervalo a um automóvel
Volkswagen. Foram sorteados mais de quinze, virou febre. Quando terminaram os prêmios, a revista tinha
pegado.
Eu gostava das negociações com as empresas, com as agências de publicidade, vivia cheio de ideias,
era bom para dobrar os chefes de marketing, palavra que, na verdade, ainda não era usada na época. Com
uma equipe de talentos no comercial, era uma loucura o que se vendia, as pessoas pediam cinco, seis
números de uma vez nas bancas. Com o dinheiro, houve uma renovação editorial, a revista viu seu
borderô crescer, ganhou respeito no meio televisivo, se impôs. A maioria das grandes estrelas de hoje, superstars, estava iniciando e foi capa de Intervalo, e devem muito à revista na solidificação de suas
carreiras. Lembro-me de Susana Vieira, belíssima, com vinte e poucos anos, em novelas como Alma de
Pedra e Ninguem Crê em mim. Ela na capa fez a Intervalo estourar.”
Daisy lembra-se de que a filha Andrea a obrigava a descer à banca:
– Vamos lá, quero a “moinha”.
Era a sua maneira de dizer minha revista. Moinha, Daisy sabia, era a Intervalo. Uma não bastava, ela
queria quatro, cinco, queria prêmios. Nem esperava o pai que, no final do dia, sempre trazia alguns
exemplares do reparte que o comercial recebia para distribuir entre clientes. Daisy diverte-se ao contar
que muitas das primeiras fotonovelas eram produzidas por Domingo em seu próprio apartamento,
transformado em estúdio improvisado, com cenários e luzes, e a mulher dele, Katya, como produtora,
para baratear custos. Verdadeiros dramalhões que o povo consumia com avidez.
A Abril, em meados dos anos 1960, ocupava vários andares de um prédio na rua João Adolfo, vizinho
ao Hotel Cambridge, um dos estrelados da cidade. Ali tinha se hospedado Jane Russel. O point de jornalistas e publicitários era o bar e restaurante no térreo, lugar badalado no almoço e lotado no happy hour. Ali nasceu o Club Sandwich, então o mais refinado e caro da cidade. Os publicitários criaram
vários sanduíches na época, homenageando as revistas Capricho, Claudia, Manequim e Intervalo. “Um
dia”, admite Fabrizio, “cansei. Aquilo era um moedor de carne e de gente. Quis fazer outra coisa, que
estivesse mais de acordo comigo, com meu jeito, com o que eu sabia. E eu sabia da noite, de boates,
restaurantes, bebidas. Naquele período tivemos um sinal de sorte, de que as coisas mudariam.
Compramos um bilhete de uma rifa de amigos de Taquaritinga, onde Daisy sempre manteve amigos. E
ganhamos um carro Wolkswagen. Vendemos, capitalizava tudo o que era possível.”
Iniciava-se outra época para ele, para a dinastia Fasano. Uma reviravolta, e o dinheiro entraria à jorro.
A vida da família mudaria completamente.