Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 2 de 22

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Fabrizio Fasano: Colecionador de Sonhos

Futebol nas Ruas do Jardim Paulistano

Alega-se que temos alguma memória a partir de um ano e meio de vida. No entanto, o menino Fabrizio,

que aqui chegou com 25 meses, não tem nenhuma lembrança de Milão, um objeto, uma luz, um rosto,

pequenos detalhes que nos acompanham sem identificarmos. Como pessoa informada, sabia o que significava sua cidade natal: a potência econômica, capital da moda e do design, um povo fechado e

orgulhoso com a beleza dos teatros, parques, galerias, o luxo das lojas. Os pais falavam pouco, como se

aquela cidade pertencesse a outro mundo, outra época. Não ouvia muitas histórias sobre seus

antepassados. O que soube de Milão, ao longo da vida, veio por meio da mídia, de amigos, do cinema.

Terra onde nasceu o panetone, região que consome mais arroz do que massa, cidade chique, ciente de

uma economia poderosa, orgulhosa de seu passado com os Sforza, os Visconti (dos quais descendia

Luchino, um dos grandes diretores de cinema do mundo), berço da ópera, com o monumental Scala, PIB

mais alto da Itália e, talvez, da Europa. Fabrizio ouvia comentários sobre a família ter deixado a Itália na

hora certa, porque, durante a guerra, Milão sofreu duramente com os bombardeios, uma vez que era um

centro industrial, comercial, financeiro, além de ter abrigado a resistência italiana. Milão é cidade irmã

de São Paulo. Bem que ele buscou quando, adulto, visitou a cidade; porém, não tinha nenhum referencial,

mínimo que fosse, sobre a rua ou o bairro onde os Fasano tinham morado.

Em 1993, o jornalista Mino Carta definiu o casal: “Ruggero e Ida, um grande amor. Ele dedicou-lhe uma fervorosa paixão, por tudo aquilo que ela representou enquanto estiveram juntos e por tudo aquilo

que representaria depois que ela se foi. Assim Ruggero compôs a receita da sobrevivência.”2

A vida foi organizada. Ida, que na Itália tinha aprendido a costurar, e bem, criou uma freguesia que

cresceu entre a comunidade italiana. Ela convivia com os Crespi, os Matarazzo, os Bonfiglioli, os Selmi

Dei. Montou um ateliê com cinco funcionárias. No começo em casa mesmo, na alameda Jaú, 136, Jardim

Paulista, bairro atravessado por importantes ruas, como a Brigadeiro Luís Antônio, Nove de Julho,

Pamplona, Eugênio de Lima, Augusta e Consolação, “pequena cidade” habitada pela classe média alta.

Depois mudou-se para a rua Sete de Abril, 240, entre as ruas Dom José de Barros e Xavier de Toledo,

em pleno centro da cidade, paralela à rua Barão de Itapetininga, com sua frequência elegante. O Ateliê

Nuccia, apelido de Ida, ficou conhecido pelas mulheres da alta, como se dizia, em uma cidade pacata,

que apenas passava do milhão de habitantes. O menino Fabrizio era o encarregado de entregar ou buscar

vestidos nas casas das clientes e, graças a esse trabalho, um dia ganhou uma bicicleta para ajudar. As entregas rendiam ao menino boas gorjetas.

O período da guerra foi difícil. Ruggero, certo dia, foi preso na rua Direita só porque falava italiano.

Ficou dois dias na cadeia. Anos depois, empresário feito e reconhecido, teve o nome recusado como

sócio do Club Athletico Paulistano, por ser italiano. Havia preconceito contra italianos, alemães e

japoneses, por causa do Eixo formado por Alemanha-Itália-Japão. O time do Palestra Italia foi obrigado

a mudar de nome, tornando-se Palmeiras. As casas com nomes alemães foram fechadas ou depredadas. O

Clube Germânia virou Pinheiros. O Colégio Dante Alighieri tornou-se Colégio Visconde de São

Leopoldo. Havia racionamento de energia elétrica, farinha de trigo, pão, açúcar, macarrão e outros

alimentos de primeira necessidade.

Tudo era regulado por meio dos cartões de racionamento que as famílias recebiam, e as filas se

estendiam diante das padarias, empórios, açougues. À noite, havia blackout. As famílias eram obrigadas

a vedar as janelas com uma cortina preta e acender o mínimo de luzes em casa, por medo de

bombardeios. “Quem viria bombardear São Paulo?”, indaga hoje Fabrizio. A curiosidade da época eram os carros movidos a gasogênio, um combustível alternativo, à base de carvão, já que a gasolina era produto raro e caro, racionado pelo chamado “esforço de guerra”.

Ida passou a vida falando italiano em família. Aprendeu poucas palavras em português. A colônia

italiana era enorme em São Paulo, todos se relacionavam. Fabrizio conversava com a mãe na língua

nativa dela. Ele não sabe dizer se era o dialeto lombardo, muito falado em Milão, conhecido como

insúbrico, ou o italiano pura e simplesmente. “Acabei falando muito bem a língua materna, ainda que,

com o tempo, tenha perdido a fluência. Fui matriculado no Colégio Dante Alighieri, onde estudavam

todos os filhos de famílias de classe média e alta italianas. O Dante foi fundado em 1911 como uma scueletta e se desenvolveu como potência do ensino.”

Ali se ensinava o italiano, ainda que não fosse língua obrigatória, e o professor se chamava Ronconi,

que também lecionava latim. O professor de português era Jânio Quadros, que dava aulas de geografia

em outras escolas. História era com o Ariosto Giaquinto e matemática com a professora Albanese. Sendo

o Dante na alameda Jaú, Fabrizio ia a pé de casa ao ginásio. Andava um quilômetro em 15 minutos.

A residência dos Fasano, uma casa geminada, ficava entre a alameda Joaquim Eugênio de Lima e a

avenida Brigadeiro Luís Antônio. Nas ruas, vazias, jogava-se muito futebol, com a vizinhança

reclamando de janelas quebradas. Nesta época, entre 1945 e 1946, uma outra família italiana chegou ao

Brasil, os Carta. O patriarca era Giannino, jornalista do Il Secolo XIX, que veio para dirigir uma

publicação em São Paulo. Mas o empreendimento não foi para a frente e ele, especialista em política

internacional, foi contratado pelo jornal O Estado de S.Paulo como editorialista, onde fez uma carreira

sólida. Giannino tinha dois filhos, Demétrio (hoje conhecido nacionalmente como Mino) e Luigi, que

também foram estudar no Dante. Na época, após os cursos primário e o ginásio (hoje fundamental e médio), a preparação para a universidade era feita no científico, para quem seguiria as exatas, como

engenharia, medicina e arquitetura, enquanto os que tendiam para as humanas, como direito, letras,

filosofia, iam para o clássico. No científico havia matemática, química, física, biologia. No clássico,

latim, inglês, francês, espanhol, filosofia. No momento de decidir o pré-vestibular, enquanto Fabrizio

cursava o científico, Luigi matriculou-se no clássico, pois tinha mais inclinação para as humanas.

Os dois amigos se ligaram profundamente; eram soltos, brincalhões, divertidos. Entre eles, só falavam

italiano. Havia um bonde que descia a Pamplona e atravessava a avenida Brasil em direção ao Jardim

Paulistano. No ponto final, na rua Agrario de Souza, havia um campo de futebol. Nele eram disputados os

rachas todas as tardes, e Luigi, gordinho, era empurrado para o gol. Alto e atlético, Fabrizio protegia o

amigo desajeitado, alvo das zombarias da meninada, principalmente na hora do futebol. Fabrizio

participava, mas tinha um problema com o pé esquerdo, detectado depois pelos médicos. Criança, ele

tinha sofrido uma paralisia que, no futuro, acabou sendo um handicap favorável: as pessoas, principalmente as mulheres, achavam que o andar de Fabrizio tinha um charme todo especial e

imaginavam que era um truque desenvolvido por ele. Os filhos nunca viram o pai correr; andava rápido,

mas correr, nunca.

A molecada estranhava as calças de crochê italianas que a mãe Claretta colocava em Luigi. Na época

do maternal, Fabrizio tinha cachos loiros e usava um aventalzinho que o deixava encabulado.

Havia futebol também na alameda Jaú, em plena rua, chão de paralelepípedos, onde as traves eram uma

árvore e o muro, ou um poste e o muro. O que saía de menino ralado não estava escrito. Assim chegava a

transição da infância para a adolescência, na qual a rua era o lugar de liberdade, as brincadeiras tinham

de ser imaginadas, inventadas. Era futebol, atravessar a rua num pé só, roda – quando havia meninas –,

bolinhas de gude, bater bafo com figurinhas para encher álbuns que davam prêmios, contabilizados em

balas. São Paulo era uma capital que ainda tinha muito de provinciana, de costumes interioranos.

Mas os primeiros sinais de rebeldia e independência surgiam. Certo dia, aos 14 anos, enquanto o pai

dormia, Fabrizio pegou a chave do carro, um Ford 1949, e saiu todo feliz e a toda velocidade. Bateu numa árvore e deu um belo de um prejuízo. Cinema era divertimento popular e acessível: as famílias

frequentavam o Art-Palácio, o Ipiranga, o Marabá, o Metro, o Opera. Tanto o Art-Palácio como o

Ipiranga foram projetos de Rino Levi, um homem que mudou o panorama da moderna arquitetura

brasileira. A grandiosidade do Ipiranga se traduzia em seu slogan: “Um monumento ao Cinema.” Fabrizio

lembra-se das sessões matinais do cine Metro, com duas horas de filmes infantis e desenhos animados

aos domingos.

Ruggero foi trabalhar com o cunhado Valente Giannini no restaurante Fasano, onde ganhava 500 cruzeiros por mês como caixa. “Aos domingos, eu e Fábio íamos ver nosso pai trabalhar e era um dia

especial, porque ele liberava uma coxinha para cada um. Uma festa!”, lembra Fabrizio, acrescentando:

“O tio Mário, que ganhara muito dinheiro como comissário de café, ajudava meu pai a sobreviver.

Quanto a Valente, meu tio, em 1942, ele ganhou ainda mais dinheiro ao fundar a SEMP (Sociedade Eletro

Mercantil Paulista), que fabricava rádios e eletrolas. Mais tarde, já sob novo dono, a SEMP ficou famosa

por fabricar televisores, marca das mais conhecidas e líder de mercado.”

No entanto, Ruggero achava que não podia continuar sendo caixa do Fasano, aquilo não o estava

levando a nada, e teve um gesto ousado: pediu demissão e mudou de ramo. Ao mesmo tempo houve um

desentendimento entre os sócios e o Fasano da praça Antonio Prado foi fechado, e assim permaneceu por

cinco anos.”

 

2 Mino Carta, no livro O Restaurante Fasano, DBA Editora, 1993.