Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos
Um Observatório Gratuito de Sexo
Há imagens que nos acompanham pela vida. Uma delas marcou o jovem Fabrizio: “Uma noite, não sei
por que, olhei por uma das janelas da cozinha que dava para a rua Aurora e dei com um casal transando.
Acabei descobrindo que o prédio ao lado era um bordel que me oferecia vista total. Assistia a sexo explícito nos quartos com janelas abertas.” A rua Aurora seguia do bairro da Luz até o Arouche. Fazia
parte da chamada “boca do lixo”, região famosa pelos bordéis, botecos, inferninhos e puteiros de terceira
categoria. As ruas paralelas ou transversais compunham o mapa: Andradas, Timbiras, Gusmões,
Guaianases, Aurora, General Osório, Santa Ifigênia (à noite; durante o dia era célebre pelos materiais
elétricos, hoje eletrônicos) e Conselheiro Nébias, nas quais a baixa prostituição fervia.
“Arrastei uma cadeira para a janela e não saía dali, o que atrapalhava o cozinheiro, que me expulsou
uma, duas, três vezes, até que, saturado, reclamou ao meu pai. Acabou a brincadeira, as mulheres
peladas, o sexo explícito que eu via ao vivo, de graça.”
Nesse momento, a família mudou-se para um apartamento na esquina da avenida Vieira de Carvalho
com a rua Vitória. Era prático, ficava perto do trabalho, descia-se de um prédio, entrava no outro, e não
perdia tempo no trânsito, que, já naqueles anos, ameaçava ser caos no futuro. O jovem Fabrizio gostou
mais ainda, porque um dia, com uma ideia na cabeça, pediu ao zelador do prédio onde morava a chave da
porta do terraço do último andar. Subiu onde estava a caixa-d’água e novamente se viu servido por belíssima panorâmica da boca do lixo, em todo seu esplendor. Sem cozinheiros a reclamarem. O porteiro
recebia um “cala a boca” na forma de coxinhas e empadas, das melhores da cidade. Fabrizio via sexo a
granel, ainda que − mistério que a mãe Ida não decifrava o porquê − pegasse gripe com frequência: o
terraço era gelado.
“Entre o final dos anos 1940 e os primeiros anos de 1950, os restaurantes em São Paulo começaram a
fazer comidas um pouco mais especializadas: surgiram as cantinas italianas com ravióli, lasanhas,
espaguetes, capeletes, os restaurantes e bistrôs com cardápios franceses, os portugueses com a
bacalhoada e a dobradinha. Foram abertos o La Casserole em 1954 e o Marcel no ano seguinte, franceses
até a raiz. “O que mais nos intrigava era O Gato Que Ri, no Arouche, em 1951”, comenta Fabrizio.
“Oferecia uma comida como a nossa, com pratos italianos corriqueiros. A esta altura, tínhamos feito
clientela entre a alta sociedade paulistana, éramos programa obrigatório. Ficávamos abismados como O
Gato Que Ri faturava. Tínhamos inveja. Um restaurante para 100 pessoas, fazia cinco rotações por dia, uma loucura. Eram 500, 600 couverts diários, o dobro ou o triplo do que fazíamos. Verdade que o Fasano
era superior, mas também mais caro, três vezes o preço do concorrente. O que também nos deixava com a
pulga atrás da orelha era um restaurante italiano com esse nome, O Gato Que Ri. Estava muito mais para
restaurante português. Pois O Gato está lá até hoje, lotado, precisa fazer reserva.”
Certa manhã, lixeiros que percorriam a rua bateram à porta do Fasano com sacos na mão. Entregaram a
Ruggero, que teve uma surpresa ao abri-los. Estavam cheios de baixelas, talheres e bules encontrados no
lixo. Tudo banhado a prata, com duas, três demãos, coisa que durava anos. Os lixeiros ganhavam uma
gorjeta e iam embora. Descobriu-se que era armação do pessoal dos bastidores. Jogavam no lixo e
apanhavam na saída, para depois revender. Só que os lixeiros, tendo descoberto a tramoia, davam um
jeito de passar antes. Recolhiam o material e devolviam pela gorjeta. Não tinham como vender aquilo
que julgavam que era de prata ou de ouro, devolviam pela recompensa.
A certa altura, Fabrizio foi promovido a gerente. Havia na verdade dois gerentes, um para o
restaurante, em cima, outro para o andar de baixo. “Eu controlava tudo embaixo, trabalhava o dia todo, já tinha terminado o segundo científico; aliás tinha abandonado os estudos, queria colocar a mão na massa, trabalhar. Gostava do salão, me dava bem, parecia ter nascido para aquilo, chegava às 11 horas e saía à
meia-noite, todos os dias. Tavares Miranda chegava no final da tarde e se instalava no bar, antes de se
dirigir à Folha, que ficava a três quadras dali, onde tinha a coluna social mais lida de São Paulo.
Frequentava todas as festas, era recebido em todas as casas. Foi um período em que os colunistas sociais
tiveram seu apogeu, suas notas promoviam uma casa, fosse bar, boate ou restaurante. Em São Paulo, além
de Tavares de Miranda havia Mattos Pacheco, Alik Kostakis e Marcelino de Carvalho, este um
quatrocentão, que escreveu vários livros sobre etiqueta, nos quais dizia que queria ‘civilizar’ os caboclos. Outro cronista lido era Alvaro Assumpção, o Meninão, que se dedicava mais à noite e à
boemia e foi dono da Meninão, a boate mais frequentada da cidade, rival da Oasis. O apelido vinha do
tamanho de Álvaro, homem imenso, com cara de bebê e extremamente afável, conhecido pela esplendida
coleção de uísques. Não só colecionava, bebia também. Tempo de personagens boêmios marcantes na
sociedade e na noite.”
Três anos depois, em 1952, Fabrizio viu o pai, Ruggero, voltar o olhar para o lugar de origem, a praça
Antonio Prado, onde o patriarca Vittorio tinha aberto em 1903 a Brasserie Paulista. Ali, reabriu o novo
Restaurante e Confeitaria Fasano. A imensa fachada de cristal, moderna, transmitindo a noção de
amplidão, assombrava quem chegava. Bar, american bar, restaurante, decoração futurista, marcada por
curvas suaves. A região ainda era o centro financeiro de São Paulo; nela estavam os prédios imponentes
dos grandes bancos, a Bolsa de Valores e a sede do Jockey Club. A marca Fasano estava mais do que
consolidada, era o endereço de celebridades, socialites, políticos, empresários, artistas. Sinônimo de
prestígio, hospitalidade e sofisticação.
Alguns anos depois, pessoas que mudariam rumos na música, na televisão e na propaganda brasileira
se lembrariam do lugar: “A confeitaria ainda estava na rua Barão de Itapetininga, aguardando,
chiquérrima e impávida, a mudança para o Conjunto Nacional na avenida Paulista. Maysa (no seu
segundo disco), o maestro Simonetti, o Roberto Corte Real e eu, então na RGE, elegemos a confeitaria
nosso ponto de encontro, de onde partíamos para o estúdio de gravação. Maysa pedia seu uisquinho
preferido, de marca diferente, e o Fasano tinha, porque costumava ter tudo o que os outros não tinham.
Nós bebíamos Pilsner Urquell, da Checoslováquia, que também só tinha lá, acompanhada de um
amendoim inigualável, que não existia em lugar algum”, revela José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o
célebre Boni, que montou a estrutura que a TV Globo tem até hoje. “Já era o DNA da família Fasano, que
nunca fez distinção entre o simples e o sofisticado, desde que fosse o melhor de cada coisa.” Por outro
lado, Washington Olivetto acrescenta: “Menino, o que eu gostava mesmo, levado por minha tia Ligia, era
comer lanche na Confeitaria Fasano.”