Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 01: - o Nascimento de João de Santo Cristo
João Fernando voltava mais uma vez da roça. Havia passado mais um dia capinando a terra, envolto em seu trabalho de limpeza da plantação de milho. O mato não podia crescer naqueles dias. A chuva havia caído há dois dias e ele não podia perder tempo, tinha que aproveitar a estiagem. João Fernando estava cansado daquela luta. Todos os anos a sua batalha era igual. Trabalhava como um louco, procurando aproveitar as chuvas. Plantava tudo o que pudesse brotar e render boas colheitas naquelas suas terras. Eram uns poucos hectares, herdados de seu pai, e que mantinham o sustento da família. Sua família era composta apenas da mulher, grávida de seis meses e necessitando de repouso absoluto, por ser uma gravidez de risco. Com isso, todo o trabalho na roça havia sobrado para João Fernando. Ontem, o prefeito veio visitá-lo. Homem bom. Queria vender dois garrotes para João Fernando, abaixo do preço que os outros vendiam no mercado. O restinho do dinheiro que João Fernando tinha do ano anterior, resultado da venda do seu gado para o mesmo prefeito, dava justamente para comprar os dois garrotes.
A sua vaquinha, a que restou, estava dando leite de novo. O bezerrinho estava crescendo bem, já que havia fartura nesta época do ano. Com certeza iria aproveitar o ótimo preço que o prefeito estava pedindo nos dois garrotes e iria comprá-los.
O prefeito era muito bom mesmo, já que havia comprado os seis garrotes que ele tinha no ano anterior, naquela seca medonha. O prefeito comprou pela metade do preço, claro, porque estavam muito magros. Mas, se o prefeito não tivesse comprado, todos os animais estariam mortos. O partido político da oposição vivia comentando que o prefeito havia mandado os garrotes para o Pará, aproveitando que havia alugado um pasto grande, onde não tinha seca. Diziam que ele aproveitava as três carretas que tinha para despachar para o Pará todos os garrotes, bois e vacas que comprava. E agora estava vendendo pelo dobro do preço, mas a oposição não sabia o que falava. Como podiam falar mal do prefeito? O prefeito era um anjo enviado do céu. Todo mundo sabia que se ele não comprasse os bois, eles iriam morrer. A seca não perdoava...
Com o dinheiro que ganhou da venda dos seis garrotes, conseguiu comprar ração para a vaca que restou. A mesma que estava prenha e deu cria a um lindo bezerrinho. Comprando os dois garrotes, ficaria com quatro. Dois a menos que no ano anterior, mas era melhor do que nada.
Se Deus ajudasse, a plantação daria lucro suficiente para poder comprar tudo de novo; se Deus ajudasse, poderia até comprar mais do que tinha; se Deus ajudasse, poderia até fazer estoque de feijão e milho, como havia feito há cinco anos; se Deus ajudasse, não mandaria a seca de novo neste ano. Mas Deus não ajudou.
A seca veio destruindo as plantações, secando os açudes, acabando com a esperança daqueles agricultores. Houve perda total. Perda das plantações, do gado e, principalmente, da esperança de João Fernando. Ele teve que vender, desta vez, todos os animais. Não ficou nem mesmo com a vaca.
E justo agora que Joãozinho havia nascido. Antes da hora, aos sete meses, quando sua mãe quase morreu. Mas, graças a Deus, agora tudo estava estável. A saúde havia sido recuperada, e o menino, mesmo pequenino, passava bem. João Fernando não sabia o que fazer para alimentar o bebê e a família. Estava ficando cada dia mais difícil.
Mesmo com a ajuda que o maravilhoso prefeito estava dando a ele, através da Frente de Trabalho da qual participava, no valor de meio salário mínimo, e com a cesta de alimentos que o maravilhoso prefeito entregava todos os meses em seu comitê, ainda não dava para alimentar a família. A oposição continuava falando que não era o prefeito quem dava aquelas coisas. Nem o dinheiro, nem a comida. Como não? Se tudo era entregue pelas mãos dos funcionários da prefeitura, com a presença do prefeito e tudo mais? O prefeito até fazia um discurso no seu carro de som antes da entrega dos produtos, falando como ajudava os necessitados.
A oposição continuava igual…