Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 3 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Dois Fasanos no Centro da Cidade

Ruggero, um lorde, na descrição da nora Daisy, homem que falava várias línguas, tocava piano, era

elegante, fino, abriu uma banca de aves e ovos no Mercado Central. Todas as segundas-feiras tomava o

trem da Sorocabana e partia para Presidente Prudente, quase no final da linha, próximo ao Mato Grosso. Era uma viagem de 24 horas. Bate e volta exaustivo. Mas os preços compensavam. Na volta, vinha

carregado de balaios de aves. Passou a ganhar dinheiro. A banca fora conseguida com a intermediação de

uma senhora chamada Judith Amato, que se encantou com Ruggero e fez tudo por ele. “Era uma mulher

enorme, devia pesar 120 quilos, um tipo felliniano, que tinha uma mercearia e uma banca de frutas perto

da banca do meu pai. Possuía muito dinheiro e uma belíssima casa no bairro de Santana. Todos a

respeitavam; no Mercadão, era a ‘dona’. Mulher só, não tinha filhos nem herdeiros. Judith era tia de

Mário Amato, que, décadas depois, seria o todo-poderoso da Federação das Indústrias em São Paulo e

sócio de Fabrizio na produção de uísque.”

Dizem as memórias familiares que ela tinha comunicação com o além, falava com os espíritos e as

entidades que flutuam em outras esferas. Um dia recebeu, de esferas mais altas, um pedido de Vittorio,

intercedendo pelo filho Ruggero. Dali em diante, fez o possível e o impossível para ajudá-lo. Ruggero,

faro atilado, fez uma investigação e descobriu que os tios não tinham registrado o nome Fasano. Na

mesma hora, correu e conseguiu o documento oficial, e a marca passou a ser dele.

Para abrir, precisava de dinheiro. Foi quando entrou em cena Judith Amato.

– Abre, aproveita, as coisas estão a seu favor.

– E dinheiro? Não tenho dinheiro.

– Eu empresto.

– Pago como?

– Com o trabalho.

– E se não der certo?

– Nem pense isso.

Assim, ela, mulher abastada, disponibilizou 500 mil cruzeiros para serem aplicados no

empreendimento. Aquela quantia representaria hoje cerca de 100 mil dólares. Entregue o dinheiro, ela

aconselhou:

– Acabaram de vagar dois espaços meus no Mercadão. Abre ali um Fasano!

No entanto, ele julgou que aquele não era o lugar para sua clientela e para o que desejava fazer. Judith,

em suas conexões com o além, determinou dia e hora em que o negócio de Ruggero deveria ser aberto. A

partir daquele momento, datas importante relativas a negócios e a decisões profissionais foram

estipuladas por ela. Se não fazia bem, mal não faria.

Depois de alcançar o sucesso, Ruggero tentou inúmeras vezes pagar Judith. Ela dizia: “Depois,

depois.” Contemporizava. Depois de três anos, a solução encontrada foi descobrir o número da conta

dela no banco e ir depositando em parcelas, até a quitação completa.

Com o nome e os 500 mil cruzeiros foi aberto, em 1948, o Fasano, na avenida Vieira de Carvalho,

centro de São Paulo, a 200 metros da praça da República e junto ao largo do Arouche, dois pontos

nobres da cidade. Região bem frequentada, onde estava a maioria das luxuosas salas de cinema, os

grandes bancos e, oposta à Vieira de Carvalho, estava a rua Barão de Itapetininga, com suas lojas

modernas de tecidos: o Mappin, seu salão de chá e ainda o Teatro Municipal. No mesmo ano foi

inaugurado, na esquina da avenida São João com a Ipiranga, o Bar Brahma, destinado a se tornar outro clássico no panorama paulistano. Na região, pontificava ainda o tradicional Carlino, restaurante que vinha do final do século XIX. Na década de 1950, Antoine, o cabeleireiro da alta sociedade, estava

instalado na praça da República, que teria também a Cassio Muniz, uma grande loja de departamentos,

frequentada pelas grã-finas. Pouco mais tarde, Dener, um dos primeiros estilistas midiáticos do Brasil,

também estaria na República e viria morar na rua do Arouche. Vizinhança de boa estirpe.

O Fasano da Vieira de Carvalho, com instalações e decoração modernas, tornou-se o ponto de encontro

da sociedade paulistana. “No térreo havia, de um lado, os doces, e do outro, os frios. Ao fundo, a

confeitaria com mesas. No primeiro andar funcionava o restaurante. As pessoas chegavam para o happy hour por volta das seis da tarde, e ficavam até às oito ou nove. Então, iam para casa ou subiam para

jantar. Hora em que chegavam também os que vinham apenas jantar. O esquema garantia a casa cheia até

meia-noite, uma da manhã. A freguesia formou-se rapidamente e, graças ao atendimento diferenciado e ao

cardápio elaborado, e a uma rica apresentação nas comidas típicas daqueles anos, como o coquetel de

camarão, o peru à Califórnia, estrogonofe, filé à cubana, aspargos verdes, filés frescos ao bisque de mel,

camarão à Termidor, foie gras e caviar. Rogério, filho de Fabrizio, comenta, hoje, que na verdade tanto o

Fasano do bisavô, Vittorio, quanto o do avô Ruggero primavam pela cozinha internacional, não

especificamente pela culinária italiana. Sobressaíam na cidade pelo esmero e pela qualidade.

Um ano depois de ter aberto o restaurante na rua Vieira de Carvalho, Ruggero foi atraído para a rua

Barão de Itapetininga, a mais chique da cidade. Em 1949, era o lugar de grandes endereços, como a

Peleteria Americana (mais tarde Maison Madame Rosita, a primeira a ter geladeira para guardar as peles

que as mulheres traziam da Europa), a Casa Slopper, a Los Angeles, a Casa Levy de Pianos, onde se

encontrava sempre um pianista a postos. Havia ainda a Confeitaria Vienense, cenário Belle Époque, em um belo prédio de 1913, onde Mário de Andrade tomara chá e intelectuais se reuniam para contemplar as

“belas da tarde”, que tanto eram mulheres da sociedade como algumas “belle de jour” levadas por

cavalheiros que as sustentavam. Endereço de livrarias, como a Francesa e a Brasiliense. No final da rua

estava o edifício Glória, marco na arquitetura de São Paulo, com hall de mármore, painéis de madeira e

bronze.

Foi o lugar ideal para a Confeitaria Fasano, que, situada no número 131, com seus lustres de cristal,

imensos espelhos nas paredes, cadeiras estofadas em couro vermelho, mesas com alvas toalhas e serviço

requintado, rapidamente eclipsou a Vienense e o salão de chá do Mappin Stores.

A década de 1950 marcou o início de transformações no Brasil e no mundo. Getúlio Vargas foi reeleito

presidente, criou a Petrobras e o orgulho nacional como slogan “O petróleo é nosso”. São Paulo

comemorou, em 1954, o seu quarto centenário, com festejos que marcaram época, com a inauguração do

parque do Ibirapuera e a abertura de hotéis quatro estrelas como o Jaraguá, o Othon e o Lord, o máximo do luxo e da modernidade. Elvis Presley surgiu como o fenômeno que, com o rock’n’roll, arrastou a

juventude num turbilhão. Brigitte Bardot, em filmes como Manina, ...E deus Criou a Mulher e A

Parisiense, libertou a sensualidade feminina.