Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 9 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 07: - João Entra na Política

João, a princípio, aceitou que o prefeito estivesse fazendo campanha sobre a sua situação miserável. Ele não desmentiu que havia pedido desculpas ao prefeito, muito menos que estava arrependido de ter feito as pichações. Foi até bom para João, pois este começou a ser aceito em alguns estabelecimentos que antes não freqüentava. Conseguiu até um emprego como balconista na loja de materiais de construção da cidade. O dono da loja, Seu Raul, era da oposição, e pretendia sair candidato a prefeito no próximo processo eleitoral.

Além de dar uma ajuda a João, ele conhecia o potencial que aquele rapaz tinha. Sabia que podia ser muito útil ao seu lado.

João estava bem. Já tinha completado dezesseis anos e estava mudando sua visão do futuro. Sabia que devia ter algum sentido por qual batalhar. Percebia, cada vez mais, as manobras eleitorais que todos faziam, tanto o prefeito e seus asseclas, quanto o próprio senhor Raul e seus amigos. Ele percebia que na política não tinha santo e que o sistema era diferente do que ele queria. Continuava amigo de Zé Luiz, e se encontravam quase todos os dias. Zé Luiz continuava atento às mudanças políticas de João e às suas próprias, também. Depois de prometer a João que ficaria atento a isto, desenvolveu algumas afinidades com a política.

Conversava muito com pessoas influentes e falava bastante sobre política. Preferia a oposição, que tinha um discurso mais eloqüente, condizente com o que ele pensava.

E, cada vez mais, ele e João trocavam idéias políticas. – Sabe, João, estava pensando estes dias. Não tenho mais aquela ambição pelo crime. Acho que deveria mudar meu modo de viver. Acho que vou tentar ser mais útil à sociedade.

– Eu também, Zé. Só que não estou entendendo nada desse pessoal que está aí. Sabe, cara, comecei a perceber que política é um jogo de interesse. Estou com medo de fazer uma escolha errada.

– É, eu também já pensei nisso. Quando eu vejo o prefeito falando em ajudar as pessoas, fico esperançoso, mas depois, quando o vejo explorando ao mesmo povo, fico em dúvida. A mesma coisa acontece com o Seu Raul. – Seu Raul é legal, não é igual a esses caras aí. Se ele sair candidato eu vou fazer campanha para ele.

– Eu acho que Seu Raul é melhor do que o prefeito, mas não sei se ele é a salvação, entendeu.

– O que eu penso – falou João – é que o prefeito é muito mentiroso. Um dia pretendo tentar descobrir porque é mais forte quem sabe mentir. – Sei lá, João. E se Seu Raul também estiver mentindo?

– Só vamos ter certeza disso quando ele estiver no poder. Uma vez eu li numa revista que para saber quem é a pessoa, basta dar responsabilidades para ela. – João, estou com você. Por que você não se candidata? – brincou Zé Luiz. – Aproveita que está cheio de moral.

– Ah, vai catar lata... – respondeu, brincando, empurrando o Zé Luiz. – Deixa-me varrer o ponto, senão daqui a pouco eu vou ser despedido por ficar aqui conversando com você.

– Ah, João, esqueci de te falar. Amanhã eu começo a trabalhar lá no posto de gasolina. Vou lavar os carros.

– Que legal!

– E o melhor, João, é que o Marcelo vai deixar eu dormir naquele quartinho que tem lá no fundo. Tem até uma cama, lá. Vou ter casa! – brincou Zé Luiz. E ficaram brincando sobre o momento deles. Os dois estavam mudando, estavam ficando adultos e não percebiam isso.

O tempo passava e João mergulhava cada vez mais na política. Formou uma boa amizade com Seu Raul, que se impressionava com a facilidade de pensamento de João. Rapidamente ele captava as mensagens e conseguia entender recados que outras pessoas não conseguiam.

Com isso, foi permitindo a João se aprofundar nas suas decisões políticas. – João, estou indeciso se devo me candidatar a prefeito... O que você acha? – perguntou Seu Raul, testando João.

– Bem, Seu Raul. Eu aprendi a confiar no senhor nesses meses que estou trabalhando aqui. Acho que o pensamento do senhor é bom para a cidade. Se o senhor fizer o que fala, com certeza será um ótimo prefeito. – Você acha, João?

– Bem melhor do que este que está aí, com certeza! – brincou João. – É, João, para ser igual ao Manuel, eu prefiro nem tentar me eleger. Manuel era o atual prefeito que estava saindo candidato à reeleição, e estava muito forte na campanha. Todos sabiam que ele era desonesto, que roubava bastante, mas fazia algumas obras, dava bastante assistência social e isso era o que bastava para calar a boca daquele povo.

Era um povo ingênuo, apesar de toda evolução política do país, e ainda era um povo preocupado em ganhar as coisas. Era muito comum presenciar o comentário de pessoas falando o que ganhavam para poder votar em determinado candidato.

E mesmo assim, ainda eram fiéis à palavra de que votariam, sim, naquele que os ajudou.

– Seu Raul, o que eu percebo desse povo, é que eles não pensam. Acham que o prefeito é honesto, é bom, e por ganhar qualquer coisinha, já votam nele e em quem ele indicar.

– João. Você já pensou em sair candidato? Por que você não entra na eleição? Você podia sair para vereador... – perguntou Seu Raul. – Ainda não, Seu Raul. Ainda estou aprendendo. Acho que falta muita coisa para eu ser um bom candidato. Mas, pode ter certeza, eu vou participar desta campanha para prefeito. Se o senhor entrar, eu vou estar lá na frente, tentando conscientizar o povo de que o senhor é a melhor alternativa. – Obrigado, João. Acho que depois desta, não tem outro jeito. Eu vou sair candidato, mesmo. E se prepare, João, porque eu vou precisar de muita gente inteligente do meu lado.

– Quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre é uma coisa muito séria. Eu acho que o senhor deve batalhar para libertar esse povo do coronelismo que existe aí. O senhor deve mostrar para esse povo que não se pode olhar para trás sem se aprender alguma coisa para o futuro.

Seu Raul estava satisfeito. Seu funcionário tinha aprendido bastante sobre a política. Ele conseguira mais uma pessoa para batalhar pela mudança de Boa Vista.

E o dia da eleição estava chegando. João participava de comícios, de entrega de folhetos, de visitas a casas dos moradores, de palestras em escolas, e assim por diante. Aprendeu a falar para as pessoas, sendo simples como era, e aproveitando o seu passado pobre, demonstrava um sentimento de esperança ao povo. Além de tudo, sempre se lembrava do que havia acontecido com seu pai. A política era um vício e ele estava gostando.

João formou um grupo de rapazes como ele, que iriam trabalhar juntos na política. Seu Raul liberou João do trabalho para que ele trabalhasse apenas na campanha.

Zé Luiz participava ativamente deste grupo. Na ausência de João, era Zé Luiz quem tomava as decisões.

Mas, era no dia a dia que aprendiam as dificuldades da política em uma cidade pequena. Enquanto conscientizavam algumas pessoas, em uma determinada semana, na seguinte percebiam que as mesmas pessoas estavam à porta da casa do prefeito, atrás de alguma ajuda.

O grupo político de João estava reunido no salão do comitê do partido de Seu Raul. Conversavam seriamente.

– Olha, gente – falou João – eu achava que seria mais fácil do que está sendo, mas estamos reunidos hoje aqui para decidirmos algumas coisas. Do jeito que as coisas estão caminhando, o seu Manuel vai ganhar a eleição facilmente. Começou um cochicho entre os rapazes.

– Então, olha! Todos nós somos jovens e temos quase a mesma idade. Falta pouco tempo para eu fazer dezoito anos. Acho que devemos desenvolver um trabalho bem sério junto aos jovens da cidade. Se a gente atacar mesmo, debatendo com os jovens os problemas que eles têm, fazendo reuniões, discursos, tentando captar as carências dos jovens, iremos cativá-los para votar em Seu Raul. O que vocês acham? – perguntou João. Novamente começou um cochicho entre alguns jovens, que demonstrava alguma insegurança a respeito do que ele falava.

Zé Luiz se levantou.

– Eu estou percebendo que, entre nós, alguns não estão ligando tanto para política como eu. Acho que, primeiro, precisamos nos preocupar em ter o mesmo objetivo.

– Concordo – gritou Zeca. – Também acho que estamos precisando de mais incentivo. Que tal pedir ao Seu Raul um salário para nós, para podermos trabalhar com mais ânimo.

– Porra, Zeca! – gritou João. – Nós estamos falando em política verdadeira, em mudança de mentalidade. Não estamos falando de Seu Raul! – Mas, João, nós não estamos fazendo campanha para o Seu Raul? – perguntou o Zeca.

– Zeca, preste atenção. Se Seu Raul não fosse o candidato, e tivesse outro candidato que tivesse o pensamento que ele tem, que é mudar as coisas, acabar com o roubo, desenvolver a cidade, quem você iria apoiar? O candidato que tivesse um ideal, mas que não tivesse dinheiro e que não nos pagasse, ou o candidato corrupto, mas que pagasse um salário para você? – Olha, João... Eu não sei... Eu preciso ganhar algum dinheiro para viver... Não sei, não... – falou Zeca.

Foi um choque em João. Não achava que alguém do grupo poderia ter a mentalidade que todo o resto da cidade tinha. Achava que todos os jovens estavam conscientes da necessidade de ter no poder um prefeito inteligente, um prefeito disposto a mudar as coisas, e não um prefeito preocupado com o seu próprio sustento.

– Mas, Zeca, você não se preocupa com o futuro da cidade? – O que é que eu tenho a ver com isso? E se a cidade tiver futuro e eu não tiver? – respondeu Zeca.

– Zeca... Se a cidade tiver futuro, você também vai ter. Se o prefeito trouxer fábricas para cá, aumentar o saneamento, melhorar a distribuição da renda da cidade, e outras coisas, você também sairá ganhando. De que adianta você ganhar salário dois, três meses, e depois passar mais quatro anos desempregado?

Zeca ficou calado. Havia cansado de discutir.

Os outros membros da reunião estavam calados. Foi Zé Luiz quem quebrou o silêncio.

– Vamos deixar isso para outra hora. Só faltam três meses para a eleição. Se ficarmos discutindo, daqui a pouco não vamos ter feito nada. – E perguntou: – João, aquela palestra na escola foi autorizada? João estava chocado. De repente, como de um tranco ele se ligou, novamente.

– Então, Zé... O prefeito não deixa a gente entrar na escola. Aí, resolvi fazer o seguinte. Vamos ver se vocês concordam... Amanhã, na saída das aulas, nós formamos um grupinho, com aquela caixa de som amplificada que temos e tentamos falar alguma coisa para os estudantes. – É, para mim está bom... – falou Zé Luiz. – Acho que, dentro da escola, nós nunca vamos conseguir entrar, mesmo. Escola municipal, do prefeito... Sem chance.

O resto da turma também concordou. Ninguém percebeu que o Zeca estava mais quieto do que o normal.

No dia seguinte, à tarde, eles se reuniram na frente da escola. Com exceção do Zeca, que não apareceu. Quando deu a hora dos estudantes saírem da aula, a turma começou a falar.

Nem bem tinham começado, apareceu o carro da polícia. – O que vocês estão fazendo aí? – perguntou o policial. – Estamos falando com os estudantes – falou João. – Vocês têm autorização para fazer discurso? – Nós não estamos fazendo discurso. Nós estamos conversando com os alunos. Isso é proibido?

– Está falando demais. Vamos passear...

O policial pegou no braço de João e o levou para o carro da polícia. Levaram Zé Luiz também. O resto do grupo nem percebeu que um dos policiais havia chutado a caixa de som deles, e havia estourado o alto-falante, impedindo que funcionasse bem.

O resto da turma ficou assustado e foi embora. João e Zé Luiz foram levados para a delegacia. Chegando lá, o delegado recebeu os dois em sua sala.

– Olha! Vocês dois, prestem atenção. Se quiserem fazer política, façam, mas respeitem as leis. Não basta vocês acharem que está certo e pronto. Precisam observar algumas normas.

– Qual é a norma? O prefeito quer e o prefeito não quer? São essas as normas a seguir?

– Rapaz, cuidado com o que você diz aqui dentro – falou o delegado. – Eu não sou obrigado a ficar ouvindo suas opiniões. Eu já passei por um monte de política na minha vida e sei como isto funciona. Daqui a pouco isso acaba e você vai entender o que estou falando.

João calou-se. Sabia, por experiência própria que não adiantava discutir com a lei.

– Olha – continuou o delegado. – Eu não vou prender vocês, mas, dêem um tempo. Não fiquem aprontando muito, ok?

E liberou os dois.

O que eles não sabiam era que Zeca havia visitado o prefeito naquela manhã e contou o que os rapazes estavam planejando. Zeca estava interessado em ganhar alguma coisa com aquela história. E ganhou! O prefeito, aproveitando o vacilo do grupo, contratou Zeca, até a eleição, para ficar visitando o povo dos sítios. Pagaria meio salário-mínimo.

Zeca ficou tão satisfeito que dedurou seus amigos. Falou ao prefeito os planos de João e Zé Luiz. Tudo o que eles haviam planejado até a eleição o prefeito ficou sabendo naquele momento.

Manuel, o prefeito, deu ordens à polícia para tirarem os rapazes dali e inibirem o evento, e que ficassem de olho nos rapazes.

João percebeu que Zeca deixou de freqüentar o grupo. Mais tarde soube que este havia mudado para o partido do prefeito. Com certeza o prefeito havia dado algum dinheiro a Zeca.

– Que país é este? Que lugar terrível é este? Somos tão carentes, assim? – dizia João, para Zé Luiz. – Como podemos mudar nossos pensamentos tão de repente?

– O dinheiro faz isso, João. Nem todo mundo tem os nossos ideais. – falou Zé Luiz.

– Mas, Zé. Se todo mundo fizesse assim, imagine que futuro nós teríamos? – João. Perceba que nós também pensávamos diferentes. Nós mudamos, sabe por quê? Porque não estávamos no meio deles. Sempre ficamos à margem. Foi fácil ver que existem dois lados: um justo e um injusto. E eles? Eles cresceram assim. Imagina uma pessoa que nunca assistiu televisão. Se crescer sem nunca assistir, nunca vai sentir falta. Mas, tira a televisão de alguém que cresceu assistindo. O que vai acontecer?

– Você tem razão, Zé. Eu só posso sentir pena deles. Mas, o nosso tempo vai chegar...

– É isso aí, João. Vamos levantar a cabeça e fazer o que for possível para mudarmos este sistema. Tenho certeza de que ainda teremos nossa vez. E começaram a fazer planos para o futuro. Resolveram consultar os líderes do partido de Seu Raul para promoverem um encontro com jovens da cidade. Estavam decididos a promover uma conscientização dos jovens. Faltando dois meses para a eleição eles conseguiram o encontro que queriam. Foi marcado um comício especial para os jovens. Na verdade, foi marcado um show. Diversos artistas da região e um grupo mais famoso foram chamados para animar o evento.

Zé Luiz, João e mais alguns jovens de seu grupo e de outros partidos coligados discursaram incentivando os jovens a tomarem um rumo. João foi um dos que arrancou mais aplausos.

– Jovens – falou João. – Eu tive muitos problemas na minha vida. Eu já fiz muitas coisas erradas. Não vou mentir para vocês. Já roubei, já freqüentei lugares ruins e até já fui preso.

- De tudo o que fiz eu não me arrependo. Sabem por quê? Porque, quando eu fazia aquelas coisas, eu não sabia o que estava fazendo.- Hoje, não. Hoje em dia eu aprendi o que é certo e o que é errado. E aprendi a lutar para melhorar, não só a minha vida como a de todas as pessoas desta cidade. Resolvi lutar para melhorar a situação de todos nós. A minha vida, a vida de vocês, a vida dos pais de vocês, e também, dos seus filhos.- Vamos mudar a situação de hoje e o futuro. Amigos, nós somos os filhos da revolução. Nós somos o futuro da nação. Se nós cruzarmos os nossos braços, o que teremos no futuro? Eu respondo: teremos um povo obediente, robotizado, que não pensa no que está fazendo.

- Vocês querem ser assim? Fazer tudo sem saber se está certo ou errado?- Pois eu digo a vocês. Eu vejo um mundo doente. Um mundo dominado por uma turma que não pensa em vocês. Pensam apenas neles mesmos. Esse é o sistema! E o sistema é mau! O sistema é como uma planta carnívora. Vai devorar aqueles que não forem fortes o suficiente para lutarem contra.- Vocês parecem ter medo de quem pensa diferente. Vocês não vêem que eles nos querem todos iguais? Vocês não vêem que assim é mais fácil nos controlar?”

Nisso, a multidão de jovens bateu palmas e gritou acalorada. João conseguiu mexer com eles. João conseguiu fazer com que eles pensassem e não só obedecessem.

O discurso daquele dia repercutiu por toda a cidade. No dia seguinte, Seu Raul foi um dos primeiros a dar os parabéns a João. – João, que coisa linda você falou ontem. De onde você tirou tudo aquilo? – Seu Raul, eu não sei. De repente foi saindo e eu falava sem nem perceber o que estava acontecendo. Parece que eu estava dominado por alguma coisa. – João, você nasceu para ser um líder. A partir de agora, você vai falar em todos os discursos que formos fazer. Você e o Zé Luiz. Ele também foi magnífico! Vocês conseguem dominar o povo de uma forma diferente, que ninguém consegue.

– Obrigado, Seu Raul. Vamos ficar muito felizes em falar para o povo. Tenho certeza de que o Zé Luiz vai querer falar, também. Zé Luiz ficou contente quando soube que iria discursar nos comícios. Ele estava gostando da política. Parece que tinha nascido para a coisa. – João, eu vou te falar uma coisa. Há tempos tive um sonho. No meu sonho eu estava falando para uma multidão igual à que a gente falou ontem. Eu sentia muito prazer em perceber que eles me escutavam. Ontem aconteceu igualzinho ao meu sonho.

– Eu também fiquei muito satisfeito, Zé. Vamos trabalhar bastante para tirar o seu Manuel da prefeitura e colocar o Seu Raul. Fizeram seus planos. Faltavam poucas semanas para a eleição.

Eles começaram a participar mais ativamente da campanha de Seu Raul, que era bem recebido nas casas. Tinha uma boa audiência nos comícios, mas sabia que a disputa seria muito apertada.

Faltando dez dias para a eleição, Seu Raul chamou João para conversar. – João, estão faltando poucos dias para a eleição e o negócio agora vai ser diferente. Como está a sua turma?

– Seu Raul, a minha turma é legal, está unida. Se depender de nós, o senhor é o novo prefeito.

– Então, João, é sobre isso mesmo que eu quero conversar contigo. As coisas vão ficar mais complicadas porque agora o Manuel vai esparramar dinheiro na cidade.

– Mas isso ele já vem fazendo... – disse João. – Sim, mas agora é diferente. Agora ele vai dar roupa, sapato, pano, e até dinheiro mesmo. Agora o negócio é: quem gastar mais, ganha. – E o que nós fizemos? O que fizemos não serviu para nada? – Claro que serviu, João. Vocês convencem os mais preparados, mas uma grande parte, a mais carente, não vai pensar assim. Viu o Zeca? Mudou o pensamento, rapidinho, por causa de um salário. – E o que nós vamos fazer?

– Nós vamos fazer igual: vamos esparramar dinheiro na cidade. João ficou vermelho.

– O que o senhor está falando? Vamos nos rebaixar ao nível deles? – Isso mesmo, João, senão a gente não ganha. – Não acho certo! Aí vamos agir igual ao que condenamos durante toda a eleição!

– Eu sei, João, mas o sistema funciona assim. Então, daqui a dois dias eu vou dar uma quantidade de dinheiro para você trabalhar uns votos para mim. Você é capaz de cuidar desse dinheiro?

João não sabia o que falar. Estava perplexo em perceber que teria que se submeter a fazer o mesmo que o seu adversário se quisesse ganhar a eleição. Teria que esquecer o que falou com tanta convicção se quisesse continuar lutando pelo poder.

Apenas balançou a cabeça, positivamente.

– Então, quando eu tiver com o dinheiro na mão, vamos conversar melhor. Deixa-meeu sair agora que preciso ir à casa do vice-prefeito. Até mais, João. – Até mais, Seu Raul.

Mal Seu Raul saiu para a rua, João desabou em sua cama. Como poderia ter sido tão ingênuo assim?

Saiu para conversar com Zé Luiz.

Era noite e Zé Luiz estava na praça, conversando com um grupo de rapazes. – Vocês têm que entender que o Manuel sempre roubou a cidade – dizia Zé Luiz. – Quem insiste em julgar os outros sempre têm alguma coisa para esconder – disse um dos rapazes.

– Eu não estou julgando ninguém. Julgar é quando você suspeita alguma coisa, mas não tem certeza. No caso de Manuel, não, todos sabem os problemas que tivemos no calçamento da avenida principal. Sabemos do desvio que ele fez da obra da escola que ele não construiu, e um monte de outras coisas. – Ah, Zé Luiz, mas você não fala das obras que ele fez. O cartório, a rodoviária. Isso você não fala!

– E a obrigação de um prefeito não é fazer isso mesmo? Você queria que ele fizesse o quê? Ele não estava ganhando para fazer essas obras? Ou você acha que ele fez com o dinheiro dele?

Nisso, João chama o Zé Luiz:

– Zé, dá um pulinho que eu quero falar contigo. Zé Luiz percebeu que João estava abatido, diferente. Saiu do meio do pessoal e foi conversar com João.

– O que foi, João. Por que você está assim, chateado? – Aconteceu um negócio chato, cara. Eu tive um papo com Seu Raul e fiquei bem chateado.

– O que aconteceu, João.

E João contou o que se passou com Seu Raul. – João, eu não acredito nisso! Não é possível! – Pois é... Não estou inventado nada. Agora, o que eu sinto, era como se eu estivesse nadando há um ano e percebesse que quando estou chegando do outro lado, vejo os mesmos tubarões que deixei lá atrás. – Sei lá, João. E se for só para ganhar a eleição? – Não sei... Até pensei nisso. O que vamos fazer? – Que surpresa, João! Que chato, hein? – falou surpreso, Zé Luiz. E não sabiam o que fazer. Despediram-se e cada um foi para o seu quartinho. João dormia num quartinho no quintal da casa de Seu Raul há quase um ano. João e Zé Luiz não aceitaram comprar votos. Continuaram a tentar conquistar votos para Seu Raul até o dia da eleição como fizeram desde o início da campanha. Reuniram-se algumas vezes com seus amigos da turma jovem de Seu Raul, como eles se autodenominavam e decidiram que iriam continuar a apoiar Seu Raul, já que era bem melhor do que Manuel. Apesar de toda pressão, acreditavam que Seu Raul iria ganhar a eleição. Era quem levava mais gente aos comícios, era o favorito nas pesquisas encomendadas por eles, as quais eles conheciam os verdadeiros resultados e os resultados divulgados nos palanques, que sempre eram a favor de Seu Raul, quando era discurso de seu partido, mas também era a favor de Manuel, quando era ele quem fazia os discursos.

Seu Raul levava vantagens nas casas que tinham pregado os seus cartazes. Naquela região isso era exemplo de liderança política. Mas, chegou o dia da eleição. Houve muitos problemas com os eleitores. Em uma região caiu uma ponte, milagrosamente, na madrugada anterior, o que impediu a muitos eleitores votarem. Em outros lugares, carros quebraram, urnas chegaram atrasadas, e algumas falhas ocorreram com os mesários e ajudantes. Não houve nenhuma prisão, mas houve muita briga e tumulto. Muitos ônibus de outras cidades traziam eleitores que moravam fora. Pelo menos era o que eles falavam.

A apuração começou na manhã do dia seguinte. João foi um dos fiscais do partido. Chegou logo cedo. O trabalho de conquista de votos havia terminado. Agora, era esperar os resultados.

O partido havia se reunido à noite e discutido a eleição. Estavam satisfeitos com o trabalho que haviam feito, mas tinham percebido as falcatruas que o prefeito fez. A compra de votos ocorreu abertamente. Também por parte deles. A grande vantagem do prefeito estava em ter a máquina a seu poder. Verificaram que diversas pessoas de outros locais votaram na cidade. Constataram alguns casos de pessoas que já tinham morrido que votaram, como se houvessem ressuscitado, justamente naquela eleição. E verificaram uma grande quantidade de títulos cancelados. A grande maioria de eleitores de Seu Raul.

Quando começou a apuração, perceberam o que ia acontecer. As urnas dos locais onde Seu Raul conquistaria mais votos foram sendo abertas antes das outras, onde a frente de Manuel era esperada. Mesmo assim, a diferença de votos era muito pouca. Ao final, a vitória ficou mesmo com Manuel, reeleito para mais quatro anos de mandato.

João estava desolado. Já era noite e ele não acreditava no resultado que ele via. Uma vitória esmagadora de Manuel.

Onde estaria o erro das pesquisas?

Onde estariam os votos da platéia de Seu Raul? Ele percebeu que nadar contra a correnteza era muito difícil. Já era quase meia-noite quando voltou para casa. Percebeu que o movimento na casa de Seu Raul era maior que o normal. Encostou-se e percebeu que ele recebia visitas. Ainda deu tempo de ouvir as últimas frases.

– Raul, Raul, foi bacana a nossa disputa – dizia Manuel, o prefeito – mas, somente um tinha que ganhar.

– Tudo bem, Manuel, mas não se esqueça da sua promessa. Na próxima eleição nós vamos trabalhar juntos. Eu serei o seu candidato! – Não vou me esquecer, Raul, eu não vou.

E entregou um pacote para Raul.

– Tome aqui o dinheiro que eu te prometi. Falei que você não ia perder nada, e aqui está o que eu te falei. Foi bom saber que nós ficamos amigos, agora, neste finalzinho de campanha.

João não queria acreditar no que ouvia. Tudo estava errado. Não era possível! Voltou para a rua. Encontrou Zé Luiz em um bar, bebendo. João pediu um copo e se serviu da cerveja. Contou a história para Zé Luiz, que duvidou, a princípio, pois era impossível ter acontecido esta união.

– E eu pensei que a gente tinha perdido a eleição por causa de roubo de votos. Eu culpei essa justiça, desafinada, estranha... – Pois é, Zé, eu ainda acho que estou sonhando. Sonhando, não. Isto é um pesadelo – falou João.

– Está tudo errado. Essa justiça é tão humana e tão errada. Não sabemos em quem acreditar.

– Mas a justiça é certa, João. Quem a usa de forma ilegal é que a está corrompendo.

– E o que você vai fazer, Zé Luiz? Eu não fico nem mais um dia naquela casa. Não quero nem olhar na cara de Seu Raul. Perdi a confiança nele. – Eu não, João. Eu vou lutar contra isso. Não vou desistir. E João tomou uma decisão drástica:

– Zé, meu amigo. Eu vou embora. Aqui não é meu lugar. Está tudo errado. Não confio em mais ninguém, não confio no sistema, não acredito na política. Não tem trabalho decente, só escravidão. Os meus amigos todos estão procurando emprego. Não tem como viver neste lugar.

– Não, João, você não pode ir embora. Vamos nos juntar para combater este sistema. Nós não vamos nos corromper. Estamos chegando à maioridade e agora teremos mais participação no sistema.

– Não acho bom para mim, Zé. Acho que você deve ficar aqui e batalhar por esta mudança, já que você está pensando assim, mas eu vou atrás de algo maior. – João, sinto você tão fraco. Quero a tua força como era antes. De nada vale fugir.

– Eu não estou fugindo – disse João. – Estou correndo atrás do que preciso para ter sentido na vida. Quero ter alguém com quem conversar e que depois não use o que falei contra mim. Eu vou procurar um emprego decente, eu vou procurar um lugar para morar, eu vou procurar a felicidade que vemos e ouvimos falar desde pequenos.

– João, está bem... Às vezes parecia que, de tanto acreditar em tudo que achavam tão certo, nós teríamos o mundo inteiro aos nossos pés. Agora, veja como estamos: desiludidos. Não sei como, João, mas eu vou lutar para mudar isto.

– Isso mesmo, Zé. Se houvesse mais gente como você, este mundo seria muito melhor. Faça dessa cidade uma cidade melhor. Desenvolva habilidades que eles não têm. Um dia o povo vai perceber o que está acontecendo e vão lutar contra este sistema que aí está. E, quem sabe, você será o líder que vai realizar os nossos sonhos?

– Vou correr atrás disso, João, pode ter certeza... E já estou pensando em me preparar mais. Vou começar a procurar um emprego melhor. Vou fazer alguns cursos para ficar mais especializado. Já estou pensando em estudar. – Quer saber de uma coisa? Você tem que passar no vestibular... E riram juntos.