Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 03: - a Infância de Santo Cristo
João andava por uma rua de terra, dessas feitas por carroças de boi. Era uma estrada que ligava Boa Vista, sua cidade natal, a Serra Preta. Boa Vista era uma cidade pequena, com casinhas mal feitas, pobres. Serra Preta era bem maior, ficava a 36 quilômetros de distância e crescia muito mais que Boa Vista já que centralizava o mercado financeiro da região. Todas as cidades dos arredores tinham um comércio inferior ao de Serra Preta. João ia tranqüilo quando Maurício pulou em sua frente. Maurício era um moleque da outra rua, de uma turma rival à de João. Ele sabia que precisava tomar cuidado com o Maurício, pois era invejoso e não aceitava que João pudesse fazer mais sucesso que ele.
– Agora vamos acertar nossas contas – disse Maurício. Pularam mais dois moleques ao lado de Maurício. – Pois é, neguinho, chegou a sua vez.
Encararam-se, cada um prevendo o próximo movimento do oponente. Deviam ter muito cuidado, sabiam que qualquer vacilo seria fatal. João sabia que estava em desvantagem, pois, além de o Maurício ser maior que ele, estava acompanhado por dois moleques, maiores também. O primeiro soco de Maurício acertou o ombro de João, que se desequilibrou e deu dois passos para trás.
– Olha, Maurício, acho melhor você me deixar em paz. Você sabe que se fizer qualquer coisa comigo, depois eu e minha turma vamos pegar vocês. Vocês estarão ferrados!
João arriscou. Sabia que não ia adiantar nada, mas precisava ganhar tempo para pensar em como fugir. Sim, a saída era fugir. Precisava perder essa batalha. De nada valia ser valente naquele momento.
Os três moleques já estavam rodeando João quando uma pedra acertou violentamente no braço de Maurício. Surgia Zé Luiz, o melhor amigo de João. Nunca fazia nada sem João presente. Tinha dez anos, um a mais que João, mas, em se tratando de malvadeza os dois eram iguais. A pedrada acertou Maurício, que, assustado, virou-se para Zé Luiz, esquecendo-se por um momento de João. Foi o que João queria: deu um chute na barriga de Maurício e correu.
– Corre, Zé. Vamos dar o fora! – gritou João.
Saíram em desabalada carreira pela estradinha sem olhar para trás. Os dois moleques correram atrás deles, mas quando viram Maurício caído com as mãos na barriga, pararam e voltaram para socorrer o amigo. João ainda corria, quando apontou para o caminho da casa abandonada. Zé Luiz o seguiu.
– Ah, ah, ah... – ria Zé Luiz. – Você viu só como ele ficou gemendo no chão?
– Ah, ah, ah... Ele nunca vai esquecer esse dia… - disse João. – Você o acertou direitinho. Que chute!
– Eu estava com muita raiva. Esse cara vem me perseguindo há muito tempo. Logo hoje me pegou desprevenido, sem nada nas mãos. – Você não pode andar sozinho por aí. Quando vier por essas bandas você me chama.
Aquilo era a afirmação de uma amizade sincera, verdadeira, baseada em fortes sentimentos, e ninguém duvidava que um morreria pelo outro, se fosse necessário.
Mas também era uma amizade ruim, afinal eram dois moleques de rua que não tiveram uma boa educação.
Zé Luiz foi abandonado por sua mãe quando ainda era bebezinho, em um orfanato da cidade. Sempre seguiu as maldades que os maiores faziam. Nas bagunças virara líder.
Aos sete anos fugiu e vivia se escondendo por aí. A princípio, o pessoal do orfanato o procurava e o levava de volta, mas como vivia fugindo, os funcionários do orfanato foram se cansando e deixaram de ir atrás dele. Estavam esgotados com os problemas causados por Zé Luiz.
E o mundo ganhou mais um menino de rua.
Era negro, assim como João. E sofria com o preconceito da sociedade de Boa Vista. Pedia coisas para comer, ou dinheiro, mas percebeu que era muito difícil ganhar as coisas. As pessoas se fechavam para ele, não davam nada, muito menos carinho ou compreensão. Sentia uma dor enorme quando pedia um prato de comida, tendo fome, e recebia um “não” como resposta. Com isso, aprendeu a roubar. A princípio, começou a roubar comida, depois, passou a pegar brinquedos, roupas e outras coisas. João conheceu Zé Luiz depois do enterro de seu pai. João foi levado para a casa de sua tia, mas na primeira chance ele fugiu. Não queria curtir aquele sentimento de perda ao lado daquelas velhas choronas. Foi para a beira do rio. Na beira do rio estava Zé Luiz, num daqueles dias de depressão, causados pela solidão. Era tempo das chuvas, o rio estava cheio e aquele cantinho era bastante silencioso.
João sentou-se numa pedra e só então percebeu aquele moleque em outra pedra. Ia se levantar para ir embora, mas resolveu ficar. Percebeu que o outro moleque também não se mexeu. Parecia estar chorando. Zé Luiz disfarçou as lágrimas, mexeu nos olhos como se estivesse tirando um cisco.
– O que aconteceu? – perguntou João.
Zé Luiz não respondeu. Não sabia quem era aquele moleque. Por que deveria falar com ele?
Mas falou:
– Nada. Quem é você?
– João.
– E o que você está fazendo aqui, no meu rio? – Seu rio? Eu não sabia que o rio tinha dono... O seu pai é dono dessa terra? – perguntou João.
– Não é do meu pai. É minha! É meu rio!
João admirou-se daquele menino, mal vestido, sujo e dono daquilo tudo. – Posso ficar aqui um pouco? – pediu João.
O Zé Luiz pensou, fingiu que estava verificando o seu arquivo mental se podia deixar ou não. Afinal:
– Pode, mas só hoje... – demorou um pouco e falou: – Meu nome é Zé Luiz... – Zé Luiz? Já ouvi falar de você. Você não é do orfanato? – Era. Agora não volto mais para lá.
– Eu não gostaria de morar num orfanato. Dizem que os caras, lá, são muito ruins. Dizem que batem na gente...
– É muito ruim mesmo. Mas comigo, não. Eu mandava em todo mundo lá – vangloriou-se Zé Luiz.
E começou a falar o que fazia com os outros meninos, com as meninas e tudo o que acontecia de ruim. Falou de coisas que aconteceram e inventou uma série de outras que queria ter feito, mas não fez, mas ninguém poderia desmenti-lo. – Ah, desse jeito até me deu vontade de ir morar num orfanato – disse João, em sua ingenuidade de sete anos. Tão homem, tão menino. – Você não tem família? – perguntou Zé Luiz.
– Minha mãe morreu faz tempo, meu pai morreu ontem e foi enterrado hoje. Eu não morava com ele. Ele bebia muito e ficava jogado pelas calçadas. Eu aprendi a morar nas ruas porque não gostava de morar com a minha tia. E você? Mora onde?
– Eu moro na rua, eu não tenho ninguém. Eu moro em qualquer lugar. E daí surgiu uma grande amizade. A amizade dos meninos de rua. Alguns dias depois começaram a se encontrar mais vezes e a aprontar cada vez mais. Se João aprontava alguma coisa, Zé Luiz queria fazer pior. Se João quebrasse uma vidraça, Zé Luiz queria quebrar duas.
O tempo passou, a amizade cresceu. Transformaram-se em irmãos. – Eu já sei o que vou ser quando crescer – disse João. João já tinha onze anos e estava se tornando um belo rapaz. Era alto, com um corpo forte, musculoso, ajudado pelas brincadeiras nas árvores, a natação no rio. – E o que você vai ser? – perguntou Zé Luiz.
Estavam mais uma vez na beira do rio. Mas, desta vez, era um ano de seca, e o rio estava seco. Havia só o leito do rio.
– Vou ser bandido.
- Bandido não é profissão...
– Para mim será.
– E por que você escolheu isso, João?
– Eu não sei. Não consigo tirar da cabeça como meu pai morreu. De vez em quando sonho com ele me chamando para conversar. Nunca sonhei com minha mãe, mas sempre que sonho com meu pai, no final do sonho ele morre baleado por aquele policial. Eu já te falei que assisti na hora que ele levou o tiro? – Já...
– Então... Eu acho que, por pior que meu pai tenha sido ele não precisava ter morrido daquele jeito.
Zé Luiz sabia que era inevitável acontecer isso. Se não acontecesse nada de diferente, tanto ele quanto João seriam bandidos. Estavam cada vez mais ousados, tinham mais necessidades. Se queriam alguma coisa mais cara, tentavam roubar algo e trocar por aquilo. Foi assim com o walkman, com o videogame, com a câmera fotográfica...
– João, eu gosto da vida que a gente está levando. Mas, acho que falta alguma coisa...
– Eu sei, Zé Luiz. Não fique achando que eu não sei que o fazemos é errado. Mas tem muita injustiça, não tem?
– Ah, isso tem.
– Então... Você viu o Jairzinho, aquele menino, filho do seu Gerson? Não falta nada para ele. Por que uns tem muito e outros não tem nada? Igual a nós. Zé Luiz se lembrou de Jairzinho, um menino branco, que era limpinho, só usava roupas novas e bem passadas, mas que vivia preso em casa o dia todo, não saía para nada, pois seus pais não deixavam. Tinha muitas coisas, mas não tinha amigos.
– Sabe, João, o que eu não gosto mesmo é quando fazem discriminação com a gente. Acham que porque a gente é preto e pobre devem ficar com medo da gente.
– Ah, eu também não agüento. E já viu como nos tratam quando a gente anda junto?
– Ô, se vi...
– Então. – disse João. – Quantas vezes a gente não ia a algum lugar só para conhecer, ou para fazer alguma coisa normal, como naquele dia em que fomos à sorveteria.
– Ah, naquele dia eu fiquei com muita raiva.
– Pois é! Trataram a gente que nem bandido. Aquele policial até nos expulsou de lá. Mandaram-nos embora sem a gente ter feito nada errado. – É. Mas a gente se vingou! – disse Zé Luiz, sorrindo. João se lembrou com orgulho da vingança. Lembrou-se de como pularam o muro da sorveteria e entraram no prédio já que eles esqueceram uma janela aberta. Ele e Zé Luiz foram até onde os sorvetes eram fabricados, abriram os freezer e urinaram nos sorvetes que já estavam prontos. – Foi legal! – disse João. – Será que eles venderam os sorvetes assim mesmo? – Eu não sei. Só sei que nunca mais voltei lá, nem chupei mais sorvete daquela sorveteria... Ah, ah, ah…