Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 13 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Fabrizio Cresce, Tem Tudo nas Mãos

Quando se conversa com os filhos, as lembranças mais antigas vêm do apartamento que Fabrizio e

Daisy compraram com parte do que restou na liquidação do Jardim de Inverno, na rua Artur Ramos,

travessa da Faria Lima, pouco antes que esta se tornasse a avenida que é hoje. São Paulo avançava para ultrapassar o rio Pinheiros. Fabrizio, Luis Carta e Domingo Alzugaray compraram apartamentos no

mesmo prédio. O de Luis ficava acima do de Fabrizio, e foi ali que cresceram unidos Andrea e Patricia,

filhos de Luis e Haydée, e Fabrizio Júnior, Rogério e Andrea, filhos de Daisy e Fabrizio. A criançada se

comunicava por meio de batidas com cabo de vassoura no teto ou no piso dos apartamentos, imitando

código Morse. Aliás, tinham criado um código particular. Como os pais, as crianças estudaram todas no

Dante Alighieri. As matrículas eram automáticas para os filhos de italianos.

Grupos se formaram com filhos de outros amigos. Diogo e Vinicius, filhos do publicitário Enio

Mainardi, Manoela e Giani, filhos de Mino Carta, irmão de Luis, o filho de Carlinhos Lazaro. A esta

altura, Luis, separado de sua primeira mulher, Haydée, tinha uma casa de campo na Granja Viana. O lugar

tinha um nome, Dois Irmãos, mas todos conheciam como “o sítio”. O “sítio” foi muito curtido,

principalmente nas tardes de domingo, depois que Luis Carta voltava a São Paulo e os jovens

começavam a aparecer, uns dando carona aos outros. “Meu pai ia pouco, às vezes nos levava e voltava”,

diz Fabrizio Júnior, o que é confirmado por Patricia, filha de Luis, hoje editora da Harper’s Bazaar, que sucedeu a Vogue. Aliás, eles odiavam quando os adultos apareciam. Invejado era o Andrea Carta, o mais

bonito da turma, todas as meninas se amarravam nele.

Fabrizio e Daisy mudaram-se para a rua Alberto Silveira, no Morumbi, quase na cabeceira da ponte

Cidade Jardim. Esta casa era adorada pelos filhos. Toda térrea, o gramado era continuação do piso

interno. Foi construída uma piscina, uma churrasqueira, era o maior movimento o tempo inteiro, com

festas, as turmas dos filhos agitando. As crianças foram crescendo e vivendo uma nova realidade à

medida que Fabrizio comprou outra casa, na rua Gália, uma fazenda próxima a Laranjal Paulista e um

apartamento no Guarujá, que vivia sua época áurea, reduto da sociedade paulistana.

Fabrizio e Daisy compraram terrenos no Guarujá, construíram apartamentos para vender, passaram a

adquirir terrenos no Morumbi, chegando a ter nada menos de vinte e três, um deles com oito mil metros

quadrados, num ponto então dos mais valorizados de São Paulo. O bairro se desenvolvia, destinado a ser

um novo Jardim América ou Europa, mais sofisticado ainda. “Meu pai era um cara atirado, sabia viver, e foi tudo muito rápido, ele cresceu, mais do que isso, explodiu, teve tudo nas mãos naquele momento”,

afirma Rogério. Foi aberta uma concessionária de automóveis, a Itapoã Veículos, em um terreno que é

hoje o Shopping Ibirapuera, em Moema, e Fabrizio entrou como sócio em um estaleiro, o Oceanic, em um

galpão desativado das Indústrias Matarazzo. Rogério não tem como evitar o riso, pelo inusitado da

situação: “O louco é que o estaleiro era em São Paulo e, pronto o primeiro barco, surgiu o impasse:

como levá-lo ao mar? Foi criada uma complicada logística para atravessar a cidade e descer a serra.

Mesmo assim, foram fabricados sete barcos. Hoje o estaleiro se chama Intermarine.”

Os Fasano eram donos de vários andares em edifícios da Faria Lima, uma nova avenida, surgida da

expansão da antiga e pacata rua Iguatemi, que havia sido duplicada e deveria se chamar Radial Oeste.

Rapidamente o eixo da cidade mudou, mais uma vez, e a Faria Lima (o nome Iguatemi foi alterado, por

ter sido o prefeito Faria Lima que iniciou as reformas, mas morreu antes de concluí-las) tornou-se um

ponto cobiçado na cidade para empreendimentos. A avenida passou a ser chamada “a segunda Paulista”,

e em alta velocidade tornou-se um ponto comercial e financeiro valorizadíssimo, estimulado pela presença do Shopping Iguatemi, o primeiro da cidade, inaugurado no local onde era uma chácara dos Matarazzo. O antes pacato Jardim Paulistano, com áreas bucólicas, muito verde e ar campestre, alterou-

se completamente, tornando-se urbanizado.

 

Pulando do trem na fazenda

 

Da infância para a adolescência e a passagem para a juventude foram períodos marcados por quatro

lembranças que ainda hoje despertam nostalgias na família. Campos do Jordão, a fazenda no interior de

São Paulo, o apartamento no Guarujá e os barcos, que estavam ora em Angra dos Reis, ora no litoral

paulista, como Ilhabela.

Antes da fazenda, que se tornou um ponto de referência para os fins de semana e férias, em julho a

família se deslocava para o Grande Hotel de Campos do Jordão, um dos preferidos pela classe média

alta paulista. Tinha sido hotel de luxo nos anos 1940, quando também era cassino, porém a proibição do

jogo no governo Dutra, a partir de 1945, transformou apenas em estância termal.

Fabrizio Júnior adorava Campos do Jordão, porque uma das atrações do hotel era o aluguel de cavalos

para passeios. O adolescente não saía da sela, parecia grudado ao cavalo, só descia para comer; era

apaixonado, e é até hoje. A conta dos aluguéis acabava sendo grande, a tal ponto que o pai impôs limites:

“De manhã e de tarde, não. Escolha um período.” Mas o filho driblou a proibição paterna “trabalhando”

junto aos tratadores, lavando baias, cuidando dos cavalos dos outros, porque muitos hóspedes tinham

montarias próprias. Desta maneira, montava o tempo inteiro, sem gastar tanto.

A esta altura, Fabrizio Júnior começou a ter sérios problemas de coluna, com dores agudas,

provocados pela sua altura, tamanho e peso e pelo constante cavalgar. Foi diminuindo os exercícios,

submeteu-se a intensos exames médicos, mas as dores continuavam. Cinco especialistas em ortopedia

foram tirando suas ilusões. O menino estava com tuberculose óssea. Desesperados e desorientados após

cinco laudos, os pais acabaram conhecendo o doutor Fernando José de Nóbrega, hoje presidente da

Academia Brasileira de Pediatria, que após minuciosos exames declarou: “Conheço esse menino desde pequeno. Rasgo meu diploma de médico se ele tiver tubérculose óssea”. Fabrizio Júnior se recuperou. O

doutror Nóbrega é médico da família até hoje.

Quando a São Roque foi comprada, tudo mudou. Era fazenda direto, principalmente para a geração

jovem. A propriedade, no município de Laranjal Paulista, a 170 quilômetros de São Paulo, datava de

1848. A sede era uma bela construção colonial que ficava diante do terreiro e era servida por três

açudes, aos quais Fabrizio Fasano acrescentou mais seis, quando comprou a propriedade no final dos

anos 1960. Tinha planos, pensava em irrigação de lavoura.

O terreiro se tornava estacionamento em dias de agito. Na época da safra, era preciso deixar espaço

para esparramar o café para a secagem. A intenção era ter um lugar que não fosse apenas refúgio para fim

de semana e férias, como ainda fazer com que as terras voltassem a produzir algum produto, dar um

retorno.

Rogério sorri ao lembrar que “a cada hora meu pai inventava uma coisa, inquieto, ativo, queria fazer.

Punha café, tirava café, punha gado, tirava gado... Caramba! O que tinha de trator naquela fazenda, era uma coisa absurda”. Significava que quando Fabrizio tinha um projeto, e sempre tinha algum, empenhava-

se, punha tudo nele. “Sonhos, sou um colecionador de sonhos”, repetia.

A estrada de ferro Sorocabana, que ligava São Paulo a Presidente Epitácio, às margens do rio Paraná,

na divisa com o Mato Grosso, atravessava as fazendas e parava numa pequena estação de Maristela,

povoado com uma única rua, subdistrito de Laranjal Paulista. Região servida por três rios de bom porte,

o Tietê, o Sorocaba e o Capivari, além de mais seis ribeirões e seis córregos. Laranjal, séculos atrás, tinha sido pouso de tropeiros.

A casa centenária sofreu reformas que não alteraram a arquitetura original. As portas eram altas,

madeira pesada, fechadas com tramelas. A princípio, todos estranhavam uma abertura na parte inferior

das portas, até que um capataz explicou. Apareciam ratos e havia gatos. As aberturas eram para as

passagens dos ratos perseguidos pelos gatos, senão virava um inferno.

A São Roque era uma fazenda de 100 alqueires com quadra de tênis, piscina, campo de futebol,

charrete, dezenas de cavalos. Cada um dos filhos tinha a sua turma, nunca iam menos de vinte jovens, envolvidos em todo tipo de brincadeiras. Andrea, a filha mais nova, define a infância e juventude como

um de seus períodos mais felizes, alegres. Fabrizio Júnior confessa que a “fazenda era meu sonho”. Os

três irmãos confessam uma nostalgia em comum, a das viagens de trem. Eles conservam vivo um

momento fascinante, o da chegada à fazenda e o “desembarque”, uma sensação: “A gente pedia ao

maquinista – todos se conheciam – para diminuir a velocidade assim que entrava na fazenda vizinha à

nossa. De mochila nas costas, saltávamos do trem, eu, Andrea (filho do Luis Carta), Diogo Mainardi e

Wisner, amigos do Dante Alighieri. Se era noite, levávamos lanterna e andávamos meia hora até chegar

em casa. Um programaço, dos mais gostosos. Aventura. Chegávamos na sexta-feira, ficávamos até

domingo, ou então eram todos os dias das férias, desligados do mundo, ordenhando vacas, andando à

cavalo, recolhendo o gado, acordando cedo, praticando esportes”.

A fazenda virava uma “república”, com suas vinte camas: eram cinco camas em quatro quartos. Os pais

só apareciam nos finais de semana. “Éramos livres, pegávamos um carro, dirigíamos a 160, sem

repressão, sem nada, donos de nós mesmos. Tempo de liberdade, descobertas”, acrescenta Rogério.

Fabrizio Júnior quase se deu mal numa dessas aventuras. “Apanhamos o jipe, Andrea e eu, e fomos a

um retão, ver quem chegava a 120. A gente estava acostumado a dar cavalo de pau e voltar antes de

atravessar o trilho do trem. Certo dia, no cavalo de pau, o jipe tombou, cada um saiu correndo para um

lado, mas não aconteceu nada. Só que muita gente viu e veio ajudar. Imagine, numa cidade daquele

tamanhozinho, fomos o assunto. Quando cheguei em casa, inventei uma história para meu pai, dizendo que

uma galinha tinha atravessado, fui desviar, o jipe tombou, caiu no barranco. Só que, logo depois, papai

foi à cidade e o assunto era o cavalo de pau e o jipe tombado. Cada um que chegava perguntava:

– Tudo bem? Seu filho, como está?

Contaram direitinho, papai virou uma fera. O problema não era ter capotado, era ter mentido. E ele,

quando ficava bravo, ficava bravo para valer. Igual a mim, lato muito, não mordo. Vinha um castigo, logo

esquecido, ou a ameaça: da próxima vez você vai ver o que te acontece... Ficava na ameaça.”

No auge do sucesso com o Old Eight, em pleno verão, em qualquer tempo livre o rumo se desviava para o mar, o sol no barco Gadaupa. Foram três os Gadaupas, o I, II e III. “Não se muda nome de

barco”, alerta Fabrizio pai. Gadaupa teve origem no nome Guadalupe, com que Daisy queria batizar o

primeiro barco, homenagem a Nossa Senhora de Guadalupe. O nome teria origem, segundo Daisy, na

maneira como as crianças se referiam a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México e patrona das

Américas. As crianças só diziam Gadaupa, que acabou sendo tambem o apelido que deram à mãe. A

última Gadaupa encomendada e não terminada foi um barco sofisticado de 46 pés, todo revestido de

jeans, que provocava a admiração ainda no estaleiro onde estava sendo construído. Mas havia um barco

especial, pequeno, paixão de Fabrizio Júnior e Rogério, aquele em que eles esquiavam. “Estávamos com

13 para 14 anos e adorávamos aquele barquinho.”

Às cinco da manhã, hora de mar calmo, na marina em Santos, Fabrizio ligava o barco e se dirigiam a

Angra dos Reis ou para Ilhabela. Naquele início dos anos 1970, Angra, chamada Baía dos Reis Magos,

com suas 365 ilhas, despontava como reduto vip com a recém-inaugurada marina, criada em 1966 por

Sonia e Paulo Albuquerque, considerada a primeira do Brasil no gênero. Aos poucos juntavam-se barcos de amigos, como o do banqueiro Gastão Vidigal ou o de Aurinho Moura Andrade, filho do senador Auro

Moura Andrade, que tinha sido presidente do Senado quando Jânio renunciou à presidência, em 1961.

Aurinho veio a se casar com Veroca Fontoura, filha de Dirceu Fontoura, um dos filhos do criador do

Biotônico, dono de grande fortuna e conhecido playboy e homem divertido, bem-humorado. Dirceu

possuía um iate mítico, o Atrevida, veleiro de 105 pés, com 1.500 metros quadrados de velame e

tripulação de dez homens, palco de memoráveis festas, prato cheio dos fofoqueiros e paparazzi de

plantão, além de um avião mais conhecido como boate voadora. Pouco depois, Fabrizio passou a produzir uma cachaça a que deu o nome de Atrevida. Por pouco tempo. Dirceu dava festas de arrepiar e

mantinha sempre um barco com tripulação salva-vidas pronto a pescar bêbados que caiam do iate no mar.

A certa altura, os barcos se juntavam e havia o das crianças e o dos adultos, sendo que os adultos se

dividiam em homens e mulheres. “Os homens tomavam uísque a as mulheres, champanhe”, lembra

Andrea, “enquanto nós, crianças, vigiadas pelos salva-vidas, pulávamos no mar, nadávamos, livres,

soltos.” Não havia cozinheiros a bordo. Daisy, uma ótima cozinheira na opinião de todos, se encarregava

do fogão, ajudada por marinheiros. Mas havia rodízio, a comida era ora em um barco, ora no outro.

Modesta, Daisy diz que na verdade fazia ótimos risotos, aos quais a turma, brincando, dizia ser “arroz al

dente”.

As crianças, crescidas, divertiam-se pescando com tarrafa, ou mergulhando com o arpão na mão,

buscando lagosta. Adoravam dormir no barco, enquanto os pais desciam à terra. Podia-se dormir em

Ilhabela ou em Alcatrazes, um dos mais belos arquipélagos do Brasil, a cerca de 45 quilômetros de São

Sebastião, litoral do estado de São Paulo, e hoje considerado reserva ambiental e regido por normas severas.

O ritmo da vida era documentado nas colunas sociais. Na Folha de S. Paulo, Tavares de Miranda,

entre os jornalistas mais lidos do país, anotava:

 

No Iate Clube de Santos, Pierella e Silvano Dalle Molle saíam com Gioia e Renato Ferrari em seu

iate Pierella IV, agora totalmente reformado.

Vitinho Simonsen deixava sua Ferrari amarelo ovo para singrar os mares a bordo do Ondini I.

Muito concorrido o barco La Gravina, de Ney Suplicy.

A bordo do Gadaupa III de Daisy e Fabrizio Fasano, o fotógrafo Lew Parrella, Enio Mainardi,

Maria Teresa Dias de Souza, Octavio Botelho do Amaral... Enio ensinando Daisy a mergulhar como

golfinho diante do Samambaia.

O campeão de velocidade José Carlos Pace atracando seu barco enquanto Oscar Americano Neto

levava sua mana Beth e Guilherme Vidigal a bordo do seu Malu IV.

Meninos. Estas são algumas das pedidas para vocês passarem uma boa temporada no mar durante a

Semana Santa, se forem amigos de alguns destes anfitriões.6

 

Lew Parrella era considerado o fotógrafo top da Editora Abril. Ítalo-americano, trabalhou nas revistas

Look e Life, mas decidiu abandonar os Estados Unidos e mudar-se para o Brasil, onde fez escola,

influenciou gerações, ensinou estilo, luz e arte. Enio era, na época, um dos enfants gâtés da propaganda

brasileira, cheia de talentos, com os gênios disputando o pódio dos prêmios e os salários vultuosos de

uma era dourada. José Carlos Pace, o Moco, foi dos ícones da Fórmula 1 brasileira nos anos 1970, tendo

morrido prematuramente aos 32 anos num acidente de avião.

Fasano, o bem-sucedido empreendedor desse tempo, é sintetizado num trecho do perfil que Armando Serra Negra, jornalista especializado em gastronomia, fez dele para o Jornal da Tarde em 2002:

“Fabrizio lembra-se, com nostalgia, de suas animadas noitadas, nos idos de 1970, quando a bordo de reluzentes limusines e dos mais velozes carros esportivos de seu querido amigo Xandinho Aliperti (há

muito falecido), terminavam depois de muito glamour e champanhe, diante da tradicional sopa de

cebolas, de madrugada, no Ceasa.”

 

6 Folha de São Paulo, 25 de março de 1975