Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 05: - Ensinando ao Professor
CAPÍTULO 05 - ENSINANDO AO PROFESSOR O tempo passou e João já tinha quinze anos. A sua vida continuava igual, sem perspectivas de um futuro melhor e percebia a discriminação em tudo quanto ia fazer. Sentia a má vontade das pessoas em ajudá-lo. Entrou na escola, mas percebeu que sabia mais do que a maioria. Sempre foi preocupado em estar mais adiantado que os outros. Só não tinha paciência em ficar preso em uma sala de aula por horas e horas. Já sabia ler e escrever, mas tinha muita coisa que não entendia. E uma grande maioria de lições foi aprendida na raça, na arte de viver a vida. Estudava num desses cursos recuperativos, onde formaria quatro períodos em um ano. Pensou que com isso poderia melhorar alguma coisa em sua vida, mas sentia-se diferente, achava que a escola não era o seu lugar. A princípio não queria ir, mas, como não fazia nada o dia todo foi convencido pelos amigos. Na escola não entendia essas coisas complicadas de matemática. Fórmulas e mais fórmulas que não sabia onde usar no dia-a-dia. Não sabia para que estudar história. Saber do passado? “Eu quero saber é daqui para frente. No máximo, uns dez anos atrás e já está bom demais” – dizia João, convencido de que estava certo. “O que eu quero saber de Egito, Roma...?” Mas, o mais engraçado aconteceu em uma aula de português. João discutiu feio com o professor.
O professor estava ensinando verbos. O presente, o passado e o futuro. João já sabia disso, afinal, isso a gente aprende no dia-a-dia, mas, ele nunca falou “tu”, nem “vós”. Para que aprender? Já estava ficando nervoso, quando o professor explicou:
– O tempo presente é o que está acontecendo agora, o futuro é o que vai acontecer ainda, e o tempo passado, é o que já aconteceu. Todos estes tempos têm divisões. Por exemplo, no passado, se você vai falar que fez uma coisa, como se diz?
– Eu fiz... – responderam alguns alunos.
– Isso! E se você fosse fazer alguma coisa, mas por algum motivo não deu para fazer?
– Eu faria...? – gritou uma vozinha lá no fundo. – Isso mesmo.
Foi nessa hora que João se levantou.
– Eu não aceito isso, não – falou João.
– O que foi, João? – perguntou o professor.
– Eu não aceito esse passado que você falou.
– Passado Imperfeito? Ou Pretérito Imperfeito? Por que, João? – Porque agora eu posso tomar a decisão, ou eu faço ou eu não faço, mas, no passado, já passou. Como eu posso falar que faria? Eu estou mentindo... – João, isso é outra coisa. Nós estamos conjugando verbos.
– Mas, tem que ensinar direito. Acho que o imperfeito não participa do passado... – João, você não pode agir assim... Sempre, em toda a minha carreira de professor eu ensinei assim, todos os professores ensinam assim, por que isso de querer não aceitar?
– Por que eu não aceito... Posso? Acho que quem inventou isso fez de um jeito para ter uma desculpa. “Sabe, eu não pude ir à sua casa... Eu iria, mas chegou alguém lá em casa... Desculpa.” Professor, simplesmente, o que aconteceu? Eu não fui à sua casa. Chegou alguém em casa e eu não fui. Iria? Pode ser verdade ou pode ser mentira... Não deveria fazer parte do nosso vocabulário... Nisso, os outros alunos começaram a cochichar, uns concordando, outros discordando.
– Acho que a nossa acentuação também está errada – gritou alguém do meio dos alunos.
– E para que ficar colocando “esse” onde deve colocar “zê". – Parem com isso...! – gritou o professor.
Mas não tinha mais jeito. O caos estava formado. Criou-se um tumulto que o professor não conseguiu mais controlar. Ele não teve mais como terminar a aula, naquele dia.
João foi chamado à diretoria. Foi suspenso por uma semana para aprender a não ficar criando polêmica na aula e incentivando os alunos a ficarem contra o professor.
Tão pouco João ia à escola e quando ia, aconteciam essas coisas. Mas, neste dia, João resolveu não ir mais. Resolveu que deveria mudar o rumo de sua história, falar o seu português, e resolver os seus problemas do seu jeito. João continuava amigo de Zé Luiz, mas a sua turma estava maior. Percebeu que muitos amigos estavam se aproximando, cada um com tipo de problema. – Não sei o que é direito, só vejo preconceito – falou João para Zé Luiz. – Eu também, João. Eu também. O que podemos fazer? O sistema é assim... João há algum tempo passou a conversar mais sobre política com algumas pessoas influentes da cidade. Todas da oposição. João havia aprendido a entender alguns problemas sociais que ocorriam, como o que aconteceu com seu pai há alguns anos atrás.
– Ah! Sei lá... Acho que temos obrigação de fazer alguma coisa. Não podemos ficar sempre pensando só na gente. Eu acho que estou pegando um pouco daquele jeito do Robin Hood.
– Aquele do filme? – perguntou Zé Luiz.
– É... Estou achando que a gente deveria roubar dos ricos e dar para os pobres. – brincou João.
– Você está brincando, não é, João?
– Claro que estou. Já é perigoso a gente pegar estas coisas baratas que a gente pega, imagina se nós começarmos a roubar para os outros! Mas, acho que a gente tem que fazer alguma coisa.
João estava pensativo naqueles dias. Depois que abandonou a escola a sua mentalidade cresceu muito. Percebeu que com as palavras certas conseguia fazer os amigos a seguirem seus comandos. Estava se tornando um líder e não sabia.
– Zé Luiz. Aprendi a roubar para sobreviver. Aprendi o que era certo com a pessoa errada. Nada era como eu imaginava. Eu pensava na vida como uma brincadeira, nunca levei nada a sério. Agora estou pensando em algo grande. Você topa participar de um negócio grande?
- O que você está pensando, João?
– Estou pensando em invadir o prédio da prefeitura, de noite, e escrever umas mensagens nas paredes. Sabe... Falar que a gente existe. Zé Luiz era amigo de João até debaixo d’água. Ele nunca deixaria João fazer uma coisa dessas sozinho.
– João. Você é o meu melhor amigo. Nem sei desde quando estamos juntos. Vou com você até o fim do mundo, você sabe disso! Vai ser divertido! Ah, isso vai! – Então, vamos preparar as coisas, vamos fazer planos. Imagine como seria se aceitássemos tudo o que a sociedade nos manda fazer? Seríamos como robôs. Nós seriamos aceitos no meio deles só se fizéssemos o que mandam. – Mas, aí não poderíamos fazer tudo o que quiséssemos, não seríamos livres! – É isso aí, Zé Luiz! Vamos modificar isso!
Era uma quarta-feira. João planejou entrar na loja de tintas, à noite, roubar umas cinco latinhas de spray e depois irem à prefeitura, pichar. Já tinham escrito o que iriam pintar, em um pedaço de papel. Tudo estava certo. À noite, perto das onze, entraram na loja de tintas. Foi até fácil. Quebraram uma janela de vidro, destrancaram-na e entraram.
A cidade quase não tinha violência, nem roubos, o índice de arrombamentos era mínimo e quando ocorria algum roubo, geralmente eram roubadas coisas insignificantes, como o que estavam fazendo.
A população não vivia com medo. Nas cidades maiores era diferente. Pegaram as latinhas de tinta spray de diversas cores, saíram com cuidado e foram para a prefeitura. Sabiam que havia um vigia noturno, que mais dormia que vigiava.
Mas, neste dia, a sorte não estava ao lado deles. O vigia viu quando eles entraram no prédio. Acionou a polícia da cidade, que chegou em dez minutos. A polícia encontrou os dois marginais, mas eles já haviam pichado algumas paredes internas do prédio da prefeitura.
Quando foram levados para o carro de polícia, João percebeu que estava diferente. O ódio que ele sentiu durante toda a sua vida tinha mudado. Ele agora tinha ódio do sistema.
E mais ódio ele sentiu quando o prefeito o visitou no dia seguinte.
João e Zé Luiz estavam em uma cela da cadeia local. Esperavam que o prefeito os libertasse, já que não era uma coisa muito séria, afinal haviam pichado apenas a estátua do fundador da cidade, o cofre, e apenas três paredes. O atentado de João repercutiu por toda a cidade, alguns contra, outros a favor. Falavam sobre o João, o filho de um bêbado, que perdeu a vida depois de ser enganado pelo prefeito da época, tio do atual prefeito. O prefeito havia mudado, mas o modo de governo ainda era o mesmo.
Falavam sobre Zé Luiz, um Zé ninguém, ex-morador do orfanato. Falavam que, duas pessoas que não tinham eira nem beira tiveram uma atitude respeitável. Tentaram mandar uma mensagem que nem as pessoas mais experientes teriam coragem.
O prefeito ficou com ciúmes da repercussão do assunto. Ele sabia que, no futuro, teria problemas com esses garotos.
Depois de verificar que nenhum dos dois tinha família poderosa que pudessem prejudicá-lo politicamente, resolveu dar uma lição nos dois garotos. Iria deixá-los presos alguns dias e depois os libertaria, humilhados e sem coragem para fazer outro ato daqueles.
Encontrou os dois sentados no chão da cela.
– Quer dizer que foram vocês dois os safados que picharam a minha prefeitura? – perguntou o prefeito.
João levantou, abruptamente.
– Fui eu mesmo... Por quê? – respondeu, com ignorância. – Seu desaforado, isto vai te custar caro...
– É assim que funciona, não é? Vai custar quanto? Como eu sou negro e pobre, provavelmente eu devo pagar sendo o seu escravo... – Moleque atrevido! Você está enrascado e quer se encrencar mais ainda? – Encrencado ficará você quando o povo perceber quantas falcatruas você anda fazendo! – disse João, sem saber direito o que falava, acompanhando o discurso da oposição.
– Moleque safado – disse o prefeito. E, virando-se para o delegado, ordenou: – Mande este moleque para o reformatório, e este outro pode deixar dormir aqui uns dez dias, depois pode soltar.
Virou as costas para João e ia saindo, quando este gritou: – Um dia eu volto e vou te mostrar quem é safado, velho miserável. O prefeito não agüentou. Virou-se para João, furioso: – Você não sabe o que está falando. Olha para você. Olha onde você está, seu moleque. Você não vê que perdeu a guerra. Você não vê que sou eu quem manda aqui?
– Vocês venceram esta batalha. Quanto à guerra, vamos ver... – ainda gritou João, quando o prefeito já estava saindo.
João estava humilhado. O que fazer? Tudo deu errado, desta vez. Onde foi que ele falhou?
João se agachou em um canto, colocando a cabeça entre as pernas. Zé Luiz percebeu que o amigo estava sofrendo demais. – João, eu vou com você. Vou fazer confusão e vou com você... – Não, Zé. É preciso você ficar aqui. Apenas me espere, um dia eu volto. – Mas, quanto tempo será que você vai ficar lá? – Isto não importa. Fique aqui e faça alguma coisa para ajudar este povo explorado, estes coitados que são dominados e nem sabem disso. Igual foi meu pai, um dia.
– Mas, João, eu não sou igual a você. Eu durmo o dia inteiro, e aí, não é direito, porque quando escurece estou a fim de aprontar. – Mas isso vai acabar. Você está se transformando. Eu percebo isso. – Tudo bem, João. A partir de agora eu vou prestar mais atenção ao que acontece com o povo. Quando você voltar, nós vamos lutar contra isso que está aí.
João estava contente. Havia conquistado mais do que um amigo. Mas, no dia seguinte o tempo havia mudado radicalmente. Uma tempestade se aproximava.
– João, Deus mandou os seus anjos se despedirem de você. – Obrigado, Zé. Espero que seja Deus.
– Pára com isso, João. Vai ser por pouco tempo. Logo, logo, você estará de volta. – Assim espero, meu irmão. Assim espero...
Mas João estava morrendo de medo do que iria acontecer naquela mudança. Ele esperava que fosse uma coisa simples, mas estava com medo do que encontraria.
– Zé Luiz, lembra de quantos banhos de chuva a gente tomou? – Foram tantos, não é, João!
– Andar a pé, na chuva, às vezes, eu me amarro – disse João. – Eu gosto dos pingos da chuva, dos relâmpagos e dos trovões – disse Zé Luiz. E ficaram olhando a escuridão que se aproximava. – Sabe, João. A tempestade que chega é da cor dos teus olhos. João sabia o que Zé Luiz queria dizer. Estavam sozinhos, precisavam de carinho, mas, sem família, quem poderia dar? João percebeu que Zé Luiz não era mais um amigo. Era muito mais do que isso. Era o seu verdadeiro irmão. Era o irmão que nunca teve. E sabia que Zé Luiz também pensava assim.
– Zé, você será sempre o meu irmão. Onde eu estiver você será muito importante para mim.
– Você também, João. Eu gosto muito de você. – Zé, eu preciso ter amigos, eu preciso ter dinheiro, eu preciso de carinho. E chorou.
Um choro silencioso, que Zé Luiz percebeu entrando em sua alma. Era o choro de um herói. Um herói incompreendido. Dali a pouco a sirene tocava, indicando que João estava sendo levado para o Reformatório. A sirene anunciava para a cidade que o prefeito havia ganhado mais uma briga.
Era como se a sirene gritasse: “Eu sou o prefeito, sou todo-poderoso e vocês devem me obedecer”.
Mas, João e Zé Luiz prometeram mudar essa voz.