Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 15: - a Verdadeira Paixão
Em Porto Seguro deu tudo certo. Com as dicas de Eduardo tudo foi melhor. Em primeiro lugar ele mandou os rapazes ficarem no Arraial d’Ajuda, onde o índice de drogas e mulheres era muito maior do que Porto Seguro. Eduardo disse: “A juventude fica no Arraial. Os velhos em Porto Seguro.” E realmente era verdade. – Natinho – disse João, de papo para o ar, na praia. – Eu sou um pássaro. Me trancam na gaiola. Aqui, não! Aqui estou livre. Que delícia! – Não te falei que você ia gostar?
– Estava precisando disso. Nada como umas férias. Você viu como aqui tem mulher bonita?
– E não estamos nem na temporada.
– Rapaz, quanta beleza!
E João ficava admirando o que ele mais gostava: mulheres. No final da primeira semana, João e Natinho já conheciam todos os macetes do Arraial d’Ajuda. Sabia que na Broduei, a rua dos bares, era fácil encontrar um baseado. Depois, a caça às garotas acontecia entre a Broduei e o Shopping, um pequeno comércio do local, onde havia uma série de bares. João rodava entre os bares até encontrar a garota que ele queria. Chegava a namorar até três garotas em uma noite.
Natinho ficava mais tranqüilo, apenas acompanhando João nos baseados e na bebida. Na hora da caça, cada um por si, mas Natinho era tímido e ficava na dele. – Vamos lá, Natinho, tanta mulher e você aí, devagar para caramba... – dizia João, brincando com Natinho.
– Deixa para lá, João, na hora certa a minha princesa vai aparecer – se desculpava Natinho.
À tarde, João gostava de ir para a Barraca do Parracho. Era a barraca de praia mais movimentada do Arraial. Lá, escolhia uma mesa e mandava descer bebida, tanto para ele quanto para os amigos nativos. Em poucos dias João já tinha uma amizade muito grande.
Mas, naquele domingo, tudo mudou. João estava a pouco mais de meia hora na praia, era perto das três horas quando apareceu uma morena, cabelos longos, corpo escultural, olhos verdes. Era linda! Destacava-se das outras, parecendo ter um brilho diferente, único.
Ela chegou, escolheu uma mesa perto de onde João estava, colocou sua bolsa na mesa, tirou os óculos escuros, balançou a cabeça, arrumando os cabelos. De costas para João, levantou a sua camiseta, lentamente, tirando-a. Ainda de costas, abaixou lentamente sua saia, revelando um pouco mais de sua beleza. João parecia hipnotizado por aquela mulher. Bronzeada, parecia uma deusa. Viu quando ela estendeu uma toalha sobre a cadeira de sol e se deitou, de bruços. João não percebia malícia naquela mulher, era uma coisa natural.
João tremeu na base. Nunca houve uma mulher que fizesse com João o que essa mulher fez. Ele tremia, estava estranho. Começou a pensar em como se aproximar, como chamar sua atenção. Após alguns minutos que ela estava em sua cadeira viu quando outro rapaz se aproximou, puxando conversa. A mulher tinha o sorriso mais lindo que ele já vira, mas, estava acompanhada. João percebeu que não teria chance. Até que o rapaz se levantou e saiu. João se levantou e sentou-se na cadeira ao lado dela. – Oi – falou João.
– Oi – ela respondeu.
João engoliu seco. Que voz maravilhosa.
– Venho todos os dias aqui e nunca te vi. Quando você chegou? – Cheguei hoje – ela respondeu.
“Ela parece não querer conversa”, pensou João, “mas porque está sorrindo?” – Você é de onde?
Ela ficou séria por um instante.
– Qual o seu nome? – ela perguntou.
– João. João de Santo Cristo.
– Eu sou Maria Lúcia. Você é de que estado?
– Eu sou de Brasília... E você...? – João parecia um boneco nas mãos de Maria Lúcia: gaguejava, tremia.
– Que coincidência. Eu sou de Goiás...
Maria Lúcia voltou a sorrir. E João voltou a dominar. – Você está tão... bronzeada... Você chegou hoje? – É que passei uma semana em Morro de São Paulo. Conhece? – Não... Ainda não... – respondeu João, perdendo o domínio, novamente. – Você está de férias?
– Mais ou menos. Tenho um comércio próprio e resolvi passear por uns dias – João resolveu esnobar um pouco. – Sabe como é, né, devemos gastar um pouco, de vez em quando, e não só ganhar... Né?
Maria Lúcia voltou a ficar séria. Não respondeu a João. João percebeu que aquele tipo de demonstração de poder não a conquistaria. De repente, o rapaz que cantava na barraca começa a tocar uma música famosa, que fala das areias de Itapoã. João percebeu que Maria Lúcia prestou mais atenção à música.
– Que música linda, não? – perguntou João.
– Linda... Dá vontade de voar...
Falou assim e parecia indefesa. João neste momento queria tê-la nos braços, apertá-la e protegê-la. João olhou para Maria Lúcia e não soube reagir. – Você é tão diferente – João falou.
– Diferente? Como?
– Eu não sei... Eu me sinto tão bem ao seu lado... Parece que te conheço há tanto tempo, mas ao mesmo tempo não sei nem ao menos reagir ao seu encanto. Maria Lúcia sorriu. Um sorriso sedutor, que faria qualquer homem se entregar completamente.
– Olha, João, eu digo o mesmo. Parece que te conheço de algum lugar. O que você faz em Brasília. Não me diga que é Deputado? – brincou. – Tenho uma empresa. E uma série de imóveis. Na verdade, sou sócio de um amigo, inclusive ele está no controle dos negócios, agora, enquanto estou aqui, de papo para o ar.
Maria Lúcia ficou novamente séria. João notou que não a conquistara, como achava, há poucos instantes.
– Mas é por pouco tempo... – emendou João. – Preciso voltar para fazer a minha parte.
Notou que Maria Lúcia ficou impaciente. Estava começando o axé. – João, vamos dançar? Você curte axé?
– Nunca gostei... Quem sabe hoje eu não aprenda o que é gostar, de verdade... E foram. No palco montado na barraca começaram uma série de apresentações de dançarinos de axé e de outros ritmos do verão. João ficou ao lado de Maria Lúcia balançando-se ao ritmo da música, tentando acompanhar a coreografia que os dançarinos faziam. Maria Lúcia dançava bem. João, apesar de seu corpo, sua cor, e toda sua desenvoltura, ficava devendo. Quem sabe com um pouco mais de treino?
Após o axé, Maria Lúcia e João voltaram para a mesa, agora, juntos. Natinho ficou na outra mesa, sozinho como sempre.
– Você tem namorado? – João perguntou.
Maria Lúcia não falou nada. Fingiu que não escutara. – João, eu vou subir pra pousada.
– Já? Fique mais um pouco...
– Não... Está na hora... Já vai escurecer...
– A gente se vê?
– Quem sabe!
– Daqui a pouco?
– Quem sabe!
– Aonde?
Maria Lúcia simplesmente se vestia enquanto João se desesperava. – Tchau... Gostei de você, João...
E saiu.
João não conseguiu nem segui-la, de tão espantado que estivesse. Voltou para sua mesa, onde estava Natinho.
– Natinho... Eu não sei o que me aconteceu...
– Está passando mal, João? – Natinho perguntou, levantando-se. – Não, não é isso! Eu não sei o que é...
Natinho entendeu o que era. João havia sido dominado por uma mulher. Nunca vira aquilo.
– João, quem era ela?
– Uma deusa, um anjo, sei lá... Acho que meu coração não me pertence mais... – Como está romântico...
João estava mais do que romântico. Estava apaixonado por uma mulher que ele não sabia se iria ver de novo. Como encontrá-la? Subiram para a vila, foram à pousada. Natinho acendeu um baseado, mas João não quis. Apenas se preparou para uma noite de amor com uma linda mulher: banho, perfume, roupa bonita e dinheiro no bolso. O resto, Deus lhe deu: a perfeição de um homem bonito.
Saíram, já era quase onze horas da noite. Foram aos diversos bares do lugar mas em nenhum deles encontraram Maria Lúcia. João estava ficando impaciente. Não via nenhuma outra mulher, não queria beber, não conseguia ficar em um lugar apenas.
Andava e andava, procurava, e nada.
Resolveram comer uma pizza na Pizzaria Caminho da Praia, a melhor pizzaria do Arraial. Foram atendidos pela dona, a Marlene, que indicou alguns bares legais que ela mesma freqüentava. Ao final, eles escolheram parar um pouco num lugar que eles já conheciam.
– João, vamos ficar aqui, neste bar. O Beco das Cores é legal. Olha lá o Rafael e sua mãe, Neca. O Árabe é o um dos melhores lugares do Arraial. Estão tocando rock. Olha que som legal! Vamos tomar alguma coisa? João foi com Natinho ao Árabe. Rafael veio atendê-los. – E aí, Natinho? João? Como vão?
– Tudo bom, Rafael? E os bebês?
– Estão ótimos. O que vai ser hoje? – disse Rafael, filho da dona do bar, pai de gêmeos aos quinze anos.
– Traz o de sempre.
Rafael trouxe, mas João não bebeu.
– João, o que você tem?
– Não sei, cara, não sei...
A noite demorou para passar para João. Não encontrou Maria Lúcia, e nem ao menos sabia como encontrá-la. Já passava das duas. – Natinho, vamos ao lual?
– Mas, João, você não gosta disso!
– Mas hoje eu quero ir...
– Vamos... Rafael! ! !
Pagou a conta e foram.
Na própria Barraca do Parracho acontecia o Lual. Não encontraram Maria Lúcia, também, entre as centenas de mulheres que ali se encontravam. E, para surpresa de Natinho, João não quis sair com nenhuma delas. – João, você está doente?
– Só se for!
João dormiu mal. Queria encontrar Maria Lúcia. Sabia que precisava dominar aquela mulher e ela seria dele para sempre. Precisava encontrá-la. No outro dia, foi mais cedo para a praia. Ficou na mesma mesa, na mesma barraca. Perto das três horas ela chegou. Maria Lúcia, com sua beleza aproximou-se de João, falou um oi, simples, como se não estivesse nem o reconhecendo. João ficou louco, queria voar em cima daquela mulher, agarrá-la, beijá-la, mas se segurou.
– Natinho, eu não sei, mas estou inseguro com essa mulher. – Ahá! Alguém mexeu contigo! Cuidado, não vá se apaixonar... – Apaixonado? Eu? O João garanhão? Sai para lá... Mas, João sabia que o negócio era diferente. Não era mais o mesmo. Na primeira oportunidade, se aproximou.
– Oi, Maria Lúcia. Tudo bem?
– Oi, João, tudo ótimo. E contigo?
João ficou feliz, pois ela havia lembrado seu nome. – Tudo bem. Procurei-lhe ontem e não achei. Que lugar você ficou? – Ah... Ontem eu fiquei na pousada... Não tava a fim de sair. João parecia um menino. Observava a sua angústia em achar Maria Lúcia e ela nem aí, nem ligando para ele.
– Pois é... – falou João. – Eu dei umas voltas, desci até para o Lual... Estava legal... Bastante gente. Você vem ao lual?
– Não gosto de Lual, João. Eu não gosto desta azaração... Gosto de um lugar mais calmo, mais tranqüilidade, entende?
“Entendo, entendo...” João quase gritou.
– Mais calmo? É... Aqui é difícil... – apenas respondeu. Conversaram bastante. Neste dia não dançaram axé. Maria Lúcia não bebia nada alcoólico e João resolveu também não beber. Maria Lúcia não fumava e João resolveu não fumar. Afinal, João seria até um escravo para aquela mulher, se ela pedisse.
Na hora de ir embora, aconteceu a mesma coisa. – Vamos nos ver, hoje?
– João, hoje não vai dar... Acho que vou descansar... – Posso ir a sua pousada, conversar um pouco mais? – Hoje, não, João. Outro dia, quem sabe!
E foi.
João ficou triste. Não conquistou Maria Lúcia. Era a primeira mulher que não cedia aos seus encantos.
Voltou para sua mesa.
– Natinho, alguma coisa está errada.
– O que foi, João?
– Eu não consigo conquistar esta mulher. O que estou fazendo errado. Natinho sabia o que estava errado, mas receava falar com João. – João, na verdade, você conheceu uma pessoa diferente. – Como assim? Diferente, como?
– Essa mulher não é como as outras, que se apaixonam pelo que você tem, pelo que você representa. Ela pode se apaixonar pelo que você é. – Pelo que eu sou? E o que eu sou?
– Você é uma pessoa boa, uma pessoa que ajuda, trabalhador, honesto, calmo e que gosta de coisas boas.
– Natinho, você sabe que eu não sou assim! Então, ela não gosta de mim! – João, você pratica muito boas ações. Só não percebe. Ajuda instituições de caridade, não ajuda?
– Só três. Mas é para lavar dinheiro...
– Não quero saber. O que você ajuda é contado. Você ajuda a pagar a clínica de Clarisse, lembra?
– Ah, mas e as coisas ruins, as pessoas que matei, as pessoas que bati...? – João, você não pode só pensar nisso. Aprenda a ver as coisas com o coração. Quem sabe não chegou a sua chance de aprender mais um pouco. Aprender a amar. Aprender a usar o coração.
João ficou pensando naquelas palavras. Não saiu à noite. Dormiu mais cedo e no dia seguinte, pela manhã, resolveu caminhar na praia. Andava calmamente, sentindo o vento em seu rosto, o sol em seu corpo e a água, ainda gelada, em seus pés.
Alguém o alcançou. Era Maria Lúcia.
– Oi, João, logo cedo na praia?
– Oi, Maria Lúcia – disse João, abrindo um lindo sorriso. – Que alegria te encontrar.
– Eu também digo isso, João.
Caminharam um pouco, sentindo o vento, sentido a areia, sentindo a água do mar...
– João, você vê que esta cidade dorme até tarde? Aqui é tão diferente... – É, Maria Lúcia. Aqui é muito diferente...
João parou, pegando no braço de Maria Lúcia. Ela parou, de frente para João. Estavam sozinhos e aconteceu o primeiro beijo. – João... – disse Maria Lúcia, abraçando-o.
– Maria Lúcia, acho que estou apaixonado por você! – disse João, como nunca havia dito em sua vida.
Maria Lúcia ficou séria. Já tinha vinte e dois anos e era experiente. Sabia que não podia acreditar em tudo, muito menos em uma coisa criada em tão pouco tempo.
– João, eu também gostei de você, desde quando o vi. João pensou em como era uma mulher. Apesar de ter gostado de João ela não tinha demonstrado isso. João achava que agora tudo seria fácil. Mas, não seria. Maria Lúcia o chamou:
– Vamos voltar, meu ônibus está saindo daqui a pouco. – Seu ônibus? Você já vai embora?
– Daqui a pouco, João... Daqui a pouco.
– Não pode ser... Fique um pouco mais...
– Não posso, João. Tenho que trabalhar depois de amanhã. Estou de férias e não posso ficar mais.
João não sabia o que falar. Voltou com Maria Lúcia, foi até sua pousada. – João, até aqui está bom. Não é bom você entrar... – Por que não?
– Não é isso que queremos. Você sabe disso! João não sentia mais vontade de transar com Maria Lúcia como fazia com todas as outras. Queria Maria Lúcia em seus braços, com beijos, carinhos, e queria a retribuição. Queria senti-la em seus braços.
Abraçou demoradamente Maria Lúcia. Ela o havia conquistado. – Como posso te encontrar em Goiás?
– Vou te dar meu telefone. Quando quiser, me liga. E escreveu o número em um papel. João também escreveu o seu. Despediram-se.
João voltou à sua pousada com uma cara de que havia morrido uma pessoa que ele gostava demais, mas ao mesmo tempo tinha o brilho nos olhos quando olhava aqueles números. Aquele telefone poderia significar a sua verdadeira felicidade. Dois dias depois João já estava chamando Natinho para voltarem. Não conseguiu mais beber, nem curtir, nem usar nenhum tipo de drogas. Não namorou mais e só pensava em Maria Lúcia. Voltaram no dia seguinte para Brasília.
No mesmo dia em que chegou a Brasília ligou para Maria Lúcia. Ela não estava em casa, estava trabalhando. Ficou de ligar à noite. À noite ligou.
– Oi, Maria Lúcia, sou eu, o João.
– João...?
– É... Lá de Porto Seguro, lembra?
– Lembro. Mas você já voltou?
– Já, e quero te encontrar. Dá-me seu endereço? – Calma, João. Você vem para cá?
– Agora mesmo, se você quiser...
Maria Lúcia ficou feliz, mas o telefone escondia o seu sorriso. Ela também havia se apaixonado por João.
– Anota João. Mas, não precisa tanta pressa. Fica um pouco longe. E passou o endereço.
– Não é tão longe, assim! Amanhã, mesmo, estou aí... Conversaram meia hora, sempre João puxando um assunto diferente, como se não quisesse desligar.
Não se preocupou com o Morro, não conversou com Pablo sobre o que tinha acontecido durante sua ausência, nem se preocupou com os problemas que podiam estar ocorrendo nos pontos de tráfico. Arrumou-se e no dia seguinte partiu. Foi em seu carro, ele mesmo dirigindo. Quando chegou, foi logo ao endereço que Maria Lúcia havia passado. Era um domingo e Maria Lúcia o estava esperando.
– Entre, João.
João entrou e conheceu a colega de Maria Lúcia. Moravam juntas, onde dividiam os afazeres e as despesas da casa.
– Então você é o João? Ouvi tanto falar seu nome aqui que quase enlouqueço. Meu nome é Suzi.
– Prazer Suzi. Estavam falando bem ou mal?
– Bem! Muito bem! – brincou Suzi, sorrindo.
Maria Lúcia abraçou João e o levou até a sala. Conversaram bastante, até que Maria Lúcia achou que seria bom para João encontrar um hotel para passar os dias que ficaria por ali.
João esperava ser convidado para ficar em sua casa, mas, tudo bem. Perto de onde Maria Lúcia morava, havia um hotel, pequeno, mas muito bom. Fizeram a reserva do quarto, subiram, abriram a porta, entraram e Maria Lúcia arrumou as coisas de João.
João a abraçou e pela primeira vez tentou ir além do abraço. Com as mãos, acariciou suas costas, descendo um pouco mais. – João, calma, ainda não... – disse Maria Lúcia. João estava entregue. Obedeceu cegamente. Beijou-a, fez carinho em seus cabelos, sentia os braços daquela mulher.
– João, estou indo. Amanhã a gente se vê, ok? Trabalho meio período, apareça às três da tarde que já estarei em casa.
– Está cedo, fique mais um pouco!
– Hoje, não. Quem sabe outro dia.
Beijou João e saiu.
João deitou na cama, ainda vestido e sentiu-se diferente, como se houvesse sido atingido por um raio de paz, de uma coisa que não se lembrava de jamais ter sentido em sua vida.
No dia seguinte se encontrou com Maria Lúcia. Ela estava linda, como também estaria nos dias seguintes. Apenas no oitavo dia em que João estava em Goiás, Maria Lúcia se entregou a ele.
Tudo aconteceu no quarto do hotel de João, naturalmente, de todas as formas, menos da forma que João imaginaria acontecer. Nunca havia passado momentos tão bons com uma garota. Sempre pensava em sexo, mas, desta vez, o sexo estava ligado ao amor.
Maria Lúcia o conquistou completamente.
Um mês depois já tinham alugado uma casa e passaram a morar juntos. – João, não sei se é melhor você abandonar tudo e ficar aqui. Será que você vai se acostumar? – disse Maria Lúcia, uma semana antes de alugarem a casa. João havia falado de sua vida para Maria Lúcia. Falara de seu comércio, falara de seu passado e prometera-lhe um futuro. Resolveu abandonar o crime, resolveu abandonar as drogas, parou de beber e até abriu mão do negócio em favor de Pablo.
Voltou a Brasília apenas para falar pessoalmente com Pablo o que estava planejando.
– É isso mesmo, Pablo. Resolvi mudar o rumo da minha vida. – João, você não vai agüentar essa vida.
– Vou, Pablo, agora eu sei que posso! Encontrei uma razão para mudar toda minha vida. Quero um futuro. Acho que o meu futuro, da forma que estamos indo, não é bom para mim.
– João, você é quem sabe. Quando quiser voltar, a sua parte estará garantida. – Não quero, Pablo. Tudo o que existe é seu. Vou recomeçar. Quero até sofrer, se for o caso, mas não quero levar nada do que existe neste passado sujo. E voltou para Goiás.
Uma semana depois já estava trabalhando em uma carpintaria perto da casa que alugaram. Maria Lúcia trabalhava também, como balconista, ganhava pouco, mas ajudava em casa. O salário de João era muito pequeno, mas o seu coração estava feliz, e isso bastava.