Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 21 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 19: - Jeremias Aparece e Quer o Poder

Já estava completando dois anos que João havia abandonado Maria Lúcia e voltado para Brasília. Estes dois anos foram cheios de altos e baixos. Em todos os sentidos. O lado financeiro de João já não o permitia fazer tanta loucura como antigamente. Via-se claramente que João estava se desfazendo de seus bens para liquidar suas contas.

No lado sentimental, João sentia falta de Maria Lúcia. Nunca mais conseguiu se relacionar com uma mulher, sem pensar em Maria Lúcia. Era a mulher de sua vida e ele sempre falava que voltaria para buscá-la e viveriam bem, em Brasília. No lado comercial, depois que foi inaugurado o outro prédio, administrado pelo pessoal do Rio, o seu prédio teve uma redução considerável de locatários e de clientes.

Também, o seu controle no tráfico caía vertiginosamente. Um determinado dia, João teve uma visita inesperada. Um jovem, como ele, solicitava uma reunião com João. João concordou em jantar com esse rapaz, depois de perceber que ele estava sendo apresentado por uma turma do alto poder de Brasília.

No jantar, João foi apresentado a Jeremias.

– João, muito prazer. Já ouvi falar muito de você. Meu nome é Jeremias. – Jeremias?

– Isso mesmo, João. Estou chegando à Brasília, e tenho uma proposta a lhe fazer.

– Prazer, Jeremias. Não me parecia um jantar de negócios. Você é rápido no gatilho, hein? O que você quer?

– Vamos pedir um drinque, primeiro, João?

Pediram bebidas e alguns tira-gostos. Falaram amenidades, ambos sentindo um clima de tensão.

– Bem, João, vou direto ao assunto. Eu sou Jeremias, vim do Rio de Janeiro e sou o novo dono do Avenida Vermelha, o prédio que você já deve ter ouvido falar. João engoliu em seco. Jeremias era o seu concorrente? – Bem, João, o que quero lhe propor é uma união entre nossos dois grupos. Você sabe que eu domino mais da metade do nosso comércio, que você sabe qual é, mas eu quero unir a você para podermos administrar juntos e dominar completamente o tráfico em Brasília.

– Bem, Jeremias, acho que você me conhece. Deve ter ouvido falar que sou meio ignorante e que não aceito dividir o que eu tenho. – João, não é questão de dividir. A gente só divide o que a gente tem. No seu caso, você já perdeu o que tinha. Eu tenho a maioria dos pontos e estou dando chance a você de participar da administração. João ficou vermelho de ódio. Não entendia como havia sido chamado para uma reunião desse tipo, apenas para ser humilhado. – Acho que não falaram muito de mim, para você, não. Eu sou uma pessoa perigosa e que não gosta de gozação. Eu sou meu próprio líder, e nunca vou aceitar ter um sócio como você.

Disse isso, levantou-se e bruscamente foi para o lado de Jeremias. Nisso, três rapazes, bem vestidos que estavam na mesa ao lado, levantaram-se entraram no meio dos dois, protegendo mais a Jeremias. – Deixem! – falou Jeremias.

João percebeu que eram do grupo de Jeremias. – João, acho melhor você sair de Brasília. Aqui não é lugar para nós dois. E virou as costas para João, sendo seguido pelos outros rapazes. Jeremias havia conseguido o que queria, que era humilhar João, e mostrar que estava chegando para dominar o tráfico em Brasília. E já sabia todo o seu envolvimento com aquela linda mulher. Que bobo que era João em abandonar aquela mulher. Jeremias começou a ser paparicado por todos os jornais e revistas da cidade. Era convidado e ia a todas as festas, dava entrevistas na televisão, e virou o novo namoradinho da cidade. As mocinhas ficavam caídas por ele. Era um rapaz alto, de quase dois metros de altura, tinha vinte e seis anos de idade, era forte. Era branco, rico e tinha um pouco de estudo. Mais do que João. Sabia falar bem, e não tinha timidez em tentar alguma vantagem até com os mais poderosos da cidade.

No prédio que comprou, construiu uma estrutura como a que João tinha no Morro. E, como no Morro, construiu os seus aposentos nos andares superiores. Começou a chamar os boyzinhos para o seu lado, fazendo festas e mais festas. O seu apartamento vivia cheio de gente. Eram rapazes e moças que corriam atrás de drogas e diversão.

Jeremias aproveitava-se disso para seduzir garotas. Era um namorador nato e não costumava perguntar a idade de suas conquistas. O maior prazer que tinha era receber as meninas, ainda moças, em seu quarto. Sabia que com o poder que tinha, e com as drogas que vendia, conseguiria conquistar estas garotinhas como quisesse.

Promovia festas regadas a bebidas e drogas. Chamava estas festinhas de Rockonha. A maconha era oferecida sem controle, mas a cocaína era permitida apenas para alguns. Havia uso indiscriminado de bebidas e eram distribuídos convites a seus amigos. Esses convites eram disputados a grito. Permitia o uso aos seus clientes. Sempre usava a melhor, a mais pura. Como João, no início, tinha total apoio de todos os órgãos superiores. Comprava todo mundo, e se exaltava disso. Estava orgulhoso com a sua transferência do Rio de Janeiro para Brasília. Até a televisão havia anunciado que um poderoso empresário do setor de diversão havia se transferido para Brasília. João sabia que precisava ficar atento com o poder que Jeremias tinha, e que, agora que conhecia o inimigo, deveria modificar o modo de ataque, mas, principalmente, saber como se defender.

Sempre andava com uma turma. Não freqüentava mais as festas como antigamente. Aliás, diminuíram os convites para as festinhas. Da mesma forma, João perdia seu poder, e não podia mais fazer tanta extravagância como no passado. E como os maiores amigos estão ligados ao poder, João perdeu muitos amigos, que agora andavam com Jeremias.