Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 6 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 04: - Pequenas Experiências

- João, quanto você pegou? – gritou Zé Luiz.

João corria rápido, subindo a rua, em direção à casa abandonada. – Eu não sei, eu não contei ainda... – respondeu João. – João, espera por mim... – gritou Sandrinha.

Era uma garota que acompanhava João e Zé Luiz em suas malvadezas. Ela era muito útil para eles, porque, como vinha de família rica, nunca iriam suspeitar de que estava envolvida com os pequenos furtos que os dois praticavam. – A Sandrinha foi muito esperta. Assustou-se lá no fundo da igreja, deu um grito e desmaiou, assim que acabou a missa. O dinheiro ainda estava em cima da mesa do padre. Todo mundo correu para ver o que tinha acontecido e foi fácil pegar todo o dinheiro e vir ligeiro para cá. Ninguém me viu! – E ninguém suspeitou que eu estivesse só fingindo – disse Sandrinha. Riram os três, contando quanto tinham pegado. João separou uma parte do dinheiro, e os três já haviam combinado com o quê iam gastar. Já fazia muito tempo que queriam experimentar maconha e agora era o momento. João pegou o dinheiro e foi direto ao bar onde estava o Alemão, o cara que ofereceu maconha para João, uma vez. Alemão sabia que estava conquistando um cliente e foi super-camarada, pegou sua melhor erva e ensinou tudo a João: como enrolar, acender, tragar, segurar a fumaça. Tudo.

– João, você vai se sentir o máximo!

João já era o máximo, mas tudo bem. Ele queria ser mais do que era. Pegou o embrulho, uns guardanapos na mesa e rumou para a casa abandonada. Encontrou Sandrinha e Zé Luiz se beijando.

– O que vocês estão fazendo? Parem já com isso! Chegou a erva! – brincou João.

João, com toda a prática que a natureza lhe ensinou, abriu o pacote, fez o cigarro, parecendo ser muito experiente.

– João. Parece que você já fumou isto – falou Sandrinha. – Eu acho que levo jeito para maconheiro – falou João, sorrindo. – Mas, nunca usei. Uma vez quase fumei, mas na hora agá, os caras acharam que eu era muito pequeno e não me deram.

– Acende logo, João! – falou Zé Luiz.

João acendeu. Ele já havia fumado cigarro algumas vezes e não se assustou com a primeira tragada. Mas foi rápido, com receio de ser diferente do cigarro. Passou para Zé Luiz, que fez o mesmo e passou para Sandrinha. Mais tarde, rindo à toa, eles pareciam ter descoberto o paraíso. – João? – chamou Zé Luiz.

João não respondeu. Era como se estivesse viajando em seus pensamentos... Muito longe...

– João? – gritou Zé Luiz.

– Oi!

– Não me escutou?

– Tenho andado distraído...

– Como você está?

– Ainda estou confuso... Só que agora é diferente. Estou tão tranqüilo e tão contente. Não sabia que era assim. É gostoso. E você? – Estou tonto. Será que é normal?

– Eu também! – falou Sandrinha.

– É claro que é normal. – responde João. – É a primeira vez que a gente usa. Deve ser assim mesmo... Vamos fumar outro? – Ah, eu não quero, não, João. – respondeu Zé Luiz. – Nós já fumamos dois. – Eu também não. – falou Sandrinha.

João volta aos seus pensamentos. Estava longe. Estava lembrando do que havia vivido até ali. Já estava com doze anos e não tinha perspectivas de melhorar a vida.

– Sabe, Zé Luiz, estava pensando nas coisas que eu vejo na televisão. Será que é tudo verdade?

– Uma parte, é. Outra, não. O pessoal diz que tem um monte de coisa naquelas novelas que são falsas, iguais aos filmes, de mentirinha. – Não... Isso eu sei – falou João. – Eu digo aquelas paisagens. Você já foi à praia?

– Eu não! – disse Zé Luiz.

– Eu fui – falou Sandrinha. – Uma vez eu fui com minha família. Só não fomos mais porque meu pai só pensa em ganhar dinheiro. Não se preocupa em se divertir. Ele não vai nem deixa minha mãe ir sozinha... – Um dia ainda vou ter uma casa na praia – disse João. – Vou acordar, andar descalço na areia. Molhar os pés na água. De tarde, quero descansar. Depois ir até a praia, ver se o vento ainda está forte. Vai ser bom subir nas pedras e deixar as ondas me acertarem.

E os três ficaram conversando sobre a praia, sobre os filmes, sobre televisão. Já estava escurecendo quando Sandrinha resolveu ir embora. Tinha uma casa e tinha que dar satisfação de sua vida. Os seus pais não a queriam metida em encrencas e nem de longe sonhavam com o envolvimento dela com aqueles dois. – Tchau, vocês dois, eu vou para casa. Depois a gente se vê... Sandrinha piscou para João, deu um beijo no rosto de Zé Luiz e desceu a rua em direção à sua casa.

– João, sabe... Eu e a Sandrinha resolvemos namorar... O que você acha? – Legal, Zé Luiz. Será que vai dar certo?

– Por que não?

– Você sabe... Ela é rica, você é pobre. Ela, branca; você, negro.

– Porra, João! Você também é negro e pobre. Não está percebendo que está com preconceito?

João parou para pensar no que disse. Foi como um murro no estômago. Realmente. Ele, negro e pobre, era o primeiro a ter preconceito. Estava sofrendo por antecipação.

– Você tem razão, Zé Luiz... – disse João. – Desculpe! – Eu sei que vai ser difícil, João. Eu sei que nunca vamos poder nos declarar abertamente para a cidade. Mas, nós podemos curtir um ao outro, por muito tempo. Eu gosto dela e ela gosta de mim. Acho que vai dar certo. – Tomara que sim...

– E você, João? Com quem está saindo, agora? – Nem te falo. Sabe a Cida, aquela loirinha lá da Rua Quinze? – Sei, João. Não vai me dizer que você...?

– Pois é... É o que sempre falo... Se você não tentar, não sabe o que pode acontecer... Eu fiquei a fim dela, falei para uma amiga que queria falar com ela. Ela topou, cara! Marquei um encontro lá no fundo da escola, no domingo, rolaram uns beijos e depois, você nem sabe, mas de vez em quando estou dormindo na casa dela... Pulo a janela, de noite, é claro, sem o pai dela ver... – João. Você ainda está com a mania de dormir na casas de suas namoradas? – Por que não?

- Quando o pai de uma menina dessas te pegar, você vai ver... – Sai fora! Se eu pensar nisso, não vou fazer nada. Por falar nisso, daqui a pouco tenho que ir à casa dela.

– Quantas meninas você já comeu, João? – perguntou Zé Luiz. – Olha, Zé Luiz, – respondeu João – um monte. Você sabia que quando a fama se espalha, a gente não precisa mais procurar? – É por isso que eu nunca saí com ninguém... – É porque você é tímido. Lá no orfanato não tinha isso? – Ah, tinha umas coisas, mas eram coisas de criança. – Por que você não tenta com a Sandrinha?

– Você acha que ela quer?

– Se eu te falar uma coisa, você não fica com raiva? – Claro que não... – respondeu Zé Luiz.

– Eu já fiquei com a Sandrinha – falou João.

– Até com a Sandrinha?

– Como você acha que ela ficou minha amiga? É, realmente, João, em relação a sexo, estava muitos passos à frente de Zé Luiz. E foi Zé Luiz quem perguntou:

– E como é que eu faço? Eu não sei nem como começar. Eu não quero pagar mico.

– Zé Luiz, a gente já nasce sabendo. Quando você tiver beijando ela, deixa a mão escorregar um pouco e você vai perceber que ela vai te ajudar. Eu conheço a Sandrinha.

E, como um professor, João vai falando o que deveria ser feito e o que não deveria. Zé Luiz escutava atentamente, perguntando alguma coisa de vez em quando.

Escureceu. Era preciso seguir a vida.

– João, amanhã é o grande dia. Vamos pegar o Maurício. Vamos descontar os murros que ele nos deu. Chamei o Andrezinho e o Marquinhos para nos ajudar. – Legal. Eles toparam?

– Claro! Eles são corajosos que nem nós. Vamos deixar o Maurício esbagaçado.

– E como nós vamos fazer?

– Vamos, bem cedinho, nos encontrar lá no campinho. Quando ele descer a rua, a gente sai de trás do muro, lá da Rua Inocêncio, aquele muro caído. O André e o Marquinhos saem por trás. Não vamos dar chance para ele. – E a que hora nós vamos? – perguntou João. – Você vai dormir aonde, hoje?

– Vou dormir com a Cida, lembra?

– E a que hora você sai de lá?

– Ah, quando o sol bater na janela do quarto eu corro para a rua. Bem cedinho, sem ninguém ver.

– Então, aí você vai lá para o campinho e espera a gente. – Beleza. Vamos descendo?

E desceram para a cidade. João foi para um lado esperar a hora certa de subir para o quarto da Cidinha, e Zé Luiz foi para o outro, tentar descolar um rango, como ele falava.

João ficou ali por perto, até que uma loirinha apareceu na janela, apagou e acendeu as luzes do seu quarto três vezes. Esperou um pouco e apagou definitivamente.

João esperou um pouco, esgueirou-se e subiu no muro daquela casa. Com a habilidade natural que a vida lhe deu, foi fácil subir até a janela e pular para o lado de dentro.

Ninguém o viu, mas eles sempre esperavam um pouco para acender as luzes. Cidinha sempre guardava alguma coisa para João comer. Naquele dia ela havia guardado um sanduíche caprichado de pão com presunto. Enorme. E um copo de suco de maracujá. Ela falava aos pais que iria comer o lanche no quarto. Os pais ficavam satisfeitos com a boa alimentação da filha. João não sabia por que, mas, naquele dia a sua fome estava muito maior. Ele não desconfiava que fosse a maconha que fazia aquilo. Comeu o sanduíche rapidamente e se tivesse mais dois, comeria também. Que delícia! Quem imaginou que ele viveria tão deliciosamente?

Depois, abraçar aquele corpo clarinho, que tanto contrastava com a sua negritude. Ficava muito excitado.

Tiveram uma noite maravilhosa.

Cida tinha catorze anos, mais velha do que João. Gostava muito de sexo. Transava já há algum tempo e achava maravilhoso. Fazia loucuras para realizar seus desejos sexuais. No momento, João a satisfazia. Dormiram abraçados. Logo pela manhã João se esquivou do abraço de Cida e pulou a janela, para a rua. Foi para o campinho. Era cedo ainda, mas logo chegou o Zé Luiz. Um pouco mais tarde chegaram o Andrezinho e o Marquinhos que trouxeram dois pães com manteiga, um para cada um. Eles sabiam conquistar uma amizade. Estavam os quatro conversando, medindo pedaços de pau, para usarem, caso houvesse necessidade. Ouviram duas mulheres passando e comentando: – É tão cedo e já são tantas crianças com armas na mão... – Cruz credo... Vamos ligeiro!

Perceberam que estavam chamando a atenção, mas já estava chegando a hora. Separaram-se. Dois para cada lado.

Lá no início da rua, viram Andrezinho levantando a mão, dando o sinal de que Maurício estava chegando.

Maurício ainda estava sonolento quando começou a atravessar aquela rua, mas o susto que tomou quando João e Zé Luiz pularam na sua frente o fez acordar rapidamente.

– E agora, Maurício? O que você vai fazer? – falou Zé Luiz. – Isso aí, Mané! E agora? – gritou João.

Maurício ainda tentou correr, voltando o caminho, mas percebeu que Andrezinho e Marquinhos já haviam fechado a passagem. Foi uma surra feia, sem chance para Maurício. Apanhou tanto que ficou no chão, gemendo. Perdeu dois dentes.

Algumas pessoas acharam justo, já que Maurício era malcriado, briguento e tinha muitos problemas sociais. Outros acharam injusto, porque João e Zé Luiz também tinham seus problemas. E foram quatro contra um. Por causa desse fato a família de Maurício tomou a decisão de mudar de cidade e recomeçar a vida na cidade vizinha.

Maurício nunca mais foi visto em Boa Vista. A justiça havia sido feita.