Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Sucessão de Fatos que Provocam Orgulho em Fabrizio
SUCESSÃO DE FATOS QUE PROVOCAM
ORGULHO EM FABRIZIO
A história se acelera. Quando, em 2003, o Fasano da Haddock Lobo, com menos lugares, novas
roupagens, porém mais sóbrio e elegante, transferiu-se para dentro do Hotel Fasano, o novo
empreendimento familiar, o primeiro no ramo hoteleiro, muita coisa havia mudado no Brasil. Vivia-se um regime de estabilidade econômica, desde a implantação do Plano Real no governo Itamar Franco, quando
Fernando Henrique Cardoso era o ministro da Fazenda. Em 1995, FHC foi eleito para a presidência da
República e consolidou o real como moeda. O Brasil avançou, a inflação foi debelada. Pela primeira vez
em décadas vivia-se sem o temor diário e exaustivo dos reajustes de preços que estressavam os
brasileiros cotidianamente. Houve inclusive uma melhora de 24,2% no Índice de Desenvolvimento
Humano, o IDH.
A década seguinte seria a do presidente Luis Inácio Lula da Silva, que vinha de um passado de lutas
sindicalistas e oposição à ditadura. Ele não mexeu nos fatores econômicos e a estabilidade prosseguiu.
Instituiu o Bolsa Família, grande marca de seu governo, e destinado a retirar parte da população da
miséria. Realmente houve a ascensão das classes C e D, que vieram compor uma fatia da classe média,
tornando-se parte da sociedade de consumo. Lula, com sua força política, fez de Dilma Rousseff sua
sucessora. A manutenção da política econômica, com as mesmas figuras e vícios, mais a situação mundial
periclitante, levaram à volta da inflação no terceiro ano de governo Dilma. Socialmente, houve a “revolução das ruas”, com o povo em massa protestando contra o arcaísmo das instituições e a corrupção
desenfreada da classe política.
O Hotel Fasano, na rua que acabou ganhando o nome do patriarca, foi um sonho inicial de Fabrizio
antes do restaurante da Haddock Lobo, desativado na ausência de um sócio. Durante treze anos Rogério
tomou para si o projeto e com o apoio do pai passou a desenvolvê-lo. “O comprometimento de meu pai
em todos os empreendimentos estabelecidos impressiona. Este é um pai como poucos têm igual. Ele
encoraja, estimula e trabalha nos bastidores para que as coisas aconteçam.”
Comprado, o terreno ficou quatro anos à espera até ser formada uma sociedade com a família Diniz.
Nesse meio tempo continuavam os estudos até a concretização da ideia de como seria esse hotel. Uma
coisa era clara: teria o requinte da marca Fasano.
Entre 2000 e 2003 outras coisas vinham se sucedendo, como a abertura de um Armani Caffè na mesma
rua Haddock Lobo (fechado em 2008) e a criação da Enoteca Fasano, em 2003. O que se havia notado é que muitos clientes das diversas casas tinham interesse em comprar os vinhos ali servidos. A Enoteca foi
criada como importadora de nicho, com pequeno portfólio de marcas exclusivas. O luxo do design do
arquiteto Mario Peirão marcava a Enoteca. Piso de mármore travertino Navona, estantes com tábuas em
madeira camarão clareada. A iluminação era dimerizada. Com um wine bar, a Enoteca recebia grupos
para degustação e comemoração. Havia ainda a intenção de buscar estabelecer de maneira mais incisiva
a marca do vinho Fasano. A chamada Selezione Fasano era composta por cinco marcas dos mais
importantes produtores italianos, escolhidos após longa pesquisa feita pela família Fasano, que percorreu
as regiões de Piemonte, Veneto, Toscana, Friuli-Giulia-Venezia. Havia lojas no Rio de Janeiro e em São
José dos Campos. Menina dos olhos de Fabrizio e um sócio, a Enoteca foi vendida em 2011 para a World
Wine.
No momento em que o Hotel absorveu o restaurante, em 2003, a primeira ideia foi transformar a casa
da Haddock Lobo em espaço para eventos. Com uma reforma surgiu uma sala de 600 metros quadrados.
Estava no ar a ideia da Casa Fasano, destinada a abrigar grandes acontecimentos com filosofia e padrão de serviço dos restaurantes. Andrea, que já conduzia o bufê, estava à frente, ao lado do pai e do irmão. A diferença entre a Casa e o bufê é que o bufê vai onde o cliente quer. A casa é o local onde tudo se passa.
“Diversificava o grupo”, diz Fabrizio, “acompanhando as mudanças do mundo, da sociedade, da
economia. Nada mais era como antes.” O hotel estava de pé, a Casa Fasano anunciada. O restaurante
passou para o hotel. Rogério dizia na época que agora era um restaurante com hotel. Ou, se contássemos
o Baretto, um bar e restaurante com hotel.
Com um investimento pesado e projeto de Isay Weinfeld e Marcio Kogan, estrelas da arquitetura na
época, o hotel tem 23 andares, 64 apartamentos, todos de frente para os jardins. Fachada austera, com relógio no alto, uma tradição retomada dos antigos edifícios nobres da cidade. Os tijolos da fachada
vieram todos de Londres. Sobriedade acima de tudo. “Resquícios das impressões que ficaram em meu
filho de sua estada em Londres, onde foi estudar cinema. Veja o bar Londra, dentro do Fasano Al Mare,
no Rio de Janeiro. Aqui, eu que sempre tive tantos sonhos, vou acompanhando os sonhos de cada um”,
comenta Fabrizio. Todos reconhecem. Por trás está o homem que vai aos bancos, levanta financiamentos,
consolida negócios. Coloca o nome em jogo, assina.
Na evolução do grupo (hotéis no Rio de Janeiro, em Punta Del Este, em Boa Vista, SP), novas
configurações foram efetuadas e a empresa ganhou sócios, como a JHFS. A história dos negócios foge ao
intento deste livro, destinado a traçar, em uma crônica extensa, a trajetória pessoal de Fabrizio, que
sempre se disse colecionador de sonhos. Uma história permeada pelas relações ternas, ásperas, amorosas
e explosivas de uma família que carrega um nome que se tornou grife jamais superada.
De seu pequeno escritório, Fabrizio acompanhou ao longo destes anos o leque se abrindo pelas mãos
do filho Rogério. Assim, veio 2002 com o Gero carioca na esquina da Aníbal de Mendonça com a Redentor, próximo ao Arpoador. Decorado com fotos do Rio antigo, o restaurante de 110 metros
quadrados tornou-se o must (na linguagem da crônica), com as receitas trazidas de São Paulo. Ficar nas
filas de espera, nelas ser fotografado, ser citado pelos colunistas, tornou-se uma referência.
“Na rua Leopoldo Magalhães, em São Paulo, estava a casa onde moraram meus tios Fábio, irmão de
meu pai, e Lia, filha do Amador Aguiar. Uma casa imensa, confortável, com um belo gramado, no qual
jogávamos futebol aos sábados. Nos finais de semana estávamos sempre lá; os tios eram hospitaleiros e
adoravam a sobrinhada”, lembra Rogério. “Quando resolvi me casar com Ana Luisa de Aguirre Joma,
pensei que aquela casa, então fechada, seria ideal para uma grande festa. Pedi e minha irmã Deca foi
conversar com meu primo Marcelo, que adorou a ideia. Em trinta dias, Deca deixou a casa deslumbrante.
Logo depois de meu casamento, veio a ideia de que ali podia ser instalado o bufê Fasano. Ora, bufê era
com ela. Sempre apoiei para que Andrea tivesse seu próprio negocio. Bufê é totalmente diferente de
restaurante. Para bufê não tenho a menor inclinação, já minha irmã é a legítima continuação do nonno Ruggero. Sempre teve aptidão, herdou o talento do meu avô, traz dentro dela o mesmo dom. Os links da
família se fazem e refazem.”
Em 2007, os grandes hotéis de luxo cariocas se espantaram com a inauguração do Hotel Fasano,
assinado por Philippe Starck, superstar do novo design. Reportagem da Veja Rio, em agosto daquele ano,
mostra a angústia de Rogério às voltas com os retoques finais, às vésperas da inauguração: “Parece coisa
de filme de Jacques Tati, muita confusão, a aflição é tremenda. Sensação de que nada vai dar certo. Mas
do outro lado da linha, ou vindo aqui visitar, há o ombro do pai, seu aperto de mão, o olhar algo
atemorizado, substituído pelo sorriso final a aprovar as ‘loucuras’, afinal, somos Fasano.” Ali estava
também o Fasano Al Mare, restaurante especializado em frutos do mar, rapidamente celebrado como um
dos melhores lugares do Rio para se comer um peixe. No final, os sócios do empreendimento felizes ao
ver um hotel se ombreando em nobreza com o Copacabana Palace.
Em 2007, em São Paulo, o Fasano entrou no Shopping com o Armani Caffè. Só poderia ser no Iguatemi,
o pioneiro e considerado o mais luxuoso e querido da cidade, já integrado ao segmento luxo. Neste flutuar sobre o luxo, no ano seguinte, o restaurante Nonno Ruggero se desdobraria para o Shopping
Cidade Jardim. O leque se abria cada vez mais. Até o dia em que Fabrizio viu que Rogério e Isay
Weinfeld estavam tramando mais alguma para os lados do Rio de Janeiro. O resultado foi o Gero Barra,
na Rua Érico Verissimo, 190. Inaugurado em 2011, levando para a Barra o restaurante mais premiado da
cidade.
É isso que Fabrizio, que viu sua saúde debilitada poucos anos atrás, tendo passado por uma
intervenção cirúrgica, contempla com orgulho na quase (sim, quase, porque internamente é um inquieto constante) quietude em que vive hoje. Esta é praticamente uma lista cujo DNA está em Milão, chegou ao
Brasil, se iniciou com Vittorio, teve um hiato, recuperou-se com Ruggero e Fabrizio, veio um novo
espaço, até que o nome e a tradição vêm revitalizados e ampliados pela nova geração, ainda que em
setores diferentes.