Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 15 de 27

Páginas do PDF

Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 13: - Primeira Vez no Inferno a Prisão

João não entendia onde haviam errado.

– O que deu errado? Onde vazou? – perguntava João, para Cláudio e Marcos, que iam no mesmo carro que ele.

– Alguém nos dedurou... – falou Cláudio, também sem entender. Eles não sabiam, mas o segurança que havia saído suspeitou do novo vigilante e acionou a polícia, quando chegou a casa. Era só uma suspeita, mas que resultou na prisão de todos os envolvidos.

O seu camburão chegou à delegacia. Com muita brutalidade, João foi fichado e levado para uma cela. Ninguém conhecia João naquele meio. Trataram como um criminoso normal. Não o reconheceram como o poderoso traficante, o todo-poderoso de Brasília.

Foi colocado em uma cela, onde passou todo o tipo de humilhação. A princípio apanhou tanto que pensou que ia morrer. Todos os presos antigos o humilharam. Faziam-no ajoelhar, davam tapas na sua cara, chutes em sua barriga.

Quase sem forças, ainda foi estuprado. Era a violência que ele não conhecia. Ouvia falar, sabia que existia, mas não conhecia. Dois dias depois ainda estava em estado de choque pelo que tinha passado. Só com a visita de seu advogado foi que souberam quem era João de Santo Cristo. Uma parte da cela simpatizou com João e outra parte não gostava, devido a algum problema que eles já haviam tido no passado. Os advogados de João tentavam a todo custo tirar João da prisão, mas estava difícil, já que a repercussão do roubo junto à mídia fora enorme. A notícia se espalhou como uma bomba no meio social. Diversos rapazes, ricos e de boa família haviam sido presos por roubo a uma fábrica. E nem se noticiou o que havia de tão importante na fábrica. A mídia falava de um roubo a fábrica de determinado político, mas não especificava o que havia sido roubado, quanto havia de dinheiro no prédio, nem dava maiores detalhes. É claro que os políticos manipularam as notícias.

Essa agonia durou quase um mês. Para ser exato, vinte e nove dias. Voltou humilhado para o Morro. Pablo ainda estava preso e o comércio havia parado. Todo o sistema de tráfico havia sido prejudicado devido a João e Pablo terem se afastado. Alguns funcionários ficaram receosos de que a polícia iria estourar o Morro, mas Natinho, assim que soube da prisão, mandou limpar completamente o prédio.

Natinho telefonou aos advogados, fez os contatos com outros estados e deixou tudo parado até que fossem libertados os seus amigos, o que esperava acontecer nos próximos dias.

Pablo foi libertado um dia após João. Um mês afastados fez com que João e Pablo repensassem o modo como viviam. Pablo se enclausurou. Parou de freqüentar as festinhas que aconteciam, e recusava a todos os convites que faziam. João, ao contrário, se revoltou. Queria matar a todos os que fizeram sua humilhação no presídio.

Natinho, que agora ficava ainda mais perto de João, tentava amenizar o ódio que João sentia.

– João, não vai adiantar nada. Você não vai conseguir voltar ao passado e curar as feridas.

– Mas vou fazer com que esses desgraçados não façam isso novamente com outros coitados.

– Você precisa se acalmar... – falava Natinho. – Acalmar? Você vai ver o que é se acalmar... Não estou preocupado com o que eles fizeram com meu corpo. Você acha que está doendo, que ficaram marcas? Natinho, é uma dor que dói no peito, dói no coração. E deu ordens:

– Natinho, quero saber quem estava naquela cela. Quero saber quem está do meu lado e quem está do outro lado. E quero o mais rápido possível. – Tudo bem, João, eu vou conseguir para você, fica tranqüilo. João sorriu. Já sabia o que iria fazer. Desceu ao escritório de Pablo. – Pablo, como estão os negócios?

– Sei lá, João. Só tem cinco dias que a gente saiu da prisão. Parece que o mundo deu uma guinada, perdemos alguns pontos, alguns que se diziam amigos fugiram, funcionários nos abandonaram. Está meio bagunçado. – E você, Pablo? – perguntou João.

– Eu? Sei lá... Tem hora que quero abandonar tudo e ir embora, tem hora que quero vingança... Ainda estou confuso...

– Pablo, eu vou aprontar para cima dos caras. Vamos? – Ah, João, eu estou fora! Faz o que você quiser, onde eu puder ajudar eu lhe ajudo, mas eu não vou sair dessa sala para fazer nada... João deu a volta na mesa, pegou na mão de Pablo e disse: – Pablo, você está conhecendo um outro João. A partir de agora eu sou outra pessoa e vou fazer de tudo o que for possível para me vingar daqueles safados. A primeira coisa que quero que faça é conseguir engrenar o Morro, novamente. Faça esta empresa funcionar.

– Quanto a isso, João, deixa comigo. Vamos ser maiores do que éramos. E voltaram ao negócio. Pablo tomou as providências necessárias para normalizarem as atividades do tráfico.

Os jornais, a partir deste dia e durante uns dois meses anunciavam em manchete uma série de crimes que estava acontecendo contra alguns bandidos da cidade. Só quem era mais chegado sabia que era João que estava se vingando. Um a um, aqueles que o humilharam na prisão, estava morrendo. E João fazia o serviço pessoalmente, dando o último tiro, em muitos casos. Natinho se transformou no braço direito de João, mas não concordava nem participava dos crimes que João andava fazendo. Quando João saiu da prisão, refez seu grupo, agora mais bem armado e com pessoas diferentes. Alex começou a participar mais ativamente do grupo. Leila e Alex acabaram o namoro, devido à série de problemas que eles já vinham tendo e por ela não aceitar a participação no novo grupo de João. Sabia que eles partiriam para uma violência maior do que estavam acostumados. E isso poderia ter conseqüências desastrosas. Aliás, o namoro já não estava tão legal, mesmo. Gabriela não mais se encontrava com João. Fez, com Leila, uma amizade enorme. Aonde uma ia, a outra estava também. – Gabi, você está tão triste – comentou Leila.

Estavam no Parque da Cidade, vendo os pássaros, e sentindo o sol bater em suas peles, mesmo com o frio que fazia.

– Sei lá... Estou me sentindo tão sozinha... – disse Gabriela. – Isso é paixão, Gabi – brincou Leila. – Sabe, eu fico pensando de vez em quando. Se um dia eu for rica, quero fazer que nem essas dondocas que existem por aí. Ir pegar os filhotes na escola. Ouvir Coltrane. – Fumar unzinho! ?! – riu Gabriela.

– Claro! Isso não pode faltar. O que você acha? – Você sabe que eu não faço mais isso, mas entendo muito bem... Acho que é um sonho secreto de todo mundo. Nunca pensei nisso. Nunca sonhei com esta liberdade.

Gabriela lembrou-se de João, do tempo que ele dava todo o seu amor para ela. Lembrou-se do tempo que tinha só um pouco de João, mas era melhor do que agora, que não tinha mais nada. Depois que João se envolveu com a sua vingança, não ligava mais para ela.

– Por que você ficou triste, Gabi? – perguntou Leila, vendo a mudança da amiga. – Ah... Nada não... Lembrei de bobagens... Do passado... – Do João?

O silêncio de Gabriela falava por ela.

– Adoro seus cabelos... – diz Leila, fazendo carinho em seus cabelos. – Adoro a tua voz. Por que será que você não dá sorte com nenhum cara? – Sei lá, devo estar agindo errado.

– Às vezes as coisas são difíceis, minha amiga... – Eu sei, Leila, eu sei...

– Sabe, Gabi, acho que eu preciso de um homem... – Ah, Leila, eu também!

E ficaram rindo do que falaram.

Enquanto isso, João conversava com Natinho, em sua casa. Eram quatro horas da tarde.

– Natinho, esses seus amigos vêm? – perguntou João. – Ficaram de vir, João. Você vai conhecer pessoas maravilhosas, você vai ver. – Só vou conversar com eles porque são seus amigos, senão, você sabe, esses negócios de compra e venda é lá com o Pablo. – Eu sei, João, mas o que lhe custa conversar com os caras. Eduardo e Mônica ficaram de visitar João, a fim de comprar uma casa. João e Pablo tinham bastante imóveis, alguns comprados e outros recebidos como pagamento do tráfico. Natinho era muito amigo do casal e fazia questão que João os conhecesse. Sabia que, para efetuar o negócio, nem precisaria da presença de João, mas achava que os dois eram uma boa influência na vida de João, que estava muito violento, ultimamente.

Às quatro e dez o casal chegou. Natinho os recebeu e os levou até João. – João, esse é o Eduardo, meu amigo que lhe falei. E esta é a Mônica, esposa de Eduardo.

– Oi, muito prazer. Como estão? – João os cumprimentou, cortesmente. – Tudo bem, João? Natinho nos fala bastante de você, e ficamos muito curiosos em lhe conhecer – falou Eduardo.

– Espero que esteja falando bem... – brincou João. – Claro – falou Mônica. – Se você soubesse como ele te idolatra... – Nem tanto – falou Natinho.

Conversaram sobre diversas coisas até que João puxou o assunto. – Eduardo, o Natinho falou que você está interessado em comprar uma casa. – Pois é, João, ele estava falando que você tem alguns imóveis para venda, e nós aproveitamos esta desculpa para te conhecer. – Você queria uma casa em que bairro? – perguntou João. – Na verdade, eu e a Mônica estamos montando um consultório. Uma coisa pequena, mas que tivesse a nossa cara. Não sei se você sabe, mas ela é médica e eu sou psicólogo. Resolvemos fazer um trabalho em conjunto, cada um saindo de seu emprego atual. Já estamos planejando isso há um tempão e só agora conseguimos juntar algum dinheiro para realizar. Nós queríamos trabalhar aqui perto, você tem alguma coisa?

– Tenho um ponto aqui perto que cairia como uma luva para uma clínica. E ficaram conversando sobre a localização do ponto, o que poderiam fazer, valores, etc. Até que Eduardo resolveu comprar o prédio. Estava tudo acertado. – João, você é muito simpático. Gostei bastante de você. Agora sei por que o Natinho vive falando seu nome – disse Eduardo. – Natinho fala demais – brincou João. – Mas o Natinho é meu melhor amigo. Gosto muito dele também.

E abraçou Natinho, levantando-o no ar. João era bastante forte e Natinho bem menor e mais magro. Sofreu nos braços de João. – E vocês, estão casados há muito tempo? – perguntou João.

– Já! Faz mais de dez anos que a gente mora junto. – Tem filhos?

– Temos gêmeos. Já tem nove anos. Dois meninos maravilhosos. E você João, é casado?

– Ainda não. Ainda não achei quem me tolere... – brincou. – Que é isso... Mulher chove nos pés desse cara... Ele que é durão e não quer ninguém – disse Natinho. – É um garanhão!

João sorriu.

– Mas estou esperando aquela que vai me prender. Dizem que todo sapo tem sua sapa.

– Ah, ah, ah... No seu caso seria o quê? Uma sapa linda? – falou Mônica. – Deixa disso, estou com ciúmes... – brincou Eduardo. – Mudando de assunto, vocês viram que chato o que aconteceu com o Johnny? – Muito chato. A gente tava lá, na hora do acidente, não é João? – falou Natinho. – É... Foi muito chato mesmo... O cara era muito legal, eu gostava para caramba dele.

– E a Lê, hein? – falou Mônica. – Estava com aquele segredo o tempo todo. Eu não sabia de nada. E olha que eu conversei bastante com ela e ela não me disse nada...

– Acho que ela deveria ter falado com o Johnny. O Johnny era um cara legal e iria entender. Acho que perdemos dois amigos por falta de diálogo. – Depressão é duro, gente – falou Natinho. – Eu tive uma crise no ano passado que eu vou falar para vocês, só quem passa sabe o que é. Eu só pensava em me matar. Achava que a morte resolveria os meus problemas. – Mas não adianta – falou João. – O suicídio não resolve nada. – Ainda estou com medo da Clarisse. Ela estava tão mal – falou Mônica. – Você encontrou com ela esta semana? – perguntou Natinho. – Esta semana, não. A última vez que a vi foi na época do acidente. – Ah, então você vai ter uma surpresa... – falou Natinho. – Ela melhorou bastante. Conseguimos, eu e o João, levantar sua moral. – Eu? – perguntou João, surpreso.

– Você está pagando o tratamento dela naquela clínica, você esqueceu? – Ah, é mesmo! Eu não sabia que era para ela... – E como você conheceu a Mônica – perguntou João, de surpresa para Eduardo. – Ah, faz tanto tempo – falou Eduardo. – Parece que foi numa festa... Como foi, Mônica?

– Esqueceu? Foi naquela festa do Jaiminho... – É mesmo! Fiz de tudo para chamar a atenção da Mônica. – A gente tinha tanta coisa diferente e acabou dando tudo certo. – João, essa menina me ensinou quase tudo o que eu sei – falou Eduardo, abraçando a Mônica. – Quando nos conhecemos ela era bem mais esperta que eu. Eu era um molecão. Ela é mais velha que eu, formou-se primeiro, já andava quando eu apenas engatinhava.

– Que engraçado! É mesmo? – perguntou João. – Se é? Ela fazia muitos planos, e eu só queria estar ali, sempre ao lado dela. Fui aprendendo os macetes da vida. A gente fez muita coisa juntos. – Evoluímos... – brincou Mônica.

– Já tivemos bastantes aventuras. Viajamos, fizemos cursos, um monte de coisa. Você viaja muito, João?

João parou e percebeu que não viajava, mesmo tendo tanto dinheiro. – Não, Eduardo, eu quase não viajo.

– Você precisa viajar. Você precisa conhecer o Brasil. Tem cada lugar incrível. Nossas praias, montanhas, vales, o Brasil tem tanta diversão. Já fizemos tanta coisa: voamos em balão, de asa delta, descemos corredeiras em caiaques. – Conta daquela vez que pulamos de Bungee Jump... – falou Mônica. – Foi lá no Ceará! Ela insistia que eu pulasse e eu insistia que ela fosse primeiro. Aí ela disse: “Você tem medo! ” e eu disse: “Quem tem medo é você! ”. Ficamos nesse empurra-empurra e o cara nos convenceu a pularmos juntos. Pulamos...

– ...os dois estavam morrendo de medo... – completou Mônica. – As minhas diversões eram diferentes – falou João. – Sempre fui beberrão, briguento e curtia outras coisas. Se fosse me lembrar do passado só podia me recordar da primeira vez que briguei, da primeira vez que bebi, etc. – E como foi a primeira vez que bebeu? – perguntou Eduardo. – Ih... Aquele gosto amargo ficou na minha boca por mais tempo do que eu gostaria... Foi terrível... – e todos riram.

– E vocês vão viajar este ano? – perguntou Natinho a Eduardo e Mônica. – Este ano, não. O nosso filhinho está de recuperação e nós não poderemos... Já pensou o que é uma família?

E todos riram.

– Eduardo, vamos embora? – perguntou a Mônica. – Ainda é cedo! – falou João. – Gostei muito de vocês. – É que a gente ficou de ir ao cinema – falou Mônica. – Que horas são, Edu? – Já são quase nove. Nossa! Como o tempo passou rápido! – Vamos perder o filme...

– Calma. A gente chega na sessão das dez...

– Está cedo ainda...

– Está nada, João! Precisamos ir, sim...

– Então apareçam mais vezes. A gente precisa se conhecer mais... – Tudo bem!

– Então você vem no dia que marcamos com o Pablo para acertarmos tudo sobre a casa, ok?

– Ok, João.

E despediram-se.

– Natinho, que pessoas legais! Se você tiver mais amigos assim, eu quero conhecer. Parece que a gente nem vive do modo que vive. São tão alegres, né? – E como são, João. Mas todos nós podemos ser assim, basta querer... – Tenho algumas coisas a fazer, Natinho, mas, neste verão nós vamos viajar. Vamos para uma praia na Bahia. Que tal Porto Seguro? – Não conheço Porto Seguro...

– Então vamos nós dois... Neste verão nós vamos para Porto Seguro.