Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 8 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 06: - o Reformatório

O reformatório não era como João imaginava. Era muito pior. Ali dentro, presos, estavam os piores elementos da região. Estavam juntos: bandidos, ladrões e traficantes. E todos menores de dezoito anos. Quando chegou João foi motivo de chacota por parte dos mais velhos. Passou por diversos tipos de iniciação, que o humilhavam e o feriam internamente. Eram cascudos, pontapés e murros que pretendiam mostrar quem é que mandava no pedaço.

João resistiu bravamente, a princípio, mas foi cedendo à humilhação e não reagia como no início. Isolou-se em um cantinho e tentava fugir dos outros moleques. Pressionaram João por dinheiro, comida, cigarro ou outras coisas. Insistiram que ele deveria mandar os parentes trazer essas coisas para ele, mas, depois dele insistir que não tinha parentes, que era órfão, os outros moleques foram cedendo à pressão. Afinal, sempre quem chegava naquele lugar era miserável mesmo.

Depois de uma semana, João já havia se acostumado e até participava de algumas brincadeiras. Havia um grupo novo no qual ele se infiltrou. Eram cinco moleques, isolados dos outros, mas foi a forma deles se prevenirem contra algum ataque. Na prática, aprenderam que a união fazia a força. Nesse grupo tinha o Guto e o Neco, amigos, da cidade vizinha, que haviam praticado roubos a pequenos comércios e foram presos. O Grilo foi preso depois de matar um aposentado, atrás de dinheiro. O Bernardo era grande, forte, e foi preso por realizar pequenos furtos.

Juntos com João formavam um grupo, mas que não tinha nenhum tipo de poder. Sabiam que os mais velhos mandavam e desmandavam. Eles não eram burros a ponto de tentarem algum tipo de heroísmo e depois receberem algum castigo. Desse grupo, apenas Guto recebeu visita na quarta-feira. Era uma garota bonita, que ficou com ele em uma sala separada, onde havia grande quantidade de vigias. Eles não permitiram a entrada da garota porque sabiam que não seria bom para o restante dos detentos, principalmente por Guto ser recém prisioneiro. João sentiu inveja. Não tinha ninguém que se preocupasse por ele. Mas, ao invés de sentir tristeza, era como se estivesse brotando outro sentimento dentro dele.

A sua revolta era maior. A vida não havia dado chance a João, o prefeito não teve decência e agora estava pronto a ser pior do que era. Afinal, más companhias não faltavam. O ódio aumentava dia após dia dentro de João. No sábado, Guto se encostou a João, e sussurrou algumas palavras: – João, estive andando por aí e escutei uns papos que me assustaram. – O que foi, Guto? – perguntou João.

– Estava passando por um lugar e vi dois caras conversando que estavam a fim de te pegar. Parece que não vai ser só na porrada... João assustou-se:

– E vai ser o quê?

– João, os caras querem te fazer de mulherzinha... Os caras falavam em te comer!

João ficou branco. Não tinha pensado que seria fácil, mas já havia dez dias que estava ali e não pensava que os outros moleques ainda pensavam em molestá-lo. Afinal, já haviam parado com a mania de dar cascudos e chutes neles. – Quem eram os caras, Guto? – perguntou João. – Olha, João, desculpa, mas eu não sei quem eram. Você sabe, eu tava andando e só ouvi o papo. Se eu fico olhando, você imagina o que os caras não iam fazer comigo.

João sabia. Ele também não encarava ninguém. Não era por medo, mas por respeito. Sabia que no momento, era o melhor a fazer. – Guto, eu não sei por que isso. Todo mundo aqui é gente ruim. Todo mundo aqui tem um crime para pagar. Para quê essa mania de querer ser melhor do que o outro?

– Eu sei, João. Eu também não entendo.

– Valeu, Guto, obrigado por me falar. Eu vou tomar mais cuidado. A partir daquela noite João dormiu diferente. Acordava por qualquer coisa, qualquer barulho. Tinha conseguido um cantinho onde pudesse dormir. Não tinha colchão, que eram só para os mais velhos. Estendia algumas roupas no chão e dormia sobre elas.

Cinco dias se passaram que Guto havia falado aquilo e João já estava achando que nada ia acontecer. Começou a relaxar aos poucos, entrando na vida normal do reformatório.

Estava lavando as suas poucas roupas num canto do prédio, quando percebeu um grupo de moleques se aproximando. Estava numa espécie de corredor e não tinha como fugir para frente. Atrás havia a parede que terminava o prédio. Não havia chance para escapar. João já pensava na luta que teria para não permitir a humilhação que o esperava.

O líder daquele grupo era o Roger. João já o conhecia e sabia que ele era violento. Não podia dar moleza para ele, mas sabia que Roger o espancaria até a morte, caso fosse necessário.

Roger era o líder dos Anjos, grupo radical de dentro do reformatório. Eram violentos, e já haviam até cometido crimes dentro da prisão. O grupo rival, os Beatos, era menos violento, mas os dois grupos não se bicavam. João, nestes poucos dias que estava ali, já havia presenciado algumas brigas entre membros das duas gangues.

– João? – disse Roger. – O seu nome é João, né? João se assustou, pronto para sair na porrada.

– É – respondeu João, com determinação.

– Eu sou o Roger. Você já me conhece, né? Você sabe que sou eu quem manda neste reformatório?

João ficou calado. Não sabia o que falar. Se falasse que sim, poderia ser considerado fraco, puxa-saco. Se falasse que não, poderia ser compreendido como um membro dos Beatos.

– João, você nunca participou de nada no prédio. Nunca deu dinheiro, nem cigarro, nunca brigou e fica aí pelos cantos. Então, a gente resolveu te dar uma moral.

João percebeu que um dos moleques tinha um estilete em uma das mãos. Outro trazia um soco inglês, que o machucaria, com certeza, caso fosse lhe acertado um murro.

– Nós sabemos que você não é mulherzinha, mas resolvemos te dar uma chance de escapar do que preparamos para você. A gente não gosta de machucar ninguém que não fez mal para gente, mas, você precisa tomar uma decisão. Ou você entra na nossa turma, ou vai para o lado de lá. E aí, nós vamos passar a dar umas porradas em você...

João sabia o que ele queria dizer. Roger estava intimando-o a tomar uma decisão e não ficar em cima do muro.

– Pois é, mano – falou o outro rapaz. – Eu sou o Becão. Antes era famoso por entrar nas casas, pelo telhado. Agora sou famoso por não ter dó de matar um cara. Sacou?

Becão estava com o estilete na mão.

– Aqui tem muito bandido. Ninguém liga se morrerem alguns – falou o outro moleque. – Eu sou o Geraldo.

– E eu sou o Neto. Tô aqui há um ano e meio.

João percebeu que a turma não queria molestá-lo. Apenas queriam que João ficasse por dentro do que estava acontecendo. Sabiam que se não apertassem João, ele poderia partir para a turma dos Beatos. – E eu sou o João – afinal, João falou. – Eu vim de Boa Vista. – Boa Vista? E em Boa Vista tem bandido? Nunca ouvi falar... João se lembrou do Zé Luiz, e do prefeito que o havia mandado para aquele lugar.

– Pois é, cara. Eu caí numa cilada. Mas não vou ficar aqui muito tempo, não. Os caras ficaram por ali, até que João entendeu o que estava acontecendo. Ele era muito ingênuo. Os caras não estavam interessados em João, como eles disseram. Estavam conversando, dando um tempo, até que sobrou a grande chance para o que eles realmente estavam querendo. De repente, alguém foi empurrado para dentro daquele corredor. Era Chico Doido, membro dos Beatos. Enquanto eles estavam conversando com João, outros dois caras da gangue de Roger estavam cercando Chico, que estava ali por perto. Os outros rapazes na entrada do corredor eram da gangue de Roger, também.

Foi só uma facada. Fatal. Estavam a uns dez metros de João. O grito de Chico foi terrível. Ainda algum tempo depois, João se lembraria daquele grito. O próprio Roger havia dado a facada. Ele se voltou para João, entregou o estilete em sua mão e disse:

– Pronto, neguinho, agora está contigo. Agora nós vamos te conhecer. Pouco depois chegavam os agentes. Deduziram logo que havia sido uma briga de João e Chico, e que João havia levado vantagem. João se calou. Não falou nada nem quando foi transferido para a solitária. Um quartinho sem janela, sem cama, sem nada. João foi deixado lá durante trinta dias. Quando saiu, estava muito debilitado. Mas, havia crescido sua moral. Para quem não sabia do fato, foi João quem matou o Chico. Os Beatos estavam prontos para pegar João. E os Anjos estavam apoiando-o. João recuperou-se aos poucos. Já fazia quase três meses que ele estava preso, quando recebeu a visita de Zé Luiz.

A emoção foi enorme. Lembrava-se com carinho do seu irmão. Não o considerava mais como um amigo, mas sim como um irmão. – Desculpa, João, não ter vindo antes. Mas, eu tinha medo de como te encontraria aqui dentro. Você sabe que a gente escuta umas conversas. – Que nada, Zé. No começo é fogo, mas depois vai se enturmando. Aqui não é lugar para ninguém, nem para o pior bandido, mas, você sabe como eu cresci. Morava na rua, não tinha mordomia e sempre vivi sozinho. Aqui não é muito diferente, cara.

– Mas, João, e a violência. A gente sabe que nesses lugares têm uns caras que sempre mandam mais.

– Ah, isso tem, Zé. Aprontaram uma para mim que eu estou levando a fama até hoje.

– O que foi, João. Saiu o comentário lá em Boa Vista que você tinha feito uma besteira, aqui dentro.

– O que falam por lá, Zé.

– Ah... Falam que você matou um cara... – falou Zé Luiz. – Então, mano, o que aconteceu foi o seguinte. Os caras aprontaram para cima do Chico e jogaram o material na minha mão. Eu tinha que agüentar a fama senão tava fudido.

– Como assim, João – perguntou Zé Luiz, observando que João agora falava cheio de gírias.

– Ou eu assumia que matei o cara, ou eles me matavam. Fiquei preso na solitária um bocado de dias. Zé, você tinha que ouvir o grito do cara quando os caras enfiaram aquele estilete no peito dele.

– Foi alto, João?

– Ô, se foi... Foi um grito para acordar todo mundo em uma casa. – Tão alto assim?

– Vou te falar uma coisa. O grito acordaria não só o pessoal da casa, mas toda a vizinhança.

João mudou de assunto:

- E como estão as coisas lá em Boa Vista?

– Olha, João, depois que você veio para cá eu fiquei meio perdido. Agora estou começando a fazer umas amizades com o pessoal da política. Estou tentando aprender umas coisas diferentes, igual você falou... João, estou sabendo cada coisa do prefeito...

– Zé, vai aprendendo essas coisas... Depois que eu sair daqui, nós vamos aprontar para cima daquele prefeito...

E seguiram conversando até o final da visita.

Foi com tristeza que Zé Luiz foi embora. Mas, ele estava satisfeito em ter visto o seu amigo com saúde, e, apesar de tudo, com coragem de recomeçar a vida. E a vida no reformatório seguia assim. João se enturmando cada vez mais. Participava de jogos, brincadeiras e festinhas com a turma dos Anjos. O cuidado com os Beatos crescia a cada dia. Escutava os rumores de que estava com os dias contados, mas ele sabia que se andasse em turma, não daria chance aos Beatos.

O Guto continuava seu amigo. Apesar de não ser tão influente, ele estava do lado dos Anjos. Talvez mais por medo do que por outra coisa. Sua namorada o visitava de vez em quando. Agora era mais livre e ela até circulava perto da entrada do reformatório.

O futebol era o esporte mais praticado naquele ambiente. Havia uma quadra central, onde os detentos faziam times e jogavam suas peladas. Por incrível que pareça, no futebol não havia nenhum tipo de violência. É claro que havia separação entre as gangues. Não havia jogo entre membros de gangues rivais. Havia os baralhos, os dominós, os dados.

Zé Luiz visitava João, periodicamente, e levava alguns presentes: frutas, cigarros, coisas assim. João comia o que dava. Passou a fumar bem mais do que antigamente. Um pouco do dinheiro que Zé Luiz levava, ele comprava cigarro, quando faltava, e jogava.

E foi num dia de jogo que aconteceu a coisa mais séria de todo o tempo que ele passou na prisão.

Estavam reunidos alguns moleques jogando dados. Estavam o João, o Roger, o Guto, e outros membros dos Anjos. João percebeu que a amizade entre Guto e Roger havia aumentado. Estavam bem unidos, ultimamente. A aposta estava ficando cada vez mais alta, e João até tinha ganhado algum dinheiro. De repente, Roger assumiu o jogo. Começou a jogar, apenas ele, o dado. Sempre era Roger que dava o dado e ele mesmo que jogava, quando era sua vez.

João começou a perder sempre. Quando ganhava uma rodada, perdia dez em seguida. O seu dinheiro começou a ir embora. João percebeu que Roger sempre ganhava com um número certo de pontos. Sempre quando ele jogava, os seus pontos mudavam, mas quando Roger jogava os seus pontos sempre eram os mesmos. Sempre dava cinco pontos. Sempre caia o cinco para cima.

– Esse dado está viciado! – gritou João.

Roger apelou. Havia bebido um pouco e cheirado cocaína. Não estava nada bem. João percebeu isso, mas também havia bebido e não agüentou. – Esse dado está viciado! – repetiu.

– Por que você fala isso, João? – perguntou Roger. – Porque sempre dá o mesmo número de pontos para você... – É? Então vamos ver... – e Roger jogou o dado. O dado rolou. Deu dois.

Pegou, jogou de novo. Deu quatro.

– Olha aí, palhaço. O que está viciado? – gritou Roger. João não agüentou e bateu nas mãos de Roger. Caiu um dado no chão, com o número cinco para cima.

– Isso aí, cara, eu sabia que estava sendo roubado... – gritou João. E saiu para cima de Roger.

Os outros membros da gangue separaram a briga e sabiam que o negócio ia ferver. Aquilo não ia ficar assim. Tinha certeza de que um dos dois faria alguma coisa contra o outro. Mas, Roger era o líder, sabiam que ele sairia vencedor. João também ficou receoso de como ficaria a situação. Foi ao banheiro e resolveu tomar um banho. Guto foi com ele.

– Você viu, Guto, que sacanagem?

– Vi, João. Aquilo não se faz... Muito menos com um amigo, um cara da turma... – falou Guto.

João tirou sua roupa e entrou no chuveiro. Nem percebeu que Guto havia feito a mesma coisa.

João estava falando alto, reclamando de como ficariam as coisas dali para frente, e nem percebeu que Guto se aproximava cada vez mais. De repente, sentiu uma mão pegando em seu pênis.

– O que é isso, Guto? – gritou João, se afastando. – Qual é, João? Só estou querendo te acalmar – falou carinhosamente, Guto. – Eu não preciso desse tipo de carinho, cara. Sai para lá, viado. – Que é isso, João. Pára de frescura e vem cá que eu quero fazer uma coisa gostosa contigo.

– Porra, Guto, não sabia que você era viado.

– Olha, João. Não vamos falar sobre isso. Vem cá, vem...

– E sua namorada, cara, eu vi você com sua namorada... – Pois é, João. Eu gosto de meninas e meninos... E João empurrou o Guto, que escorregou e caiu. Guto levantou-se com raiva. Não gostava de ser rejeitado. Até o Roger sabia dar valor aos seus desejos femininos, por que João, esse coitado, não aceitaria. Guto levantou-se e agarrou João com raiva. Os dois tinham corpos iguais. Eram da mesma altura, e João levava alguma vantagem na musculatura, mas havia dez meses que estava preso, e havia perdido um pouco da força. Mesmo assim, João conseguiu acertar um murro em Guto. Este se levantou e enfrentou João. Desta vez havia se transformado novamente em macho. Armou as mãos na direção de João e tentou acertar-lhe um soco. Estavam no banheiro, nus. O murro de Guto não acertou, mas o de João foi fatal. Acertou em cheio a boca de Guto, que escorregou para trás, caindo e batendo a nuca no vaso sanitário. A batida foi tão violenta que o vaso sanitário se quebrou. O sangue escorreu na hora. Guto ficou imóvel. João não esperou para ver o que aconteceu. Vestiu sua bermuda e saiu rapidamente, ao mesmo tempo em que vinham chegando os primeiros curiosos. Rapidamente a notícia havia se espalhado: João havia matado o Guto. Na verdade, quando Guto caiu, a batida em sua nuca foi fatal: havia morrido na queda.

A diretora do presídio recebeu a notícia:

– Dona Vânia, mataram um moleque...

– Merda! Nem bem eu cheguei e já acontece isso! Dona Vânia, a nova diretora, era linha dura. Autorizara a violência como prevenção. Autorizara aos seus funcionários a serem mais duros do que já eram. E foi ela, mesma, avaliar o que havia acontecido. – Dona Vânia, não sabemos o que aconteceu, mas pegamos esses moleques que estavam aqui perto. Quer falar com eles? Ela encarou um a um os moleques que estavam ali. João estava entre eles. Já havia secado os seus cabelos, e se ninguém o dedurasse, não haveria de forma alguma a possibilidade de Dona Vânia descobrir alguma coisa. Ela, com doze anos de experiência em diretoria de outros reformatórios, sabia como agir.

– Você aí, por que você bateu neste rapaz? – falou Dona Vânia, apontando para Roger.

– Sai de mim. Eu não encostei o dedo nesse mané... – se defendeu o Roger. Dona Vânia já conhecia a fama de Roger e suspeitou dele logo que soube o que aconteceu.

– Tem uma pessoa que me falou que você bateu nesse cara. Nisso, Os moleques que estavam na frente de Roger foram abrindo o caminho e ele ficou cara a cara com Dona Vânia.

– Olha, diretora, se alguém falou alguma coisa aqui, para senhora, é um grande mentiroso. E eu vou falar uma coisa para senhora. Se um dia eu bater em alguém, eu mesmo serei o primeiro a falar. Olha lá na minha ficha se eu já fiz mal para alguém, aqui.

Realmente, na ficha de Roger não tinha nada. Tudo o que acontecia com ele, os laranjas, os outros moleques de sua gangue, é que acabavam assumindo os crimes.

– E você, moleque. O que você fez? – virou-se de repente para João. – Eu simplesmente encostei aqui porque vi o pessoal chegando. Não sei de nada do que aconteceu.

Dona Vânia virou-se para o Guto, que ainda estava estendido no chão. Depois se virou para os moleques:

– Eu sou a nova diretora desse lugar. E agora, ou vai ou racha. Vou dar um castigo em vocês. Você, você e você. Venham aqui. Escolheu João e mais dois moleques. Deixou o Roger. Virando-se para os agentes, falou:

– Levem estes três para a solitária, até que eu descubra quem matou este sujeito. Ou então, até que alguém resolva me falar o que aconteceu aqui. E pegou na mão de João, puxando-o:

– Tire suas mãos de mim... – gritou João. – Não sou escravo de ninguém. Eu vou sozinho. Eu tenho pernas e sei o que tenho que fazer. Não precisa ficar me empurrando.

Dona Vânia ficou surpresa com a personalidade daquele garoto. No primeiro encontro com a diretora e ele já a tratava assim. Deveria ficar de olho nele. João e os outros dois foram para a solitária. Cada um em uma cela separada. E foi bom para João, porque nove dias após sua prisão, houve uma grande rebelião no reformatório.

Tudo começou com uma briga entre as gangues dos Anjos e dos Beatos. Roger havia aproveitado outra distração dos Beatos e havia esfaqueado mais um membro deles, só que este não morreu. E desta vez, os Beatos estavam atentos. Assim que perceberam o que estava acontecendo, os membros dos Beatos se armaram e partiram para cima dos Anjos, que estavam no corredor. No mesmo corredor que aconteceu o acidente com João. Houve um confronto muito poderoso. As armas não eram muitas, mas, pelo menos alguns estiletes de cada lado podiam ser contados. A todo o momento chegava reforço das gangues. Dois moleques já estavam deitados, machucados, quando chegaram os agentes do reformatório. Houve confronto entre os moleques e os agentes, que recuaram. Não se sabe de onde, começaram a surgir os pequenos focos de incêndio. As celas começaram a ser incendiadas, os colchões, as roupas, e o caos estava se formando.

Os moleques estavam inflamados. Pegavam pedaços de paus, incendiados e ficavam brincando nos telhados, na quadra. Havia uma grande farra. A bebida e a droga havia sido liberada pelos líderes das gangues. – Eu vou te acertar! – disse um detento, jogando um pedaço de pau pegando fogo em outro moleque.

Este se afastou e atirou uma pedra no outro.

A violência continuava forte.

Um moleque apareceu com querosene, jogando pelas celas, fazendo com que o incêndio aumentasse extraordinariamente.

Outro pegou um pouco de querosene e brincou: – Olha o sopro do dragão – gritou, enquanto cuspia querosene em um pedaço de pau, com fogo na ponta, como faziam no circo. Outros o imitaram. Afinal, estavam exaltados demais, se divertindo. Nem percebiam que estavam sendo usados para que uma pequena turma tirasse proveito disso tudo.

De repente ouve-se um grande estrondo. Haviam explodido uma bomba em uma das paredes do prédio. Enquanto alguns moleques estavam fazendo tumulto de um lado do reformatório, os líderes estavam fugindo pelo outro. Quando o reforço policial chegou, muitos moleques já haviam fugido. A rebelião foi controlada rapidamente pela tropa de choque. Conseguiram capturar uma parte de fugitivos, mas outra grande parte de detentos conseguiu fugir, inclusive Roger.

João foi solto da solitária após ter sido controlada a rebelião. No início estava uma verdadeira destruição, mas, mesmo assim, os menores ficaram no reformatório.

Nessa época, o prefeito de Boa Vista estava começando um ano eleitoral. Era a campanha para deputado. Dali a dois anos teria a campanha eleitoral para prefeito. Ele havia começado a se preocupar em se tornar bonzinho junto aos olhos do povo, do seu eleitorado.

Fez um grande discurso, e anunciou que havia conversado com João, que havia se arrependido do que fizera. E o prefeito resolveu mandar soltar o menino. E assim foi feito. Com a influência que o prefeito tinha junto ao governador, por ter uma grande quantidade de eleitores sob cabresto, o prefeito conseguiu a liberação de João.

Foi uma farra na cidade. O prefeito falou sobre a reabilitação dos jovens delinqüentes, falando sobre como aquele menino poderia ser dali para frente. Só que o prefeito não sabia que João estava pior do que antes. Havia passado muitos momentos de ódio e, inclusive, matou uma pessoa. Aquilo, dentro de João, havia confundido todos os seus sentimentos. Ao mesmo tempo em que tinha pena de Guto, tinha ódio da vida, de ter nascido da forma que nasceu. Tinha ódio do sistema, e percebia que havia muita coisa a recuperar.

O tempo passou e João já tinha quinze anos. A sua vida continuava igual, sem perspectivas de um futuro melhor e percebia a discriminação em tudo quanto ia fazer. Sentia a má vontade das pessoas em ajudá-lo. Entrou na escola, mas percebeu que sabia mais do que a maioria. Sempre foi preocupado em estar mais adiantado que os outros. Só não tinha paciência em ficar preso em uma sala de aula por horas e horas. Já sabia ler e escrever, mas tinha muita coisa que não entendia. E uma grande maioria de lições foi aprendida na raça, na arte de viver a vida. Estudava num desses cursos recuperativos, onde formaria quatro períodos em um ano. Pensou que com isso poderia melhorar alguma coisa em sua vida, mas sentia-se diferente, achava que a escola não era o seu lugar. A princípio não queria ir, mas, como não fazia nada o dia todo foi convencido pelos amigos. Na escola não entendia essas coisas complicadas de matemática. Fórmulas e mais fórmulas que não sabia onde usar no dia-a-dia. Não sabia para que estudar história. Saber do passado? “Eu quero saber é daqui para frente. No máximo, uns dez anos atrás e já está bom demais” – dizia João, convencido de que estava certo. “O que eu quero saber de Egito, Roma...?” Mas, o mais engraçado aconteceu em uma aula de português. João discutiu feio com o professor.

O professor estava ensinando verbos. O presente, o passado e o futuro. João já sabia disso, afinal, isso a gente aprende no dia-a-dia, mas, ele nunca falou “tu”, nem “vós”. Para que aprender? Já estava ficando nervoso, quando o professor explicou:

– O tempo presente é o que está acontecendo agora, o futuro é o que vai acontecer ainda, e o tempo passado, é o que já aconteceu. Todos estes tempos têm divisões. Por exemplo, no passado, se você vai falar que fez uma coisa, como se diz?

– Eu fiz... – responderam alguns alunos.

– Isso! E se você fosse fazer alguma coisa, mas por algum motivo não deu para fazer?

– Eu faria...? – gritou uma vozinha lá no fundo. – Isso mesmo.

Foi nessa hora que João se levantou.

– Eu não aceito isso, não – falou João.

– O que foi, João? – perguntou o professor.

– Eu não aceito esse passado que você falou.

– Passado Imperfeito? Ou Pretérito Imperfeito? Por que, João? – Porque agora eu posso tomar a decisão, ou eu faço ou eu não faço, mas, no passado, já passou. Como eu posso falar que faria? Eu estou mentindo... – João, isso é outra coisa. Nós estamos conjugando verbos.

– Mas, tem que ensinar direito. Acho que o imperfeito não participa do passado... – João, você não pode agir assim... Sempre, em toda a minha carreira de professor eu ensinei assim, todos os professores ensinam assim, por que isso de querer não aceitar?

– Por que eu não aceito... Posso? Acho que quem inventou isso fez de um jeito para ter uma desculpa. “Sabe, eu não pude ir à sua casa... Eu iria, mas chegou alguém lá em casa... Desculpa.” Professor, simplesmente, o que aconteceu? Eu não fui à sua casa. Chegou alguém em casa e eu não fui. Iria? Pode ser verdade ou pode ser mentira... Não deveria fazer parte do nosso vocabulário... Nisso, os outros alunos começaram a cochichar, uns concordando, outros discordando.

– Acho que a nossa acentuação também está errada – gritou alguém do meio dos alunos.

– E para que ficar colocando “esse” onde deve colocar “zê". – Parem com isso...! – gritou o professor.

Mas não tinha mais jeito. O caos estava formado. Criou-se um tumulto que o professor não conseguiu mais controlar. Ele não teve mais como terminar a aula, naquele dia.

João foi chamado à diretoria. Foi suspenso por uma semana para aprender a não ficar criando polêmica na aula e incentivando os alunos a ficarem contra o professor.

Tão pouco João ia à escola e quando ia, aconteciam essas coisas. Mas, neste dia, João resolveu não ir mais. Resolveu que deveria mudar o rumo de sua história, falar o seu português, e resolver os seus problemas do seu jeito. João continuava amigo de Zé Luiz, mas a sua turma estava maior. Percebeu que muitos amigos estavam se aproximando, cada um com tipo de problema. – Não sei o que é direito, só vejo preconceito – falou João para Zé Luiz. – Eu também, João. Eu também. O que podemos fazer? O sistema é assim... João há algum tempo passou a conversar mais sobre política com algumas pessoas influentes da cidade. Todas da oposição. João havia aprendido a entender alguns problemas sociais que ocorriam, como o que aconteceu com seu pai há alguns anos atrás.

– Ah! Sei lá... Acho que temos obrigação de fazer alguma coisa. Não podemos ficar sempre pensando só na gente. Eu acho que estou pegando um pouco daquele jeito do Robin Hood.

– Aquele do filme? – perguntou Zé Luiz.

– É... Estou achando que a gente deveria roubar dos ricos e dar para os pobres. – brincou João.

– Você está brincando, não é, João?

– Claro que estou. Já é perigoso a gente pegar estas coisas baratas que a gente pega, imagina se nós começarmos a roubar para os outros! Mas, acho que a gente tem que fazer alguma coisa.

João estava pensativo naqueles dias. Depois que abandonou a escola a sua mentalidade cresceu muito. Percebeu que com as palavras certas conseguia fazer os amigos a seguirem seus comandos. Estava se tornando um líder e não sabia.

– Zé Luiz. Aprendi a roubar para sobreviver. Aprendi o que era certo com a pessoa errada. Nada era como eu imaginava. Eu pensava na vida como uma brincadeira, nunca levei nada a sério. Agora estou pensando em algo grande. Você topa participar de um negócio grande?

- O que você está pensando, João?

– Estou pensando em invadir o prédio da prefeitura, de noite, e escrever umas mensagens nas paredes. Sabe... Falar que a gente existe. Zé Luiz era amigo de João até debaixo d’água. Ele nunca deixaria João fazer uma coisa dessas sozinho.

– João. Você é o meu melhor amigo. Nem sei desde quando estamos juntos. Vou com você até o fim do mundo, você sabe disso! Vai ser divertido! Ah, isso vai! – Então, vamos preparar as coisas, vamos fazer planos. Imagine como seria se aceitássemos tudo o que a sociedade nos manda fazer? Seríamos como robôs. Nós seriamos aceitos no meio deles só se fizéssemos o que mandam. – Mas, aí não poderíamos fazer tudo o que quiséssemos, não seríamos livres! – É isso aí, Zé Luiz! Vamos modificar isso!

Era uma quarta-feira. João planejou entrar na loja de tintas, à noite, roubar umas cinco latinhas de spray e depois irem à prefeitura, pichar. Já tinham escrito o que iriam pintar, em um pedaço de papel. Tudo estava certo. À noite, perto das onze, entraram na loja de tintas. Foi até fácil. Quebraram uma janela de vidro, destrancaram-na e entraram.

A cidade quase não tinha violência, nem roubos, o índice de arrombamentos era mínimo e quando ocorria algum roubo, geralmente eram roubadas coisas insignificantes, como o que estavam fazendo.

A população não vivia com medo. Nas cidades maiores era diferente. Pegaram as latinhas de tinta spray de diversas cores, saíram com cuidado e foram para a prefeitura. Sabiam que havia um vigia noturno, que mais dormia que vigiava.

Mas, neste dia, a sorte não estava ao lado deles. O vigia viu quando eles entraram no prédio. Acionou a polícia da cidade, que chegou em dez minutos. A polícia encontrou os dois marginais, mas eles já haviam pichado algumas paredes internas do prédio da prefeitura.

Quando foram levados para o carro de polícia, João percebeu que estava diferente. O ódio que ele sentiu durante toda a sua vida tinha mudado. Ele agora tinha ódio do sistema.

E mais ódio ele sentiu quando o prefeito o visitou no dia seguinte.

João e Zé Luiz estavam em uma cela da cadeia local. Esperavam que o prefeito os libertasse, já que não era uma coisa muito séria, afinal haviam pichado apenas a estátua do fundador da cidade, o cofre, e apenas três paredes. O atentado de João repercutiu por toda a cidade, alguns contra, outros a favor. Falavam sobre o João, o filho de um bêbado, que perdeu a vida depois de ser enganado pelo prefeito da época, tio do atual prefeito. O prefeito havia mudado, mas o modo de governo ainda era o mesmo.

Falavam sobre Zé Luiz, um Zé ninguém, ex-morador do orfanato. Falavam que, duas pessoas que não tinham eira nem beira tiveram uma atitude respeitável. Tentaram mandar uma mensagem que nem as pessoas mais experientes teriam coragem.

O prefeito ficou com ciúmes da repercussão do assunto. Ele sabia que, no futuro, teria problemas com esses garotos.

Depois de verificar que nenhum dos dois tinha família poderosa que pudessem prejudicá-lo politicamente, resolveu dar uma lição nos dois garotos. Iria deixá-los presos alguns dias e depois os libertaria, humilhados e sem coragem para fazer outro ato daqueles.

Encontrou os dois sentados no chão da cela.

– Quer dizer que foram vocês dois os safados que picharam a minha prefeitura? – perguntou o prefeito.

João levantou, abruptamente.

– Fui eu mesmo... Por quê? – respondeu, com ignorância. – Seu desaforado, isto vai te custar caro...

– É assim que funciona, não é? Vai custar quanto? Como eu sou negro e pobre, provavelmente eu devo pagar sendo o seu escravo... – Moleque atrevido! Você está enrascado e quer se encrencar mais ainda? – Encrencado ficará você quando o povo perceber quantas falcatruas você anda fazendo! – disse João, sem saber direito o que falava, acompanhando o discurso da oposição.

– Moleque safado – disse o prefeito. E, virando-se para o delegado, ordenou: – Mande este moleque para o reformatório, e este outro pode deixar dormir aqui uns dez dias, depois pode soltar.

Virou as costas para João e ia saindo, quando este gritou: – Um dia eu volto e vou te mostrar quem é safado, velho miserável. O prefeito não agüentou. Virou-se para João, furioso: – Você não sabe o que está falando. Olha para você. Olha onde você está, seu moleque. Você não vê que perdeu a guerra. Você não vê que sou eu quem manda aqui?

– Vocês venceram esta batalha. Quanto à guerra, vamos ver... – ainda gritou João, quando o prefeito já estava saindo.

João estava humilhado. O que fazer? Tudo deu errado, desta vez. Onde foi que ele falhou?

João se agachou em um canto, colocando a cabeça entre as pernas. Zé Luiz percebeu que o amigo estava sofrendo demais. – João, eu vou com você. Vou fazer confusão e vou com você... – Não, Zé. É preciso você ficar aqui. Apenas me espere, um dia eu volto. – Mas, quanto tempo será que você vai ficar lá? – Isto não importa. Fique aqui e faça alguma coisa para ajudar este povo explorado, estes coitados que são dominados e nem sabem disso. Igual foi meu pai, um dia.

– Mas, João, eu não sou igual a você. Eu durmo o dia inteiro, e aí, não é direito, porque quando escurece estou a fim de aprontar. – Mas isso vai acabar. Você está se transformando. Eu percebo isso. – Tudo bem, João. A partir de agora eu vou prestar mais atenção ao que acontece com o povo. Quando você voltar, nós vamos lutar contra isso que está aí.

João estava contente. Havia conquistado mais do que um amigo. Mas, no dia seguinte o tempo havia mudado radicalmente. Uma tempestade se aproximava.

– João, Deus mandou os seus anjos se despedirem de você. – Obrigado, Zé. Espero que seja Deus.

– Pára com isso, João. Vai ser por pouco tempo. Logo, logo, você estará de volta. – Assim espero, meu irmão. Assim espero...

Mas João estava morrendo de medo do que iria acontecer naquela mudança. Ele esperava que fosse uma coisa simples, mas estava com medo do que encontraria.

– Zé Luiz, lembra de quantos banhos de chuva a gente tomou? – Foram tantos, não é, João!

– Andar a pé, na chuva, às vezes, eu me amarro – disse João. – Eu gosto dos pingos da chuva, dos relâmpagos e dos trovões – disse Zé Luiz. E ficaram olhando a escuridão que se aproximava. – Sabe, João. A tempestade que chega é da cor dos teus olhos. João sabia o que Zé Luiz queria dizer. Estavam sozinhos, precisavam de carinho, mas, sem família, quem poderia dar? João percebeu que Zé Luiz não era mais um amigo. Era muito mais do que isso. Era o seu verdadeiro irmão. Era o irmão que nunca teve. E sabia que Zé Luiz também pensava assim.

– Zé, você será sempre o meu irmão. Onde eu estiver você será muito importante para mim.

– Você também, João. Eu gosto muito de você. – Zé, eu preciso ter amigos, eu preciso ter dinheiro, eu preciso de carinho. E chorou.

Um choro silencioso, que Zé Luiz percebeu entrando em sua alma. Era o choro de um herói. Um herói incompreendido. Dali a pouco a sirene tocava, indicando que João estava sendo levado para o Reformatório. A sirene anunciava para a cidade que o prefeito havia ganhado mais uma briga.

Era como se a sirene gritasse: “Eu sou o prefeito, sou todo-poderoso e vocês devem me obedecer”.

Mas, João e Zé Luiz prometeram mudar essa voz.