Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 4 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 02: - a Morte de João Fernando o Pai de João

João estava com sete anos quando seu pai morreu. A sua mãe morrera há três anos e desde então o seu pai era outra pessoa. Começou a sair com diversas mulheres, a beber demais e a se envolver em confusões. Havia sido preso por roubo. Falaram que ele tentou entrar em uma casa achando que não tinha ninguém, mas havia um homem dentro da casa, que chamou a polícia. João Fernando disse que não era isso. Ele estava bêbado e tentava pegar uma galinha no galinheiro daquela casa. Naquele pedaço da Bahia isso ainda era possível. A galinha seria cozida e servida entre uns amigos beberrões que estavam num bar, ali perto. João Fernando foi escolhido pela turma. Era um grande inútil quando bebia e todos se aproveitavam dele. Era um homem derrotado, sem moral, e viciado em bebida. Entregou-se completamente a um futuro miserável.

Depois do nascimento de Joãozinho tudo havia dado errado. A seca reduziu suas terras a umas poucas notas: teve que vendê-las ao prefeito, que não era tão bonzinho assim, como ele pensava. Agora concordava com a oposição: começou a ver o que o prefeito fazia. Apenas agora, quando não tinha mais nada nas mãos.

Não podia fazer nada, tudo estava acabado. O seu gado era agora do prefeito, que todo ano de seca os mandava para o Pará, para ficarem gordos, pesados, bons para serem vendidos a outros moradores da cidade. A sua terra foi vendida para pagar o tratamento da esposa, que estava com uma doença que não tinha explicação. O curandeiro do bairro havia falado que não tinha como curá-la; os médicos do hospital disseram a mesma coisa. Falavam que era uma doença que ela pegou por ficar muito no sol, uma coisa ruim na pele. Uma doença com um nome esquisito, Melanoma. Primeiro apareceram manchas pelo corpo, umas manchas escuras. Depois as manchas viraram feridas escuras. Aí o médico disse que já não tinha mais o que fazer. Mesmo assim ele vendeu a terra. O prefeito se prontificou a ajudá-lo, comprando a sua terra, por um preço abaixo do que valia, mas que era uma saída para ele, naqueles tempos de seca.

E sua mulher morreu mesmo depois que haviam ido morar na cidade, naquela saída de bairro, muito pobre, mas que ficava perto do hospital. Morreu cinco dias depois que foram para a cidade.

João Fernando não quis aceitar o fato, sempre criticando a tudo e a todos pelo que aconteceu: o curandeiro, por não curá-la, os médicos, que não deram nenhum remédio que sarasse aquelas feridas, o prefeito, por deixá-lo mais pobre do que era, e a Deus, que não tinha pena dele e nem das pessoas das quais gostava.

Joãozinho tinha quatro anos de idade. Como viver com um pai que não conseguia nem mesmo sustentar a si próprio? O que fazer com Joãozinho? Ainda bem que a irmã de João Fernando tomou conta dele. Pelo menos, até o menino começar a aprontar.

Era um menino esperto, inteligente, mas que não gostava de escola. Adorava travessuras e vivia sempre aprontando.

Com seis anos já praticava malvadezas, não poupando as vidraças das escolas, as goiabeiras dos vizinhos e nem os gatos que ali apareciam. Aprendeu um palavreado diferente de sua família. Família pobre, sofredora, como tantas outras da região, entregue a um futuro sem boas perspectivas. Joãozinho, não. Joãozinho enfrentava os moleques maiores na pedrada. Sabia que se dependesse só de sua mão ele apanharia, mas na pedrada ele nivelava a briga. Os palavrões que outros meninos aprendiam com nove ou dez anos, ele já falava todos, aos sete.

E foi um palavrão a última coisa que ouviu da boca de seu pai, antes de morrer. Joãozinho estava no campinho, jogando futebol com outros moleques, quando viu a confusão. Um homem fugindo de um policial. Era o seu pai. O policial tinha um revólver na mão, João Fernando estava bêbado, mas não o bastante para impedi-lo de correr bem. Conseguia fugir daquele policial bastante gordo, completamente fora de forma.

Joãozinho não sabe por que o pai parou, pegou uma faca que sempre trazia consigo, em uma mão e se virou para o policial, que espumava de raiva. A impressão que Joãozinho teve foi a de que seu pai tinha desistido de tudo. Enfrentou o policial como se quisesse morrer. – Você vai atirar ou não vai, filho da puta? – gritou João Fernando. E correu para cima do policial, que disparou uma vez apenas, quando João Fernando estava a alguns passos de distância. Covardia? Autodefesa? Cada um diz uma coisa, mas Joãozinho viu um suicídio. A bala atingiu o coração de João Fernando. Um coração sofrido, que não merecia ter sido parado dessa forma, mas que talvez fosse o melhor. João Fernando havia perdido a esperança na vida, havia perdido a esperança em encontrar pessoas boas, que faziam o bem, sem egoísmos e interesses próprios. João Fernando chegou ao limite. Para ele, agora, era melhor morrer. E, depois que o tumulto se dispersou, depois que levaram o corpo de João Fernando, Joãozinho começou a ouvir as pessoas elogiando seu pai. Ele sabia que o povo iria falar bem agora, mas só o que ele lembrava era como o seu pai procurou a morte.

Porque ele humilhou aquele policial?

O que soube foi que, quando o policial ia entrando no bar em que João Fernando estava, ele colocou o pé na frente do policial, que tropeçou e caiu. Ainda no chão, o policial levou um chute de João Fernando, que o chamou de gordo, vagabundo. Mas, naquele lugar, ninguém levava desaforo para casa. Houve a perseguição e a morte.

Joãozinho passou a ter orgulho do seu pai. Sempre em seus sonhos ele pensava no chute que o pai dera no policial.

E sentia orgulho de si mesmo por não ter chorado em nenhum momento do enterro de seu pai.