Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Um Jardim de Inverno Requintado
Em 1958, Fabrizio voltou e encontrou o Brasil em plena era juscelinista. Éramos campeões mundiais
de futebol, com o título obtido na Suécia. Só se falava em desenvolvimentismo, marcha para o interior,
plano de metas, “Cinquenta anos em cinco” (slogan de JK), euforia. A indústria automobilística estava sendo implantada a todo vapor no Brasil, as grandes montadoras chegando à região do ABC paulista. Era
o grande salto.
Época dos “rebeldes sem causa”, Rebel without a cause, título em inglês do filme Juventude
transviada, com James Dean, ícone maior, morto prematuramente. Marlon Brando reforçou a rebelião. A
juventude era diferente depois do advento de Elvis Presley, Johnnie Ray, Bill Halley e seus cometas,
Ricky Nelson. Tony e Celly Campello eram os ídolos nacionais e Cauby Peixoto teve breve passagem
pelo rock gravando a canção “Rock and Roll”, em Copacabana: Bandas novas explodiam em São Paulo.
The Clevers (depois Os Incríveis), Renato e seus Blue Caps, The Jordans. Gravadoras lançaram o disco
em 45 rpm, chamado compacto. Importante contar aqui que, em agosto de 1958, foi iniciada uma das mais
importantes revoluções na música brasileira, com a gravação de um compacto simples do baiano João
Gilberto, contendo as canções “Chega de Saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e “Bim Bom” (do
próprio João). João tinha acabado de descobrir a batida da bossa nova.
O uniforme dos jovens era o jeans, a camiseta e o blusão de couro. Aos sábados e domingos congestionavam a rua Augusta para a paquera, e eram chamados de playboys.
São Paulo era uma cidade com quase quatro milhões de habitantes e 404 anos. Orgulhava-se de dois
slogans: “Um prédio a cada sete minutos” e “A primeira cidade do mundo em construções”.
Modernizava-se. Foi uma década efervescente. Assis Chateaubriand fundara a primeira emissora de
televisão do Brasil, a Tupi. Havia o Museu de Arte Moderna, MAM; o Museu de Arte de São Paulo,
MASP; a Cinemateca Brasileira, os teatros TBC, Maria della Costa e Bela Vista, este de Sérgio Cardoso
e Nydia Licia (inaugurado com Hamlet, de Shakespeare). A Bienal Internacional de Artes chegaria no
ano seguinte à sua quinta edição. E São Paulo contava com uma orquestra Sinfônica Municipal, sob
regência de Enrico Simonetti. Agito por toda parte.
Em 1955, um empreendedor argentino chamado José Tjurs tinha dado uma grande tacada. Personagem
curioso, baixo e gordo, Tjurs começou como taxista cicerone em Buenos Aires, depois mudou-se para o
Brasil e trabalhou como guia, arrebanhando estrangeiros que desciam dos navios na praça Mauá, no Rio de Janeiro. Subiu na vida até construir hotéis, como os dois Excelsior, o de São Paulo e o do Rio, e o
Marabá em São Paulo. Visionário, ele simplesmente comprou uma quadra inteira na avenida Paulista,
onde era a mansão do milionário Horácio Sabino, para ali construir o Conjunto Nacional, um dos
terrenos mais valorizados da época.
O centro da cidade começou, naquele momento, a se deslocar da cidade velha para a avenida Paulista.
O eixo mudou. Com o tempo, cairiam os palacetes dos barões de café, subiriam os arranha-céus, viriam
os grandes bancos, os consulados, os escritórios das grandes empresas, agências de publicidade,
cinemas. A construção do Conjunto, obra que espantou a cidade, projeto de David Libeskind, o primeiro
conjunto multifuncional do Brasil, começou em 1955 e, dois anos depois, a parte da frente, imenso
espaço comercial, estava pronta. O restante, um edifício de escritórios e apartamentos, seria terminado
em 1958.
José Tjurs procurou Ruggero Fasano. Desejava que ele abrisse no Conjunto Nacional um restaurante de
bom nível. Ruggero não achou má ideia, porém as negociações com Tjurs foram demoradas, o homenzinho era complicado, desbocado, malandro e, evidentemente, sedutor. Ruggero comprou uma área na planta para ser paga em dez anos. Todos os amigos tiveram pena, achavam que ele iria dar com os
burros n’água e diziam: “Você está completamente louco, esse edifício não vai sair do chão.” Só que, em
1957, o Fasano inaugurou sua confeitaria na calçada da avenida Paulista, e ela se tornaria um grande
sucesso.
Judith Amato, a financiadora que tanto orientara e ajudara Ruggero no Mercado Central, consultou suas
entidades e avisou a hora propícia para a inauguração: quatro da manhã. Ruggero foi para lá de
madrugada, abriu a casa e sentou-se. Ficou ali por mais de seis horas, até que, no meio da manhã, depois das dez, chegaram os primeiros clientes.
“O movimento na confeitaria começava pela manhã, quando a atração era o café expresso, feito em
máquina italiana – uma das poucas existentes na cidade –, e, na hora do almoço, as vedetes eram as
coxinhas de frango, os deliciosos croissants recheados e uma grande variedade de sanduíches”, relata
Angelo Iacocca em A Conquista da Paulista, no qual se faz o mais completo relato sobre o nascimento e
crescimento do Conjunto Nacional.
“À tarde, as elegantes senhoras se encontravam para tomar chá, trocar confidências e fazer uma
merecida pausa entre suas compras. Algumas horas depois, a confeitaria era tomada pelos homens, que
tomavam seus aperitivos e conversavam com amigos antes de voltar para casa. E à noite, era a vez dos
namorados... Aos domingos, o Fasano era uma grande festa, parada obrigatória para o aperitivo depois
da missa, antes de seguir para o almoço em casa, hábito cultivado, principalmente pelas famílias de
origem italiana”, lembra Angelo.
O happy hour (este termo ainda não era usado) servia também para “fazer hora” à espera da sessão das oito nos cinemas. A missa dominical era na Igreja de São Luís, dos jesuítas, na esquina da rua Bela
Cintra, ou na Imaculada Conceição, na Brigadeiro Luís Antônio.
As pessoas rodeavam o “quadrado” na calçada para olhar e invejar, admirar os lanches, doces,
sorvetes, bebidas, uma prova de que a modernidade tinha chegado. O Fasano contribuiu para fixar o mito
da avenida Paulista, chamada por uns de Quinta Avenida, por outros de Champs-Élysées, guardadas as
proporções do exagero. Um slogan surgiu na imprensa: “Conjunto Nacional, capital da Paulista e da
Augusta”, então a rua chique, com suas butiques, a palavra que no jargão comercial substituiu o termo
“lojas”.
A rua Augusta, inteiramente congestionada nas noites de sábado e domingo pelos “playboys” que ali
paqueravam, tinha seus pontos de referência nas lanchonetes Longchamps e Simbad – de Fuad Zegaib, que mais tarde criou a rede de churrascaria Dinho’s, à frente da qual encontra-se até hoje, 2013 –, na
Yara, casa de chá, nos restaurantes Patachou e Flamingo, no recém-nascido Frevo. Também era a época
da novidade americana, o Hot Dog, com suas caixinhas listadas em vermelho e branco. Nenhuma destas
referências alcançava a pompa e circunstância do Fasano. Lotado o tempo inteiro, tornou-se o ponto de
encontro da cidade para lanches, cafés, chá no meio da tarde, com a sociedade desfilando no happy hour.
Decoração despojada, clean, típica do anos 1950, móveis pés palito, balcões iluminados. Quem não
reservava mesa, via-se em palpos de aranha, como se dizia. Havia habitués que ocupavam as mesmas
mesas, todos os dias. O que acontecia ali era registrado diariamente por Tavares de Miranda e Mattos
Pacheco nas suas colunas da Folha e dos Diários. Ver e ser visto. Garçons e maîtres eram fontes de
informação. Ao lado do Fasano ficava a Rinaldi, a maior grife de flores da cidade.
A audácia de Ruggero, que tinha fechado a casa da rua Vieira de Carvalho, completou com a
inauguração, em 1958, do restaurante, onde se realizavam os famosos jantares dançantes, ao som de
orquestras famosas, como a de Silvio Mazzuca. Foi aberto também o Jardim de Inverno Fasano, que arrasou e criou um novo estilo de viver em São Paulo. Os jovens adoravam namorar no terraço. O Fasano era bar, restaurante, boate, bufê, salão de festas. Jantar, beber, dançar, assistir a shows, dar festas de
aniversário, formatura (que eram momentos importantes na vida da família, tanto que todos se vestiam a
rigor), baile de debutante, casamento, o que fosse, acontecia ali com a assinatura que significava o
máximo da classe. Os Matarazzo, os Crespi, os Lafer, os Camasmie, os Selmi Dei, os Lacerda Soares, os
Jafet, Cassio Muniz, as mulheres mais lindas e elegantes da época, como Angelina Muniz, Eliane Selmi
Dei, Veroca Fontoura, Ana Cecilia Americano, Vera Andraus, Elvira Giaffone, o casal Luís Carlos e
Marjorie Mesquita, Hélio Souto e Maria Helena Morganti, as pessoas que contavam na cidade eram os clientes. Na fachada que dava para a avenida Paulista, o F gigante vinha ao lado da palavra Fasano,
imensa, em um tipo manuscrito, estilizado.
Folhetos da área de comunicação da época descreviam:
O novo Jardim de Inverno Fasano, à Avenida Paulista constitui uma surpresa para o público,
atônito com a rapidez da realização, deslumbrado com sua beleza. Construído no ponto mais alto da
cidade, no majestoso Conjunto Nacional, dispondo de salões ladeados por amplos terraços
ajardinados, autênticos camarotes de onde se descortinam os panoramas imensos e variados da
metrópole, o novo Jardim é uma pequena cidade luminosa e arejada, dentro da cidade grande
sufocada. Oásis de olvido e de enlevo.
Elevadores exclusivos levavam ao Fasano. Ao sair, penetrava-se em um hall coberto por colossal
cúpula geodésica de alumínio e vidros projetada por Hans Eger, que igualmente fez história na arquitetura
paulistana. Foi a primeira vez no Brasil que se aplicou o princípio criado pelo arquiteto norte-americano
Buckminster Fuller, um revolucionário. Durante o dia, havia no hall luz natural e proteção contra o mau tempo. O Jardim de Inverno era no primeiro andar, o salão de festas acima dele. Com capacidade para
mil pessoas com conforto, era o maior de São Paulo. Palcos, passarelas, tablado para orquestra,
camarins, vários bares, ou ilhas para as bebidas.
Por que se dizia o novo Jardim de Inverno? É que por um curto período existiu o primeiro Jardim de
Inverno, localizado na rua Brigadeiro Tobias, paralela à rua Casper Libero, no Centro, próximo ao
viaduto de Santa Ifigênia. Ficava exatamente atrás do antigo prédio do jornal A Gazeta Esportiva, um dos
marcos da cidade. Dali saía tradicionalmente a corrida São Silvestre, à meia-noite do dia 31 de
dezembro. A Gazeta mantinha na cobertura de seu edifício um restaurante estrelado, conhecido como
Roof. A sociedade se dividia entre o Jardim de Inverno, mais uma boate idealizada por Fabrizio, com sua
pista de danças de cristal, e o Roof. O letreiro do Fasano era em néon.
O Jardim de Inverno da avenida Paulista, também com pista de cristal, foi inaugurado no dia 10 de
dezembro de 1958 pelo bispo auxiliar de São Paulo, Dom Paulo Rolim Loureiro. Porém, na história do Fasano, o que ficou marcado mesmo foi o banquete que, menos de um mês depois, foi oferecido pelo
cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, ao presidente da República,
Juscelino Kubitscheck, no dia 6 de janeiro de 1959.
No térreo, ao nível da avenida era lanchonete, cozinha – empadinha, croquetes, sanduíches, doces – e
salão de chá. Jantava-se no primeiro andar. Vinha então o Jardim de Inverno, ao qual se tinha acesso por
uma escadaria cinematográfica, coberta por um tapete vermelho. Jantar dançante todos os dias, menos
domingo. Vadeco e Odilon, Ucho Gaeta e seu acordeão, Alan e Hugo, Marcelo Cortopazzi, cantores,
dançarinos, imitadores que por anos animaram o Fasano. Mas as grandes receitas vinham do bufê que
Ruggero tinha criado e que dominava casamentos, jantares, recepções, formaturas, banquetes, festas
infantis temáticas. Para que funcionasse em ritmo de indústria, criou-se uma infraestrutura completa, que
se encarregava do cardápio à decoração, flores, comidas, bebidas, justificando os slogans que corriam na
época:
Fasano, a preferência das mais ilustres família paulistanas
Fasano, apreciado pelos mais exigentes gourmands
Cozinheiros contratados na Itália, França e Suíça comandam as equipes do Fasano
Eram 70 pessoas trabalhando apenas na cozinha. Na Barra Funda, imensos galpões abrigavam a seção
industrial com seus fornos, estufas e fogões importados e o depósito de louças, talheres e copos.
Enquanto nas melhores noites os jantares dançantes reuniam 500 pessoas, o grande salão de festas
chegava a receber mil, como no banquete oficial ao presidente dos Estados Unidos, o general Dwight
Eisenhower, no dia 25 de fevereiro de 1960, no qual foi servido filé de pescada e peito de frango braisé.
Vinhos Precioso, Dreher, sendo que Ike, como era chamado o presidente americano, pediu para levar
algumas garrafas do conhaque e o toque final foi o champanhe Peterlongo. Tudo brasileiro.
Célebres, contudo, foram as grandes apresentações com superstars do show-business americano e
mundial, uma ideia que Fabrizio tinha trazido consigo das grandes casas americanas. Em São Paulo, naquele momento, havia shows nas boates Oasis e no Cave. No entanto, eram lugares pequenos, quase
íntimos, frequentados pelo chamado “café society”, termo criado pelo colunista carioca Jacinto de
Thormes, o papa e criador do novo colunismo. Artistas costumavam se apresentar em teatros. “No
entanto”, ressalva Fabrizio, “meu pai ficava reticente quanto aos shows. Alegava que não podíamos
marcar a casa apenas por eles. No dia em que não houvesse mais show, o movimento iria desaparecer,
seria a morte”. Mesmo assim, deixou correr, os shows davam status, os grandes nomes continuaram por
um bom tempo.
Tendo regressado dos Estados Unidos, Fabrizio foi designado pelo pai como gerente do que também se
chamava o Fasano da Paulista. Estava com 23 para 24 anos. “Ele era gerente, maître, entregador, fazia de
tudo”, conta Daisy. Começava às dez da manhã, ia até meia-noite, uma, duas, direto. Comandava as
operações cotidianas, mas confessa que gostava mesmo era de contratar e produzir os shows que se
notabilizaram e fizeram a fama da casa, que terminou comparada ao famoso Golden Room do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. “E eu me divertia, gostava daquilo”, acentua Fabrizio. “O curioso
era a forte rivalidade entre São Paulo e Rio. Os dois principais colunistas cariocas, Ibrahim Sued e
Jacinto de Thormes, não davam cobertura ao que acontecia aqui. Nas poucas vezes em que vi Ibrahim na
nossa casa, percebi que era briguento, provocador. Pouquíssimas mulheres da sociedade paulistana eram
citadas nas colunas cariocas e raríssimas entravam nas listas da mais elegantes do Brasil. Como se
fôssemos um mundo à parte, ainda que o poder econômico estivesse aqui. Por outro lado, Tavares de
Miranda, mesmo não frequentando tanto quanto se pensava, tinha sua rede de informantes, e o Fasano era
presença constante na Folha, assim como nos Diários, onde pontificava Mattos Pacheco, um homem
fechado, carrancudo, famoso pela boca torta e ironia fina, e Alik Kostakis no Última Hora. O três davam
o tom na mídia paulistana.”
Tempo em que a alta sociedade paulistana, que tinha migrado de Higienópolis para os Jardins,
começou a se mudar para o Morumbi, “povoando” o outro lado do rio Pinheiros, até então distante e
considerado quase interior. Surgiram as grandes mansões, como as de Baby Pignatary, industrial milionário, excêntrico, namorador de grande mulheres, e ainda as de Oscar Americano (hoje uma
Fundação), de Ermelino e Hélene Matarazzo, ex-mulher de Walter Moreira Salles, uma carioca presente
em todas as listas de mais elegantes por anos e anos, e que desafiou a sociedade do Rio, vindo para São
Paulo. Eram tempos efervescentes.