Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 13 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 11: - João Vê a Morte de João Roberto

Natinho crescia a olhos vistos em seu setor de vendas. Fazia amizades e controlava a região. Sabia respeitar tanto a João quanto a Pablo como patrões, sem bajulação, mas com respeito.

Natinho ia a muitos lugares que João e Pablo freqüentavam, e João começou a participar da vida de Natinho.

Em um desses eventos, ocorreu um acidente muito sério. Natinho fez uma freguesia nos arredores de seu ponto de venda, tinha diversos amigos na faculdade e no colégio, ali perto. Freqüentava os prédios, como se fosse um estudante normal e muitas vezes passou drogas ali mesmo. Tinha alguns amigos que eram mais chegados. Um deles era o João Roberto. Johnny, como era chamado, era querido por todos. João Roberto era um cara legal, animado, sempre com o seu violão de lado. Tocava em qualquer lugar que houvesse um grupinho de rapazes ou moças. Era muito hábil em tocar os cantores brasileiros, mas curtia mesmo tocar Rolling Stones, Beatles e outros artistas internacionais.

Johnny tinha uma namorada, a Letícia; Lê para os mais íntimos, como ela dizia. Lê era animada, já tinha seus planos de futuro: seria psicóloga. Até que um fato muito ruim aconteceu em sua vida. Ela havia sido estuprada. João e Natinho estavam no parque em frente ao colégio, falando sobre Lê. – João, eu não entendo como alguém pode estuprar uma mulher, hoje em dia. Sexo é a coisa mais fácil que se tem, mas uns caras querem as coisas proibidas, com violência. Não dá para entender. – Eu também não entendo. Eu sempre tive facilidade com mulheres. Desde cedo conheci as manhas para dar prazer a uma mulher. Depois de certo tempo, elas me procuravam e me ensinavam cada coisa. Nunca forcei uma relação amorosa. – E a Lê sofreu, cara. Eu vou te falar uma coisa, sabe o Johnny, o namorado dela? – Eu conheci o Johnny naquele dia lá no Barzinho da Janaína, lembra? Tava rolando um rock, aí chamaram o cara para tocar Satisfaction, dos Stones. Você lembra?

– Ah, lembro! Pois é, cara! Ele não sabe de nada do estupro da mina. Já tem um mês que aconteceu, eu sou amigo dela, ela me contou, mas não tem coragem de contar ao Johnny.

– Puxa! Cara! Que chato!

– Se é! E o que é mais chato é que ela entrou em depressão e o Johnny não sabe por quê. O Johnny acha que ela se apaixonou por outro cara e o negócio não deu certo. Depois do estupro eles se encontraram pouco e o pouco que se encontraram, brigaram mais do que deviam. Não sei onde vai acabar. – Mas ela devia se abrir com o Johnny – falou João. – O cara vai entender e ajudá-la.

– Todo mundo acha isso, mas ela não! Ela acha que ele vai se afastar. Eu acho que ele vai se afastar se ela continuar do jeito que está. Já havia passado das onze da noite. Haviam prometido uma série de pegas para aquela noite. Johnny era fera, era o melhor! Tinha um Opala azul metálico, que era conhecido por todos. E para aquela noite havia marcado um super pega contra o Otávio, outro fera. O que todos esperavam há bastante tempo, havia chegado. Hoje eles saberiam quem era o melhor: Johnny ou Otávio? Natinho falou com João:

– Olha lá o Johnny. Vamos lá falar com ele?

Johnny estava sentado em seu carro, com a porta aberta. As pernas para fora do carro, ouvia música. A banda Cat Powers tocava em seu CD Player, completamente depressivo. Aquele não parecia o Johnny, aquele cara alegre, para frente e sempre bem humorado.

– E aí, Johnny? Como está? – disse Natinho.

Johnny levantou a cabeça, olhou para Natinho e João. – Tudo bem, Natinho. E você? – e esboçou um sorriso. Natinho imediatamente percebeu que não estava nada bem. – Vai ter pega hoje? Você não parece legal!

– Ah, vai... A minha vida é isso...

– O que aconteceu? Por que tanta tristeza? Como vai a Lê? – Ah, Natinho, vai mal. Está triste, cara, nem parece a mina que eu conheci há um ano. Não sei o que aconteceu, cara, ela mudou demais. Quase agora fui a casa dela e até brigamos.

– O que aconteceu, cara? – perguntou João.

– A mina mudou demais. Se ela me falasse o que ela quer, mas ela não conversa. Passa tanta coisa na minha cabeça. Não sei mais de nada. Não sei mais o que fazer. Aquela mina era tudo para mim, sem ela, minha vida não tem sentido, queria tanto ajudá-la, mas ela não me deixa. Tenho as minhas dúvidas. – Não se precipite, Johnny. Deve ser só uma fase, e rápido isso passa. De repente volta a alegria ao rosto dela.

Mas Johnny não se alegrou. Sabia que o que tinha ocorrido era muito sério, senão ela tinha falado com ele.

– Johnny – falou Natinho. – Pega isso. – e entregou um papelote da pura. – Essa é por conta da nossa amizade.

– Valeu! Natinho. Vou precisar para daqui a pouco. Despediram-se. João e Natinho foram se afastando. – João, não sei não, mas hoje ele está mais abatido do que o normal. Ele estava com um sorriso estranho. Tomara que ele não esteja planejando nenhuma besteira. Sei lá, eu tenho uma mau pressentimento. – Ah, Natinho, deixa para lá. Você está imaginando bobagens. – Tomara que sim, João. Tomara que eu esteja imaginando.

E saíram.

Meia hora depois, viram que Johnny acelerou mais do que podia na Curva do Diabo, onde aconteciam muitos acidentes. Um caminhão de combustível vinha em direção contrária e Johnny não desviou. Acertou em cheio. A explosão foi enorme. As labaredas que subiram brilharam o céu, com um misto de azul, amarelo e vermelho.

João e Natinho sabiam que Johnny era muito bom para ter errado a curva. Johnny era fera demais para vacilar assim. Eles sabiam que Johnny havia se matado. No outro dia foi o enterro de Johnny.

João, Pablo e Natinho compareceram à cerimônia. Ninguém acreditava como um rapaz tão novo sofria tanto. Não se podia sofrer por amor com aquela idade. Pelo menos era o que eles pensavam.

Ainda estavam na cerimônia quando chegou outra notícia chocante. A Letícia havia se suicidado. Quando Lê soube do acidente que havia vitimado Johnny, ela não agüentou o choque e se desesperou. Tomou calmante, adormeceu, mas, quando recuperou do choque, se jogou da janela do quinto andar. – Nada é fácil de entender – dizia Natinho. – Por que esta idade é tão difícil. Eles só tinham dezesseis.

– Eu tive uma crise séria, nesta idade, também – disse João. – Mas, para mim foi construtivo. Depois da minha crise eu consegui me transformar em outra pessoa, conheci a política e batalhei por mudanças na minha cidade. – É mesmo? – falou Pablo. – Você nunca me falou disso. – Foi um tempo muito difícil. Ao mesmo tempo em que eu ia descobrindo coisas maravilhosas, como poder ajudar aos outros, eu ia descobrindo o lado podre do poder.

– E por que você não entra na política? Aqui é o lugar dos políticos – perguntou Natinho.

– Quem sabe... Quem sabe...

Depois da cerimônia, Natinho convidou:

– Eu tenho uma amiga, aqui perto, que está passando uma crise muito séria. Vamos passar na casa dela?

– Ah, sai dessa, Natinho. Está virando assistente social? – falou João. – Poxa, João, ela é minha amiga há muito tempo. E, sei lá, era amiga da Lê. Não sei como ela ficou depois de ter perdido a amiga. Vamos passar lá. É rapidinho. – Vamos fazer o seguinte. Eu deixo você lá, falou? – Tudo bem. Já é alguma coisa.

João e Pablo deixaram Natinho no prédio de Clarisse e foram para o Morro. Natinho encontrou os pais de Clarisse na sala, entristecidos. – Como vão as coisas, dona Márcia?

– Mal, meu filho. Muito mal. A Clarisse está presa no banheiro, agora. Não sabemos o que pode acontecer.

– Eu posso falar com ela? – pediu Natinho.

– Claro, filho. Vamos ver se ela quer falar com você. Foram até a porta do banheiro.

– Clarisse! – gritou sua mãe. – Clarisse! O seu amigo Natinho está aqui, e quer falar com você.

– Oi, Clarisse, posso falar contigo? – perguntou Natinho. O silêncio que dominou o ambiente foi assustador. Já estavam assustados com o que tinha acontecido com Johnny e Lê, e estavam com medo da reação de Clarisse.

De repente, ouve-se um destrancar de chave. Clarisse falou, com uma voz arrastada:

– Entra aqui, Natinho.

Natinho balançou a cabeça para a mãe de Clarisse e entrou. Lá dentro encontrou Clarisse com diversas marcas de cortes em seu corpo. Seus tornozelos sangravam.

– O que você está fazendo? Dê-me aqui esse canivete. Clarisse entregou, passivamente, o canivete a Natinho. Parece que uma onda de paz havia entrado naquele banheiro. Clarisse abraçou Natinho. Chorou copiosamente.

– Está doendo, Clarisse?

– A dor é menor do que parece... Você viu o que aconteceu com a Lê? – falou Clarisse, gemendo.

– Eu vi! Que coisa horrível, né, Clarisse?

Abraçaram-se mais um pouco.

– Natinho, ninguém me entende!

– Não fala assim. Vamos lá para o seu quarto. E Natinho a ajudou caminhar até o quarto. Pegou um pano com água e limpou os ferimentos de Clarisse.

– Natinho, quando eu me corto eu me esqueço que é impossível ter da vida calma e força. Não é fácil ter que ser forte a todo e a cada amanhecer. – Mas, Clarisse, você tem que lutar. Todos nós temos nossos problemas, mas precisamos levantar a cabeça e procurar aprender alguma coisa e melhorar nossa vida. Não adianta nada se entregar.

– Ah, Natinho, eu gostaria de ter a sua força.

Natinho colocou um cd no som portátil de Clarisse, penteou os seus cabelos, vestiu uma roupa mais animada. Clarisse até sorriu. – Clarisse, eu estava pensando. De quando em quando é o novo tratamento? – Ah, esse tratamento não está adiantando nada. – Então, Clarisse, eu vou procurar um pessoal para te ajudar. Você quer? O silêncio imperou.

– Clarisse, se você não quiser, eu não vou fazer nada. Depende só de você.

– Tudo bem, Natinho, eu aceito a sua ajuda. Só não sei como vamos poder pagar. – Deixa isso comigo. Tenho uns amigos que terão prazer em nos ajudar. Pode ficar tranqüila. O que eu preciso é da sua palavra em querer melhorar. – Natinho, você é um anjo. Quero te ver mais vezes. Você volta amanhã? – Prometo que sim.

Quando Natinho saiu, Clarisse estava trancada em seu quarto, com seus discos e livros, mas já tinha se alimentado e estava melhor. Nem parecia a mesma Clarisse que ele encontrou.

Natinho agradeceu a Deus por aquela mudança.