Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
O Princípio de uma Dinastia
No principio, houve Vittorio, casado com Marietta, bela mulher, com quem teve seis filhos: Ugo,
Mario, Bruno, Nena, de apelido Adélia, Ruggero e Bianca, que morreu prematuramente.
Assim se inicia o que se pode chamar dinastia da nobreza gastronômica paulistana, os Fasano. Vittorio, um milanês, deixou Gênova, onde estava estabelecido, vindo para São Paulo na última década do século
XIX, segundo relatos em família. Foi trabalhar no comércio de café e fez dinheiro. Desde o século XVIII
o café se tornara a alavanca da economia brasileira, criando milionários (chamados barões do café),
dando base à fundação de cidades, ferrovias e portos. São Paulo no começo do século XX era uma
cidade de 240 mil habitantes, que atraía imigrantes italianos, árabes, portugueses, japoneses e judeus. As
condições socioeconômicas, o início acelerado da industrialização, o crescimento da população,
ocasionaram na Itália desemprego e fome. Entre 1880 e 1929, auge da imigração, nada menos de
3.500.000 italianos desembarcaram no Brasil.
Vila provinciana, que começava a romper o casulo com uma industrialização incipiente. Novas ruas
eram abertas, chegava a iluminação elétrica, substituindo os lampiões a gás. A capital dava ares de
moderna com uma classe média alta e uma burguesia endinheirada voltada para a Europa. Era comum as
grandes famílias viajarem para a França de vapor, levando empregados e sacas de café, arroz e feijão.
De lá traziam vestuário, mobiliário, acessórios de decoração e hábitos do bem comer.
Vittorio, mestre confeiteiro, uma vez integrado à cidade, foi trabalhar na Confeitaria Castelões, no
Centro, um dos pontos onde a elite paulistana se reunia. A vida social e econômica girava em torno do
chamado Triângulo, formado pelas ruas São Bento, Direita e Quinze de Novembro, onde se localizava o
centro financeiro. Assim que dominou o ofício, Vittorio arranjou um sócio e abriu seu próprio
estabelecimento, a Brasserie Paulista, no largo do Rosário, hoje praça Antonio Prado. A vida ao lado de
Marietta corria suave: os filhos foram estudar na Itália; Vittorio juntava-se a eles boa parte do ano.
Homem elegantíssimo, levava junto seu carro, um Isotta Fraschini luxuoso, que era o must da época, caro
e raro. Foi o primeiro a entrar no Brasil.
Bastaram alguns anos para Vittorio, empreendedor e ousado, deixar a sociedade e fundar seu
restaurante, o Fasano, o primeiro de uma longa série que atravessaria o século. Na praça Antonio Prado
abriu-se a casa mais chique da cidade. Sua cozinha internacional, requintada de sabores e perfumes, se
impôs em uma São Paulo ansiosa por novidades e status.
Em 1913 morreu mamma Marietta, quando o filho temporão, Ruggero, tinha apenas seis anos. Dez anos
depois, morria Vittorio, quando seus negócios passaram a ser tocados por seu genro, Valente Giannini,
casado com Nena, ou Adélia, que comprou a parte de todos os irmãos. Neste momento, começa a entrar
em cena Ruggero, o quinto filho, que teria um papel fundamental na saga dos Fasano. Àquela altura, nada
indicava que acabaria sendo um restaurateur, uma vez que, crescido e formado na Itália, Ruggero cursou
uma das mais famosas escolas militares, a de Moncalieri, próxima a Turim, cidade que abriga ainda o
castelo residência dos Savoia, a família real. Tinha tudo favorável a uma carreira militar bem-sucedida.
Familia que se preza tem seus mitos1
Como não há registros escritos, documentos, iconografia, a saga de Vittorio tem sido apoiada no relato
oral que sugere aqui uma versão que corre paralela. O que seriam dos mitos sem as várias visões?
Vittorio, já homem riquíssimo teria vindo para o Brasil no inicio do século XX. Não há o mínimo indicio da origem desta riqueza. Nem resposta à pergunta: se era rico e gozava de boa situação, porque imigrar?
Pela aventura? Quanto ao nome da família viria da localidade de Fasano, a beira do lago de Garda, o
maior da Itália, ao norte do país. Vittorio era conhecido por ser mão aberta, principalmente para com as
mulheres às quais dava presentes dispendiosos.
Bon vivant, acostumado a viver na alta sociedade italiana, relacionava-se com a nobreza, vestindo-se
com apuro. Acostumado a comer bem, ressentiu-se aqui com a precariedade do comércio e do mercado.
Importou um cozinheiro que, por sua vez, exigia grano duro, fermento natural e ingredientes não existentes. O que Vittorio fazia? Importava. Conta-se que, a certa altura, desejoso de comer panetone,
mandou buscar um confeiteiro que o produzia em alta escala, impossível de ser consumida por uma
família só. Assim, teria sido o primeiro a introduzi-lo em São Paulo. Foi quando teve a ideia de abrir
uma confeitaria para a venda de produtos que a cidade não conhecia. Vittorio também adorava caviar e
foi dos primeiros a trazê-lo em latas com grandes quantidades. Para isso, organizou uma estrutura
sofisticada que deixava os paulistanos admirados. Para os paulistanos era uma experiência de glamour,
de sofisticação. Fasano vendia para a alta sociedade. Tais relatos asseguram que o negócio do Fasano
não era destinado a dar lucro. Era para ele se ocupar, se relacionar, viver a larga. Ele implantava o
conceito do que é normal e o que é raro. Após a morte de Marietta, dedicava-se a conquista de belas
mulheres que adoravam os anéis de brilhantes de exagerados quilates.
Este homem enviou os filhos para estudar na Itália e os quatro homens cursaram a Escola Militar de
Moncalieri, da qual se saia oficial do exercito italiano e dominando oito línguas. Era uma escola que
aceitava somente nobres ou muito ricos, com recomendação, e celebrizava-se por ter uma biblioteca e um piano de cauda em cada quarto. Ao visitar os filhos, Vittorio levava-se seu luxuoso carro Isotta Fraschini,
o primeiro e único do Brasil durante um bom tempo. Tendo bons relacionamentos, o patriarca entrou no
negócio da corretagem de café, enriquecendo mais ainda. Com a idade e uma vida dita dissoluta acabou
perdendo tudo.
Ida, uma bela e elegante
Na escola, Ruggero foi ajudante de ordens de um personagem histórico, o Conde Gian Galeazzo Ciano,
de linhagem nobre, dos Cortelazzo e Buccari, casado com Eda, filha de Mussollini, il Duce da Itália por
21 anos. Como diplomata, Ciano esteve um período no Brasil, outro na Argentina. No final da guerra,
opôs-se ao sogro, que mandou fuzilá-lo. Ciano seria importante num momento decisivo para a família
Fasano.
Ruggero casou-se na Itália com Ida Fusano. Ida Fusano Fasano: havia no nome um ritmo sonoro. Era
uma ex-modelo (dizia-se manequim), alta, 1,75 metro, vistosa, de gestos elegantes e suaves. Trabalhava
em uma empresa de peles que possuía seus estilistas próprios, responsáveis pelas criações dentro das
tendências da moda. Na época, eram comuns os desfiles exclusivos para clientela selecionada. Algumas
mulheres acomodavam-se no salão e Ida mostrava as criações a portas fechadas. Desfiles privês, íntimos,
ao contrário de hoje, quando modelos atravessam a passarela diante de centenas de pessoas.
Ida e Ruggero tiveram dois filhos, Fábio e Fabrizio. Este, nascido em 1935, foi batizado no Duomo de
Milão. Neste mesmo ano, a Itália declarou guerra à Abissínia, atual Etiópia, e a juventude italiana foi
recrutada para o exército. Mesmo declarando-se brasileiro, Ruggero não conseguiu evitar a convocação
para o fronte. A constituição dizia: filho de italiano, italiano é, submetido às mesmas leis. Com a vitória
dos fascistas, em 1936, Mussolini declarou o nascimento de um império, a África Oriental, que incluía
Eritreia, Abissínia e Somália italiana.
Em 1937 tem início uma virada do destino. Com seu império na África e sua política expansionista
vistos com desagrado pelas democracias europeias e americana, Mussolini se viu isolado, o que o levou
a se aproximar de Hitler, na Alemanha. Ambos se juntaram para auxiliar Franco na Espanha durante a
Guerra Civil de 1936, que instalou a ditadura franquista. O regime de Mussollini estava muito próximo
ao nacional-socialismo alemão. Aliando-se ao Japão, os três países constituiriam o Eixo, contra o qual
os Aliados lutaram na Segunda Grande Guerra.
Desgostoso com a situação na Itália e preocupado com a tensão constante provocada pela política hitlerista de expansão da Alemanha, que preconizava uma segunda guerra mundial, Ruggero, que tinha um
parente ligado a Mussolini, conseguiu quatro passaportes, apanhou a família e veio para o Brasil. Sem a
interferência de Ciano, não teriam obtido a permissão de saída.
1 Trecho inspirado em depoimento de Fabrizio Júnior a partir de lembranças de conversas com sua avó Ida, esposa de Ruggero.