Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 21: - João e o Traidor
No dia seguinte quase todos tiveram alta, da clínica. Apenas Mundo continuou internado, para acompanhamento, mas já estava bem melhor. João marcou uma reunião com todos os seus vendedores, todos os que participavam da gangue, todos os funcionários dos andares de baixo, como ele falava.
No dia seguinte, às nove da noite, todos estava lá. Reuniram-se nos pavimentos subterrâneos, onde era controlada a droga.
João começou falando.
— Pessoal, eu estou bem, passei por uma tentativa de assassinato, mas está tudo bem. Alguns aqui estavam comigo, naquele dia. Foi um negócio muito sério, que me ensinou muito.
— Eu estava ferido, no meio de uma construção, num lugar sem segurança nenhuma, e via a morte se aproximando. Neste momento eu percebi o que é morrer. Eu nunca vivi pensando em morrer, pelo contrário, tomei algumas decisões pensando ser imortal.
— Mas, naquele momento, fiquei com medo. Percebi que estava levando alguns de vocês comigo, só por amizade, e outros, por poder, dinheiro, e sei lá o que vocês pensam. Cada um pensa uma coisa. Mas, naquele dia eu vi amigos e inimigos. E também, vi amigo que era inimigo. E fiquei com medo. Fiquei com medo de confiar em todo mundo. Eu tenho todos os defeitos que um homem pode ter, mas sempre confiei em quem está do meu lado. — E quase morri por isso! .
João parou um instante de falar. Respirou. Tudo estava calmo quando começaram uns burburinhos no salão. Alguns entendiam o que João estava falando e outros estavam completamente perdidos. — Primeiro, quero falar com vocês que estamos numa concorrência muito séria, contra um outro grupo que vocês conhecem. O Jeremias está crescendo demais. Eu quero falar para vocês que estamos reduzindo a nossa produção. Agora vamos trabalhar com menos produtos, devido a alguns probleminhas que tivemos.
— Devido a isso, dou todo o direito a vocês para decidirem o que querem fazer. Se vocês quiserem ficar comigo, eu ficarei muito feliz, mas não teremos mais o modo de trabalho que tínhamos. Teremos que ficar mais vigilantes, devemos andar armados, preparados para todo o tipo de surpresa que possa ocorrer. — Quem quiser ir embora, não há problema. Eu só não quero que fiquem insatisfeitos. Se vocês estiverem aqui, devem se dedicar totalmente ao nosso negócio. Ao contrário, se pensam em dividir as atenções entre eu e Jeremias, queiram ir embora. Tem gente que está do meu lado, mas deveria estar do lado de lá. Eu não vou ficar chateado. Eu prefiro isso, a ter que tomar decisões mais sérias no futuro, se é que vocês me entendem. — Não precisam ir agora. Amanhã, quem não vier trabalhar preferiu o outro lado, ok? É só isso! .
— Era o que tinha para falar nessa reunião — disse João. Foi uma reunião rápida. Formaram alguns grupinhos que ficaram discutindo o que fariam. Cada um tinha a sua opinião. Alguns eram mais corajosos, outros nem tanto. Sabiam que o império estava desmoronando, mas tinham receio da decisão que tomariam.
Aos poucos foram indo embora. Inclusive Alex, que ficou meio escondido durante toda a reunião. Não foi como no passado, quando ficava sempre perto de João. Alex já ia saindo, quando dois rapazes impediram a sua saída, falando que João queria conversar com ele. Ele voltou-se e viu João acenando, chamando-o. Os rapazes o acompanharam.
Foram para uma salinha, em separado. Nesta salinha estavam presentes Natinho, Pablo, João e três rapazes, que agora acompanhavam João em todos os momentos.
— Alex, quero te fazer umas perguntas — falou João. — O que foi, João? — perguntou Alex, assustado. — O que aconteceu naquela noite? Por quê você errou tantos tiros? — Eu não errei não, João... Sei lá, se eu errei, eu estava nervoso... Não sei o que aconteceu...
— Eu sei o que aconteceu. Como você pôde me trair dessa forma? — Trair? Eu nunca traí você, João.
— Eu mandei seguirem você, Alex, e sei tudo o que anda fazendo. Foi você que passou tudo o que iria acontecer naquela noite. Foi por isso que estava tão fácil no começo. Eu quase morri a menos de trinta e duas horas atrás e você é o culpado. Você queria que eu morresse...
— Eu não fiz nada disso, João.
— Alex, eu sei de tudo. Você me deu sua palavra de confiança, e agora apronta isso?
— Eu não fiz nada, João, pelo amor de Deus. Se dez batalhões viessem à minha rua, e vinte mil soldados batessem à minha porta à sua procura, eu não diria nada... Eu te dei a minha palavra!
— Seu interesse é só traição... E mentir é fácil demais! João deu o primeiro murro, que acertou no estômago de Alex. Este caiu gemendo no chão.
— Quando eu penso no que você fez, eu tenho febre... E chutou o rosto de Alex. Alex tentou se levantar mas tomou alguns murros dos seguranças de João. — Parem! Levantem-no!
Levantaram Alex, que não conseguia ficar em pé. Alex sangrava pela boca. João, sem dó puxou os cabelos de Alex, levantando sua cabeça.
— Veja bem quem eu sou, desgraçado! Você nunca mais vai trair ninguém! — João... Eu juro... que... nunca mais... faço isso... Eu não sei... mais mentir... Alex falava, e o sangue escorria de sua boca.
— Beba desse sangue imundo.
João levantou a cabeça de Alex, fazendo ele se engasgar com o próprio sangue. Soltaram Alex, que caiu no chão, sem forças. João puxou o seu revólver. — Alex, você nunca mais vai trair nem mentir para ninguém. E deu o tiro final. Alex estava morto.
João sentiu a morte de Alex. Tanto que confiou neste rapaz e ele fez isto com João. A partir deste dia João não conseguiu confiar em mais ninguém. Nem em Pablo, nem em Natinho, em ninguém. João passou a beber com mais intensidade, enquanto usava drogas mais pesadas. Passou a ser viciado em heroína. Enquanto isso, Jeremias tomava cada vez mais o poder. Metade dos funcionários de João pediram afastamento, principalmente quando souberam o que aconteceu com Alex. João tinha muita rivalidade com Jeremias.
Certa vez conseguiu escapar de um atentado contra seu carro, por milagre. Quando parou num sinal, uma moto com duas pessoas parou ao lado e dispararam diversas vezes contra o carro de João. Neste atentado morreram dois seguranças de João, mas, milagrosamente João não foi atingido. Em outras ocasiões aconteceram fatos semelhantes. E sempre quando João tentava eliminar Jeremias, percebia que não tinha poder para isso. Dessa forma, João se trancou em casa. Bebia e usava drogas, e começou a se afastar da vida. Um dia estava tão mal, que não conseguia reconhecer nem Natinho, nem Pablo.
— João, você está bem? — disse Natinho.
— Oi... Estou... bem... Muito bem... Quem é você? — Você não se lembra de mim, João?
— Esqueci seu sobrenome, mas me lembro de você... — João, eu sou o Natinho...
— Escrevi seu telefone num pedaço de papel... Você conhece essa música? No dia seguinte, João estava melhor. Natinho e Pablo ficaram com ele durante toda noite. Tiraram toda a droga do apartamento e forçaram João a não usar drogas, nem beber. Foi difícil, mas João estava tão debilitado que não reagiu. João ainda tentou se recuperar, mas, quando viu uma pichação na parede do Morro, ficou desesperado. A pichação escrevia: “OS TAMBORES DA SELVA RUFARAM: A COCAÍNA NÃO VAI CHEGAR”. — Pablo, tudo o que vier agora, vai começar a ser o fim... — É, João, eu não tenho esperanças de melhorar nada. — Pablo, vou ficar uns dias numa clínica, para desintoxicar. Você me ajuda. Administra o que resta?
— Vai, João. Você está precisando. Não temos muita coisa, mas eu tomo conta. E João foi para a clínica, com toda a ajuda de Natinho.