Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 12 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 10: - o Começo do Tráfico de Drogas

João se envolvia de corpo e alma no tráfico. Gostava de vender drogas, adorava ir para as ruas, sentir que as pessoas o respeitavam, tratavam-no como uma pessoa poderosa. Não hesitava em usar da violência impor respeito e conseguir o que queria. Com isso o dinheiro aumentava em sua conta corrente dia a dia. Nunca havia ganhado tanto. No entanto, João e Pablo continuavam viciados em cocaína.

Disputaram os pontos de venda de drogas com violência e não hesitavam em matar os inimigos. Em uma das bocas, João, pessoalmente foi fazer a intimidação. Chegou com dois comparsas e foram diretamente à boca de fumo, onde estava Adriano. Eles já o conheciam, pois costumavam comprar drogas em sua mão.

Adriano sorriu, achando que seria mais uma venda. João ainda não havia espalhado a sua fama. Estava fazendo pouco a pouco. – E aí, mano, o que vai ser hoje? – perguntou Adriano. João foi direto ao assunto. Puxou seu revólver e deu quatro tiros em Adriano. Os seus comparsas mataram outro cara que estava no local. Dois comparsas de Adriano, que também estavam no local ficaram estagnados. João impôs sua vitória e decretou que eles deveriam sair dali imediatamente. A partir deste momento, João iniciou sua própria boca de fumo. O seu produto era puro, a maconha era a melhor da região e a repercussão foi instantânea dos seus atos foi repercutindo aos poucos. Com isso o movimento subia gradativamente.

Daí para a conquista de outras bocas foi um pulo. Os seus comparsas iam aparecendo, pouco a pouco. Sempre existem aqueles que querem ficar ao lado de quem está por cima.

Rapidamente, João acabou com os piores traficantes da região. Outros traficantes menores não esperaram a visita da gangue do João, e fugiram para outras cidades.

O tráfico do Rio de Janeiro começou a investir na turma de João. Mandavam dinheiro, armas e droga pesada. Em troca, João conseguia maconha de boa qualidade e enviava para o Rio.

Pablo fazia todo o serviço de contatos, continuava conquistando novos agricultores, inclusive de outros estados, e conseguiu contatos importantes com a Bolívia, país que conhecia bem.

Em pouco tempo, João e Pablo passaram a ser alvo de conversas em todas as rodas. Os políticos falavam deles nos bastidores, do poder que eles conquistavam e ficavam receosos de tomarem ações que não fossem de acordo com a vontade de ambos. A polícia era financiada pela gangue de João, e fingiam não ver nada.

A alta sociedade, viciada, convidava os dois para freqüentarem suas festas. Afinal, todos estavam influenciados, direta ou indiretamente. Muitos eram amigos verdadeiros, feitos pelo poder de convicção de João, que aonde chegava conquistava a todos. Nunca se preocupou com economia, e muito menos agora, que tinha muito dinheiro. Os viciados o adoravam e bajulavam-no. O que João mais gostava em toda esta trajetória era poder freqüentar as festas de rock. Era um pessoal que o respeitava, tratava-o dignamente como nunca haviam feito. Vestia uma roupa legal, quase sempre nova, comprada exclusivamente para aquela determinada festa, com bastante dinheiro no bolso e belas mulheres ao seu redor.

Quase sempre dormia em bons hotéis, sempre muito bem acompanhado. Usava drogas a todo o momento o que fazia sua amizade crescer cada vez mais. Era o novo dono do pedaço.

Com muito dinheiro nas contas, Pablo e João começaram a investir em bens matérias.

– João, estava pensando em montar uma central onde pudéssemos controlar o nosso império. O que você acha? – perguntou Pablo. – Concordo. Vamos comprar um prédio! – falou João. – Um prédio, João? Calma! Eu acho que a gente deveria comprar um galpão, tipo estes que a gente vê nos filmes de cinema. – Que nada, Pablo! Sabe o que eu gostaria? Eu gostaria de ser dono de um morro. Morro do João! ! ! Já pensou?

– Você está voando, João. Aí já é demais!

– Eu sei, mas eu posso fazer uma coisa parecida. Eu vou construir um prédio, e vou chamar este prédio de Morro. E aí eu posso falar que sou dono do Morro. O Morro do João! O que você acha?

– Sei lá, João, vai chamar muito a atenção.

– Eu sei... Vamos ter que ter uma fachada... Nós faremos andares subterrâneos, para uso exclusivo do tráfico e nos andares normais nós alugaremos para o comércio, por aluguéis baixos, para que fiquem sempre alugados. E nos dois últimos andares eu quero o meu conforto. No penúltimo eu quero a melhor residência de Brasília e no último, eu quero tudo de melhor que um escritório possa ter. E vamos contratar os melhores empregados para nos ajudar. E agora? O que você acha?

– Puxa! João... É tentador!

– Tudo bem... Você fica com o andar abaixo do meu... – Ah! Agora ficou perfeito...

E riram do poder que tinham.

Uma semana depois já tinham comprado um terreno, no centro da cidade. Seis meses depois o prédio já estava pronto. Contrataram muitos pedreiros e ajudantes e o serviço acabou mais rápido que o normal.

João, todos os dias, visitava a construção. Pablo ia de vez em quando. Na inauguração foram as pessoas mais influentes da sociedade. Eram políticos, empresários, comerciantes, artistas e toda a grã-finagem. Nunca se comeu nem bebeu tanto como naquela noite. E para os mais íntimos tinha cocaína de sobra. Na hora em que João e Pablo tiraram o pano para a inauguração do prédio, houve uma esfuziante salva de palmas. Na placa estava escrito: MORRO DA VITÓRIA

A princípio João queria colocar Morro do João, mas Pablo discordou. Ficaria muito pessoal. E se colocasse Morro do Pablo? Nessa dúvida, ficou combinado em colocar Morro da Vitória.

João, para tudo que quisesse se referir ao prédio, falava Morro. “Eu vou lá ao Morro. Eu vim do Morro. Vou dormir no Morro”. Os seus amigos aprenderam a usar os termos. “A pura só tinha no Morro do João”. A locação dos apartamentos foi rápida, e conforme haviam combinado o preço da locação era abaixo do mercado. Rapidamente, o prédio se transformou num shopping empresarial, mas também tinham alguns andares comerciais. Ninguém desconfiava do entra e sai que ocorria nos três andares subterrâneos. Eram caminhões carregados chegando, eram carros carregados saindo. Homens e mulheres entravam e saiam dos andares, que eram controlados. Na verdade, o acesso aos andares do tráfico era restrito a um grupo de pessoas que trabalhavam para a recepção e distribuição da droga para a cidade. O poder de João estava no auge. Os carros saiam dali, carregados, e distribuíam nas bocas que estavam espalhadas pela cidade.

As autoridades sabiam o que estava acontecendo, mas como em todo lugar era inevitável o tráfico de drogas. E, como João tinha destruído ou expulso os outros traficantes, as autoridades até estavam satisfeitas em não ter tantos problemas como quando havia na disputa por bocas de fumo. João ajudava constantemente a polícia, com doação em dinheiro e material para as delegacias. Até carro ele havia doado. E mantinha a sua turma especial de proteção dentro da polícia. Se caso houvesse a necessidade de evacuação das drogas do prédio, João seria avisado, através de sua turma de proteção, infiltrada na polícia. Eles faziam rapidamente uma limpeza no prédio, caso houvesse algum tipo de fiscalização.

Essa fiscalização ocorria, periodicamente, devido aos diversos boatos que surgiam sobre o tráfico de drogas realizado por João e Pablo. Vinha do alto comando da polícia, mas nunca puderam comprovar nada. João ficava durante o dia no escritório, localizado no décimo terceiro andar. Durante a construção, João resolveu inverter e construiu no último andar a sua residência. Tinha até piscina. Ficou o máximo. João colocou em casa tudo o que era possível em conforto, inclusive, uma mini academia, salão de jogos, e uma sala que ele chamava de boate, com som, luzes, que era onde ele trazia suas garotas. Dali, para o seu quarto era um pulo. Na boate, João aprontava. Sempre tinha cocaína espalhada em uma mesa, em um cantinho e suas visitas podiam visitar a mesa, sempre que quisessem. E, quando acabasse o pó, sempre havia um empregado pronto a renovar.

No escritório, havia a sala de João e a de Pablo. Enquanto Pablo tratava de todo o processo de comunicação com outros estados e países, João era encarregado do recrutamento.

E foi num desses processos que ele conheceu o seu melhor amigo, nesta etapa de sua vida.

No dia em que se conheceram, João estava muito feliz. Eram três horas da tarde quando Natinho entrou em seu escritório.

– Boa tarde, Seu João! – falou Natinho.

João ficou chateado. João estava acostumado com puxa-saco, mas odiava esse negócio. Só porque tinha dinheiro e poder não precisava de bajulação. João era um negro, um metro e noventa de altura, forte e independente. Achava estranho aquele respeito que conquistou.

– Ei, menino branco. O que é que você faz aqui, subindo o Morro? Quer se divertir? – perguntou João.

Natinho percebeu que não seria fácil o que ele pretendia. – Seu João...

– Olha, pivete, eu não te conheço, mas não gostei de você. Que negócio é esse de me chamar de “Seu”?

Natinho ficou calado. Estava humilhado demais para responder alguma coisa. João percebeu o que tinha feito, e rapidamente mudou seu tom de voz. – O que foi, rapaz? Fala aí... – perguntou João. – Olha, João, eu estou precisando de emprego. Sei que você é dono deste prédio e resolvi vir direto a você para pedir emprego. Pode ser qualquer coisa. Até vender drogas na rua.

– Que negócio de drogas é este? Está maluco, cara. Eu não mexo com isso, não! Natinho respirou fundo e falou:

– João, a sua fama corre por toda a cidade. Todo mundo sabe que você é o Rei. Sem você esta cidade estaria parada. Sem você a nossa cidade seria uma merda. João ficou satisfeito com o status. De repente, voltou ao chão... – Que é isso, moleque?

– João, eu quero vender drogas. Eu uso desde os quinze anos, mas agora estou querendo vender. E não quero ser vendedorzinho pé-de-chinelo. Quero ser forte. Com o seu apoio quero me tornar no seu melhor homem. João estava surpreso com aquele rapaz que entrou tímido, humilhado, e agora estava demonstrando uma personalidade formidável. – Qual o seu nome? – perguntou João.

– Natinho.

– Seu nome, mesmo? Qual é?

– Eu deixei de ter nome há algum tempo.

– Eu entendo. Já passei por isso na minha vida. Olhou para aquele rapaz, tentando se firmar em alguma coisa e resolveu: – Olha! Rapaz! Você está contratado! E será o meu melhor vendedor, mas, para isso você precisa provar que é o cara. Você é capaz disso? – Sou. – respondeu Natinho, secamente.

– Então, daqui a pouco, às seis horas, nós vamos fazer um teste. Dá um tempo lá em casa. Sobe e fica lá. Na hora certa eu te chamo. Natinho ficou impressionado com João. Tomava as decisões imediatamente, sem medo. Mandou Natinho para sua casa, sem nem mesmo conhecê-lo. O que aquilo representaria? Sabia que era um teste. Na sala de João tinham diversos objetos de valor. Esculturas, enfeites, relógios, e outros artefatos. Além de que, em um cantinho estava um pouco de maconha e outro de cocaína.

Natinho sabia que era um teste. E ele iria passar neste teste. Na verdade, Natinho era viciado em cocaína. Já havia tido diversos problemas, mas nesse momento estava preocupado em mudar sua vida. Falava em abandonar as drogas, mudar de amigos, conseguir um bom trabalho. Afinal, estava pensando em ter um futuro melhor.

João, por sua parte, fazia este tipo de teste com todos os seus possíveis funcionários. Muitos haviam passado e muitos reprovados. É claro que era um teste injusto com os diversos viciados que entravam naquela sala, loucos de vontade de usar alguma droga, mas João, quando viu Natinho, sabia que não precisava fazer o teste. Sabia que Natinho era o seu novo braço-direito. Sabia que, se isso não fosse acontecer agora, aconteceria no futuro. Era como se uma força muito forte o estivesse avisando para ajudá-lo, naquele momento, que em outro momento teria o retorno. Era pura intuição. Às seis horas João apareceu na sala. Fazia duas horas que Natinho estava lá. A única coisa que ele fez foi ligar o som, sintonizou uma rádio que só tocava MPB. – Que som legal. Você curte esse som? – perguntou João. – Adoro! Pena que o cara morreu, senão hoje em dia estaria no topo do mundo. O cara era mágico...

– Se era! O cara era o máximo! Ainda hoje, depois de tanto tempo, está fazendo sucesso.

– Eu fico pensando – disse Natinho. – como Deus faz as coisas. Será que estava na hora do cara pegar aquela doença e morrer? Por que não me levou no lugar dele? Por que os bons morrem jovens?

– O que é isso, cara? Não entendo desses negócios de Deus, mas acho que o que tem que acontecer, acontece. Acho que não tem esse negócio de a gente fugir de acontecer as coisas. Acho que o dia que vou morrer, já está escrito em algum lugar.

Natinho observava. Sabia que João tinha razão, o dia da sua morte estava escrito. Quem mexia com drogas assinava a sua morte, o que aconteceria mais cedo do que tarde. O dia da morte de Natinho também estava escrito. – Que é isso, João? Parece que viu anjos? Está prevendo o futuro? João riu da brincadeira. Não estava acostumado a rir, assim. Sempre era levado muito a sério. Quem o rodeava sabia do seu poder, sabia das mortes que carregava nas costas.

– Vamos descer, Natinho. Quero te levar em um lugar. Se der certo, você passa a trabalhar lá.

E desceram. Foram para o carro de João, que dirigiu até um determinado bairro. – Natinho, aqui você tem um material ruim. É cocaína misturada com bicarbonato. Dá para sentir um pouco do efeito, mas se o cara for macaco velho, você vai perder seu dinheiro. E levar umas porradas por vender material falso. Toma aí!

Natinho pegou o papelote na mão, olhou bem para o papel e resolveu: – Vou passar!

– Quero ver! – respondeu João.

Saiu do carro, viu um cara que parecia viciado vindo do outro lado da rua. Aquela esquina era um ponto de venda de cocaína, e era fácil identificar os possíveis fregueses.

– Volta aqui... – gritou João, pensando em dar algum conselho para facilitar a venda.

– Vem você! – gritou Natinho, demonstrando sua forte personalidade. Encontrou com o cara. João os viu conversando. Natinho enfiou a mão no bolso e entregou o papelote ao rapaz. Este entrou no bar em frente, foi ao banheiro. Demorou um pouco. Saiu, sorrindo, e entregou algumas notas para o Natinho, que veio para o carro de João.

– Como foi? – perguntou João.

– Nem sentiu que era falso...

– Então entra aí e vamos comemorar... – brincou João, festejando o início de uma nova amizade.

Foram para a casa de João. Já era noite. Do celular, João deu ordens aos seus funcionários. Queria encontrar três amigos e mandou localizarem-nos. Pediu que os convocassem para uma reunião em sua casa, dentro de meia hora. E pediu que convidasse algumas garotas, para se divertirem após a reunião. João chegou ao prédio, e quando foi entrar em casa, percebeu que tinha esquecido as chaves.

– Agora que temos a casa é a chave que sempre esqueço. Ligou pra Pablo que morava perto e o assunto foi resolvido. A partir deste dia Natinho passou a freqüentar a casa de João. Conseguiu um ponto de venda de cocaína perto de onde realizou aquela façanha, mas sempre era chamado à casa de João, que reconheceu em Natinho uma pessoa amiga e companheira, diferente dos outros amigos, que só pensavam no dinheiro e na droga.