Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
No Mercado Editorial, Agora Dono
O Old Eight vendia cerca de 700 mil a um milhão de caixas (de 12 garrafas cada) por ano. Liderava o
mercado e despertava um certo mal-estar na concorrência. Alguns tentaram usar o mesmo tipo de
propaganda que alavancou o produto de Fabrizio, o que o levou a publicar um grande anúncio em todos os jornais no dia 15 de outubro de 1971.
Royal Label versus Old Eight
Fabrizio Fasano, responsável pelo whisky Old Eight, tendo em vista os recursos publicitários
empregados pela Royal Label para o lançamento do seu whisky, comunica à praça em geral que
nenhuma vinculação de qualquer espécie existe entre uma e outra marca.
Lamentamos ainda que o fabricante do whisky em questão tivesse sido tentado valer-se de tal
expediente que fere, em nossa opinião, a ética comercial e publicitária, pois essa campanha poderia
levar nossos consumidores a pensar que estamos distribuindo mais uma marca de whisky. O que não é
absolutamente verdade.
Em vista disso, e na defesa dos nossos direitos mais legítimos, estamos adotando as medidas judiciais cabíveis.
Fabrizio Fasano
Old Eight Extra Whisky
O seu negócio crescia, ele ganhou a representação da cerveja Carlsberg para São Paulo, vendia a
vodca Smirnoff, o Old Eight e o Bell’s, o Benson E Girvan, o Thorne’s, o vinho Major Tannat, o
Granpierre, o bourbon Maker’s Mark e o licor Grand Marnier.
Com o Brasil ainda dentro de uma ditadura e o general Médici governando com mão de ferro,
ganhamos o tricampeonato de futebol no México, a televisão em cores chegou ao país, a ciência criou o
primeiro bebê de proveta, o heavy metal e a música punk dominaram o cenário, as primeiras discotecas
abriram em São Paulo, uma estranha palavra entrou na ordem do dia, ecologia, o terrorismo anunciou ao
mundo a sua vinda, os computadores, chamados cérebros eletrônicos, iniciavam a conquista do mundo e a filosofia do culto ao corpo entrou em cena com o jogging, o cooper, e o início da indústria de
alimentação natural, saudável.
Os jornais, a cada dia, estampavam uma nota, reportagem, informação sobre Fabrizio. Num momento
estava embarcando com a família para a Disneylândia da Flórida, no outro levando um grupo de
jornalistas para a Inglaterra, para a Escócia, para a França ou Alemanha, para qualquer lugar do mundo.
Ou enviando a Buenos Aires um grupo de barmen para um torneio de coquetelaria. O vencedor disputaria
um Concurso Internacional nos Estados Unidos. Agia como um relações públicas de luxo, porque tinha
conhecimento do mercado brasileiro, das necessidades, de como funcionava o sistema de bares, hotéis,
boates, o que fosse.
Num determinado momento de 1971, Fabrizio foi surpreendido por um convite dos amigos Luis Carta e
Domingo Alzugaray:
– Vamos abrir uma editora. Quer vir conosco?
– Uma editora? Vocês estão bem na Abril, no topo, montaram as engrenagens editorial e comercial.
– Mas a editora não é nossa.
– Vão aguentar a pressão da concorrência? Vai ser brava.
– O que tem hoje? A Bloch e a Globo no Rio e a Abril em São Paulo. Tem espaço para nós, tem nichos vazios, está na hora.
“Acabei entrando, gostava dos dois, acreditava no talento deles, eu estava com dinheiro, não custava.
Ainda que não quisesse me envolver de novo em vendas de páginas, em projetos comerciais, estava bem
de vida. Mas sou assim, um colecionador de sonhos.” Deste modo nasceu, no dia 2 de fevereiro de 1972,
a Editora Três. O nome foi fácil de decidir: havia a experiência de Luis para títulos, fossem de revistas,
artigos ou reportagens.
A nova empresa passou a funcionar em poucas salas num prédio da avenida Brigadeiro Luís Antônio, 2.344, oitavo andar, quase esquina da avenida Paulista, em cima de um cinema de luxo, o
Paulistano, aberto em 1969, na tendência que marcava a fuga do centro e a ocupação da região da
Paulista. Situava-se ainda ao lado de uma gafieira tradicional, o Cartola Clube, e de uma padaria, onde
em geral quem trabalhava na Três lanchava, incluindo Fabrizio e Luis Carta. Quase não havia móveis nas
três salas nos primeiros meses; Luis e Domingo levaram mesas e cadeiras de casa. Nem havia cortinas, o
sol entrava, e um telefone servia para todo mundo. O problema não era o aparelho, era conseguir linhas,
numa época em que as comunicações engatinhavam, apesar de ser pleno século XX.
“Dois meses depois da fundação, a Três colocou nas bancas sua primeira publicação, o fascículo de
gastronomia Menu, que estourou. Foi um período dominado pelos fascículos. Baratos, colecionáveis,
práticos, bem produzidos. Ganhava-se com os fascículos, ganhava-se com as capas para encadernar ao
fim de certo tempo. Houve uma reação das grandes editoras, que tentaram pressionar os jornaleiros na
base do: “Ou nós ou eles!” Situação que provocou tensão. Os jornaleiros, por sua vez, não podiam se
arriscar a perder vinte ou trinta revistas de porte por causa de uma única. Mas houve uma grande assembleia com o sindicato e os líderes dos distribuidores ponderaram que estavam diante de uma
situação inusitada. Se não apoiassem nunca as editoras nascentes, seriam sempre reféns das grandes, que
imporiam o jogo, as regras, os royalties a seu bel-prazer. Quanto mais o mercado abrisse, expandisse,
melhor para todos. E a Três entrou nas bancas. Mas por um bom tempo vivemos em suspense, imagine,
abrir uma editora e ter de fechá-la na mesma hora.”
Os planos da Três eram ambiciosos. Seis meses depois, a editora anunciava o lançamento em português
da Planeta, revista francesa de grande sucesso, a Planéte, criada por dois intelectuais de envergadura
como Louis Pauwells e Jacques Bergier, um homem de direita e um combatente da Resistência francesa.
Até o formato era diferente. Quase quadrada, 17,5 por 20 centímetros, era chamada revista de biblioteca,
porque parava de pé na estante. Um clarão se abriu no mundo editorial. O primeiro número de Planeta
vendeu 20 mil exemplares, o segundo 40 mil. No quarto número, a tiragem atingiu 120 mil e se
estabilizou, era um grande êxito.
Publicação diferenciada, inédita no mercado, assombrou ao tratar de assuntos considerados tabus,
como o poder do cérebro, as civilizações desaparecidas, a vida cotidiana no futuro, a fotografia pelo
pensamento, o esoterismo, o universo paralelo, as religiões africanas, a sexualidade, a psicanálise, a
existência das fadas e duendes, o poder dos raios, os casos malditos, ou seja histórias inexplicáveis num
mundo racional. Neve no deserto do Saara, vacas que caíam do céu, pessoas que desaparecem
misteriosamente, os extraterrestres, os discos voadores, a existência da alma etc.
“Acreditávamos na revista, mas nos surpreendemos com sua aceitação. Havia como que uma espera,
quase uma ânsia por esse tipo de publicação.7 Aqueles assuntos eram tabus, olhados com desconfiança,
mas Planeta tratava deles com espírito científico e nenhum sensacionalismo”, analisa Fabrizio.
E acrescenta: “O que impressiona, visto à distância, é que quando uma editora pensa em lançar um
produto no mercado, faz uma ampla pesquisa, interroga o possível público leitor, enfim, há uma
preparação. Na Três, não, todos confiavam no taco, no faro, tudo estava ainda por fazer.”
Movidos pela experiência e pelo instinto, Luis, Domingo e Fabrizio cresceram tanto que, em agosto de 1972, os jornais noticiavam que a Três tinha em bancas nada menos de seis publicações, com uma
tiragem total de 1,6 milhão de exemplares. Em curto espaço de tempo foram surgindo fascículos como A
Vida de Cristo, imenso sucesso, revistas femininas como a Mais, masculinas como a Status e a Lui,
infantis como a Garibaldo.
“Status foi a primeira revista masculina brasileira a enfrentar a rígida censura, colocando mulheres
nuas em meio a textos da mais alta qualidade. A briga com a censura era luta contra peso pesado.
Vetavam tudo. Havia regras estritas para exibir mulheres nuas, jamais um pelo púbico deveria ser mostrado, nem uma bunda, ou dois seios ao mesmo tempo. Quanto aos textos, eram implacáveis. Rubem
Fonseca, com o conto O Cobrador, ganhou um concurso da revista Status, que vendia cerca de 150 mil
exemplares. Como Rubem tinha tido um livro proibido (Feliz Ano Novo), seu conto também foi. Gilberto
Mansur, editor da revista, mandou a secretária redatilografar o conto, mudou o título, colocou um
pseudônimo e o conto voltou aprovado de Brasília.
Outra vez, muitos artigos e fotos de Mais haviam sido vetados, era preciso refazer tudo. Um dia, um
sujeito ligado à editora, com trânsito em Brasília, nos avisou: ‘Não mandem mais aquela jovem editora
vir negociar com os censores. Ele é bonita e elegante, e a chefe do departamento, uma megera,
funcionária pública frustrada, feia, a odeia, proíbe tudo.’ A jovem era a Maria Ignez França, se bem me
lembro. Este era o clima em que vivíamos. Pelas páginas de Status desfilaram de Julio Cortázar, dos
maiores escritores argentinos, a brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes,
Paulo Francis, Glauber Rocha, Jorge Amado, Rubem Braga, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Otto
Lara Resende.”
Há vivacidade nos olhos de Fabrizio ao rememorar a ascenção da editora que se impôs ao mercado.
“Lembro-me que ela avançou até o mais ousado emprendimento, a edição brasileira da Vogue, a revista
que ditava a moda no mundo. Era um sonho do Luis e ele conseguiu contaminar a todos. Já tinha havido
no Brasil várias tentativas de obter os direitos da revista, todos fracassados. No entanto, a Três contou
com um trunfo na figura de Rudi Crespi, brasileiro do jet set internacional, que circulava com
desenvoltura no eixo Paris-Londres-Roma, casado com uma das mais elegantes mulheres do mundo,
Consuelo. Esta figurava sempre na capa da Vogue americana, ou pelo mundo ao lado de Jacqueline
Kennedy, que aliás, naquela época, era Jackie O, por causa de Aristóteles Onassis, com quem tinha se
casado em 1968.
Lembro-me que as agências, a principio, relutaram quanto a anunciar em Vogue, indagavam: qual o
público dessa revista? Foi difícil convencê-los de que a Vogue era uma revista institucional, não de
varejo. Sofisticação e luxo era a sua diferença. ‘Luxo no Brasil?’ exclamavam. Quem quer luxo vai buscar no exterior. Mas batemos na tecla, batemos, e algumas boas agências se abriram, outras seguiram.
A Vogue teve boas páginas de publicidade no começo, depois chegou um momento em que se perguntava:
você não anunciou na Vogue? E a revista conquistou seu nicho, tanto que está ai há 38 anos, 35 dos quais
fiel à Carta Editorial.”
Carta Editorial porque, em meados dos anos 1970, Luis Carta e Domingo decidiram se separar, cada
um tomando seu rumo para segmentos diferentes. Domingo ficou com o nome da Três e Luis fundou a
Carta Editorial, que, àquela altura, funcionava em dois andares da avenida Paulista, em frente ao
Conjunto Nacional. Há uma leve interrogação sonhadora nos olhos de Fabrizio. “Das janelas da frente eu
contemplava ainda os letreiros do Jardim de Inverno, que não queriam dizer mais nada, a não ser
nostalgia, pensei, muitas vezes: o Fasano como restaurante, da maneira como fizeram meu pai e meu avô,
voltará um dia?”
Fabrizio confessa que nunca ganhou dinheiro com a Três, ao contrário, muitas vezes colocou. “Mas era
agradável viver tantas coisas, o meu mundo de bebidas finas mesclava-se com o mundo Vogue e os eventos eram muitas vezes feitos em conjunto. Divulgava minhas bebidas pelas páginas da revista,
fazendo permuta de uísque e de vinhos para as festas de lançamento”.
A Três, ainda nos anos 1970 até a separação, lançou títulos que mexeram com o público leitor como
Ciência e Vida, História, os fascículos A Bíblia e Bordado, as coleções de livros: os romances policiais
da série Super Gênios do Crime, Homens que Mudaram a História, Clássicos da Literatura Brasileira,
Biblioteca Planeta, com obras esotéricas raríssimas, jamais traduzidas no Brasil, abrindo ao público o
conhecimento da alquimia, por exemplo, e da arte da magia.
7 Conheci bem a revista Planeta, fui seu primeiro editor. Para isso, deixei a redação de Claudia, na Abril, passei um mês estagiando em Paris, e fui para a Três, levado pela aventura de fazer algo completamente novo, excitante. (N. do A.)
O homem que conhecia a noite
Fabrizio se via sempre homenageado. No dia 26 de junho de 1974, os jornais paulistanos
amanheceram com um anúncio de página inteira:
CONVIDAMOS
TODOS OS AMIGOS DE FABRIZIO FASANO,
ÁLVARO ASSUMPÇÃO,
PAULO COTRIM
E ABELARDO FIGUEIREDO
PARA A FESTA DE INAUGURAÇÃO DE UM
SENHOR BAR,
No dia 27 de junho de 1974, vamos inaugurar oficialmente o sofisticado refúgio desta cidade, o
Senhor Bar. E vamos aguardar a presença dos amigos para homenagear estes três homens que, antes
de Abelardo Figueiredo, acreditaram na noite paulista: Fabrizio Fasano, Álvaro Assumpção e Paulo
Cotrim.
Bela Cintra, 306
O BECO
Abelardo, com sua casa de shows O Beco, fez história em São Paulo. Alvaro era o Meninão e Paulo
Cotrim o primeiro colunista a criar uma coluna gastronômica em São Paulo.