Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Sempre Fui um Colecionador de Sonhos
Fabrizio Fasano deu uma virada na vida em 1953, antes de completar 18 anos. Vinha, há tempos, com
uma ideia na cabeça, fruto de conversas com seu amigo Carlinhos Lázaro, que morava nos Estados
Unidos. Carlinhos escrevia, insistindo:
– Vem para cá! Vem fazer universidade.
– Universidade? Nem terminei o científico.
– Pode vir, que aqui dá para entrar com o diploma do ginásio.
Fabrizio pensava, ainda que vagamente, que poderia fazer medicina. Ao chegar lá, avaliando o sistema
americano de ensino, viu que para a medicina eram exigidos seis anos e um exame vestibular. Integrou-se
ao sistema, precisava cumprir um determinado número de horas para ter determinado diploma.
“Nunca peguei um curso que começasse antes das 10 da manhã. Fazia duas horas de manhã e uma à
tarde e consegui uma soma de pontos suficiente para fazer Administração. Eu organizava meus próprios
horários e assim fui levando. Recebia de meu pai 200 dólares por mês; havia uma categoria especial, o
dólar estudante. Um dinheirão. Evidente que eram necessários relacionamentos e ‘cartuchos’, como se
dizia, para obter tais dólares. Seis meses depois, quando completei 18 anos, consegui tirar a carteira de
habilitação e comprei meu primeiro carro, um Chevrolet 48, coupé, pagando dez prestações de vinte
dólares. Morava em um apartamento alugado por 60 dólares ao mês. Três quartos, dividido com dois amigos.”
Cartas eram enviadas esporadicamente para Daisy, que, em São Paulo, esperava o carteiro na janela,
todos os dias. Quando ele a via, levantava a mão mostrando o envelope com as bordas nas cores azul e
vermelho e ela descia correndo. Nos Estados Unidos, Fabrizio trabalhou para uma empresa, a
Panamerican Land and Development of Brazil, que vendia terras do Paraná aos americanos. O padrão de
vida melhorou, enquanto no Brasil Ruggero se firmou, ganhou dinheiro e foi ao Texas visitar o filho.
Deixou para ele 1.500 dólares, imediatamente transformados em um Jaguar 1957. A cada ano, o pai
pagava uma viagem de volta, para o filho visitar a família. Certa vez, em um momento delicado, não
havia como Ruggero enviar o dinheiro. Aborrecido, avisou o filho, que o acalmou:
– Deixem! Me viro!
Informado por amigos, soube que naquele momento havia uma mania entre colecionadores brasileiros.
Ter um daqueles emblemas que vinham colados no para-choque traseiro do Chevrolet 56. Era uma procura enorme em São Paulo, e ao roubá-los vivia-se uma aventura. Era hobby, divertimento. Algo
correspondente a um esporte radical hoje. Nas casas de autopeças os emblemas esgotavam-se
rapidamente e custavam caro. Quem sabe seria boa ideia trazê-los, vendê-los e pagar a viagem?
Fabrizio encheu uma mala com mil emblemas. “Paguei um dólar por cada um, sabendo que poderia
revendê-los aqui por três ou cinco dólares.” Ao embarcar pela Aerovias Brasil, estranhou. Havia uma
cortina que fechava metade do avião, não se sabia o que havia lá atrás. “Devem estar levando carga,
pensei, o avião está meio vazio.” A Aerovias, das primeiras empresas aéreas brasileiras a ter uma linha
para os Estados Unidos, foi fundada nos anos 1940, anexada à Real e finalmente transformada em Varig.
Realmente, como muitos voos internacionais partiam semivazios, os passageiros da classe econômica,
então chamada turística, rezavam para que ninguém sentasse na mesma fila, porque assim podiam se
estender pelos bancos e dormir. Dos Estados Unidos ao Brasil eram mais de 20 horas. Quando a
aeronave aterrissou, surpresa. A polícia entrou, mandou todos ficarem em suas poltronas. Era uma blitz.
Havia uma denúncia de que aquele voo trazia contrabando, as bagagens foram direto para a alfândega. Tudo foi taxado, sem misericórdia. “Paguei até por camisa usada que tinha vindo da lavanderia. Quando viram os embleminhas, o pessoal da alfândega exultou. Paguei três dólares de imposto em cima de cada
um. Ao vender, não consegui mais de um dólar por peça. Aquela passagem acabou me custando o triplo.”
Divertiu-se e amadureceu na América
Houve outra “aventura” comercial. “Havia no Brasil, não me lembro para qual marca de carro, um
parafuso de amortecedor que quebrava fácil, soltando a peça. Um drama. Comprava-se o carro e, seis
meses depois, o amortecedor caía. Minha intenção era trazer esse parafuso e fabricar aqui. Tudo era
importado, a indústria de autopeças estava se iniciando. Trouxe os parafusos, sem pensar que teria de
montar uma estrutura de fabricação para eles. Outra vez, foi uma canetinha barata, chamada Birome,
resistente, que todo mundo que ia aos Estados Unidos comprava. Por que não importar ou fabricar?
Nunca produzi, só colecionei sonhos.
Viajávamos de carro, longas horas, íamos até Las Vegas, assistíamos shows. De qualquer modo, me diverti bastante nos cinco anos de América. E amadureci. Até o dia em que o pai ordenou: ‘Não dá mais
para te sustentar aí, chegou a hora de voltar e pegar no batente.’” Ao menos, quando regressou, Fabrizio
falava muitíssimo bem o inglês. E trazia um diploma na mala.