Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 22 de 22

Páginas do PDF

Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Um “Portinho” no Final da Noite

Esta extensa crônica de uma vida não tem final. Ela não se encerra, a vida continua. Aos 78 anos,

Fabrizio mantém uma rotina bem menos acelerada. Vai todos os dias ao escritório, no segundo andar de

um pequeno prédio, circundado pela atmosfera “fasanesca”. Por esse neologismo entendam: a rua se chama Vittorio Fasano, seu avô. Ele lembra que o pai também se tornou nome de rua, homenageado pelo

governador Laudo Natel, um dos padrinhos de casamento de Fabrizio. É a Ruggero Fasano, junto ao

Hospital Israelita Albert Einstein no Morumbi.

Em frente ao escritório de Fabrizio está o Hotel Fasano, com os restaurantes Fasano e Nonno/Gero e o

Baretto, bar sofisticado na melhor tradição familiar. Quem chega à rua Haddock Lobo e olha à esquerda

vê ainda o pequeno e austero prédio que abrigou, por 13 anos, o restaurante que foi apoteose na cidade.

Diante dele, o Gero, repleto o tempo inteiro. Sem esquecer que Fabrizio mora a quadra e meia dali, basta

virar à direita na rua Bela Cintra e chegar. Um pequeno domínio gastronômico, cujo marco inicial

começou há cento e dez anos.

Depois de tomar o café em casa, ele vai para o escritório entre 10 e 10h30. Lê os jornais Folha de

S.Paulo e o Estado de S.Paulo. Assina Veja, Carta Capital, Isto É, Exame e Poder que giram em torno

do mundo em que sempre viveu. Navega na internet, busca informações, pesquisa. Num canto da sala está

um litro de Old Eight, a provocar nostalgia. A secretária Fatima Samia traz a correspondência pessoal e profissional, os e-mails, abre a agenda. Em geral, são almoços, jantares, algum encontro com amigos da

Associação Brasileira do Whisky, ABCW, ou da Diageo, donos de restaurantes como Carlos Bettencourt,

do A Bela Sintra, Massimo Ferrari, o fotógrafo Luis Tripolli, o médico de uma vida Fernando Nóbrega,

advogados. É a hora em que assina documentos e cheques.

 

Luis Tripolli:

 

“Seu Fabrizio é um encantador”

 

“Eu conhecia o senhor Fabrizio Fasano desde a história do Old Eight, porque lidava com publicidade e a saga do uísque tornou-o uma

lenda. Sabia também, desde pequeno, a força da marca Fasano, porque quando vinha do Rio para São Paulo, para visitar minhas tias, elas

me levavam para tomar chá na confeitaria da avenida Paulista. Portanto, tinha essas referências. Conheci Rogério Fasano em 1983, e a

partir dele me aproximei do senhor Fabrizio; porém, nossa convivência se acentuou depois da inauguração do restaurante da Haddock

Lobo”. Luis Tripolli, 64 anos, fotógrafo, pioneiro em fotos de moda e mulheres nuas, colaborador de Playboy, Fairplay, Claudia, Vogue e

autor de quatro livros, Meus olhos, Mulata, Quase todos meus amores e Arquivo secreto, é amigo de longa data. Um dos grandes

conhecedores da noite paulistana. Amigo pessoal de Fabrizio, sempre se refere a ele como “senhor” ou “seu”.

“Ele parecia um personagem de cinema, com aquele charme e a elegância que só se via lá pelos anos 1930. Era um homem que

encantava a todos, principalmente às mulheres, pela civilidade, pelo carisma, pela extrema educação, pela generosidade, pelo carinho no

trato com todos. A certa altura, quando eu frequentava os restaurantes, cada vez que via Andrea e me aproximava dela, percebia um

movimento sutil de Fabrizio em minha direção, e em poucos minutos conseguia afastar a filha. Porque, sendo eu um fotógrafo de mulheres

nuas e tendo aberto o Café Photo, em sua fase anterior e não no que se transformou depois que vendi, eu devia significar ameaça à filha.

Seguro morreu de velho. Tudo mudou à medida que solidificamos nossa amizade e me transformei não num cliente, mas em um amigo. A

coisa mais bonita que seu Fabrizio fez comigo, entre outras, foi quando nasceu minha filha Carmela, hoje com nove anos. Minha mulher,

Adriana, e eu fomos surpreendidos em casa. Ele foi a primeira visita, quase na madrugada, com os braços cheios de flores. E foi recebido

por mim ainda com as roupas que durmo, de camiseta e cueca samba-canção. Descobri depois que ele também fica assim em casa.

Porque uma vez que minha mulher foi à casa dele, fotografar a mulher do Fabrizinho que estava grávida, e assim o encontrou. Ele a

convidou para o café da manhã, com toda a naturalidade, vestido na sua cueca e com camisa. Sem perder a postura de um gentleman. O

senhor Fabrizio esteve em todos os acontecimentos importantes de minha vida, nos lançamentos de livros, abertura de exposições, eventos,

o que fosse. É um homem que se dá para os amigos, coisa rara. E a expressão certa para defini-lo é mesmo ‘um homem encantador’.”

Há dois anos, Daisy, que se confessa sempre apaixonada, voltou para ele, ainda que cada um continue

tendo sua própria casa. Desde que sua saúde se fragilizou, Fabrizio passou a ter em torno uma retaguarda familiar atenta. Se não tem almoço com algum amigo ele vai à casa de Daisy – e fica por lá até a noite −,

ou ambos optam por algum restaurante. Daisy mora atrás do Clube Pinheiros, lugar aprazível, com muito

verde. Muitas vezes, porém, ele almoça no próprio escritório; Fatima providencia a comida. A vida

tornou-se sedentária e ele se ressente disso: o agito sempre fez parte de sua vida.

Como bom italiano, a família precisa estar sempre em torno, ou perto, ao alcance. Todos dizem que

Fabrizio, a vida inteira, jamais deixou de comemorar com filhos, noras e netos as datas festivas

tradicionais, incluindo Dia das Mães, Dia dos Pais, e tudo mais. Um ritual permanente também é a

passagem dominical pela tradicional rotisserie Bologna, de onde leva para Daisy coxinhas ou empadas,

celebradas pela excelência.

Pequenos detalhes reveladores. Este Fabrizio inquieto, hiperativo, homem da noite, sedutor,

empreendedor, é organizadíssimo, metódico, quando se trata de roupas e meias. Suas calças, camisas,

qualquer peça, têm de estar bem passadas e com vinco. Seu closet é uma perfeição de ordem, estabelecida por ele mesmo. As meias classificadas na sequência de cor: cinza, azul claro, azul escuro,

azul marinho, preta, e assim por diante. Não admite que se façam os habituais rolinhos, elas precisam

estar dobradas, para não desfiarem.

 

Netos fazem link entre gerações

 

Na quietude do seu escritório – a rua é silenciosa –, Fabrizio acompanha as gerações que o sucederam.

Os netos são capítulo à parte, adoram o avô, conhecem o seu mito. Camila, com 29 anos, e Carolina, 25

anos, são filhas de Andrea. Camila está no marketing da revista Veja, fazendo ponte no tempo com o

trabalho que o avô desenvolveu na Editora Abril nos anos 1960. Carolina, excelente aluna desde

pequena, se formou em psicologia. Apaixonada pela profissão, mantém sua agenda sempre lotada entre

cursos e atendimentos. Caetano, 26 anos, é o braço direito da mãe no bufê. Inquieto, sentia-se sem rumo

até que o tio Rogério o convenceu a fazer um curso de hotelaria na Suíça, seguido por um estágio no

Hotel Kempinski, das redes mais luxuosas do mundo, fundada em Berlim em 1897. Voltando ao Brasil,

Caetano juntou-se à mãe em um projeto de uma empresa de alimentação e catering. No bufê,

supervisiona, administra, planeja, faz relacionamentos, heranças do bisavô Ruggero e do avô Fabrizio.

Depois de 13 anos trabalhando com o pai na importação e exportação de bebidas, vivendo inclusive o

período de abertura de mercado de Fernando Collor, Fabrizio Júnior, casado com Denise Caovilla e pai dos gêmeos Antonioni e Lorenzo, desligou-se do grupo Fasano e mergulhou na propaganda, ficando dez

anos na agência F/Nazca. Depois, tornou-se fotógrafo free-lancer. Começou fotografando cavalos, o que

o levou à publicação do livro Duas Paixões, ou seja, a fotografia e os animais. Mais tarde lançou um

segundo livro, Olhares, e prepara uma exposição sobre Nova York, que será vista sob ângulos

inesperados. Um de seus melhores momentos é acompanhar os filhos, hoje com 15 anos, nas partidas de

tênis. Eles pretendem ser profissionais e estão abrindo caminho para isso.

Anna Romero Fasano, hoje com 22 anos, é filha do primeiro casamento de Rogério com Maria Cristina

Rodrigues Romero, Kiki. Anna mantém um blogue de moda de enorme audiência, o que a remete aos

tempos em que o avô teve uma editora nas mãos, a Três, com uma revista feminina de grande tiragem, a

Mais. Anna, em plena era digital, informa, dá consultorias, fazendo um link no tempo com Patricia Carta,

que comanda a top fashion Harper’s Bazaar. Sem esquecer que o avô foi um dos fundadores da Vogue junto com LuisCarta, mantida por Andrea Carta por 30 anos. Uma linha direta na genealogia de moda.

Rogério depois se casou com Ana Luiza de Aguirre Joma, e tiveram o Vittorio Aguirre, hoje com 7 anos.

Em família, comenta-se que a timidez que Rogério demonstrava na infância é semelhante à de Vittorio,

cujo nome vem do trisavô.

 

...Quanto mais longe, melhor ...

 

Os finais de semana de Fabrizio podem ser, ocasionalmente, no sítio do filho Fabrizio Júnior, que cria

cavalos em Sorocaba. Ou, quando há feriado prolongado, no SPA Sete Voltas, o resort de Myrian Abicair

próximo a Itatiba. Uma de suas últimas viagens ao estrangeiro foi a Londres, ano passado, acompanhado

por Daisy e Andrea. Esta comenta: “Ele estava ágil, caminhava, quase corria, estava difícil acompanhá-

lo, interessado em tudo.” Hoje, anda pouco.

Em uma entrevista que deu em 2012 ao site da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Abrasel, Fabrizio confessou: “Meu pai nunca pediu que eu seguisse esse ramo e eu também não pedi isso aos meus

filhos. A decisão do Rogério foi totalmente dele. Assim como não pedi ao Fabrizinho, que hoje é

fotógrafo e faz belíssimas exposições. Já a minha filha, Andrea, preferiu fazer bufê, o que não deixa de

ser do ramo, e ela também trabalha sem parar. Muitas vezes me perguntam quando vou deixar de

trabalhar e como está sendo conduzido o processo sucessório. Isso não existe. Não pretendo deixar de

trabalhar e os que vêm vindo são mais competentes que eu e vão dar continuidade. Aliás, quanto mais eu

saio da cola deles, melhor eles acham…”

Fabrizio e Andrea ainda costumam, com menor frequência, claro, sentar-se a uma mesa do Fasano,

comentando as mudanças de São Paulo, da sociedade, a transferência do dinheiro. O restaurante é um

termômetro das transformações sociais e econômicas.

O diálogo entre o pai e Rogério é constante, às vezes áspero, às vezes suave. O pai sabe que a paixão

de Rogério são os restaurantes, sua carne, osso, vísceras. Rogério é claro ao admitir que fez a família retornar ao business original, reconstruindo a marca Fasano com todo apoio, incentivos e a busca de

investimentos pelo pai. Na última conversa que tive com Rogério, a certa altura ele ergueu a cabeça,

olhos brilhando, e disse com emoção: “Tenho certeza de que dentro de minha profissão sou uma pessoa

admirada e respeitada. Porém, meu pai é muito mais. É admirado, respeitado e amado.”

As coisas estão acomodadas, o que não impede que amanhã possa vir uma notícia que abale tudo. Uma

grande mudança, uma venda, uma associação, um empreendimento audacioso. O discreto riso irônico de

Fabrizio denuncia isto. Os Fasano estão sempre prontos a inovar, inventar, mudar os rumos.

 

Viver intensamente

 

A secretária Fatima Samia, há 13 anos com Fabrizio, entra na sala e entrega o e-mail. Ali se lê:

 

CAVES

 

V

 

I

 

A

 

G

R

 

A

 

Ele sabe o que é, marca, ou avisa Fatima que não irá. É a Confraria criada por seu amigo Eduardo

Saddi, que se reúne semanalmente às quartas-feiras para um almoço no restaurante Santa Colomba, na

alameda Lorena, duas quadras acima. O cardápio é fixo, os vinhos estão escolhidos. Ele deixou de

frequentar por um tempo, agora voltou, ainda que intermitentemente, dependendo do humor, da

disposição. Traduzamos o que parece linguagem cifrada, o que é uma coisa e é outra:

 

Confraria de Amigos do Vinho Eduardo Saddi

 

V iver

 

I ntensamente

 

Angariando Grandes e

 

R eais

 

A mizades

 

Ele, que afirma ter poucos amigos, na verdade tem muitos e ainda curte a companhia, reunindo-se com

eles na Confraria do Saddi (oficialmente são 50 membros) ou frequentando a do Miguel Ethel. Quando

vai a esses almoços ele se reanima, volta cheio de histórias. A proibição de se tocar em assuntos

polêmicos é mantida até um determinado número de copos de vinho, dos melhores. Se for branco, um

francês ou chileno, Chardonnay 2007. Se for tinto, um italiano Cabernet ou um francês Bordeaux.

 

Auro Aluisio Prado de Moura Andrade:

 

Levantou o nome de maneira espetacular

 

“Fabrizio está no inconsciente coletivo do paulistano”, diz Auro Aluisio Prado de Moura Andrade, que com ele se relaciona estreitamente

há décadas. Ambos costumavam atracar seus barcos juntos e compartilhar a navegação em Angra dos Reis, Alcatrazes e outros refúgios

do litoral. “Ele é um homem que encanta, não conheço uma só pessoa que não goste dele.” A diferença de idade entre os dois é de seis

anos mas à medida que o tempo passa, as idades se igualam. “Um homem arrojado. Lembro-me de que, quando estava construindo o

Fasaninho, na rua Amaury, eu visitava as obras e me espantava: ‘Como você vai pagar tudo isso?’ E ele, corajoso: ‘Isso vai se pagar aqui.’

Cheio de carisma, Fabrizio levantou seu nome de maneira espetacular.” Auro e Fabrizio se encontram eventualmente no restaurante Santa

Colomba, na reunião da Confraria às quartas-feiras. Trata-se de um grupo iniciado por Eduardo Saddi e que se encontrava a princípio no

restaurante Le Coq Hardy. São mais de 50 membros, mas os que frequentam mesmo com regularidade chegam a cerca de 20. Entre

outros, nomes como Renato Malzoni, Roberto Gasparian, Rubens Dryzun, Manuel Garcia, Sergio Badaró, Durval Silveira, Ivan Ferrarezi,

João Alves Veloso, Alencar Burti, Humberto Delboni, Waldemar Verdi, Roberto Moreira. A Confraria come, bebe e conversa. Assuntos

proibidos são política, religião e negócios. “Mas acaba-se falando de tudo. O que andamos sentindo falta, com a ausência de Fabrizio, que

tem ido pouco, são de suas histórias, seu humor e, principalmente, da sua ironia sutil.”

 

À tarde, invariavemente, ele vai para a casa de Daisy. No começo da noite, para jantar, decidem entre

o A Bela Sintra, o Nagayama, o Jun Sakamoto, o Parigi, o Gero ou o Fasano. A escolha mais recorrente

tem sido o Jun. Tanto que, quando ele não aparece, o chef liga para saber se pode liberar os lugares

eternamente reservados. O homem que, junto com o filho Rogério, mudou o conceito de comer comida italiana, não prescinde também de um japonês. “O incrível”, dizem os amigos, “é que Fabrizio é um

homem tranquilo, vai aos restaurantes dos outros, prestigia, é seguro”.

O final é quase prosaico, simples. Porque, como disse, não é final. No fim da noite, Fabrizio senta-se

no restaurante Fasano e pede o seu vinho do Porto. Olha em torno, vê Mario Edison ao piano, conversa

com Manoel Beato, o sommelier, com Almir, o maître, também com os garçons. Isto o retempera. Troca

uma palavra, dá um beijo em Rogério, sempre por ali. Toma um último cálice do que ele chama “meu

portinho”, expressão que pode ser um símbolo ou a imagem poética do que aquele momento e aquele lugar significam. Levanta-se e parte. Assim, todas as noites.

Você terminou Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.