Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Um Homem Indignado
No ano de 1982, quando a Carta Editorial começou a publicar Casa Vogue, Fabrizio Fasano foi
convidado por Luis Carta para escrever uma crônica mensal, sob a epígrafe Bebendo com Fabrizio. Era
uma conversa solta, bem-humorada, prática, que além de revelar uma faceta desconhecida de Fabrizio mostrava alguém que entendia do assunto, porque vivia mexendo (como dizem os mineiros) com ele toda
a vida, conhecia os meandros, os labirintos do produtor, do vendedor, do bebedor. Fabrizio dedicou 15
anos de sua vida à Associação Brasileira de Bebidas, ABRABE, da qual foi um dos fundadores.
Participou sempre da eterna discussão: leis de proteção, impostos, uísque falso ou verdadeiro,
contrabando, leis de proteção etc. Por estes highlights de artigos seus se tem uma síntese da luta que
empreendeu.
Mito: o uísque no dorso da mão
A dúvida cruel do tomador de uísque é a incapacidade que ele tem em distinguir o falso do verdadeiro.
Como então ter certeza? Uns despejam o uísque no dorso da mão, como se este fosse uma colônia,
cheiram e dão o veredito: falso ou verdadeiro. Se acaso um “master blender” (provador profissional
escocês) visse esta cena – que se repete a cada minuto no Brasil –, morreria de rir. Pois decididamente
esta não é a melhor forma de se distinguir um legítimo scotch.
Mito 2: o conta-gotas nada impede
O Brasil é hoje um dos pouquíssimos países do mundo onde se exige o conta-gotas na garrafa, como
se o conta-gotas fosse um cinto de castidade. Que mentira! Qualquer ajudante de barman com duas
horas de experiência em seu primeiro emprego aprende a “injetar” ao inverso um conta-gotas, ou
seja, enche qualquer garrafa com qualquer conta-gotas em menos de 60 segundos.
O conta-gotas no uísque é como trava de direção de um automóvel, algo que jamais evitou o roubo
do carro.
Num bar, é muito difícil um uísque falso ser reconhecido, pois a garrafa, o rótulo e o conta-gotas
são originais, apenas que aquela garrafa é enchida de novo dezenas de vezes com uísque nacional
muito mais barato que o escocês e certas vezes até de razoável qualidade.
Mito 3: o paladar pode enganar
Todo barman sabe que o paladar é muito subjetivo, além de facilmente influenciável. Ou seja, se o
cliente desconfia que naquele bar o scotch está sendo falsificado, não adianta servir scotch legítimo,
porque esse cliente sempre vai achar que é falso. O contrário é igualmente verdadeiro: se o cliente
confia no bar, não desconfia do scotch.
Cansei de fazer uma experiência com meus amigos “entendidos” em uísque, aos lhes oferecer uísque
nacional, dizendo: “Veja como este scotch está ótimo.” E eles concordavam. Portanto, não é fácil
reconhecer um legítimo scotch; é preciso muito treino, muito paladar e, principalmente, um excelente
olfato – o que não é muito comum em fumantes. Portanto, ao tomar um scotch em um bar, escolha um de sua absoluta confiança que ele será sempre legítimo.
Verdade 1: como os falsificadores agem
Veja como agem os falsificadores: percorrem os garrafeiros que adquirem em bons bares e hotéis
garrafas vazias em perfeito estado, inclusive as caixetas individuais e as caixas de papelão. Neste
jogo de embalagens, a única parte violada é a cápsula de chumbo ou plástico que envolve o conta-
gotas. Então, o falsificador necessita de uma cápsula nova e normalmente compra de um fabricante
brasileiro sem a marca do uísque nacional gravada (a marca e a qualidade variam conforme a
consciência do falsificador) e, finalmente, uma seringa de borracha. A cápsula, então, é gravada
manualmente se for de plástico, processo de silk-screen, ou cunho rudimenatar pintado à mão. O
detalhe da cápsula passa despercebido para a maioria das pessoas. Exatamente aí é que se percebe a falsificação.
Verdade 2: uma lupa é o melhor teste
Se você quiser continuar comprando contrabando e não ser enganado, aconselho a esquecer o tal
“teste da mão”. Compre uma lupa e um litro de uísque de sua marca preferida numa casa honesta, que só trabalhe com produto importado legalmente. Contudo, ao invés de beber esta garrafa tão cara, use-
a como padrão de qualidade. Com uma boa lupa e uma garrafa honesta para ser comparada, você terá
as condições de se tornar um expert. Pense bem, pela diferença de preço bem que vale a pena um
rendizado.10
Mito 4: medidas do governo
Anunciou-se a redução da alíquota de importação, com o sério intuito de eliminar o contrabando. A
alíquota é de 205% e seria reduzida, segundo informes oficiais, para 105%, ou seja, quase a metade.
Para o leitor inexperiente, a medida parece eficaz, mas na realidade é totalmente inútil. Segundo
cálculos recentes feitos com a futura e a nova alíquotas, uma caixa de uísque considerada standard
terá um custo final em torno de Cr$ 40 mil (3,3 mil reais em valores atuais) e os uísques premium um
custo final de Cr$ 60 mil (4,9 mil reais em valores atuais). Claro que os importadores terão de vender
esses uísques a Cr$ 58 mil (4,8 mil reais em valores atuais) e Cr$ 88 mil (7,2 mil reais em valores
atuais), respectivamente.
Todos sabem que os preços dos uísques no contrabando giram em torno de Cr$ 26 mil (2,1 mil reais
em valores atuais) a Cr$ 32 mil (2,6 mil reais em valores atuais) a caixa. Nesse simples raciocínio,
torna-se evidente que o contrabando continuará como antes, monetariamente bastante vantajoso. Por que os técnicos do governo não percebem que essa medida é inócua? Se o intuito é terminar com o
contrabando, a única solução seria reduzir os impostos a um nível tal que não fosse possível o
contrabandista obter lucros razoáveis... Será preciso um diploma da Fundação Getúlio Vargas para se
perceber que o contrabando só será eliminado se o mercado oficial situar-se apenas 30% ou 40%
acima da cotação dos preços no contrabando?
Fabrizio não poupa a ironia:
A única explicação que tenho para o fato é que, em função do contrabando não ser reconhecido como
existente pela tecnocracia fazendaria do Brasil, esses números não são levados em conta, ou seja,
seria cômico um técnico do Ministério da Fazenda reconhecer oficialmente que esses são os preços
dos uísques vendidos no contrabando. Como provar? Eles não emitem nota fiscal de vendas.11
Verdade 3: a falsificação nacional
Falei sobre falsificação. Pois bem, ao reler senti que faltava alguma coisa, pois só tratei da
falsificação ao nível dos importados e percebi que pouca gente sabe que o índice de falsificação com bebidas nacionais é infinitamente maior. Estranho, mas, infelizmente, é verdade. O risco de falsificar
uma bebida nacional é muito menor, pois o tomador de uma bebida nacional pode não estar prevenido
do que está tomando.
O imposto brasileiro sobre bebidas alcoólicas é muito alto. Nos destilados a alíquota chega a 90%
ad-valorem, ou seja, quando um fabricante vende um litro por Cr$ 1 mil ele adiciona de IPI mais Cr$
900, portanto o comerciante paga Cr$ 1.900 por litro. Este sistema muito injusto estimula o fabricante
a piorar a qualidade do produto, a fim de barateá-lo a nível industrial, e, por conseguinte, vendê-lo
mais barato e recolher menos impostos.
Em nosso país existem dentro de uma mesma categoria de produtos preços que variam de 1 a 500%
de diferença. Uísque de Cr$ 400,00 a Cr$ 2 mil o litro. Vermute de Cr$ 150,00 a Cr$ 1 mil. Vodcas de
Cr$ 280,00 a Cr$ 1.200,00 a garrafa. É a babilônia tupiniquim no mundo das bebidas...
No Brasil se produz e se vende livremente vermute feito sem vinho, conhaque feito sem uva, vodca de
álcool industrial, rum de cachaça e assim por diante... Conheço e sei de produtos que no início de sua comercializacão eram honestos na sua rotulagem e na fabricação, mas que, aos poucos, em função dos
concorrentes, foram piorando... até um ponto em que se nivelaram por baixo. Daí o conceito
tipicamente brasileiro de que uma bebida só é boa no começo, depois avacalha e torna-se
praticamente imbebível.
Verdade 4: por que o brasileiro sofre do fígado?
Fabrizio, homem lúcido, experiente, não tem medo da verdade, é agudo na crítica, triste na contastação:
O brasileiro médio hoje é o homem mais enganado do mundo; é enganado nos cálculos dos juros na
compra a prazo, nas supostas garantias de eletrodomésticos, na rotulação e formulação de alguns
produtos alimentícios, nos remédios milagrosos anunciados livremente, principalmente os para o
fígado, remédios que, quando tomados, pode-se comer e beber à vontade. Eu, que estou envolvido na
venda e fabricação de bebidas há mais de vinte anos, sinto uma profunda frustração em aceitar tal
situação. O bebedor brasileiro não tem chance.
Se por acaso ele quiser ser um pouco mais cuidadoso e se der ao trabalho de ler rótulos, também
estará sendo enganado; pois a maioria dos rótulos não são verdadeiros; escreve-se “malte escocês
importado, envelhecido na origem”, quando na realidade é malte nacional novo, ou na melhor das
hipóteses um pouco envelhecido; se escreve destilado “com cereais nobres” quando na realidade é puro álcool de cana; escreve-se “produzido com puro destilado de vinho”, quando na realidade é novamente álcool de cana, e assim por diante.
O mais triste de tudo é que não são só pequenas empresas que fazem uso de rótulos falsos; são
principalmente as grandes nacionais e mutinacionais, inclusive com seus líderes do mercado, a
enganar impunemente milhões de brasileiros. Às vezes me pergunto: será que no país de origem dessas
empresas elas continuariam impunes? Claro que não. Esse tipo de fraude só é possível em países
subdesenvolvidos e eles sabem disso. Agora deu para entender porque o brasileiro, de maneira geral,
sofre do fígado...12
Washington Olivetto
“Ninguém resiste àquele jeito de Fabrizio olhar”
Minha tia Ligia, não tendo filhos, adotou-me como seu sobrinho favorito. Ela e o marido, com bons empregos, me davam um padrão de
vida que meus pais não tinham a mínima chance de me dar. Assim, desde garoto, cortava cabelo na Clipper, frequentava a Confeitaria
Vienense, o Salão de Chá do Mappin, o Gigetto, o La Paillote, o Ca’D’Oro e para coroar o Jardim de Inverno Fasano, onde, aos seis anos,
era fascinado pelas coxinhas e por um sistema meio que de rotisseria incrível. Ali via o Fabrizio, alto, imponente, bem vestido, um
cavalheiro, diziam meus tios. Ele nunca deve ter me notado.
Aos 19 anos fui trabalhar em publicidade, atento ao que outros criavam, e era época do slogan mais ouvido, lido, discutido, comentado:
O bom uísque se conhece no dia seguinte. Conversando com amigos, eles diziam: o slogan é bom, mas genial é o dono do uísque, um
sujeito que vai de bar em bar, restaurante em restaurante, com sua maleta cheia de amostras e vendendo para os donos. Fechado o
negócio, despede-se dizendo: “O bom uísque se conhece no dia seguinte”. Era um mantra.
Mais tarde, na DPZ, me relacionei com aquele pessoal heroico da Editora Três, enfrentando a gigante Abril. Na Três, fiz curso de
charme com o Luis Carta, convivi com o Domingo Alzugaray, ainda com aquela cara de bonitão de fotonovela e com o Fabrizio, sedutor,
bem humorado, cheio de ideias. Certo final de semana, Roberto Duailibi me levou a um almoço na casa da rua Gália. O maior movimento,
casa de italianos, agitada, os filhos e os amigos dos filhos, bando de gente, lembro-me de Andrea, pequenina, com seus 8 para 9 anos. Uma
casa enorme, muita madeira, muito verde, uma visão panorâmica da cidade. Aquela casa impressionava, era a imagem de Fabrizio e Daisy
e do mundo que construíram. Ah! A Daisy, que foi embora, voltou, foi, regressou, essa relação não acabará nunca!
Passou o tempo, Fabrizio, que para mim, na época, era o “seu” Fabrizio, me procurou na DPZ: – Estou produzindo outro uísque, quero que você faça o comercial. – Não posso, a Drury’s é cliente da agência. Não posso trabalhar para um concorrente. – É um free-lance, faça para mim!
Ele me olhou de um tal jeito que não resisti. Ninguém resistia (resiste) “àquele tal jeito” dele e concordei em criar um comercial, mas
seria um presente, não iria cobrar nada. Estava emocionado com o idealismo dele de produzir uma bebida que rompesse com o preconceito
contra o uísque brasileiro. Era, posso dizer, uma ideologia, tanto que o nome foi Brazilian Blend. Fiz o comercial, o uísque vendeu, ele fez
questão de pagar, recusei, até que um dia ele depositou em minha conta uma quantia desproporcional ao preço de um comercial bem pago.
Quando o encontrei, agradeci, ele deu aquele sorriso.
Meses depois, o uísque que ficava branco, e na minha memória também ficava verde, afundou, Fabrizio foi junto, até a concordata, que
mudou tudo, até a boa vida do Rogério no exterior, com seu sonho de estudar e fazer cinema. Parece que Fabrizio, a vida inteira, teve a
capacidade de ficar rico, ficar pobre, ficar rico...
Veio depois o reinício, o restaurante do Shopping Eldorado, mas havia ali um mico, porque também o Rodeio, a churrascaria mais
badalada, mãe de todas que vieram em seguida, fracassou naquele lugar. Finalmente o reerguer-se, com Rogério ao lado, febril, animado,
montando Fasaninho da rua Amaury, com a única costeleta à milanesa capaz de rivalizar com o do Bife Scala, de Milão. Para fechar, uma
coisa bonita. Este homem é o único empresário do ramo, a tal ponto sincero, generoso e feliz, que frequenta os restaurantes dos
concorrentes, não tem ciúmes. Repito a emoção que tive ao conhecê-lo: Puta vida, esse cara impressiona.
10 Casa Vogue número 1, 1982.
11 Casa Vogue número 2, 1982.
12 Casa Vogue número 3, 1982.