Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 18: - João Abandona Maria Lúcia e Volta ao Crime
Maria Lúcia sofreu muito naqueles dias. A todo instante lembrava-se de João. Continuou morando na mesma casa, mesmo estando sozinha. Tudo voltava a ser como era antes, com exceção das mudanças de espírito que Maria Lúcia tinha todos os momentos.
Quando conseguia ficar alegre por instantes, rapidamente vinha uma onda de descontentamento que a fazia ficar triste e lembrar de João. Mais triste ficou ainda, quando uns quinze dias depois João ligou: – Oi, amor – disse João – Que besteira eu fiz? Por quê voltei? Abandonei você, não foi?
– Oi, João, volta, amor... Eu não sou nada sem você... – Você vai se acostumar... Assim que der eu vou te buscar... – Eu não me perdi e mesmo assim você me abandonou... Você quis partir e agora estou aqui sozinha...
João ficou em silêncio do outro lado da linha. Maria Lúcia ouviu João chorando. – Mas vou me acostumar com o silêncio da casa, com um prato só na mesa. – Na próxima semana eu vou lhe visitar! Eu prometo! De coração. Prometo por tudo o que há de mais sagrado no mundo...
– Que dia, João? Você vem mesmo?
– Vou, Maria Lúcia. Pode me esperar... Já deixei de cumprir uma promessa a você?
Maria Lúcia não falou nada. Esperava que fosse verdade o que João estava falando.
Mas, no dia marcado, nada de João. Apenas, três dias depois, João telefona: – Oi, amor... Não deu para ir...
– Oi, João...
– Maria Lúcia, desculpa por não ter ido, mas os negócios aqui estão complicados... Não vai dar para ir aí, por esses dias... – João, eu já sabia que você não viria...
– Me desculpa, amor... Eu não queria te magoar... – João, eu cansei de sofrer. Eu não quero mais chorar. Eu espero conseguir aceitar o que passou. Vou ser feliz. Hoje eu já sei o que sou e o que eu preciso ser.
– Ah, amor, não fala assim. Quando lembro das tardes que passamos juntos... – João, deixa de falsidade. Fala a verdade, fala que me esqueceu... Fala que nunca me amou...
– Eu sempre lhe amei, você sabe disso, mas, agora, eu preciso estar aqui... Maria Lúcia percebeu que havia perdido João. – Eu continuo aqui, João. Meu trabalho e meus amigos. Continuo na mesma casa. Me lembro de você, dias assim, dias de chuva... E o que sinto não sei dizer...
João ficou em silêncio.
– E quando me lembro de você que acabou indo embora, cedo demais... – disse Maria Lúcia. – Percebo que deveria aprender alguma lição para a minha vida. Nunca mais vou me entregar a um homem como me entreguei a você, João. – Maria Lúcia, eu para sempre vou te amar... Um dia vou te buscar... No momento, não posso fazer isso, mas um dia vou voltar... Confie em mim... – João, viva a sua vida... Esqueça de mim.
Maria Lúcia estava disposta a recomeçar a sua vida. Alguns dias depois ouviu o noticiário na televisão sobre a série de explosões que ocorreram em Brasília. Depois disso, sabia que nunca mais veria João. Será que foi João quem fez isso? Será que aceitou o trabalho? João, bem longe dali, também via o noticiário na televisão. Alguém tinha aceitado o trabalho que o Doutor Everaldo havia oferecido a João. João, quando voltou, percebeu que Pablo tinha razão quando falou que eles teriam problemas para voltarem a ser como eram no passado. Havia um grupo de traficantes unidos para tomar o poder de João e Pablo. O controle do tráfico que João dominava ia minando aos poucos, e conseqüentemente, o poder de seus concorrentes ia aumentando. João buscou soluções em quem o havia ajudado no início de suas vendas, mas, como o Doutor Everaldo havia mencionado, não era mais a mesma coisa. Havia se instalado um poder paralelo, onde os chefões estavam no Rio de Janeiro. João percebeu que havia uma comunicação entre o pessoal do Rio e de Brasília, mas ninguém aparecia. João suspeitava de que a alta cúpula de empresários e políticos estava por trás deste poder. João, aos poucos foi refazendo a sua turma, que havia se espalhado. O Rodrigo, o China e o Mundo concordaram em voltar ao grupo de proteção ao Morro. Alex foi mais difícil de ser encontrado. Espalharam os boatos de que João queria encontrar Alex, o ex-namorado de Leila.
Alguns dias depois, Alex apareceu no Morro.
– João, como vai? Queria me ver?
– Queria, Alex. Como vai?
– Tudo bem.
– Demorou para aparecer. O que aconteceu? – perguntou João. – Estava viajando, João. Você sabe... Depois que você foi embora as coisas mudaram, o Pablo não tem a mão forte como você tinha, e eu me senti deslocado. Ainda bem que você voltou.
– Então, você aceita voltar para turma?
– Estou de volta, João, da mesma forma que antes. Sabe que eu não o abandonaria por nada.
E assim, João conseguiu recuperar alguns amigos que haviam ido embora devido à confusão instalada no tráfico, com a chegada deste novo pessoal. João tentou recuperar alguns pontos de venda. No primeiro em que tentou a invasão armada, acompanhado de seis amigos, teve que se retirar rapidamente, já que houve um contra-ataque muito forte por parte dos que estavam no ponto. – João, você viu que arsenal? Os caras tinham armas que nós nunca vimos. – Se vi! Os chefões tem poder... Eles são peixes muito grandes... Na mesma noite, conversando com Pablo.
– Pablo, o negócio está pior do que eu esperava. Por quê você deixou acontecer isso? Está tudo bagunçado.
– João, eu não sou tão forte como você. Você sabe disso. Quando me dei conta já estava feita a desgraça.
– Agora vai ser difícil voltar a ser como era... Mas eu vou tentar... – João, e a última notícia que o Rio de Janeiro não vai mandar mais cocaína para gente.
– E você tinha voltado a pegar do Rio? Parou com a Bolívia? – Parei, João, fui forçado por uma turma grande, aí. – Então, a partir de agora, esquece o Rio e volta a buscar a droga na Bolívia. – Hoje mesmo vou fazer os contatos.
– Quero que você viaje para lá, o mais rápido. Agora mesmo, se for possível. – Ok, João! Já vi que você voltou com todo o gás... Isso é muito bom... Pablo foi para a Bolívia, fez os contatos que devia e voltou a pegar a cocaína daquele país. Quando encontrou com João, deu-lhe um presente. – João, deu tudo certo. Basta um telefonema e tudo virá para cá. – Beleza, Pablo. Agora vamos voltar a brigar de frente com os caras. O material é bom?
– É, João, como sempre foi.
Abriu a gaveta e tirou um embrulho.
– João, trouxe um presente para você.
E o entregou a João.
João, abriu o pacote e sorriu. Era uma arma. Uma espingarda Winchester 22, como dos filmes de faroeste.
– Que linda, Pablo. Obrigado.
Deu um abraço no amigo.
João guardou a Winchester em seu quarto, no Morro. Colocou como destaque em sua estante. Era muito bonita, parecia uma escultura. Se orgulhava da arma, e sempre queria usá-la contra alguém, mas nunca a tirou da estante. Tinha outras armas, normais, mas aquela era o seu xodó. – Pablo, vou fazer um ataque contra os nossos inimigos – falou João. – O que você acha?
– João, disso eu não entendo e deixo por sua conta. Perdemos mais da metade de nossos pontos, neste último ano. Ontem fiquei sabendo que mais um ponto foi abandonado pelo nosso pessoal. Só sei que precisamos fazer alguma coisa. – Então, arruma uma turma para mim. Vou deixar você selecionar a turma. Arruma uns dez caras, de preferência conhecidos. – Deixa comigo – falou Pablo.
E assim Pablo fez, arrumou o pessoal, que a partir desse dia vivia grudado em João, tanto para atacar novos pontos, quanto para defender pontos que pudessem estar sofrendo ataques.
Pablo escolheu os quatro que andavam com João – Alex, China, Mundo e Rodrigo – e mais sete rapazes. Todos eram famosos por suas loucuras. Mas, mesmo assim, estava difícil para João. Enquanto ele reconquistava um ponto, perdia dois outros em contra-ataques do pessoal do Rio. – Pablo, acho melhor mudarmos nosso método. A partir de agora, vamos tentar defender o que já temos.
João não sabia, mas a apenas um quilômetro do Morro, um prédio estava sendo vendido para o pessoal do Rio de Janeiro. Os chefões estavam chegando.