Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 5 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

A Sessão de Cinema que Mudou uma Vida

Um dia, em 1952, a jovem Daisy Barbosa Salles e a amiga Ernestina Freitas Costa saíram do cine

Ipiranga, no Centro, caminharam um trecho e apanharam o trólebus, que tinha substituído os bondes que

subiam a rua Augusta, em direção ao Jardim Europa. A rua, onde as lojas tinham mudado de nome porque o comércio achava butique mais sofisticado e menos caipira, era lugar de paquera da juventude, com seus

pontos de encontro na casa de chá Yara, nos cines Paulista, Regência, Majestic, Marachá e nas

lanchonetes Hot-Dog, Longchamps e Simbad. Diante do cine Majestic, Daisy viu o letreiro anunciando o

filme Tico-Tico no Fubá, com Anselmo Duarte e Tônia Carrero, um sucesso da Cinematográfica Vera

Cruz, orgulho de São Paulo na época. História do compositor Zequinha de Abreu, com a cidade de Santa

Rita do Passa Quatro reconstituída nos estúdios de São Bernardo do Campo. Só se comentava isso e a

beleza de Tônia como uma amazona do circo, pela qual Zequinha se apaixonou e a quem dedicou a valsa

Branca.

– Vamos ver? – perguntou Daisy.

– Acabamos de sair do cinema.

– E vamos entrar em outro. O que temos a fazer?

A sala estava lotada, só encontraram duas poltronas juntas na primeira fila. Ao chegarem, viram que

havia uma capa numa das poltronas e um jovem moreno ao lado.

– Pode tirar a sua capa, por favor! Queremos sentar.

Ele olhou-as de alto a baixo.

– Não! Está guardado para a minha namorada.

– Não pode guardar lugar, o cinema está cheio, quase começando.

– Está guardado.

– Pois vamos chamar o lanterninha.

Naquele tempo, início dos anos 1950, os cinemas tinham lanterninhas, ou “vagalumes”, que indicavam

lugares, informavam, tomavam conta da sala, podendo expulsar namorados escandalosos. Em salas de

luxo, como o Majestic, o Regência, o Paulista, o Ipiranga, os lanterninhas usavam uniforme. Ante a

“ameaça”, sorrindo, o jovem tirou a capa e as duas se sentaram. O filme começou, mas o rapaz não tirava

os olhos de Daisy, que ficou incomodada, achando que ele estava achando estranho o cabelo à la

garçonne, que ela tinha acabado de cortar. Então, o moreno perguntou:

– Quer alguma coisa para comer?

– Não! Quero ver o filme.

Ele, olhando, insistente. Nem via o filme. Aborrecida, Daisy virou-se para Ernestina:

– Essa cara esta me chateando pra chuchu. Será que a gente consegue outro lugar?

– Olha aí! Tem gente de pé junto às paredes, sentada nos corredores, tudo lotado.

De repente, o moço levantou-se, Daisy alegrou-se, ele pediu:

– Pode me guardar o lugar? Já volto!

– Tudo bem.

Por momentos ficaria aliviada. Ele foi à bomboniére, que todo cinema na época que se prezasse tinha,

e voltou com chocolates, balas de goma, dropes e ofereceu:

– Um chocolatinho?

– Não como chocolate.

– Mas este é o Chamberlain, uma delícia, tem licor no meio.

– Não!

– Então uma bala de goma?

– Não gosto de goma.

Ele se acalmou, mas logo voltou à carga, ela recusando, impaciente, adorando Anselmo Duarte na tela.

Na época ele era o maior galã do cinema brasileiro, idolatrado por fãs no país inteiro, o maior salário da

Vera Cruz, considerado um dos homens mais bonitos do Brasil. Os galãs eram todos do cinema, a

televisão gatinhava, tinha acabado de chegar.

Terminado o filme, elas saíram, e ele atrás, puxando conversa. Daisy pensava: “Que sujeito insistente, chato.” Na calçada, elas deram tchau, mas ele não se perturbou, o olhar fixo em Daisy:

– Posso te acompanhar à sua casa?

Ela tremeu. Se o pai a visse acompanhada de um rapaz, seria castigo direto.

– Olha aqui! Você está muito enganado. Se chegar junto comigo, meu pai e meu irmão são trogloditas,

vão te matar, massacrar...

– Não vão, não!

– Se quiser, vá ao meu lado, não tão junto.

Daisy era filha de Virgínia e Antenor Barbosa Salles e tinha um irmão, José Rubens. Família que em

Taquaritinga, no interior de São Paulo, criara uma pequena empresa de ônibus, com uma linha até

Araraquara. Depois, Antenor veio para São Paulo e abriu a Cincal, uma casa de materiais de construção

que teve muito sucesso.

Subiram algumas quadras até a Paulista e desceram na direção da alameda Tietê, onde morava Daisy.

Na hora de se despedir, ele disse:

– Já te vi no Dante Alighieri. Você estuda, é professora, o quê?

– Professora, nesta idade? Sou aluna. Você me viu sobre um tamborete nos ensaios. Vai haver uma

apresentação no Pacaembu e sou uma das guias.

– Apresentação? Do quê?

– Você sabe. De ginástica. Nós, as guias, ficamos sobre pequenos tablados, como se fôssemos

maestros.

Ele sabia, ainda que não fosse. Eram comuns na década de 1950 as festas da ginástica, que reuniam

estudantes uma vez por ano no estádio do Pacaembu, em geral no 7 de Setembro, comemoração da

Independência. Juntavam-se os melhores de vários colégios paulistanos com os escolhidos do interior.

Ele nada disse na hora, mas tinha ficado impressionado com as pernas da morena Daisy, uma das

meninas mais bonitas do colégio.

– Estuda em que ano?

– Sexta série.

– Eu no primeiro científico. Sou Fabrizio. Fabrizio Fasano. Amanhã venho te pegar na saída. Você sai

às cinco, não é?

Ele enfiou as mãos no bolso, tirou um pedacinho de papel, escreveu atrás e entregou. Daisy olhou: era

uma fotografia dele e o número do telefone rabiscado. Lembra-se até hoje: 34.16.15. Cheio de confiança,

acrescentou:

– Pode me chamar, a qualquer hora...

– O que vou fazer com isso... Te ligar? Tire o cavalo da chuva.

No dia seguinte, segunda-feira, Daisy, preocupada, lembrou-se de Fabrizio e, às quatro e meia, pediu

para ser dispensada, alegou que não se sentia bem. A enfermeira deu a dispensa, ela voou para casa,

descendo a rua Peixoto Gomide. Quando estava chegando, parou um táxi e dele desceu Fabrizio, afobado.

Tinha um sobretudo sobre ombros, enorme, via-se que não era dele, devia ter apanhado o casaco do pai.

Fabrizio:

– Desculpe-me, é a nossa primeira vez e cheguei atrasado, na próxima vez serei pontual.

Daisy refletiu: “Quem ele pensa que é? Primeira vez? Primeira vez do quê? Acha que já está me

namorando?” Na época, ela não tinha namorado e nem queria ter. Aos quinze anos, tinha encontrado no

Dante Alighieri o lugar ideal, alegre, “cheio de oriundi”, como ela diz. Daisy vinha de um colégio de

freiras, rígido, severo, só de meninas. No Dante os rapazes faziam parte das turminhas, misturavam-se no

recreio, havia sempre festinha na casa de um e de outro, com muitas danças. As mais velhas contavam

dos namoros, faziam confidências, o mundo se abria. Mas ela não pensava em namorados, queria se divertir e explicou isso a Fabrizio.

No entanto, ele era insistente, gentil, e mostrava-se tão romântico com ela que foi cedendo, namoraram.

Nessa época ele começou a dizer que logo iria embora, queria estudar nos Estados Unidos, estava

ajeitando as coisas. Ela jamais esqueceu a noite em que foram a uma festa e ele levou um perfume

francês, Je Reviens. Ela entendeu o significado. Voltarei. Era curioso, porque um jovem sedutor, porém

quieto, na dele, Fabrizio tinha todas as meninas dando em cima dele. A tal ponto que as professoras

alertavam:

– Daisy, não é melhor você ter outro namorado?

– Por quê? Fabrizio é bonito, educado, boa família, me trata bem.

– Sei, mas cuidado, ele é um tanto quanto...

Naquela época, diz Daisy, este tanto quanto não era dúvida quanto à masculinidade como hoje. Era

sim uma referência aos que eram conhecidos como “pegadores”. Havia também o fato de que Fabrizio

tinha sido reprovado por faltas e todos sabiam que nas suas manhãs, em lugar de ir à aula, estava jogando snooker no Castelotti, na alameda Jaú. Por outro lado, ele se movia com diplomacia por todos os lados,

conquistava as pessoas, tinha uma boa lábia, como se dizia. Apanhava o boletim de Daisy, comentava,

sempre elogiando, era um cavalheiro. Assim, ela não deu ouvidos aos diz-que-diz e o namoro continuou.

Para o pai dela, um quatrocentão conservador, Fabrizio era o “italianinho”. Mas já que a filha gostava

dele, não se opunha. A esta altura, Daisy olhava-o com menos resistência, começou a achar simpático o

assédio constante, admirava-se com a audácia. Acabou cativada. Uma paixão que atravessou a vida,

continua até hoje.

Para os quinze anos de Daisy, os pais fizeram uma grande festa, com muitos convidados, todas as

amigas apareceram. No entanto, Antenor permitiu que do colégio fossem convidados apenas três rapazes.

Fabrizio era um. “Lá pelas tantas, a festa na maior animação, percebi que além de Fabrizio estavam o

Luigi Carta, o Petrarca, o Castelotti. Assustei-me! Na verdade, todos os amigos dele estavam lá. Como

conseguiram entrar, não sei. Mas o primeiro científico inteiro tinha dado as caras, mais de vinte. Então, eu estava completamente apaixonada, como se pode estar aos 15 anos. Sonhava acordada”, conta Daisy.

“Meus pais iam para um carteado em casa de amigos ou no clube, e a empregada, que tinha um

namorado, também saia. Sozinha e livre, eu ficava na porta de casa, esquina da rua Haddock Lobo com a

alameda Tietê. E eram beijos, abraços e nada mais, olhe lá! Nos finais de semana os encontros eram no

cinema. Tínhamos um código. Eu ligava rapidamente, ele atendia, eu dizia: cinema tal, e desligava. Eu

chegava antes e esperava. Ele entrava e passava em frente à tela para mostrar que estava na sala. Eu tinha

guardado lugar, acenava, sentávamos juntos”.

Na formatura de Daisy no luxuoso Hotel Esplanada, uma espécie de Copacabana Palace paulistano

(hoje é a Votorantim, atrás do Teatro Municipal), havia 600 pessoas, e nada foi mais comentado que o

jovem casal Fasano-Salles. Foram chamados de “o casal vinte”, uma gíria da época, vinda dos colunistas

sociais que, todos os anos, elegiam os dez e as dez mais elegantes. Quando tanto o homem quanto sua

mulher estavam na lista, eram chamados “casal vinte”, o máximo. Então, Fabrizio embarcou para os

Estados Unidos, matriculado na Universidade do Texas, em Houston, onde foi colega de Roberto Civita, jornalista e executivo da editora Abril, recentemente falecido.

Daisy não se conformava. “Estava com o coração despedaçado, meu mundo caiu. Chorava, chorava,

minhas amigas também choravam. Aquele era o romance que elas poderiam estar vivendo, o Fabrizio era

como que o namorado de todas. O Dante inteiro sabia da minha dor, eu era uma Julieta sem Romeu. No

dia em que ele embarcou para o Texas, na hora do almoço eu não parava de chorar. Meu pai, que já tinha

aceitado o ‘italianinho’ me mandou para o quarto, ‘Fique chorando lá, não aqui na mesa do almoço’. As

cartinhas do Fabrizio, não tantas... aliás, eram poucas, pouquíssimas... eu, sim, escrevia sem parar... as dele, quando chegavam, eram motivos de telefonemas e de reuniões no recreio, todas queriam ler.”