Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 20: - João Contra Jeremias - a Emboscada
João andava sempre em bando. Tinha um grupo de pessoas que andava sempre juntos. Sabia da necessidade da união, se quisessem permanecer vivos. João passou a receber a visita da polícia mais vezes em seu prédio. E, nem sempre era avisado de que o pessoal viria. Quando ia conversar com os policiais que eram seus informantes, eles falavam que João não estava mais colaborando como antigamente, e que precisavam de dinheiro para poder trabalhar. João sabia que não pagava tanto como antigamente, mas percebeu que o que ocorria era que Jeremias pagava mais do que João, e comprou a todos. De vez em quando, João ia parar na prisão, mas no mesmo dia voltava para casa devido a um bom trabalho de seus advogados. Era uma briga de gato e rato. Mas Jeremias estava por cima e não passava por isso. Os mesmos informantes de João agora estavam com Jeremias.
João se aprofundava cada vez mais nas drogas. Havia usado heroína algumas vezes, mas conseguiu escapar do vício. Maconha e cocaína eram iguais a comida para João. Usava diversas vezes por dia. Bebia regularmente. Voltou a ter a vida que tinha no passado, antes de morar com Maria Lúcia. Numa dessas noites, João teve a idéia de fazer um ataque surpresa a Jeremias. Iria invadir cinco pontos de drogas ao mesmo tempo, já que todos os cinco eram próximos.
Reuniu o pessoal, para combinarem.
Todos estavam presentes em sua casa, naquela noite. João, Pablo, Alex, China, Mundo, Rodrigo, e mais os rapazes que serviam de força de frente para João. – Resolvemos fazer um ataque surpresa – disse João. – Vamos pegar Jeremias e sua turma de surpresa. Vai ser amanhã à noite. Nós vamos invadir cinco pontos ao mesmo tempo. Nós vamos mostrar para esse cara que ainda somos fortes. Colocou no papel toda a sua estratégia. Todos deram opiniões, falando sobre o que podia acontecer, onde estava o perigo, e ao final, concordaram com uma estratégia em que corriam pouco risco de serem pegos. Como iriam atacar perto, resolveram dividir o grupo. João, Alex, China, Mundo e Rodrigo iriam atacar dois lugares. Os outros rapazes atacariam outros dois pontos. Iriam se juntar em determinada rua que era comum aos dois pontos e iriam, todos juntos, atacar o último lugar, onde Jeremias costumava ficar, pois era perto de sua boate preferida. Pablo não participaria. Ficaria no Morro, comunicando-se com os dois grupos, prestando assistência, caso fosse necessário.
Tudo estava acertado para o dia seguinte.
No outro dia, passaram o dia preparando as armas, compraram munição e fizeram os últimos preparativos para tudo dar certo. Quando a noite chegou, todos se reuniram no Morro. À meia noite em ponto foram atacar. Chegaram a determinado lugar e se dividiram. Dois carros para cada grupo.
O grupo de João chegou ao primeiro ponto que ia atacar e teve uma surpresa pela facilidade que encontrou. Encontraram apenas duas pessoas no ponto, que não ofereceram resistência. João os amarrou, saqueou o que havia no prédio, levando dois revólveres, alguma droga e todo o dinheiro que havia. O que João mais queria era desmoralizar Jeremias.
Saiu do primeiro ponto e foi para o segundo, que ficava a três quadras de distância. A facilidade foi a mesma. Ficou admirado como Jeremias não se preocupava com esse tipo de segurança.
Mas João estava enganado. Tudo não passava de uma grande tramóia. Quando João saía do ponto, em direção aos carros, sentiu que alguma coisa estava errada. Ainda dentro do ponto, viu que um dos seus parceiros estava tenso. – Alex, o que foi? Não está passando bem?
Alex olhou para os lados.
– Não é nada, João, só estou com um mau pressentimento. – Vamos embora – disse João.
Quando já estavam na rua, para entrarem no carro, João ouviu o barulho dos primeiros tiros. Alguém estava atirando.
João conseguiu se arrastar pela rua, mas quando já ia entrando no carro, percebeu que China, o seu motorista, havia sido morto, com a garganta cortada, sentado no banco do motorista. Neste mesmo momento aconteceu uma rajada de tiros no seu carro. Não o acertou por milagre. – Vamos, para o matagal.
Pularam os quatro para o matagal. João, Alex, Rodrigo e Mundo. Todos bem armados, conseguiram desvencilhar das balas e cambalear até atingir uma casa em construção. Na casa, percebiam que estavam sendo cercados. – O que aconteceu, João? – perguntou Rodrigo. – Acho que caímos numa emboscada. Não sei direito. Alguém está ferido? – Eu estou – respondeu Mundo.
Só aí João percebeu o risco que corria. Mundo havia sido acertado no ombro esquerdo e sangrava um pouco. Nenhum dos outros havia se machucado. – Você tinha razão, Alex, havia alguma coisa errada. Alex ficou calado. Ainda estava tenso e João percebeu isso. João viu muito mais do que estava acontecendo. Naquele momento João entendeu tudo, mas não podia se precipitar.
De repente veio a rajada de metralhadora, acompanhada por diversos tiros, de todos os lugares. João e seus amigos abaixaram-se. Os tiros pararam. João se levantou um pouco e viu alguém se mexendo. Com apenas um tiro João o acertou. Era um dos capangas de Jeremias, que caiu com um tiro na cabeça. João sabia atirar muito bem.
João pensou que seria um bom lugar para testar a Winchester como nos filmes de faroeste.
– João, eles são em quantos? – perguntou Rodrigo. – Não deu para perceber, mas são quase em dez. Acertei um. Vamos reagir. Precisamos nos defender até que os outros rapazes sintam nossa falta e nos resgatem.
E assim fizeram.
Jeremias não contava com aquela casa em construção. Tinha escolhido o lugar exato para acabar com a vida de João, mas não contava com aquele esconderijo. Jeremias já sabia de todo o plano de João. O seu informante o havia avisado. Tudo estava certo para acabar com João. Ele equipou os seus dez melhores homens, os colocou em pontos estratégicos, mas, mesmo assim, João conseguiu escapar do primeiro ataque. Mas eles iriam pegá-lo ainda, era só questão de tempo.
Jeremias deu o apoio ao pessoal e recuou. Não podia arriscar a sua vida. E tinha os melhores homens, os mais bem pagos. Era uma questão de tempo para tudo acabar bem para a sua turma.
Quando o grupo que foi atacar a outra turma fizesse o serviço, voltariam para onde estava João e acabariam com ele.
João, não sabendo de onde, tirou toda a calma do mundo e ficou esperando o ataque de Jeremias. Se a sua outra turma não chegava era porque eles haviam sido mortos. Já era quase quatro horas da madrugada e eles estavam ficando cansados.
João foi onde estava Mundo, o único ferido do grupo. – Como você está?
– Estou só um pouco cansado, não sei se isto termina logo... Meu joelho dói... João percebeu que, além do tiro no ombro, Mundo havia sido atingido na perna, de raspão.
– João, estamos perdidos. Não vamos conseguir escapar dessa... – disse Mundo. – Como eles nos descobriram?
– Eu não sei, Mundo, eu só sei que Jesus foi traído com um beijo. Mundo entendeu o que João queria falar. Só não percebia que o traidor estava muito perto e escutava tudo o que João falava. Ainda estavam conversando quando João percebeu que eles começaram a se movimentar mais do que o normal.
– Presta atenção – falou baixo. – Estão preparando alguma coisa. Foi só falar que começaram a atirar. João percebeu que dois deles estavam tentando se aproximar pelas costas. Um tiro de João e outro de Rodrigo conseguiram derrubar os dois.
O tiroteio cessou.
– João, estou sangrando muito. Acho que estou morrendo. Tudo está perdido... – disse Mundo.
– Quando tudo está perdido sempre existe uma luz – disse João. – Resista, Mundo, eu preciso de você, aqui, do meu lado. Aquilo foi um grande estímulo para Mundo. Recuperou suas forças depois das palavras de João.
– João, quem é o inimigo?
– Eu já estou em dúvida. Eu sei que o Jeremias está envolvido nisso, mas quem mais poderia estar contra a gente?
– Será que vamos conseguir vencer? – perguntou Rodrigo. João não respondeu.
– Sabe o que estou pensando? – falou João. – Eu sempre gostei de faroeste. Lembra de quando os índios ficam cercando os mocinhos? Estou me sentindo assim.
– Isso não é hora de brincar, João.
– Mas o que eu mais gostava era que os mocinhos sempre ganhavam dos índios. No final todos os índios eram mortos.
Pela primeira vez em sua vida estava ficando com medo. Já estava quase amanhecendo e nada de ajuda. De vez em quando havia uma troca de tiros, mas nenhum dos dois grupos conseguia tirar alguma vantagem. João lembrou-se da droga que haviam encontrado no ponto de Jeremias. Procurou o pacote. Não encontrava...
– Alguém de vocês tem cocaína? – perguntou. Alex tirou um papelote do bolso e entregou a João, que o usou imediatamente, recuperando uma força que estava quase perdida. Levantou-se, inesperadamente, gritando.
– Quem é você? Acabe logo com isso...
Nem bem acabou a frase, começou uma chuva de balas. João foi acertado no braço direito e na perna. Caiu imediatamente. Aos poucos os tiros foram parando.
– João, você está bem? – perguntou Rodrigo.
João apenas gemia, sentindo a dor do ferimento. – Você teve sorte, João, foi só de raspão.
– Não sei mais se é só questão de sorte. Pode até ser. Mas eu estou pronto para outra...
João se arrastou e pegou sua arma. Mirou em algo que ninguém via, apenas ele. Atirou e viu alguém gritando.
No mesmo instante o restante do grupo voltou a atirar. O dia ia amanhecendo, quando Alex resolveu assumir o grupo, já que João não estava bem.
– Vamos nos preparar para fugir.
– Eu não posso andar – disse Mundo. – Eu vou ser baleado se tentar me mover.
– A noite acabou. Talvez tenhamos que fugir sem você. João escutou aquilo e reagiu.
– Alex, deixa de covardia. O que você quer? Que acabemos mortos? – Mas, João, e se nada acontecer? Vamos ser alvo fácil daqui a pouco. – Será que nada vai acontecer? – disse Rodrigo. – Eu acho que vai acontecer algo muito bom – disse João. – Algo me diz que nós vamos sair vitoriosos.
– Isso é impossível, João, se continuarmos assim... Não temos chance! – falou Alex.
– Eu já disse: quando tudo está perdido sempre existe um caminho. Neste momento eles viram uma movimentação do pessoal. De repente alguns tiros, e começou um grande tiroteio.
João e os rapazes viram alguns dos seus inimigos se aproximarem, assustados, olhando para frente e para trás, e a saída era atirar. E matar. A cavalaria havia chegado.
Pablo foi o primeiro a se apresentar, acompanhado de Natinho. – Vocês estão bem? – gritaram.
– Estamos feridos, venham aqui.
Pablo sentiu que as coisas não haviam corrido como o planejado, ligou para Natinho, que rapidamente recrutou cinco amigos de alguns pontos de João e foram socorrer os amigos. Foram ao ponto em que estava a outra turma. Dois dos rapazes foram mortos, outros três estavam feridos e apenas um saiu ileso. Pablo chegou com o pessoal na hora que os rapazes já estavam quase ganhando a batalha, mas conseguiram ajudar no desfecho. Rapidamente foram onde estava João, e aos poucos, sem os rapazes perceberem, se aproximaram, devagarzinho, até pegar todo mundo de surpresa. – A gente não queria lutar. Agora veja quantos corpos no chão – disse Natinho. Eles haviam assassinado todos os membros da gangue de Jeremias que participaram da emboscada.
João ficou muito feliz com a chegada de Pablo e realmente não esperava que o amigo, pessoalmente, fosse defendê-lo. Foram levados a uma clínica de um amigo de João, onde ele tinha certeza que estariam protegidos, tanto da polícia quanto da gangue de Jeremias.
Doutor Euclides, pessoalmente, os atendeu.
João estava com um ferimento de bala no braço e outro na perna. Mas, ambos eram superficiais. João não corria risco de vida. Mundo estava ferido com mais gravidade. Os seus ferimentos eram mais sérios e foi conduzido para a CTI da clínica, para um acompanhamento mais sério. Alex e Rodrigo não se feriram na emboscada. China havia sido morto, ainda no carro.
Na outra turma, dois haviam morrido na hora do ataque. Três estavam feridos superficialmente e um saiu ileso.
Pablo, Natinho e os seus cinco amigos estavam bem. João e seus amigos feridos ficaram alguns dias na clínica, até se recuperarem totalmente.
Pablo e Natinho visitavam João e seus amigos todos os dias. Ficavam horas conversando. Em uma dessas visitas João abriu os olhos de Pablo. – Cadê o Alex, que ainda não veio nos visitar? – perguntou João. – Apareceu lá hoje, de manhã. Apenas perguntou como vocês estavam. Parecia meio perdido. Será que ficou chocado com o que aconteceu? – Fica de olho. Estou desconfiado de que ele está entregando nosso jogo para Jeremias. Manda alguém segui-lo. Enquanto eu estiver aqui, disfarçadamente, mande alguém ver o que ele anda fazendo.
– Deixa comigo, João. Vou fazer isso, hoje ainda. Como você desconfiou? – Ele ficou muito estranho todo o tempo da emboscada, parecia perdido. Percebi que ele atirava a esmo. Não acertou ninguém. E, também, estava com o bolso cheio de cocaína. Ele tava querendo passar a perna na gente. Fica de olho. E Jeremias ficou e descobriu que Alex teve um encontro em um dos pontos de droga de Jeremias. O seu comportamento estava muito estranho. Mesmo assim, Alex voltou ao Morro, hoje pela manhã.
No outro dia, Pablo e Natinho voltaram à clínica. Quando estavam chegando, viram uma gritaria.
– O que está acontecendo? – perguntaram para a enfermeira. A enfermeira Simone, vinha sorrindo pelo corredor. – Todos os doentes estão cantando.
Era típico do João Irreverência. Depois de tanto sufoco, tanta violência, e ele, rindo.
– Agora chegou a hora da injeção. Vamos lá? – Simone brincou com os dois. Entraram na enfermaria. Todos cantavam e João mudou a letra da música, para homenagear a Pablo. Falava algo sobre o heroísmo de alguém que venceu uma guerra.
– Vamos acalmar, chegou a hora da injeção – disse Simone, pegando no braço de um dos rapazes. – Esse aqui é difícil, não tem mais lugar para as agulhas entrarem...
– Aplica na testa... Não é de graça? – brincou João. E todos ficaram rindo. – Tanta doença e vocês ficam aí, rindo?
– E quem sabe não serão nossos últimos momentos divertidos? – falou João. – Só por Deus! – falou Simone, balançando a cabeça. Simone aplicou as injeções e saiu. Pablo conversou com João. – Realmente, você tem razão sobre aquele assunto. É fria! Mas, ele está dos dois lados.
– Deixa comigo! Amanhã a gente vai ter alta e aí eu vou acertar com ele.
– Vamos pensar nisso, depois, não vamos falar para os outros ouvirem – disse Pablo.
E escutaram os outros conversando como foi o tiroteio. – Legal foi quando o João se encheu de coragem e gritou no meio do tiroteio: “Quem está aí? Quem é você?” E aí choveu um monte de bala nele, falando quem eles eram.
E morriam de gargalhar.
– Foi a cocaína. Eu fiquei doidão.
– Eu só sei que não entendi nada. Vi você se levantando, gritou e de repente vi você cair. Achei que você iria morrer ali.
E ficaram conversando bobagens.