Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 26 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 24: - o Duelo

Natinho percebeu o que havia ocorrido assim que viu João saindo da casa de Maria Lúcia. Não quis conversar com João, porque sabia que o que ele falasse não ajudaria. Agora, só o tempo consertaria o seu coração. – Natinho, quem inventou o amor?

Natinho sabia que era uma pergunta sem resposta. – Vamos embora, João, tudo agora é coisa do passado. Foram para a Rodoviária, e pegaram o ônibus para Brasília. Tudo estava acabado. João sabia que tinha que começar uma vida diferente de tudo o que tinha. Não tinha mais o comércio, nem os amigos, e muito menos dinheiro e condições de reconstruir tudo. Só restava a João voltar a vender drogas, ou trabalhar.

Trabalhar, ele não conseguiria, mesmo porque continuava viciado. Vender drogas seria a solução.

Quando chegaram a Brasília, João procurou uma forma de fazer o seu próprio ponto de venda de maconha. Era um quartinho que não tinha nem camas. Tinha um colchão velho em cima de caixas de tomate, onde ele dormia, e ali mesmo ele passava a droga. Mas, cada vez estava ficando mais difícil, porque ele usava mais do que vendia.

João, naquela tarde teve uma surpresa muito desagradável. Jeremias foi visitá-lo.

– João, eu sei o que você está passando, e quero lhe oferecer um emprego. Você será chefe em um ponto de drogas. Que tal? – Jeremias, você deve ser muito burro em vir me oferecer uma coisa dessas? Você acabou com a minha vida e agora quer que eu me humilhe para você? Saia daqui, seu idiota!

Os dois capangas de Jeremias quiseram segurar João, mas Jeremias não deixou.

– Idiota é você... Você não vê que está acabado? Eu tomei tudo o que você tinha! Até a sua mulher... Ou você acha que eu amava Maria Lúcia? – Você acabou com a vida daquela mulher. – João estava vermelho de ódio. – A única mulher que eu amei de verdade. Uma pessoa boa, que não merecia nunca o que você fez com ela.

– É isso mesmo, João. Você viu que filho lindo. É a minha cara! Fiquei sabendo que nem isso você conseguiu...

João agora era só ódio e não conseguia se controlar. – Jeremias, vamos ver se você é homem. Amanhã eu quero te enfrentar em um duelo. Só eu e você. Quem for melhor, vence. O que você acha? Jeremias olhou para João naquele colchão, naquele quarto todo sujo, aquele idiota. João não tinha nem arma, com certeza.

– Está aceito, João, um duelo à moda antiga? Que legal, vai parecer um filme! – E escolha suas armas, seu porco traidor. Eu acabo mesmo com você de qualquer jeito.

– Amanhã eu lhe espero, João.

João não sabia o que estava fazendo, mas sabia que sua vida estava acabada, mesmo. Tinha fumado maconha, naquele dia, mas precisava de cocaína. Tinha um papelote. Esparramou sobre a cadeira e cheirou. Pegou o litro de conhaque, no canto da parede, e o bebia, quando olhou a sua televisão. Era um modelo bem pequeno, devia valer muito pouco, mas resolveu trocá-la por heroína. Ligou-a pela última vez. Já estava escurecendo, e ele viu o anúncio: “Amanhã, haverá o grande duelo. O faroeste caboclo ao vivo na praça Sete de Setembro, às duas da tarde.”

Como os repórteres sabiam do duelo? Isso era coisa do Jeremias. João pegou a televisão e assim que a levantou, encontrou, embaixo dela, um papelote de cocaína. Resolveu cheirar mais uma vez. Nem percebeu o efeito que aquele papelote fez. Era muita droga e bebida num dia só, e ele caiu em seu colchão, desacordado.

Só se levantou às dez e meia da manhã. João afobado, procurou Pablo. – Pablo, eu preciso de um revólver.

– O que você aprontou, João?

– Nada, não. Mas, confia em mim, pela última vez. Me arruma um revólver, preciso enfrentar um cara. Só Deus sabe se eu vou usar esse revólver, mas eu preciso.

Pablo também estava mau. A vantagem que estava tendo em relação a João era que não usava drogas. Conseguiu se libertar do vício antes que o mesmo dominasse sua vida. Haviam vendido todos os bens e perderam todos os pontos de droga para Jeremias.

Pablo estava penando em conseguir algum dinheiro para sobreviver, mas estava pensando em viajar para a Bolívia, tentar alguns contatos e recomeçar a sua vida. Tinha uma arma, a sua última. Resolveu emprestá-la a João. – João, eu só tenho essa arma. Você promete que me traz de volta? – Claro, Pablo, claro.

Pegou a arma e saiu. Precisava chegar à praça antes de Jeremias. Só que João não sabia que nesta mesma praça, uma rede de televisão estava filmando uma minissérie chamada Faroeste Caboclo, misturando o passado dos faroestes dos índios, e o presente, do faroeste dos bandidos, das drogas. Foi este anúncio que ele viu na televisão e imaginou que fosse a divulgação de seu duelo.

E João não sabia que Maria Lúcia havia se arrependido de tudo o que fez com João, e que tinha vindo à Brasília, à procura dele, para voltarem a viver juntos. E chegou a hora da disputa. João apareceu mais cedo. Jeremias apareceu um pouco mais tarde, acompanhado de diversos capangas. João sabia que de qualquer forma iria morrer.

Não sabia como lidar com a situação. A televisão filmava a minissérie. Ele estava do lado oposto da praça onde estava Jeremias. Jeremias já havia visto João, mas estava esperando as coisas acalmarem. Tinha muita gente na praça.

João se aproximou.

– Jeremias, seu safado, vamos começar nosso duelo – e sacou sua arma. Jeremias viu que a hora havia chegado. Pegou a sua arma, também. As pessoas que estavam perto acharam que era parte da minissérie. Um câmera desavisado começou a gravar o que se passava. O câmera filmou quando João virou as costas e Jeremias abriu um sorriso enorme. Apontou sua arma para João e disparou.

João caiu, atingido. Quando caiu, a sua arma voou longe. João sentiu que o tiro havia atingido um ponto mortal, mas ainda viu quando Natinho chegou acompanhado por Maria Lúcia.

– Me tire essa vergonha, meu Deus, me tire dessa vida – falou João, sentido a dor do tiro.

João não sabia se era o sol, mas ele via uma luz diferente em Natinho. Ele reconhecia que Natinho estava possuído por uma coisa muito boa. Ele conseguia sentir isso. Será que era o amor que Natinho tanto falou? Maria Lúcia o abraçou e chorou.

– Eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez. Acho que só agora começo a perceber tudo o que você me disse. Está mais certo do que eu queria acreditar. Você gostava mesmo de mim.

Viu Jeremias sorrindo sem perceber que ela retirava a Winchester 22 de um pacote e a entregava a João.

– Toma, João. Use a última bala como você queria e mude uma vida. Mate este idiota!

João olhou pras bandeirinhas que tremulavam ao vento. Olhou para o povo aplaudindo a cena, muito bem ensaiada, não sabendo que era de verdade. O sorveteiro, também sem saber da realidade, vendia sorvetes calmamente, tentando aproveitar o movimento maior naquele dia. E as câmeras da televisão agora estavam todas filmando os dois, com transmissão ao vivo para todo o Brasil.

João sentia a morte se aproximando. Viu seu pai correndo daquele policial. Reencontrou com Zé Luiz na beira do rio. Viu suas aventuras amorosas, as janelas que pulava, o reformatório, a política. Reencontrou com Seu Fernando na rodoviária de Salvador. E estava ali, agora, com o sangue na garganta, já sentindo que o final estava chegando.

Não se sabe de onde, João tirou suas últimas forças, agarrou a arma que Maria Lúcia lhe trouxe, engatilhou.

– Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é, e não atiro pelas costas, não. Vira para cá, filha da puta, sem vergonha, dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o seu perdão.

João deu cinco tiros em Jeremias. Seus capangas não sabiam o que fazer e fugiram, deixando o seu chefe, morto, estirado no chão. João de Santo Cristo caiu morto, com os braços abertos, como Jesus crucificado, com a Winchester 22 ao seu lado.