Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 21 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Sucessão de Fatos que Provocam Orgulho em Fabrizio

SUCESSÃO DE FATOS QUE PROVOCAM

 

ORGULHO EM FABRIZIO

A história se acelera. Quando, em 2003, o Fasano da Haddock Lobo, com menos lugares, novas

roupagens, porém mais sóbrio e elegante, transferiu-se para dentro do Hotel Fasano, o novo

empreendimento familiar, o primeiro no ramo hoteleiro, muita coisa havia mudado no Brasil. Vivia-se um regime de estabilidade econômica, desde a implantação do Plano Real no governo Itamar Franco, quando

Fernando Henrique Cardoso era o ministro da Fazenda. Em 1995, FHC foi eleito para a presidência da

República e consolidou o real como moeda. O Brasil avançou, a inflação foi debelada. Pela primeira vez

em décadas vivia-se sem o temor diário e exaustivo dos reajustes de preços que estressavam os

brasileiros cotidianamente. Houve inclusive uma melhora de 24,2% no Índice de Desenvolvimento

Humano, o IDH.

A década seguinte seria a do presidente Luis Inácio Lula da Silva, que vinha de um passado de lutas

sindicalistas e oposição à ditadura. Ele não mexeu nos fatores econômicos e a estabilidade prosseguiu.

Instituiu o Bolsa Família, grande marca de seu governo, e destinado a retirar parte da população da

miséria. Realmente houve a ascensão das classes C e D, que vieram compor uma fatia da classe média,

tornando-se parte da sociedade de consumo. Lula, com sua força política, fez de Dilma Rousseff sua

sucessora. A manutenção da política econômica, com as mesmas figuras e vícios, mais a situação mundial

periclitante, levaram à volta da inflação no terceiro ano de governo Dilma. Socialmente, houve a “revolução das ruas”, com o povo em massa protestando contra o arcaísmo das instituições e a corrupção

desenfreada da classe política.

O Hotel Fasano, na rua que acabou ganhando o nome do patriarca, foi um sonho inicial de Fabrizio

antes do restaurante da Haddock Lobo, desativado na ausência de um sócio. Durante treze anos Rogério

tomou para si o projeto e com o apoio do pai passou a desenvolvê-lo. “O comprometimento de meu pai

em todos os empreendimentos estabelecidos impressiona. Este é um pai como poucos têm igual. Ele

encoraja, estimula e trabalha nos bastidores para que as coisas aconteçam.”

Comprado, o terreno ficou quatro anos à espera até ser formada uma sociedade com a família Diniz.

Nesse meio tempo continuavam os estudos até a concretização da ideia de como seria esse hotel. Uma

coisa era clara: teria o requinte da marca Fasano.

Entre 2000 e 2003 outras coisas vinham se sucedendo, como a abertura de um Armani Caffè na mesma

rua Haddock Lobo (fechado em 2008) e a criação da Enoteca Fasano, em 2003. O que se havia notado é que muitos clientes das diversas casas tinham interesse em comprar os vinhos ali servidos. A Enoteca foi

criada como importadora de nicho, com pequeno portfólio de marcas exclusivas. O luxo do design do

arquiteto Mario Peirão marcava a Enoteca. Piso de mármore travertino Navona, estantes com tábuas em

madeira camarão clareada. A iluminação era dimerizada. Com um wine bar, a Enoteca recebia grupos

para degustação e comemoração. Havia ainda a intenção de buscar estabelecer de maneira mais incisiva

a marca do vinho Fasano. A chamada Selezione Fasano era composta por cinco marcas dos mais

importantes produtores italianos, escolhidos após longa pesquisa feita pela família Fasano, que percorreu

as regiões de Piemonte, Veneto, Toscana, Friuli-Giulia-Venezia. Havia lojas no Rio de Janeiro e em São

José dos Campos. Menina dos olhos de Fabrizio e um sócio, a Enoteca foi vendida em 2011 para a World

Wine.

No momento em que o Hotel absorveu o restaurante, em 2003, a primeira ideia foi transformar a casa

da Haddock Lobo em espaço para eventos. Com uma reforma surgiu uma sala de 600 metros quadrados.

Estava no ar a ideia da Casa Fasano, destinada a abrigar grandes acontecimentos com filosofia e padrão de serviço dos restaurantes. Andrea, que já conduzia o bufê, estava à frente, ao lado do pai e do irmão. A diferença entre a Casa e o bufê é que o bufê vai onde o cliente quer. A casa é o local onde tudo se passa.

“Diversificava o grupo”, diz Fabrizio, “acompanhando as mudanças do mundo, da sociedade, da

economia. Nada mais era como antes.” O hotel estava de pé, a Casa Fasano anunciada. O restaurante

passou para o hotel. Rogério dizia na época que agora era um restaurante com hotel. Ou, se contássemos

o Baretto, um bar e restaurante com hotel.

Com um investimento pesado e projeto de Isay Weinfeld e Marcio Kogan, estrelas da arquitetura na

época, o hotel tem 23 andares, 64 apartamentos, todos de frente para os jardins. Fachada austera, com relógio no alto, uma tradição retomada dos antigos edifícios nobres da cidade. Os tijolos da fachada

vieram todos de Londres. Sobriedade acima de tudo. “Resquícios das impressões que ficaram em meu

filho de sua estada em Londres, onde foi estudar cinema. Veja o bar Londra, dentro do Fasano Al Mare,

no Rio de Janeiro. Aqui, eu que sempre tive tantos sonhos, vou acompanhando os sonhos de cada um”,

comenta Fabrizio. Todos reconhecem. Por trás está o homem que vai aos bancos, levanta financiamentos,

consolida negócios. Coloca o nome em jogo, assina.

Na evolução do grupo (hotéis no Rio de Janeiro, em Punta Del Este, em Boa Vista, SP), novas

configurações foram efetuadas e a empresa ganhou sócios, como a JHFS. A história dos negócios foge ao

intento deste livro, destinado a traçar, em uma crônica extensa, a trajetória pessoal de Fabrizio, que

sempre se disse colecionador de sonhos. Uma história permeada pelas relações ternas, ásperas, amorosas

e explosivas de uma família que carrega um nome que se tornou grife jamais superada.

De seu pequeno escritório, Fabrizio acompanhou ao longo destes anos o leque se abrindo pelas mãos

do filho Rogério. Assim, veio 2002 com o Gero carioca na esquina da Aníbal de Mendonça com a Redentor, próximo ao Arpoador. Decorado com fotos do Rio antigo, o restaurante de 110 metros

quadrados tornou-se o must (na linguagem da crônica), com as receitas trazidas de São Paulo. Ficar nas

filas de espera, nelas ser fotografado, ser citado pelos colunistas, tornou-se uma referência.

“Na rua Leopoldo Magalhães, em São Paulo, estava a casa onde moraram meus tios Fábio, irmão de

meu pai, e Lia, filha do Amador Aguiar. Uma casa imensa, confortável, com um belo gramado, no qual

jogávamos futebol aos sábados. Nos finais de semana estávamos sempre lá; os tios eram hospitaleiros e

adoravam a sobrinhada”, lembra Rogério. “Quando resolvi me casar com Ana Luisa de Aguirre Joma,

pensei que aquela casa, então fechada, seria ideal para uma grande festa. Pedi e minha irmã Deca foi

conversar com meu primo Marcelo, que adorou a ideia. Em trinta dias, Deca deixou a casa deslumbrante.

Logo depois de meu casamento, veio a ideia de que ali podia ser instalado o bufê Fasano. Ora, bufê era

com ela. Sempre apoiei para que Andrea tivesse seu próprio negocio. Bufê é totalmente diferente de

restaurante. Para bufê não tenho a menor inclinação, já minha irmã é a legítima continuação do nonno Ruggero. Sempre teve aptidão, herdou o talento do meu avô, traz dentro dela o mesmo dom. Os links da

família se fazem e refazem.”

Em 2007, os grandes hotéis de luxo cariocas se espantaram com a inauguração do Hotel Fasano,

assinado por Philippe Starck, superstar do novo design. Reportagem da Veja Rio, em agosto daquele ano,

mostra a angústia de Rogério às voltas com os retoques finais, às vésperas da inauguração: “Parece coisa

de filme de Jacques Tati, muita confusão, a aflição é tremenda. Sensação de que nada vai dar certo. Mas

do outro lado da linha, ou vindo aqui visitar, há o ombro do pai, seu aperto de mão, o olhar algo

atemorizado, substituído pelo sorriso final a aprovar as ‘loucuras’, afinal, somos Fasano.” Ali estava

também o Fasano Al Mare, restaurante especializado em frutos do mar, rapidamente celebrado como um

dos melhores lugares do Rio para se comer um peixe. No final, os sócios do empreendimento felizes ao

ver um hotel se ombreando em nobreza com o Copacabana Palace.

Em 2007, em São Paulo, o Fasano entrou no Shopping com o Armani Caffè. Só poderia ser no Iguatemi,

o pioneiro e considerado o mais luxuoso e querido da cidade, já integrado ao segmento luxo. Neste flutuar sobre o luxo, no ano seguinte, o restaurante Nonno Ruggero se desdobraria para o Shopping

Cidade Jardim. O leque se abria cada vez mais. Até o dia em que Fabrizio viu que Rogério e Isay

Weinfeld estavam tramando mais alguma para os lados do Rio de Janeiro. O resultado foi o Gero Barra,

na Rua Érico Verissimo, 190. Inaugurado em 2011, levando para a Barra o restaurante mais premiado da

cidade.

É isso que Fabrizio, que viu sua saúde debilitada poucos anos atrás, tendo passado por uma

intervenção cirúrgica, contempla com orgulho na quase (sim, quase, porque internamente é um inquieto constante) quietude em que vive hoje. Esta é praticamente uma lista cujo DNA está em Milão, chegou ao

Brasil, se iniciou com Vittorio, teve um hiato, recuperou-se com Ruggero e Fabrizio, veio um novo

espaço, até que o nome e a tradição vêm revitalizados e ampliados pela nova geração, ainda que em

setores diferentes.