Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Pedimos um Restaurante, Recebemos um Castelo
PEDIMOS UM RESTAURANTE,
RECEBEMOS UM CASTELO
Na altura de 1984-1985, surgiu um problema que, de saída, assustou. A JHSF, das maiores
incorporadoras do Brasil, comprou uma vasta área na rua e dentro desta área estava o Fasaninho.
Todavia, os Fasano conseguiram um acordo amigável e prorrogaram o prazo de despejo por um ano, enquanto tentavam liberar um outro ponto nos Jardins, para um novo projeto, um restaurante como nunca
tinha sido visto em São Paulo. Como estava envolvida gente amiga e de confiança, a incorporadora
prometeu que, assim que o edifício fosse concluído, o Fasano teria seu espaço para abrir um restaurante.
Todo o trabalho da família, a partir dali, se concentrou na rua Haddock Lobo.
É preciso, antes, conhecer um pouco da história do Brasil na época. Com o país saindo de uma ditadura
e caminhando para um regime mais livre, tempo que foi chamado de “Transição para a Democracia”, o
Brasil viveu uma efervescência econômica e política na década de 1980. A ditadura militar começou a
abrandar com o governo de Ernesto Geisel, entre 1974 e 1979. Ele foi substituído pelo general João
Figueiredo, militar linha dura, famoso pelas frases: “Prefiro o cheiro dos cavalos ao do povo”, “Quero
que me esqueçam” e pela conjugação “exploda” do verbo explodir. Mas durante seu governo formatou-se
o Movimento Pró-Diretas Já e houve a eleição de um novo presidente, não pelo voto popular, mas pelo
Colégio Eleitoral, que elegeu Tancredo Neves, o primeiro presidente democrático em duas décadas.
Tancredo, todavia, faleceu antes de tomar posse, em um episódio comovente para o país inteiro, que seguiu a agonia do presidente, internado no Incor (Instituto do Coração). O vice José Sarney assumiu a
presidência. O general Figueiredo saiu pelos fundos do Palácio do Planalto e não passou a faixa
presidencial ao seu sucessor.
Numa economia caótica, com a inflação atingindo a estratosfera, Sarney congelou os preços, trocou a
moeda cruzeiro pelo cruzado e instituiu em 1986 o primeiro plano econômico. Ficaram célebres os
pitorescos “fiscais do Sarney”, voluntários que vigiavam o comércio denunciando remarcações. Um dos
resultados desse plano foi o desabastecimento do país. No campo, pecuaristas escondiam boiadas
inteiras e um dos mistérios era como. No ano de 1987, vieram o plano Cruzado II e o plano Bresser
Pereira, mas a economia continuou desarticulada e o Brasil declarou moratória, dando calote em seus
credores. Em 1988, o país ganhou uma nova Constituição.
Foi uma década em que perdemos para a Itália a Copa do Mundo da Espanha em 1982. Quatro anos
depois, foi a vez da Argentina ser campeã no México. Houve a Guerra das Malvinas, a criação do PT em 1980, o surgimento do primeiro Macintosh e o nascimento do primeiro bebê de proveta. Michael Jackson
lançou o clássico Thriller, surgiram Madonna, Prince, Iron Maiden, Cindy Lauper, Legião Urbana,
Cazuza, Blitz, Barão Vermelho, entre outros. A Televisão Tupi, pioneira, afundou de vez; em seu lugar
veio o SBT do Silvio Santos.
Erguer um restaurante em tempo de caos econômico
Nessa montanha-russa, “tempo de loucura para qualquer empreendimento, a gente ficava desesperado
com as variações cambiais, o desgaste da moeda, os juros, o overnight, as desvalorizações e contínuas
correções”, lembra Fabrizio. Os Fasano, pai e filho, tinham reerguido a instituição familiar, primeiro com
o Fasaninho, e em seguida jogavam todas as cartas e todo o dinheiro numa batalha audaciosa que levou
quatro anos para ser concluída, a construção do Fasano da rua Haddock Lobo, nos Jardins. Fabrizio
mantendo a retaguarda econômica e Rogério erguendo o “palácio” que assombrou São Paulo e o Brasil.
Tudo começou pouco antes do fechamento do Fasaninho, na rua Amaury. Afirma-se em família que
houve uma atração recíproca entre Rosa de Souza Beleza e Fabrizio. Ela, muitos e muitos anos mais
velha do que ele, encantou-se com as maneiras, o modo de ser e o que foi considerado “cavalheirismo”,
qualidade que importava muito para uma senhora de seu tempo. Aproximaram-se porque Fabrizio e
Rogério descobriram que o prédio do qual ela era proprietária, na rua Haddock Lobo, era o ideal, pela
localização e pelo projeto que ambos delineavam. Foram longas as conversações. O imóvel de três
andares, velho e bastante deteriorado, abrigava um grupo de antigos inquilinos que pagavam alugueis irrisórios. Conta-se que muitos deles não tinham carro e alugavam as garagens para uma casa noturna
vizinha, ganhando com isso muito mais do que pagavam de aluguel. Havia rumores de que o Patrimônio
Histórico estava de olho no prédio, mas foi descoberto depois que o arquiteto que o construíra já não era
tão célebre assim, nem era arquitetura representativa de uma época. A boa vontade de Rosa de Souza e o
charme de Fabrizio foram química suficiente e o prédio foi esvaziado. Quando se diz aqui “esvaziado” a
expressão é literal, porque após o contrato de aluguel todo seu interior veio abaixo, restando a carcaça
vazia. Fabrizio a princípio pensava, junto com um sócio, em construir um hotel que abrigaria o
restaurante. Quando o sócio desistiu, decidiu-se construir o restaurante e dois andares acima dele os
escritórios da empresa de Fabrizio, a firma de bebidas.
Luigi Crincoli
Mario Ciliberti
Danilo Machado
Para os alfaiates, o elegante Fabrizio sempre quis qualidade
Não é de admirar que Fabrizio Fasano tenha três alfaiates de primeira linha. Dois deles italianos, claro, Luigi Crincoli e Mario Ciliberti. O
terceiro, brasileiro, Danilo Machado. Há mais de 30 anos, o cliente é fiel aos três, ora faz roupas com um, ora com o outro. “Vestir-se bem
sempre foi uma obsessão para este homem cordial, de fala mansa”, afirmam os três. “Não algo que o leva à loucura, mas é um homem
apurado quanto a uma roupa perfeita no caimento e acabamento”, completam.
“Elegante, sim. Exigente, mais ainda”, disseram os três, que durante décadas tiveram (e têm) Fabrizio como cliente. “Um homem
sempre atento aos detalhes do corte, caimento, só escolhe tecidos finos, importados”, acentua Crincoli, cuja família é de Salerno. Ele
começou como aprendiz aos 10 anos e acaba de completar 56 anos de profissão. Danilo lembra-se de uma frase recorrente de seu cliente:
“Só uso qualidade, assim como a vida toda só vendi qualidade”. Ciliberti é o mais antigo dos três, atendeu Fabrizio a partir de 1982. Luigi
viu Fabrizio entrar em sua alfaiataria no final dos anos 1980, na alameda Jaú. Danilo conheceu-o em 1993. “Ainda época dos grandes
alfaiates na cidade”, lembra. Dos poucos que fazem um trabalho artesanal, jamais terceirizam serviços, cada cliente é uma pessoa
especial. “Fabrizio usava poucos ternos, não fiz muitos para ele. No entanto, foram incontáveis os blazers, paletós e calças esportivas, em
geral preto, azul marinho, cinza”, conta Crincoli.
Danilo diz ter aprendido muito com seu cliente, em matéria de tendências estrangeiras e novidades do mundo. “Ele apareceu em minha
alfaiataria há vinte anos, querendo fazer camisas. Ao longo destes anos acabei aprendendo com ele, homem que viaja muito, me trazia
novidades do mundo na moda masculina. Fabrizio sempre soube o que queria em matéria de camisas. Elas trazem suas iniciais FF e botões
no colarinho, principalmente as esportes. Estas precisam ter dois bolsos. Um homem clássico, sóbrio, gosta de calças de lã italiana. De vez
em quando chega com um corte de tecido Fio 200, em geral presente do Rogério, o filho. Generoso, me mandou dezenas de clientes.”
Ciliberti atende em sua alfaiataria na Mooca, em um prédio da rua Dr. João Batista de Lacerda. “Não tem placa nenhuma, meus clientes
sabem. Um indica o outro. Há pouco, Fabrizio, que aqui esteve a vida inteira, marcou, veio, mas acabou se perdendo, tudo mudou, o
trânsito virou um inferno, a cidade é outra. Ele deixa tudo comigo, adora tecidos italianos, ajudo a escolher. Fiz incontáveis blazers e muitas
calças. Com ele é preciso tirar muitas provas, até se dar por satisfeito.” Crincoli lembra que poucos sabem combinar as coisas como
Fabrizio, da gravata à meia chegando ao sapato. “Durante anos usou sapatos feitos a mão por um mestre, um italiano chamado Busso, em
Vila Buarque, que tinha uma clientela selecionada. Foi ele quem me trouxe o filho Rogério. Tornou-se amigo, me levou muitas vezes a
comer no Fasano da Haddock Lobo, aquela grandiosidade.”
O palácio no vazio de uma velha casa
Eis que se juntaram três visionários. Fabrizio, Rogério e o arquiteto francês Gil Donnat, de 39 anos, há
quinze no Brasil, especialista em construir mansões para milionários. Um sonhador talentoso, homem que
falava oito idiomas, inclusive o russo. Gil costumava brincar: “Sou um privilegiado. Entrando no ano 2000, novo século, novo milênio, e sou chamado para construir palácios!” Tempos em que o termo
arquiteto ampliou seu significado; decoradores passaram a ser chamados de arquitetos de interiores. O
que eles faziam ressoava em revistas como Casa e Jardim, Arquitetura, Projeto, Casa Vogue e na
própria Vogue. Arquitetos e decoradores eram estrelas de uma nova civilização.
Fabrizio vendeu seu vinho Weinzeller por alguns milhões e levantou financiamento. Contou que “a obra
inteira foi uma corrida para garantir o dinheiro. E ainda pagava dívidas pendentes de antes da
concordata. Num tempo tumultuado, eu precisava dar tranquilidade ao meu filho e a Gil para que o sonho
se realizasse.” Mas seu nome era respeitado no mundo financeiro, era aceito como avalista. A cifra exata
está oculta num escaninho da memória. As obras começaram. A fachada clássica seria mantida, porém os
andares interiores tornaram-se o imenso vazio que Gil encheria com um imaginário que assombraria a
cidade de São Paulo e o Brasil.
Obras são obras. Somente no dia 11 de junho de 1990, um dia antes do Dia dos Namorados, o Fasano foi inaugurado.
“Pedimos um restaurante e recebemos um castelo”, comentam Fabrizio e Rogério. Foi a delícia das
revistas de arquitetra e decoração da época. Provocou ciúmes entre restaurateurs. Quando conversamos,
Fabrizio e eu, em princípios de 2013, ele fragilizado por problemas de saúde, notei o quanto se
emocionava ao recordar o impacto que o Fasano provocou em seu tempo. Naquele momento sentia-se
prestando homenagem ao avô, Vittorio, ao pai Ruggero, e vendo os filhos continuando uma linhagem. Na
época, ele estava com 55 anos. “Espaço suntuoso, mas com humor”, comentou a revista Arquitetura e
Construção, uma das bíblias do setor no período. “As paredes revestidas de mogno imprimem um ar
austero, mas não constrangedor. A audácia se reflete nos tampos das mesas, no garrafeiro e no balcão do
bar. O humor de Donnat fica patente no jogo em que executou entre o piso e o teto em gesso, embutindo as
luminárias. Discretas molduras do forro repetem o desenho do piso, com mármore preto florido e faixas
brancas. Cadeiras Mies Van der Rohe compõem os vários ambientes.”
No salão da frente, o piano-bar, com Mario Edison tocando, como vem fazendo há décadas, fiel a Fabrizio, que o redescobriu tocando na noite. Daí esta ligação com Fabrizio, também homem da noite, a
evocar os piano-bares de uma época em que a noite paulistana era diferente, romântica. Mezanino, salão
principal, mesas num terraço para dias, ou noites, quentes, salão privê com copa à parte, falsas janelas
dotadas de espelho recortadas na madeira.
Espelhos que rejuvenesciam as mulheres
Nas vezes em que fui ao restaurante e que me ficaram gravadas na memória, guardei o fascínio das
mulheres pela iluminação especial dos banheiros femininos, trazida por Gil Donnat de Londres.
Lâmpadas de um discreto rosa na moldura dos espelhos rejuvenesciam os rostos refletidos.
Salomão Schwartzman
Um lágrima por Gil Donnat
“Faltava pouco para a inauguração do Fasano da rua Haddock Lobo, reuniu-se ali um grupo de amigos em torno da mesa, numa espécie
de preview”, diz Salomão Schwartzman, jornalista e radialista. “Estávamos deslumbrados naquele ambiente que foi a obra prima de Gil
Donnat. Já sabíamos que ele estava inteiro tomado pelo câncer que o devastava. Comemorávamos, mas estávamos tristes. De repente,
Gil apontou o dedo para cada um de nós e disse, impositivo: ‘Vocês não têm esse direito. Não quero ver essas caras. Sorriam, sorriam,
que a vida é boa.’ Quando olhei para Fabrizio, vi uma lágrima descendo pela sua face.”
“Fiquei muito assustado”, admite Rogério. “Teve dia em que entrei na obra e decidi parar com tudo,
apavorado. Mas reconhecia que não havia nenhum outro lugar igual, com tal pompa. Era de tirar o fôlego
aqueles pés-direitos altíssimos, as paredes vermelhas, as salas privê e uma adega perfeita. Creio mesmo
que o nosso restaurante foi o primeiro a ter uma adega como aquela, para nenhum enólogo, nenhum
sommelier ou connaisseur colocar defeito.”
No subsolo, a adega assemelhava-se às antigas cellars de vinícolas centenárias. Ao começar já
abrigava três mil garrafas de 180 marcas, que iam de um Château Lafite Rothschild 1982 ao Château
Cheval Blanc 1985. Sem esquecer o vinho da casa, o cabernet Fasano. Vinhos que a revista Veja definiu
como “joias guardadas no porão”. Fabrizio, que mantinha o escritório de sua empresa de bebidas no
Brás, transferiu-o para a Haddock Lobo. “Ficamos muito perto os dois, sempre em contato,” disseram pai
e filho.
Fabrizio, para Rogério, é a figura mais sábia com quem ele já cruzou: “Conheço poucas relações entre
pai e filho tão fortes como a nossa. A gente briga, discute bastante. Só que ele é uma das pessoas mais
modernas que conheço. Está sempre do meu lado, não julga, não questiona, não impõe. Fala o que pensa,
mas sobretudo deixa você também pensar.”
Na entrada o “Oh!” de espanto e alegria
O Fasano da Haddock provocou admiração e rejeição. Uns se intimidavam, outros entendiam que Gil
Donnat conseguira não esmagar o frequentador com luxo e pompa, ao acrescentar bom humor e leveza.
Anos mais tarde, Rogério escreveria: “Digo sem medo e sem modéstia que o Fasano foi o primeiro
restaurante em São Paulo a trazer da Itália quase todos os seus ingredientes. Me lembro hoje com alegria
que chegamos a ser criticados pelo fato de trazermos arroz da Itália, algo tido como esnobe na época, e
que hoje é comum encontrarmos em qualquer bom restaurante da cidade. Isto aconteceu também com
outros ingredientes que eu e meu pais garimpávamos na Itália.”
José Zaragoza, então uma das estrelas da propaganda brasileira, comentou: “O Fasano é tão chique
quanto os melhores do mundo. É caro, mas o preço é justo.” Surgiram lendas gratuitas falando sobre o
alto preço dos pratos e dos vinhos, da obrigatoriedade de entrar de paletó e gravata, o alto teor do preço
“esnobismo” dos maîtres e garçons. Mitos. Houve quem o considerasse cafona, mesmo nunca tendo ali entrado, e também quem ficasse maravilhado (estes em maior número).
De qualquer modo, havia uma unanimidade. Ao entrar, não havia quem não parasse e dissesse: “Oh!” A
família reconhece que este “Oh!” sempre foi a exclamação habitual de quem entrava em um Fasano, ao
longo de sua história. Afirma Rogério, que viveu agoniado até a inauguração: “Era tudo, menos um
restaurante discreto. Impactante. Foi um divisor de águas na cidade, de qualquer maneira. Havia quem adorava e quem amava, sem meio-termo. Houve, confesso, certa dificuldade até que ele emplacasse. Meu
pai mandava aguardar e tocar, trabalhar. Sentíamos que o restaurante não podia fracassar. Aquilo não
podia não dar certo, era muito dinheiro investido. Olhava para meu pai e não sabia se ele tinha medo, se
tinha confiança, se acreditava ou desacreditava. Ele, sempre sério, imperturbável, tinha visto tudo, tinha
vivido tudo, subido e caído. Eu me assustei, mas tudo serviu para completar minha formação,
amadurecimento.”
Não fracassou. Veio a clientela, vieram os prêmios, a fama nacional e internacional, a excelência na comida (o início foi com Luciano Boseggia), a exaltação das matérias-primas importadas, as trufas
trazidas diretamente da Europa e as alcachofras da ilha de Santo Erasmo, na Itália, e assim por diante.
Os pratos deslumbravam. Mousses de codorna, risotos de fios de açafrão, ou al ragu di’anatra e mele
al profumo di curry, os tortelli di pernice con salsa di scarola, os agnolotti di scampi in salsa de
gamberi, os medaglione di’aragosta al pomodoro fresco e basilico, o petto di faraona al misto di
funghi e outras mais passaram a receber intensa promoção na mídia, provocando a frequência de
primeira linha. Quem não conhecesse o Fasano não era vip. E o Fasano pegou, impávido e forte, colosso.
Um detalhe triste: um ano após a inauguração do restaurante Gil Donnat morreu.
Pai e filha, numa discreta mesa, observam
Andrea, a única filha, teve também sua passagem pelo restaurante. Ela começou na Haddock Lobo assim
que o restaurante abriu. “Fui chefe das faxineiras, passei para o setor de compras, em seguida
almoxarifado, assumi as reservas, fui para o financeiro e enfim tornei-me diretora-geral de bastidores.
Quando o Gero foi aberto, tornei-me diretora nas duas casas, fazendo planejamento de custos. Percorri
todos os setores, almoçava com os funcionários, conheci a fundo o backstage, isso sempre me fascinou,
saber como as coisas são feitas, o making of. Atrás é onde tudo se desenrola, onde se aprende como a
máquina funciona. Ali me preparei para o que faço hoje.”
Todas as noites, durante anos, Andrea sentava-se com o pai em uma mesinha estratégica, de onde
observavam quem entrava e saía. Daquela mesa viam tudo, sabiam tudo. Quem estava com quem, quem
não devia estar com alguém, espantavam-se com certos casais expondo-se publicamente, ele era casado
com outra e ela casada com outro, ficavam encantados com mulheres belas e realmente elegantes.
Divertiam-se com os personagens, os que faziam tipo, admiravam-se ao ver empresários que
publicamente não se bicavam fazendo acordos e conchavos ali, ou empresários low-profile se expondo.
“Sempre fui muito ligada ao meu pai, é meu confidente, a ele conto tudo, problemas íntimos, de amor,
meus problemas com o casamento, pedia conselhos, ele me segurava as barras. Aquela mesa era um
refúgio sossegado, ríamos, nos divertíamos, fofocávamos, eram momentos nossos, eu com minha
cervejinha, ele com o vinho do Porto. Trazia dificuldades do meu setor no restaurante, ele me orientava.
Contava a ele meu sonho, o de liberdade, ter uma coisa minha, ele estimulava”, conta Andrea.
Por ali passava o PIB paulistano, para não dizer brasileiro. “Eu conhecia todos, cumprimentava e era
cumprimentado, havia quem viesse à minha mesa. Nessa época sabia-se melhor como o dinheiro era ganho, conhecia-se a origem das grandes fortunas”, diz Fabrizio. Daquela mesa jamais saiu uma notícia, a
reserva era absoluta. Tinha de ser, como recomendava o velho Ruggero. Ser amigo sem invadir
privacidades, dar tapas nas costas.
Fasano-Gero-Fasano, o zigue-zague de São Paulo Uma parede de tijolos aparentes, com uma porta de madeira grossa, formando um nicho. Dois degraus.
Simplicidade absoluta. Percebe-se que a parede é grossa. Ao passar, ninguém imagina que aquela
austeridade conventual é substituída, dentro, pelo agito, efervescência total. Quase quatro anos depois,
em dezembro de 1993, do outro lado da rua, em frente ao Fasano, o arquiteto Aurélio Martinez Flores
entregava o restaurante Gero, que se tornaria velozmente o darling (como a crônica social dizia) dos
descolados, executivos, intelectuais, bicões, da gente bonita e inteligente. O nome vem do apelido de
Rogério, sempre chamado de Gero. Ele deveria ter o nome do avô, Ruggero, porém, na hora do registro, o cartorário abrasileirou.
“Um lugar requisitadíssimo, de uma ‘jovialidade calorosa’, definiu Silvio Lancelotti, colunista de
gastronomia. Silvio construiu um texto poético em que se vê os patriarcas Vittorio e Ruggero, de “algum
ponto do paraíso, olhando o presente com orgulho. Examinando a paisagem gastronômica de São Paulo
com uma vaidade muito além de justificada. A certa altura, observando o Gero e sua movimentação, os
dois veem Fabrizio recebendo os amigos e o avô, Vittorio, espanta-se com seu tamanho: ‘Como ele ficou
enorme.’ Mais adiante, percebe Rogério circulando entre as mesas: ‘Meu Deus, Ruggero, o menino é
igualzinho a você.’”
A fábula de Lancellotti tem um final que resume a trajetória dos Fasano. “No dia seguinte, Rogério
desperta com o ímpeto incontrolável de telefonar a Fabrizio: “Pai, tive um sonho maravilhoso, o bisavô e
o vovô em visita ao Gero.” Mansamente rindo, Fabrizio diz ao seu menino: “Que é isso, Rogerinho? Eles
nunca nos abandonaram. Estão todos os dias conosco.” Até hoje, aos 51 anos, Rogério é chamado pelo
pai de Rogerinho, assim como o gigante Fabrizio Júnior é Fabrizinho, e Andrea é Deca.
Ao contrário do esplendor do Fasano, em frente, a 20 metros, o Gero é quase despojado, claro,
modernérrimo, tijolos à vista. “Fasano-Gero-Fasano, o zigue-zague de São Paulo. “Foi assim que certa
vez meu amigo exagerado Telmo Martino se referiu ao Gero. Exageros à parte, se não é o zigue-zague de
São Paulo é o meu zigue-zague. E adoro quando me perguntam quantas vezes atravessei a rua Haddock
Lobo. Impossível falar do Gero sem mencionar chavões como filhote do Fasano, bistrô à côté do Fasano
ou simplesmente filial. Mas, na verdade, esta é a sua grande ousadia”, lembra Rogério na introdução ao
livro dedicado ao restante no início de 1998.
Numa das primeiras páginas do livro, vê-se Fabrizio olhando o salão e a legenda sucinta: “Il capo”. Na
outra, Rogério beija a mãe, exuberante na sua força, a mesma beleza que seduziu Fabrizio nos anos 1950.
A legenda: “La mamma”. Então, em uma foto em que há uma atmosfera de ternura, estão os três irmãos:
Fabrizio Junior, Andrea e Rogério junto ao balcão, diante de taças de vinho branco. O restaurateur
Rogério deslanchava e reconhecia: “O Fasano-Gero-Fasano são restaurantes não de chefs nem de empresários, mas de proprietários que criam seus lugares, que estão sempre presentes, que sonham cada
ideia, que discutem cada prato e que, mais do que isso, adoram trazer um pouco do seu passado, de suas
origens, para a terra que escolheram para viver.”
Há uma foto de Luiz Tripolli, abrindo o livro. Em preto e branco, página dupla. À mesa, Fabrizio
comendo um espaguete na manteiga, um de seus pratos habituais, e Rogério tomando um gole de vinho.
Ambos, como bons italianos, com o guardanapo de linho branco preso ao colarinho. Esta foto, para mim,
deveria ser entronizada nos restaurantes Fasano. Sintetizam tudo, resumem a simbologia de um clã, a
filosofia de uma família. Entronizada em seu sentido sagrado.
O bufê Fasano de Andrea
O Fasano, falado nacional e internacionalmente, estendeu os braços. Ali foi concebido primeiro, por volta de 1995, o bufê criado por Andrea, que queria se “soltar”. Fabrizio sempre dando força, sugerindo,
desentortando pepinos. Nos primeiros tempos, o bufê se mantinha sob o guarda-chuva Fasano (para
copiar o slogan de um banco tradicional, o Nacional, que não existe mais). Andrea trabalhava à noite no
bufê, servindo, a princípio, residências. Um ano mais tarde, arranjou uma sócia, Patrícia Filardi,
sociedade que se mantém. O bufê cresceu e alugou uma casinha na então rua Taiarana (hoje Vittorio
Fasano), de uma única quadra, entre as ruas Haddock Lobo e Bela Cintra. Ali montou uma cozinha e
ampliou o bufê, trouxe João Rodarte para a sociedade, desvinculando-se do Fasano. O bufê continuou a crescer, até se tornar hoje um dos maiores do Brasil.
Atico, uma instituição, trabalhou com Ruggero, está com Fabrizio e
Rogério
“Meus mestres foram Fabrizio Guzzoni, do Ca’D’Oro, Fabrizio e Rogério Fasano. Trabalhei para o senhor Ruggero ainda no Fasano da
rua Barão de Itapetininga, em 1953. Era um mensageiro, e uma de minhas tarefas era entregar os bolos e doces das festas e dos
casamentos, além de atender clientes na doceria. Inesquecíveis foram as coxinhas daquela casa. Meu ofício, a arte de ser maître, aprendi
com os Fasano e com meus clientes, eles é que me moldaram. Uma vez por ano eu via o senhor Fabrizio, que estudava nos Estados
Unidos e vinha passar férias aqui. Mantinha-me à distância, ele era o filho do dono, rapaz elegante, bem posto”, diz Atico Alves de Souza
aos 86 anos, sendo 64 dedicados à sua arte, porque saber receber clientes é uma arte complexa.
Baiano de Monte Santo, veio para São Paulo em 1949, foi servente de pedreiro, depois conseguiu um lugar no Cambusa, restaurante e
boate na rua Araújo, Centro, época em que aquela rua era um fervedouro na noite paulistana. Dali, passou para o hotel Esplanada, onde
pontificava Álvaro Luis Assumpção, com sua boate Meninão, a mais elegante da época. Finalmente, foi trabalhar no Ca’D’Oro, então na
rua Barão de Itapetininga, 207, 2º andar.
“Passou o tempo e um dia vi que estava na hora de mudar; deixei o Ca’D’Oro e acabei sendo levado para o Fasano da rua Haddock
Lobo, um restaurante como nunca tinha tido outro igual. Minha função era servir o Bollito Misto, que obedece a um ritual que vem do
norte da Itália. Quando o Parigi abriu na rua Amaury, fui para lá, levando o Bollito e acumulando a função de maître do lobby no hotel.”
Há 24 anos com os Fasano, Atico é uma instituição que viu crescer os filhos de Fabrizio e Daisy, viveu todas as etapas e a evolução do
grupo neste quarto de século. “Os Fasano, e também, devo dizer, o senhor Guzzoni, fizeram parte do que sou. Mas quem faz um maître e
um garçom são os clientes. E cliente bom é o exigente, o que resmunga quando tem razão. Os que aceitam tudo, os que nada dizem, nada
comentam, tornam o profissional displicente, acomodado. Sou de um tempo em que víamos as famílias levando as crianças para almoçar,
todos bem vestidos, bem arrumados, porque o ato de comer é um cerimonial de respeito. Uma das coisas que aprendi e que é
fundamental? Um maître jamais se senta diante de um cliente. Recebe-o em pé e em pé fica.”
Sem pensar em aposentadoria, cabelos brancos, dentro de um smoking feito sob medida, como se tivesse nascido com ele, Atico tem
uma comenda rara, a de Cavaleiro da Ordem do Mérito do Trabalho.
Parigi, a aliança entre duas cozinhas
Fabrizio gostava muito de uma blanquette de veau, conta seu filho Rogério. Até o dia em que questionou:
“Filho, a vida é cheia de dúvidas, sou italiano, nasci em Milão, mas realmente não sei se troco uma
cotoletta alla milanese por uma boa blanquette.” Aquela frase reacendeu um desejo que pairava sobre a
cabeça de Rogério, o de criar um restaurante com clássicos franceses e italianos. Nesse meio tempo,
conversando com Fabio Auriemo, da JHSF, a incorporadora que tinha desalojado o Fasaninho da rua
Amaury, lembrou uma promessa dele, a de ceder um espaço para outro restaurante. Quase dez anos tinham se passado, porém Fabio cumpriu a palavra e simplesmente modificou o lobby de um prédio, o
número 275 da rua Amaury, já erguido, e entregou. Ali nasceu, em 1998, o Parigi, que passou a contar
também com um sócio, João Paulo Diniz.
A ideia, realizada por Sig Bergamin, foi a de reconstituir a atmosfera íntima de um bistrô parisiense,
com detalhes em madeira escura, iluminação adequada com luminárias de Murano, dando a sensação de
aconchego, mesas espaçosas e cadeiras confortáveis. Um restaurante de discreta elegância, frequentado
no almoço por homens de negócios (é o chamado power lunch), e à noite por gente bonita, colunáveis,
socialites, executivas, modelos. Assim, os Fasano chegaram ao final do século.
O nome intrigava muita gente. Restaurante francês com nome italiano? O mais do que expert J. A. Dias
Lopes, do jornal O Estado de S. Paulo, desvenda a ambiguidade: “Qual o significado do Parigi nesta saga? O nome do restaraunte sela a aliança entre as duas cozinhas: em italiano, a capital francesa se
chama Parigi.” Era a ideia de Rogério desde o princípio. Ao abrir o cardápio, elaborado pelo chef Eric
Berland, tanto se encontrava soufflé au fromage quanto tortelloni Mantovano, filé de sole farcie aux
herbes quanto trenette al pesto, canard à la presse (o famoso, marca registrada do La Tour d’Argent, de
Paris) quanto o Bollito Misto, até hoje manuseado pelo senhor Atico, um emblema entre os funcionários
dos Fasanos. Com o Parigi e o Gero Café, no Shopping Iguatemi, aberto também em 1998, os Fasano
encerraram o século XX.