Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
O Old Eight Vai para uma Multinacional
Fabrizio, hoje, é incisivo:
– Não havia como recusar. Era dinheiro vivo. Cash.
– Tanto assim?
– Cinco milhões de dólares num cheque só.
Atualmente seriam cerca de 26 milhões de dólares. Na conjuntura atual não parece tanto dinheiro,
ainda que seja muito. Hoje as cifras atingem os bilhões. Porém, Rogério comenta: “Na época, para nós,
era um caminhão de dinheiro, vejam o quanto meu pai fez com ele. Só para ter ideia, fechada a venda, ele
comemorou com amigos em Nova York, alugando dez suítes no Hotel Pierre.” Assim, o uísque Old Eight
foi vendido para a multinacional americana Heublein, que começou nos Estados Unidos em 1862 como
um hotel e restaurante, e evoluiu fabricando molhos para churrasco e coquetéis engarrafados. Em 1938
comprou da Rússia os direitos para a produção da vodca Smirnoff, chamado uísque branco, que se tornou
muito popular na América. No Brasil, atualmente os produtos da Heublein passaram para a Diageo.
Daisy diz que naquele dia o marido chegou em casa preocupado com tanto dinheiro, quase assustado.
– E agora? Se eu não investir bem, se não colocar esse dinheiro, vou começar a perdê-lo a cada dia.
Os anos 1970 foram os do “milagre brasileiro”, até que a realidade veio à tona. Era um cenário falso,
mantido pela ditadura. Está nos livros de economia que retrataram a época. Em 1973 houve a crise do petróleo, provocada pelos países árabes, que afetou o mundo todo, veio a alta do custo de vida, a
diminuição de investimentos e a inflação, com a qual os brasileiros passaram a conviver nos vinte anos
seguintes. Os economistas costumavam dizer: “A economia vai bem, mas o povo vai mal.” O dinheiro
aplicado, investido ou no banco, desvalorizava-se a cada hora, daí a preocupação de Fabrizio, que, ao
mesmo tempo, garantia: “Nunca me preocupei com dinheiro”, afirmação que faz até hoje, segundo a filha
Andrea e a mulher Daisy.
Acabara de passar para a frente um produto que vendia entre 700 mil a um milhão de caixas por ano e
assinou um contrato pelo qual, por dois anos, não poderia entrar no ramo de bebidas.” Tornei-me um
executivo da Heublein”, confessa ele, com um sorriso maroto. Aqueles anos estão registrados no
noticiário dos jornais. A todo instante, uma nota. Em um momento, era flagrado por Tavares de Miranda:
Em sua suíte no Bristol de Londres, Daisy e Fabrizio Fasano recebendo para um categórico “coq” os
amigos que haviam convidado para a Inglaterra em compasso do whisky Black and White e do
Buchanan’s. James Aykrold, que já cruzou diversas vezes o Atlântico para observar in loco o mercado
brasileiro, naquele mesmo dia foi o anfitrião para um almoço nos escritórios da Buchanan’s, quando,
em sua oração de saudação, falou da incrementação dada por Fabrizio Fasano a essas linhas de
whisky que de 3% por ano passaram para 25% no mercado total brasileiro. Além dos jornalistas
paulistas e dos “bigs” das boates Hipoppotamus e da carioca Privé, que são Ricardo Amaral e Disney
Reis, também formaram o grupo Sonia e Carlos Lazaro e Nancy e Luiz Paulo Izzo.8
Outra vez, o mesmo jornalista informava que no Connaught, um dos hotéis mais estrelados de Londres,
Jennifer e James Aykrold receberam Daisy e Fabrizio Fasano para um jantar absolutamente al dilá.
Também diziam presentes Liz e Neil Banford, Phillip Lewis, Cathy Medlicot, Malcolm Kimmins, John Livingstone-Learmout, primeiro universitário inglês a estudar português em Eton, todos da “família
Buchanan’s”, que propulsiona em ritmo acelerado suas exportações para o Brasil.
Fabrizio era chamado para encontros de empresários como José Ermírio de Moraes Filho, Leo Cochrane, Ermelino Matarazzo, Mario Amato, Luis Carlos Levy, que iam discutir a política econômica
do país com o ministro da fazenda Mário Henrique Simonsen. Ou estava empenhado na criação da
Associação Brasileira dos Importadores de Bebidas, formada para defender e orientar os associados em
relação a problemas jurídicos, ou quanto a questões ligadas à Receita Federal e à Alfândega. Além,
salientavam, de combater as falsificações e os produtos colocados ilegalmente no mercado. O primeiro
presidente, em novembro de 1974, foi Rubens Capural, sendo Fabrizio eleito para o conselho
administrativo.
“Na Heublein fiquei cerca de dois anos. Era um executivo, vamos dizer, sem pasta. Normal quando
uma empresa se funde a outra. Foi um tempo simpático e igualmente difícil”, avalia Fabrizio sobre o pós-
venda de seu uísque. “A verdade é que os executivos estrangeiros que chegavam conheciam o negócio da
bebida, mas nos Estados Unidos e na Europa. O Brasil era uma incógnita para eles, território virgem,
desconhecido, cheio de manhas. Claro, foram tempos da implantação profissional e em larga escala do
uísque e outras bebidas em nosso país, nossas manhas de mercado. Nosso modo de trabalhar, se
comunicar, agir, nossos costumes, tudo era diferente. A experiência era só minha, e eu perdia mais tempo
explicando, solucionando as coisas mais simples, que para eles eram charadas, abrindo as portas,
convencendo diretores que vinham de fora, do que trabalhando. Como se fosse um terapeuta. Cada coisa
que eu pedia, sugeria, procurava mudar, levava de três a quatro meses para ser posta em prática, até
entenderem realmente o que precisava ser feito. Hoje, eles são donos do mercado, sabem tudo, mas
pensem que se passaram 40 anos. Aquilo foi me cansando. E saí. Como se diz popularmente, peguei meu
chapéu e me fui.” A esta altura, com 40 anos, Fabrizio era um pioneiro no setor. Aposentado? Nunca. Ele que não parava, era hiperativo.
8 Tavares de Miranda, Folha de S.Paulo, 2 de maio de 1975.