Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 16: - o Amor de João de Santo Cristo
O amor que João sentia por Maria Lúcia superava a necessidade de bens e dinheiro. Maria Lúcia era independente há alguns anos, havia se mudado para a cidade a fim de estudar e resolveu não voltar mais para a casa de seus pais, no interior. Tinha vinte e três anos e morava com Suzi há um ano, com quem dividia as despesas, até que resolveu morar com João. João e Maria Lúcia ganhavam o suficiente para o aluguel, as despesas da casa, e tinham uma vida normal, como qualquer família. A dificuldade em comprar móveis, em guardar dinheiro, em pagar as contas, era imensa, já que combinaram em não usarem nada do passado de João, que consideravam que foi ganho de forma errada, já que vieram das drogas. Amavam-se e achavam que só isso bastaria. O amor é inexplicável. O dia-a-dia dos dois era só romance, amor e cheio de carinho. Certo dia Maria Lúcia foi deitar-se:
– João, deita aqui, perto de mim.
Ele não resistiu. Estava preparando suas roupas para o dia seguinte, mas não queria desperdiçar qualquer momento dos braços de Maria Lúcia. – Você é a mulher dos meus sonhos.
– E você é mais do que os meus sonhos.
Beijaram-se com todo o carinho possível.
– João, eu te amo. Não imaginava ser possível me apaixonar dessa forma. João ficou feliz com as palavras de Maria Lúcia. – Eu também te amo demais. Nunca senti isso por ninguém. E não sabia que era tão bom.
E a abraçou.
– Maria Lúcia, quero te amar sempre mais e mais. Nunca deixe diminuir esse amor. Hoje eu quero fazer tudo por você! E sempre vai ser assim, você pode apostar.
– Sou tua deusa, meu amor.
Tiveram uma noite maravilhosa, onde amor e sexo eram uma coisa só, como se só existissem os dois em todo o mundo e ao mesmo tempo como se o mundo fosse acabar dali a instantes.
E João percebia todo o amor que sentia por Maria Lúcia. Todos os minutos eram pouco para fazer todo o carinho que aquela mulher merecia. Maria Lúcia retribuía o carinho de João, feliz por ter encontrado a sua outra metade.
Algumas vezes, Maria Lúcia costumava esperar João no portão de sua casa. João saía às seis da tarde e como morava perto, em vinte minutos estava em casa.
– Meu amor, o que foi? Aconteceu alguma coisa?
– Não, só estou te esperando.
– Mas, não é preciso. Os vizinhos podem comentar. – Se fiquei esperando o meu amor chegar, o que eles têm a ver com isso? – Você tem razão. Eu amo você.
Abraçaram-se e entraram.
Certo dia, João voltou com um presente para Maria Lúcia. – Adivinha o que eu trouxe para você? – disse João, mostrando uma pequena caixa.
Maria Lúcia pegou a caixa. Não era pesada, mas havia alguma coisa viva dentro. Maria Lúcia já esperava o melhor.
– Não acredito! Você é louco... Você comprou... – dizia, abrindo a caixa. – Que lindo!
Era um cachorro lindo, de raça Basset, marrom com manchas brancas. – Adorei!
Beijou João, tirando o filhotinho da caixa.
– Que nome vamos dar a ele? – perguntou João. – Não sei! Que tal Lulu?
– Lulu já tem um monte. Nem Lili...
Riam a valer com o cachorrinho. No final das contas deram o nome de Nick em homenagem a um cachorrinho que a família de Maria Lúcia teve quando ela era pequena.
O Nick corria por toda a casa, fazendo a felicidade dos dois. – João, você é maravilhoso – disse Maria Lúcia. – Eu te amo, Maria Lúcia – falou João.
E beijaram-se, trocando carinhos.
– Eu te amo – disse Maria Lúcia. – Eu te amo. – Eu te amo. – Eu te amo. – Eu te amo. – Eu te amo.
– Calma! Para que tanto?
– O tempo passa rápido e eu não quero perder tempo! – Sossega! Temos todo o tempo do mundo.
– Mas eu te amo tanto e não sei até quando ficaremos juntos. E se eu morrer? E se você for embora?
– Você não vai morrer nunca. Eu te amo muito e nunca vou deixar você morrer. Eu morro em seu lugar. E só assim eu vou embora. E quando eu for embora, não chore por mim.
– João, eu te prometo. Se você morrer antes de mim, eu me mato para lhe acompanhar para sempre por toda a eternidade. Abraçavam-se, beijavam-se e sentiam o amor diretamente na alma. Sabiam que aquilo seria eterno.
Naquela noite, João não conseguia dormir. Ficou acordado pensando em como estava feliz.
Olhava para Maria Lúcia, dormindo ao seu lado, seu rosto lindo. Lembrava dos momentos de violência, drogas, sexo e coisas ruins que passou em toda sua vida. Foi difícil chegar até ali. Fugir dos vícios, a princípio não foi fácil, mas, o amor que sentia por Maria Lúcia conseguiu ser maior do que a necessidade de usar drogas e bebidas.
Não bebia mais. Nem fumar, ele fumava.
O dinheiro não estava fazendo falta, e nem o luxo que tinha no passado o fazia duvidar de que seria feliz. Aquela mulher era a razão de sua felicidade. Começou a chover. João adorava a chuva. Maria Lúcia se impressionava como João gostava dos pingos de chuva caindo nas poças d’água, na terra, em seu corpo.
João, que por toda sua infância não via tanta chuva por morar em um lugar castigado pela seca, não conseguia esconder o prazer que tinha com a chuva. João foi até a janela, ficou olhando a rua, com suas luzes, e a chuva batendo na janela.
Olhou para Maria Lúcia, dormindo. Sorriu. Ela se mexeu. Olhou para ele, meio sonolenta.
– Meu amor, não dormiu ainda?
– Gosto de ver você dormindo. Que nem criança, com a boca aberta. Você é linda. Você e a chuva que cai lá fora.
Maria Lúcia espreguiçou-se, levantou-se e abraçou João. Encostaram os dois na janela e ficaram olhando a chuva.
– Gosto dos pingos da chuva – disse João.
– Eu sei, meu amor, eu sei... Você me disse isso quinhentas vezes. E eu adoro a chuva porque você também adora. E eu gosto dos relâmpagos e dos trovões, também...
Beijou João.
– Estou com sono. Vamos dormir! – Maria Lúcia carregou João. Com seis meses de convívio, João já pensava no futuro de sua família. – Maria Lúcia, eu quero um filho seu!
– Você acha que a gente deve, João? Não será muito cedo. Vamos aproveitar mais um pouco...
– Um filho seria um troféu para nós. – disse João. E a partir daquele dia começaram a preparar a chegada de um filho. A partir desse dia Maria Lúcia deixou de evitar a fecundação. Estava nas mãos de Deus. Estava no seu relacionamento. Tudo sairia normalmente. João era o mais empolgado. Quando tinha um momento de paz ficava pensando em como seria o filho, como o chamaria, aonde iria com ele, e todas as idéias que um pai poderia fazer com o filho.
– Meu filho vai ter nome de santo – dizia João, para Maria Lúcia. – Sei, João, sei... – brincava Maria Lúcia.
– Acho que vou chamar de Abel. Ou então Daniel! – João, Abel e Daniel são nomes bíblicos mas não são nomes de santo. – Então vou chamar de Igor.
– Muito menos. Igor também não é nome de santo. E nem é nome bíblico. – Ah, sei lá... Quero o nome mais bonito.
Maria Lúcia ficava feliz com a alegria de João. Mas, o tempo ia passando e nada de Maria Lúcia engravidar. – João, será que temos algum problema? Já parei de evitar o filho há uns cinco meses. Não é bom a gente fazer um exame?
– Ah, deixa disso, Maria Lúcia. Você vai engravidar a qualquer momento. Vamos treinar?
– Ah, João, deixa de ser bobo...
E se abraçavam, se beijavam e acabavam treinando. Mas, nada. Maria Lúcia achava que o problema estava com ela. – João, acho que nunca vou engravidar.
Ele já não estava tão empolgado como antes. Sabia que alguma coisa estava errada, mas, onde estaria a falha? Será que Maria Lúcia não poderia engravidar? Mas João não aceitava que fosse ele quem tivesse algum problema de saúde. Não queria fazer o teste.
Maria Lúcia se desculpava.
– Por favor, amor, acredite. Não há palavras para explicar o que sinto... – Deixa disso, Maria Lúcia, estar contigo é o bastante. João abraçou Maria Lúcia e viu como ela sofria em querer lhe dar aquele filho e percebia que precisava fazer alguma coisa.
– Maria Lúcia, não fica assim. Vamos fazer uma festa? Uma pequena reunião de amigos?
Maria Lúcia olhou para João. Sabia que ele estava tentando consolá-la e ficou feliz em saber que ele ainda gostava dela.
– O que podemos fazer, João?
– Já sei, vamos chamar nossos amigos, a gente faz uma feijoada. E assim foi feito. Naquele sábado apareceram todos os amigos de João e Maria Lúcia para uma feijoada que eles cozinharam. João ajudou a Maria Lúcia enquanto ela cozinhava.
– Vem cá, meu bem. É bom te ver alegre. Está tudo bem, acredite – disse João. João serviu algumas cervejas para os amigos, e com tanta insistência ele colocou um copo para ele também. Depois de tanto tempo João estava bebendo novamente.
Maria Lúcia via João bebendo, mas não se incomodou. Ela sabia dos problemas que ele teve no passado, mas não achava que João mudaria tomando alguns copos de cerveja, afinal, os seus amigos também estavam bebendo. Mas, depois de um ano e três meses de casado, João se embebedou pela primeira vez. Não fez nenhum escândalo, mas a partir deste dia, começou a beber novamente.
Quase um mês depois, Maria Lúcia sentia que João estava sofrendo porque ela não podia ter o filho que ele tanto desejava. Conversavam a respeito, mas João sempre dava as desculpas normais e não aceitava fazer exames. Maria Lúcia fez exames e descobriu que ela não tinha problemas. João, ao contrário, não aceitava fazer os exames e se afundava mais na bebida. Começou a chegar mais tarde em casa.
Um dia chegou em casa com um cheiro diferente. Maria Lúcia sentiu que João havia fumado maconha.
– João, você não está pensando em ter os problemas que tinha no passado, está? – Deixa disso, Maria Lúcia, estou numa boa.
– João, você fumou maconha...
– Fumei, sim, mas maconha não vicia. Fica tranqüila. Não se preocupe comigo. Se preocupe com você.
– O que você quer dizer, João?
– Nada, nada...
– Você está insinuando alguma coisa sobre o nosso filho, não é? João se calou.
– Pois fique sabendo que fiz os exames e não tenho problemas... – Você fez os exames, escondida?
– Fiz, João, e não tenho nada. Por quê você não faz os exames, para fazermos um tratamento e termos o nosso filho?
João saiu de perto de Maria Lúcia. Achava que não devia fazer o exame. Ele não tinha nada. Era mentira dela. Ele sabia que ela estava mentindo. E cada vez mais se aprofundou na maconha e nas bebidas. Agora o dinheiro não dava, mesmo, para pagar todas as contas e despesas da casa. Foi nessa época que resolveu ligar para o Pablo. – Alô, Pablo?
– João, não acredito, cara, você tá vivo?
– É, cara, quem está vivo sempre aparece? Como vão as coisas? – Mais ou menos, João, e com você?
– Aqui também está mais ou menos. Pintou a saudade e resolvi te ligar. Como está o movimento?
– João, nada bem. Sabe aquele pessoal do Rio de Janeiro que tinha mandado aqueles dois caras, que você deixou só um voltar? – Lembro, Pablo, um voltou vivo, você diz?
– Cala, João, sei lá os grampos dos telefones... – Que quer dizer? Não está amparado pelo pessoal de cima? – Perdemos um bocado do nosso poder. Uma parte do pessoal que nos apoiava deixou a gente, João. Estão com os caras do Rio. Eles já tomaram metade do nosso movimento. Está ficando difícil.
– É mesmo, Pablo, e o que você fez?
– João, você sabe que eu não sou igual a você. Estou fazendo o possível, mas não está dando para controlar todo mundo.
– E o nosso pessoal, está unido contigo?
– Que nada, João, tem um pessoal que continua do nosso lado. Outra turma virou para o lado dos caras. Quando é que você vem por estas bandas, João? Estamos precisando de você. Por quê você não volta?
– Não quero saber mais dessa vida, Pablo, agora quero outros lances. – João, você nasceu para isso, não pode fugir do seu instinto. – Mas vou tentar, Pablo, eu vou tentar... Um abraço. Dê um abraço em todo o pessoal. Quando der eu dou um pulo aí, falou? – Está jóia, João. Um abraço.
João desligou e ficou pensando em como Pablo havia permitido o pessoal do Rio tomar conta da metade do movimento.
A partir daquele dia João não agüentava mais de vontade de ir embora.