Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 17: - a Proposta do Senhor de Alta Classe
João bebia cada vez mais. Voltou a fumar. Começou a faltar no emprego, principalmente na segunda-feira, quando estava com uma ressaca incrível, e muitas vezes virava a noite na bebedeira, com novos amigos que havia feito. Estava ficando complicada a vida com João, mas Maria Lúcia tinha a esperança de que aquilo acabasse a qualquer momento e João voltaria a ser aquela pessoa maravilhosa que ele sempre foi.
Até o dia em que João recebeu uma visita.
Eram oito horas da noite, em um dia que João resolveu não beber e estava em casa. Maria Lúcia estava ao seu lado, no sofá, assistindo o jornal, quando alguém bate na porta. Maria Lúcia foi atender. – Boa noite. É aqui que mora o João de Santo Cristo? Maria Lúcia se admirou. Conhecia o nome completo do seu marido. João se levantou e foi até a porta.
– Sou eu.
– Boa noite, tudo bem?
Era um senhor bem vestido, aparentando mais de cinqüenta anos. – Boa noite – disse João.
– Eu vim de Brasília. Conversei com seu amigo Pablo e ele me deu seu endereço. Não sei se você se lembra, mas eu te ajudei quando você começou a construir o seu prédio.
– Qual o seu nome?
– Dr. Everaldo. Sou militar.
João se lembrou do Doutor Everaldo e de como era influente. Lembrou de como ele o ajudara a iniciar todo o seu comércio. Sabia que era melhor escutá-lo. – Entra, doutor, desculpa, mas eu não lhe reconheci. – Que nada, João, já faz tanto tempo... Como você está? – Tudo bem, doutor, mudei um pouco a minha vida, mas estou bem. – João, tenho uma proposta a lhe fazer, mas precisamos conversar a sós. – disse isso, olhando para Maria Lúcia que estava sentada no sofá. – Vamos para a cozinha.
Sentaram-se à mesa.
– Desculpa, doutor, eu não tenho o luxo que tinha quando morava em Brasília – desculpou-se João.
– Que é isso, João. Você sabe que eu não ligo para luxo. – Mas, o que trouxe o senhor até aqui?
– João, estou precisando de um favor seu. Não quero que pense que estou cobrando nada do passado, mas preciso de uma pessoa de confiança para fazer uma coisa muito arriscada, e depois de pensar muito, cheguei à conclusão de que essa pessoa é você.
– Antes que o senhor fale mais alguma coisa, quero que saiba que estou mudado. Estou vivendo uma vida diferente da que vivia em Brasília. – Eu sei, João, mas escute a minha proposta e pense a respeito. – Fale, Doutor.
– Eu e mais cinco amigos, todos do alto escalão do governo, influentes em muita coisa, inclusive no mercado que vocês trabalham em Brasília... – Trabalhava, doutor... – cortou João.
– Trabalhava! Então, todos os meus amigos são influentes, como eu, João. Precisamos providenciar uma série de atos que farão melhorar o nosso comércio, e estou precisando de você e de seus amigos. – O que temos que fazer?
– Estamos tendo uma série de inconvenientes com alguns concorrentes nossos na área da educação, e precisamos criar uma situação em que as pessoas comecem a ter medo de freqüentar alguns tipos de estabelecimentos e virem nossos clientes.
– Doutor, o senhor está enrolando...
– João, precisamos criar um problema em uma série de colégios, e em alguns shoppings.
– Como assim, criar problemas?
– João, precisamos sabotar estas empresas.
– Sabotar como?
– Algo muito sério. Bombas.
– Onde eu entro nisso tudo?
– Temos o dinheiro que você quiser. O preço você vai mandar. Quero que você e sua turma coloquem estas bombas de maneira que crie tumulto na cidade, fazendo com que os estabelecimentos dos meus concorrentes sejam desmoralizados.
– Deixa ver se eu entendi? Eu e minha turma vamos colocar bombas em escolas de crianças e adolescentes e em shoppings, onde existem centenas de pessoas passeando e trabalhando, sem um motivo sério, ou seja, um motivo banal, onde o senhor e sua turma ganhariam mais dinheiro? – É mais ou menos isso...
– E quer que mate alguém?
– João, tem que ter vítimas, senão, como ficariam desmoralizados?. João ficou esquentado. Não acreditava na proposta daquele homem. – O que o senhor está achando que eu sou?
– Um bandido que eu financei quando precisava de apoio financeiro e político. – Eu já parei com tudo o que você está insinuando e não participo mais dessas coisas?
– João, você é um bandido. Nada mais do que isso. É um traficante, um assassino. João, nós já computamos quarenta e duas mortes a você e a seu bando. Talvez seja até mais. Se fosse feita a sua prisão você pegaria uma pena acima de cem anos.
João se enervou.
– O senhor está na minha casa. Queira se retirar. Nisso, Maria Lúcia entrou na cozinha, preocupada com os gritos. – Saia imediatamente da minha casa – disse João. – O senhor não devia brincar comigo assim. O que eu fui já não sou mais. Eu não quero saber do meu passado.
Doutor Everaldo levantou-se e ia seguindo em direção à porta, assustado com a reação de João, preocupado, não imaginando que o rapaz ficaria tão zangado. Mas, doutor Everaldo nunca havia recebido um não como resposta. Quando abriu a porta, dois seguranças seus, que estavam no carro vieram para o seu lado. – Tudo bem, doutor? – disse um deles.
– Tudo bem – disse Doutor Everaldo.
E virando-se para João.
– João, eu vou te dizer uma coisa. Neste momento você acabou com a sua vida. Eu vou fazer tudo o que eu puder para te prejudicar. Tudo o que fiz a seu favor eu agora vou fazer contra. Você perdeu a sua vida. Eu tenho sua vida na minha mão. João pulou para agarrar o homem, mas foi afastado pelos seguranças. Doutor Everaldo foi para o carro com os seguranças e saíram. João voltou para casa, percebendo que alguns vizinhos saíram na porta para ver o que estava acontecendo.
Já na sala, conversou com Maria Lúcia.
– Maria Lúcia, eu posso te falar?
– Fala, João. O que aconteceu?
– Maria Lúcia, eu tentei fugir do passado, mas não teve jeito. E olha que eu tentei o meu caminho, mas tudo agora é coisa do passado. Esse homem conseguiu me atrapalhar a vida. Quando eu achei que viveria bem, ele veio me oferecer dinheiro para fazer um atentado em Brasília. Ele acha que eu ainda sou bandido e me cobrou ajuda para ele. Nem quis saber que estou mudado. – Calma, João. Não ligue para o que ele disse, vamos esquecer tudo isso e vamos viver a nossa vida.
Mas João estava muito nervoso. Preparou-se para sair. – João, não me diga que você pretende sair? – disse Maria Lúcia. – Vou dar um pulinho ali no bar da esquina e já volto. Só vou espairecer o juízo. E saiu.
João só voltou quando o dia estava raiando. Maria Lúcia passou a noite toda acordada, apreensiva com o que poderia acontecer. João bebeu e fumou maconha.
Como chegou, dormiu e não foi trabalhar. Isso aconteceu durante toda a semana. Entrou em conflito com o seu passado e nem percebeu que estava se entregando à bebida e às drogas. No dia que usou cocaína resolveu ligar para o Pablo. – Pablo, por quê você mandou esse general aqui? – João, não foi possível disfarçar. Falei para ele que você era outra pessoa, tinha mudado, deixado os vícios, mas ele não quis saber. Falou que você precisava pagar o que ganhou no passado. E me pressionou tanto que ia acabar com tudo o que temos aqui, que não restou alternativa. O que aconteceu? – Não vou nem lhe falar. O cara quer acabar destruindo toda Brasília. Queria pôr bomba até em banheiro de posto de gasolina... O cara estava loucão... Me jurou de morte...
– João, você discutiu com ele?
– Se discuti? Mandei aquele cuzão para puta que o pariu! – João, você bebeu? Você usou drogas?
– Usei, Pablo, usei... Por quê? Vai me regular, também? – João, quer voltar? Eu mando alguém te buscar... – Fica na sua. Quando eu quiser voltar eu sei o caminho... E nem deu tempo para Pablo responder, desligou o telefone. João estava no bar, rodeado de amigos quando soube que o seu patrão, da carpintaria, havia mandado um recado para ele, que ele não precisava ir mais trabalhar. Soube até que seu patrão já havia contratado outro para o seu lugar. O motivo para beber aumentou ainda mais.
Em casa, começaram os conflitos. Quando chegava, Maria Lúcia ficava perto de João, mas percebia que ele não queria mais conversa. Não conseguiam dialogar. Não eram mais carinhosos um com o outro. Maria Lúcia falou primeiro:
– João, cadê seus planos? Você agora enche a cara e cai pelas esquinas... O que você pretende para o seu futuro?
– Aqui? Nada... Estou pensando em ir embora... – João, não vá. Você vai abandonar nossos planos? Como vamos ter nosso filho? – Nós nunca vamos ter esse filho, você sabe disso. O que eu tenho é só um emprego e um salário miserável. E agora, nem isso eu tenho mais... – Você foi despedido?
– É o que falaram. Eu nem fui lá, naquele cara miserável... Patrão mesquinho... João estava revoltado e Maria Lúcia sabia que precisa ir com jeito. – João, não abandone a sua mudança. Você pode voltar a ser como era, quando veio para cá.
– Resolvi que vou embora, amanhã cedo.
Maria Lúcia chorou bastante naquela noite. Seu sonho estava acabando-se muito rapidamente. Sentia um amor incontrolável por João, mas sabia que ele precisava ir embora para aprender alguma coisa. Aprendeu que nada forçado dava certo.
No dia seguinte, João já havia arrumado as malas e estava na rodoviária. O ônibus chegou.
– Vai, se você precisa ir. Não quero mais brigar. Vou ficar aqui. – Obrigado, Maria Lúcia, mas acho que é o que devo fazer. – Sei que existe alguma coisa incomodando você. Mas, onde você estiver, sempre, saiba que eu lhe amo. Sempre vou lhe esperar. Prometo. – Guardo um retrato seu... E a saudade mais bonita... – disse João. – Eu vou voltar. Espere e você verá.
Maria Lúcia começou a chorar.
– Pare, Maria Lúcia. Eu juro que não queria deixar você tão triste. – Vai, João... Seu olhar não conta mais história... – Eu juro que não foi por mal... Eu não queria machucar você... – Sempre as mesmas desculpas...
João entrou no ônibus.
Maria Lúcia viu o ônibus indo embora.
“João, eu sei porque você fugiu... Mas não consigo entender porquê...”