Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 22: - João Se Arrepende
Natinho visitava João todos os dias. No início João nem o recebia, tanto que sofria com a dependência da heroína. Mas, conseguiu, aos poucos, recuperar um pouco da sua personalidade.
João já tinha trinta e dois anos e não havia um bom futuro para ele. Ele começou a se preocupar com isso.
Natinho, sempre que o visitava, levava livros e cds que continham mensagens positivas, músicas de bom gosto, com boas letras, e fazia o possível para recuperar João. A princípio, João reagia rispidamente a esta tentativa de recuperação que João planejava.
Natinho, sempre procurava aproveitar todos os momentos de suas visitas para ajudar João a se encontrar. Ele sabia que, psicologicamente, João estava vulnerável. Era a chance que Natinho queria para realizar a mudança final na vida de João. Agora era tudo ou nada. Natinho sabia disso. Andando pelos jardins da Clínica, João já completava vinte dias de tratamento e já estava mais calmo, mas ainda tinha recaídas, necessitando de drogas. Nesses momentos de recaída João mandava Natinho trazer alguma coisa para ele. Natinho, que há alguns anos também tinha passado por um tratamento parecido, se afastava, ficava alguns dias sem visitar João, e quando voltava, a crise já havia passado.
– João, você está bem melhor – disse Natinho. – Você percebe como está mudando.
João não respondeu.
– Você está bem, João?
– Natinho... Você vem aqui com esse papo de melhorar minha auto-estima, viver melhor... Você acha que é o quê? Não me olhe assim com esse semblante de bom samaritano.
Natinho percebeu que havia sinais de recaída. Foi devagar. – João, você precisa ter mais fé. Ter fé em você, em primeiro lugar. Você precisa ter fé em Deus. Ter fé em que vai melhorar. Você precisa acreditar mais do que todos nós.
– Ninguém me entende...
Por coincidência, naquele horário, do lado de fora da Clínica, estavam saindo com uma procissão da igreja.
– Olha, João, o que é ter fé... Todos seguem um santo, uma santa, e jogam as suas esperanças nas mãos desse santo. Acreditam que seguindo em procissão, podem conversar e serem escutados pelo santo. Vamos ouvir o que eles estão cantando?
“Nossa Senhora do Serrado, protetora dos pedestres...” – Você ouviu, João? – disse Natinho. – É uma Santa.
Natinho olhou para João que olhava atento as pessoas em fila, alguns levando cartazes, com dizeres estranhos: URBANA LEGIO OMNIA VINCIT. João começou a chorar.
– Não me olhe assim.
– Calma, João, chorar é bom para a nossa alma, para o nosso espírito. Você já percebeu que quando chora fica mais leve. É como se tirasse um peso das costas.
E João chorou mais uma vez.
– João, você tem que entender que Deus é bom. Ele não quer nada mais que nos dar amor e que possamos dar esse amor para os outros. – Natinho, você sabe que eu nunca acreditei em Deus. – Nunca é tarde, João. Você lembra aquela passagem na bíblia que fala que devemos amar as pessoas como se não houvesse o amanhã? – Ouvi alguma coisa parecida.
– Pois então, não precisa ir a igrejas, freqüentar cultos, basta você amar as pessoas.
– É muito difícil amar as pessoas, João.
– Eu sei que é, mas faça o possível.
– Eu sempre odiei, e agora, devo amar?
– Exatamente, João, nunca é tarde.
João parou um pouco para pensar. Lembrou do que sofreu em sua vida, sem ter família, sempre sendo rejeitado, sempre tendo problemas. Era muito difícil amar. – Natinho, os meus sonhos estão acabando. Não acredito mais nos meus sonhos.
– Nunca deixem que lhe digam que não vale a pena acreditar nos sonhos que se tem.
– Mas, no meu caso, o sonho de poder, de riqueza, não será mais possível. – Mas você teve tudo na sua mão. A diferença é que você não soube dar o valor na hora certa. E você tem que perceber que os sonhos mudam. Quando você teve dinheiro e poder você não se realizou. Quando foi que você foi mais feliz em toda a sua vida? – perguntou Natinho.
João não hesitou em responder.
– Quando eu estava com Maria Lúcia. Foram os melhores dias que vivi. – E você era rico, nesta época? Você não abandonou tudo, para ser feliz? – Foi, Natinho, só não soube segurar a minha felicidade. – Mas pode preparar o seu futuro. Você precisa mudar daqui para frente, e quando tiver uma outra oportunidade, você deve perceber o que está acontecendo e segurar de todas as formas. Pense em amar, João. João pensou. Era muito difícil. Sempre quando lembrava no amor, lembrava de Maria Lúcia.
– Natinho, como você consegue ser tão forte.
– Eu sou diferente de você, João. Sempre que eu me relaciono com alguém, eu penso em amar esta pessoa primeiro. Vê que a minha força é quase santa? Eu consigo atingir os meus objetivos sem disparar uma bala, sem dar um soco. Eu amo os meus amigos, eu amo as amigas. Amo quem conheço hoje, e quem conheci a dez anos. João, sem amor eu nada seria. Só o amor conhece o que é verdade.
– Obrigado, Natinho, hoje eu consegui perceber que posso modificar minha vida. Vou pensar no que você falou. Sabe por quê? Porque eu vou reconquistar Maria Lúcia. Eu quero essa mulher novamente ao meu lado. – Falou bonito, João. Procure dentro de você onde está o amor, que você vai encontrar. Faça assim, todos os dias antes de dormir, converse com sua alma. Feche os olhos e converse com Deus. Faça perguntas, escute as suas respostas. Agradeça o que conseguiu e prometa alguma coisa para Deus. Você vai ver que vai se sentir bem melhor.
Já estava na hora de Natinho ir embora.
João achava que seria fácil fazer o que eles haviam conversado, mas não era. Havia os momentos de sossego, quando ele conversava com Deus, mas também havia os momentos que uma força maligna invadia os seus pensamentos e fazia João se lembrar do que ele já havia feito na vida. Os assassinatos, as brigas, as festas, vendas, uso de drogas. Lembrava do rosto de Alex, que foi morto brutalmente.
João buscava refúgio, nestes dias, nos livros e cds que Natinho e Pablo trazia. Com dois meses, voltou para casa. Mas apenas dez dias depois já havia usado cocaína novamente. Bastava ter uma lembrança negativa do passado, que condenava o seu futuro. As drogas perseguiam-no. Passou um ano muito difícil, de altos e baixos. Voltou à Clínica algumas vezes, mas percebeu que não era tão fácil se afastar dos vícios.
Morava com Pablo, em uma casa que havia sobrado de todo o seu império. O seu prédio havia sido vendido para sanar as suas dívidas. Não tinham mais poder, tinham poucos pontos de venda de drogas. Haviam definhado, seriamente. – Não existe beleza na miséria, Pablo.
Pablo estava no sofá, assistindo televisão. Era um domingo, e como em todos os domingos, não há nada para fazer.
– É, João, já percebi...
– Não temos mais nada...
– Não fala assim... Era para estarmos muito pior. Não se esqueça que somos criminosos e poderíamos estar presos. Então, devemos estar satisfeitos em termos a nossa liberdade.
– Não acho muita coisa. E mesmo se eu tiver a minha liberdade, não tenho tanto tempo assim.
– O que você quer dizer, João?
– Acho que vou tentar a reconciliação com Maria Lúcia. – João, você precisa mudar algumas coisas para viver com ela. – Eu sei. Às vezes faço planos. Às vezes quero ir... Voltar a ser feliz... – Eu entendo, João.
– Quem diz que me entende, nunca quis saber de mim. É só fingimento. – Você mesmo disse, João. Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu. – Eu aprendi a amar, mas de uma forma diferente. Eu sei que Maria Lúcia ainda me ama. Ela era bem apaixonada por mim. Apesar de já estarmos separados a mais de quatro anos, ainda acho que ela me ama. Natinho chega à casa de João. Mais tarde convida João para dar uma volta. Já era tarde do domingo. Eles moravam num bairro mais afastado, e numa hora daquelas todo mundo já estava dormindo.
– Sabe, Natinho, ontem eu tive um sonho. Sonhei com meu pai. Nem me lembro como ele era, mas ele apareceu no meu sonho. A gente estava na Bahia, e saí para caminhar com meu pai. A gente ficou andando pelas ruas de Boa Vista, a cidade que nasci, e conversamos sobre coisas da vida. Natinho ficava em silêncio, apenas escutando. – É curioso o sonho. É como se meu pai quisesse me avisar alguma coisa. Lembro que ele me falava sobre tentar ser forte a todo e a cada amanhecer. – Eu entendo esse sonho, João. O que você está planejando? – Estou pensando em voltar a ver Maria Lúcia. Natinho balançou a cabeça.
– Você acha que está na hora certa. Já tem bastante tempo que vocês não se encontram.
– Eu sei que ela está me esperando.
– E se ela mudou? Você já ligou para ela?
– Tentei, mas mudou o número. Se ela se mudou, eu a encontro. João sentou-se na guia da rua, e colocou as mãos na cabeça. – Natinho, o que há de errado comigo? Eu não sei mais do que sou capaz... – Você está confuso, João. Mas, cuidado para não tomar a decisão errada. – Olhe, Natinho, para essas casas. Estou acordado e todos dormem. Estou conversando com você como se eu fosse um doente. Eu preciso fazer alguma coisa para ser feliz. Eu vou voltar para Maria Lúcia, voltar a trabalhar, e viveremos felizes.
João colocou a cabeça entre as pernas e chorou. – João, não esconda sua tristeza de mim.
– Natinho eu vou tentar alguma coisa. E se eu tentasse recuperar os pontos? – João, pense só um pouco. Não existe nada de novo. O que era para acontecer, já aconteceu. Você vive insatisfeito e não confia em ninguém. Não acredita em mais nada, e agora é só cansaço.
– Acho que entendi o que quis dizer, mas existem outras coisas.
– Que outras coisas? – perguntou Natinho. – Tínhamos um plano, você mudou de idéia. No auge de seu comércio você procurou o seu amor. Por que não ficou com Maria Lúcia? Agora quer tentar recuperar o quê? Não vê que tudo está perdido?
João se levanta.
– Tudo está perdido, mas existem possibilidades... – Quais são essas possibilidades?
João finalmente se entrega. Seu coração está apertado. Sabe que precisa aprender a viver como está, sem seu império, sem seu poder, e que nunca mais vai conseguir o poder novamente.
João chora, solta as emoções através das lágrimas. Natinho deixa João chorar, sabe que é o melhor no momento. Depois de alguns minutos, Natinho se aproxima de João.
– Já passou! Já passou! Acalme-se!
João se acalma aos poucos.
– Sou um animal sentimental... – fala João. – Já enfrentei tanta confusão, já matei gente, e estou aqui, chorando, que nem uma criança. Natinho sabe que é melhor João desabafar.
– Sempre que tentaram a me obrigar a fazer o que eu não queria, eu reagia violentamente. Nunca fui dominado. Antes eu era duro, violento e forte. Hoje estou mudado, sou novo ainda e estou enfraquecendo. – Não é isso, João. Você está percebendo que o caminho que você percorreu até hoje não te levou a lugar nenhum.
– Antes eu sonhava... – disse João. – Agora, já nem durmo!