Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 12: - Algumas Aventuras
João era um negro bonito, alto, forte e sempre bem vestido. Usava roupas caras, tinha carros novos e convivia com os figurões da cidade. Suas conquistas amorosas eram inúmeras, mas algumas eram marcantes. As mulheres sempre viviam atraídas pelo poder, mas no caso de João era o conjunto da obra. Status, dinheiro e carinho. A fama de João como um verdadeiro garanhão era espalhada à medida que ele conhecia mais e mais mulheres. Solteiras e casadas o procuravam, mas João tinha o cuidado e o caráter de respeitar algumas escolhas: não saía com mulheres casadas e moças virgens. No mais, era extravagante. Saía com mais de uma mulher ao mesmo tempo, contratava festinhas com prostitutas e realizava as fantasias que o dinheiro permitia.
Ao mesmo tempo em que suas conquistas cresciam, mulheres e moças disputavam a sua presença. E muitas brigaram por sua causa. João, ao contrário, não se envolvia seriamente com nenhuma delas. Sempre tinha alguma preferência, mas não se completava com nenhuma, a ponto de querer um compromisso mais sério.
Gabriela era uma das preferidas: morena, alta, corpo escultural, dezoito anos. Apaixonou-se por João quando o viu em sua festa de aniversário. Foi amor à primeira vista. Pelo menos por parte dela.
Estavam envolvidos a pouco mais de seis meses. Nos primeiros dias era tudo muito forte, muito romântico, até que uma noite Gabriela se declarou para João, falou que estava apaixonada por ele. O tiro saiu pela culatra. João não queria envolvimento sério com nenhuma mulher e se afastou aos poucos. Mesmo assim, mantinha encontros com Gabriela, mas nada tão sério. Gabriela participava das festinhas que João fazia. Não precisava nem ser convidada que já estava lá, maravilhosa, linda, em seus vestidos colados, com adornos de ouro, que o próprio João lhe havia dado. – João, eu me apaixonei por você. Não sei viver sem você! - Gabriela se revela a João.
– Eu também te amo, Gabi - João falou sem emoção, enquanto vestia suas roupas, preparando-se para mais um dia de trabalho. – Não vá embora, fique um pouco mais. Ninguém sabe fazer o que você me faz. – É exagero... – disse João.
– Pode até não ser. O que você consegue, mais ninguém sabe fazer. – Deixa disso! Eu sou um cara normal. Você é que é maravilhosa. Linda, gostosa e perfeita. Você sabe satisfazer todas as minhas vontades. Você vai arrumar um cara e será muito feliz.
Gabriela não queria ouvir aquilo. Queria que João fosse esse cara, mas sabia que precisava ir aos poucos, conquistando, se aquilo fosse o que o destino houvesse preparado para ela. Precisava manter a calma. – João, como você aprendeu a ser tão experiente? – Ah, sei lá! Sempre fui meio malandro, desde cedo eu já aprontava com as menininhas da cidade onde eu morava. Mas, uma coisa que me marcou muito e que ficou na minha cabeça foi a vez que um bêbado me falou, quando eu morava na Bahia.
– O que ele falou? – perguntou Gabriela.
– Simplesmente: “Quando você for transar, observe estas quatro regras: não tenha medo, não preste atenção, não dê conselhos e não peça permissão”. E eu tenho tentado seguir isso. Não tenho medo de enfrentar nenhuma mulher, nem topar qualquer desafio que ela fizer. Não presto atenção em mim, nem me preocupo com resultados, faço primeiro para a mulher, depois para mim. Não dou conselhos, porque eu acho que cada um sabe o que pode e não pode fazer. E faço tudo, na hora que tenho vontade, sem pedir permissão. Já pensou: Amor, posso beijar sua boca? Seria ridículo.
– Onde mora este bêbado? Tenho que agradecer a ele... – brincou Gabriela. – Longe, muito longe... – João se lembrou da Bahia. Há tanto tempo... Gabriela lembrou-se da primeira vez. Estava linda. Sabia do seu poder de sedução, e foi fácil seduzir João, o conhecido garanhão. A primeira transa foi apenas uma semana depois que eles se conheceram. Ela não era mais virgem, mas não era tão experiente. Lembrou-se da conversa, ainda na cama. Ele só a conhecia por Gabi. – Qual o teu nome?
– Gabriela.
– Qual o teu signo?
– Virgem.
– Quem modelou teu rosto?
– Meus pais. Me fizeram com tanto carinho...
– Teu corpo é gostoso...
– Você também é o máximo...
– Teu rosto é bonito.
E a beijou demoradamente. Parecia que nunca haveria um fim. Mas houve. Não um fim como nos filmes de romance, mas um afastamento devagar, pouco a pouco, por parte de João. Foi nessa época que Gabriela conheceu Leila.
Gabriela participava da gangue de João, mas não negociava drogas. João, a princípio, não permitiu que ela controlasse nada no Morro. Depois de algum tempo, deixou que ela fosse fazendo trabalho de suporte, posteriormente a contratando como auxiliar, mas a colocou para trabalhar diretamente com Pablo. Leila era uma menina muito bonita, comunicativa, que rapidamente conquistou Gabriela. Fizeram uma grande amizade e no Morro, era a melhor amiga de Gabriela.
Um mês depois, João ficou curioso com aquela garota que estava freqüentando suas festinhas como convidada de Gabriela.
– Quem é essa garota, Gabi? – perguntou João. – Ela é a Leila. Ela me disse que trabalha nos Correios. – Ela é bonita. Vamos precisar dela para um trabalho. Será que ela topa? – perguntou João.
– Ela é legal. Compra do nosso pó, mas não é viciada. Compra mais para o namorado.
– Ela tem namorado?
– Ela namora um menino eletricista. Estão falando em casamento, mas ela me disse que não quer se casar.
– Por quê?
– Não tem certeza... Ainda é nova. Não tem certeza de que quer viver o resto da vida com esse cara.
– Quero conhecê-la. Quero que me apresente... – pediu João. Gabriela foi até a Leila, conversou com ela e voltaram. – João, esta é a Leila.
– Prazer, Leila, seja bem vinda – disse João.
– O prazer é meu, João. Obrigada.
– O que você faz da vida, Leila?
– Eu trabalho nos Correios. Vivo andando para cima e para baixo. – É mesmo. Qual o bairro que você trabalha.
– Aqui no centro mesmo.
– Você quer fazer um bico para a gente? – perguntou João. – Um bico? O que você quer dizer com isso?
– Ah, estou com uns planos, gostei de você, mas depois a gente conversa melhor, falou?
– Tudo bem. Foi um prazer.
– Para mim também. Fique à vontade. Vou conversar um pouco com a Gabi. E, pegando no braço de Gabriela, foram para outra sala. – Gabriela, depois eu falo o que pretendo, por enquanto, quero que você converse com a Leila e a deixe à vontade. Vou contratá-la e ao namorado. Peça que os dois venham amanhã à tarde, aqui no Morro. Pode ser? – Claro, João. Você não quer me falar o que pretende? – Ainda não. Depois eu te falo. Não é nada de mais. Fica tranqüila. Se são seus amigos, também são meus amigos.
– Ah, João, você é demais. É por isso que eu te amo... – falou Gabriela, abraçando-o.
– Eu também, Gabi.
E saiu.
Gabriela encontrou-se com Leila e ficaram conversando. – Leila, se o João gostou de você é um bom sinal. Ele ajuda a todo mundo de quem gosta. Você vai ver.
– E por que ele quer ver o Alex?
– Sei lá. Vocês não estão namorando? Ele quer ajudar os dois. – Ah, tudo bem. Amanhã a gente vê o que ele pretende. João, sabendo que os dois usavam drogas, usou o pretexto de venderem o produto entre os seus colegas, e com isso ganhariam algum dinheiro. Facilitou bastante as coisas para eles.
Ninguém entendia a bondade de João com os dois, mas João estava planejando algo bem grande. João estava planejando o roubo na fábrica que ficava na rua em que Gabriela trabalhava. Isso bastava.
Mas, João só conversava sobre o roubo com quem estava por dentro dos planos. A princípio precisava confiar nos dois para ver até onde poderia usá-los. João tinha concordado com o roubo à Fábrica com alguma relutância. Seus amigos o convenceram.
– João, o que você sente não é nada perto da emoção de um roubo desse tamanho – diziam seus amigos.
Nenhum dos quatro amigos de João precisaria roubar a Fábrica. A emoção, o prazer da aventura era que os estava fazendo agir daquela forma. Eles já tinham dinheiro, tinham pais ricos, usavam drogas à vontade, mas, depois que souberam o que aconteceria naquela fábrica, resolveram se aventurar um pouco mais. Já haviam feito outros roubos.
Um dos rapazes era amigo do filho do dono da Fábrica, que era um político muito influente na cidade. Em uma noite de bebidas e drogas, o rapaz acabou entregando todo o esquema. Ele havia dado todos os detalhes. Haveria um grande pagamento envolvendo alguns milhões de dólares. O dinheiro ficaria na Fábrica apenas uma noite, até a manhã seguinte, quando seguiria de avião para outro país.
O negócio estava envolvendo alguns políticos desonestos. Nenhum deles poderia fazer movimentação do dinheiro diretamente no Brasil. – João, com o seu poder, com a sua estrutura, vai dar para fazer tudo direitinho. Vamos fazer um roubo bem feito.
– Mas eu nunca fiz isso. Não, nessa proporção. E estou muito bem da forma que estou – respondeu João.
– Parece que você está com medo. Lembre-se, João: a primeira vez é sempre a última chance!
João não tinha nada a perder mesmo. Com a sua influência poderia fazer o que queria. E seus melhores amigos, os rapazes mais ricos da região, estavam envolvidos, por que ele não participaria?
Depois de certo tempo, ele resolveu participar:
– Vamos lá! Tudo bem! Eu só quero me divertir... A preparação do plano foi toda feita no Morro. João acionou as pessoas que podiam ajudá-lo no sucesso do roubo. Dois policiais, Pablo, cinco membros de sua gangue, e os quatro rapazes que estavam já envolvidos. Leila ajudou João conseguindo informações sobre a vigilância da Fábrica. Ela chegava com sua simpatia e conversava bastante com o pessoal que trabalhava na portaria da Fábrica. Como funcionária dos Correios, aquilo foi bem fácil. Ela conseguiu informações importantes.
Alex, seu namorado, faria parte da turma que entraria no assalto. Como ele era eletricista, seria o responsável pela parte elétrica, como desligar alarmes, etc. Fernando e Gabriel seriam os motoristas. Eram os melhores pilotos que João tinha e eram de total confiança.
Jaime e Marcos fariam parte da turma barra pesada. Eram pessoas que já haviam participado de diversas manobras do tráfico do Morro. Eram inteligentes que saberiam agir em caso de necessidade.
Os amigos de João, os quatro, seriam participantes diretos, sendo da linha de frente. Era o prazer, não o dinheiro, que os incentivava. Na véspera do roubo, se reuniram para ver os últimos detalhes. Todos os que iam participar do roubo estavam presentes. Inclusive Henrique. – Pessoal! Este aqui é Henrique, que vai trabalhar com a gente. Ele é segurança da fábrica e vai trabalhar na noite que formos entrar no prédio. Todos olharam para Henrique e ficaram satisfeitos em saber que alguém da segurança estava participando do roubo. Ficaram mais confiantes. – Quem guarda os portões da Fábrica? – perguntou João. – Há dois seguranças sempre – explicou Henrique. – Trocam de turno a cada seis horas. Amanhã, eles mudarão de turno de quatro em quatro horas. Exatamente à meia-noite haverá uma troca. Eu entro neste horário e acho que é aí que devemos agir.
E ficaram passando todos os papéis, quem deveria fazer o quê. Após a reunião, houve uma oferta de bebidas e drogas, por conta de João. Já estavam comemorando há quase uma hora, quando Cláudio, um dos seus amigos ricos, ofereceu heroína para João:
– João, você já usou isto? – e mostrou o material. – Heroína? Não! Estou satisfeito com meu pó... – Então você não conhece nada. Quem nunca usou heroína não sabe o que é voar...
– Eu já vôo muito com meu produto.
– Se você quiser, tenho mais aqui. Dá para dividir. – ofereceu Cláudio. João já estava meio bêbado, e o efeito do pó já estava passando. A vontade de usar a maldita heroína era imensa. Ainda mais quando ele viu que Cláudio iria usar.
– Tudo bem, vamos lá.
João voou. Não sabia que o efeito da heroína era tão bom. Como aquilo o satisfazia! Foi a sua primeira de muitas vezes. No outro dia, perto da meia-noite já estavam se preparando para atacar. Tudo aconteceu como combinado.
Alguns dos rapazes pegaram Henrique perto de sua casa. Como era habitual, Henrique ficou de passar na casa de João Luiz, que iria trabalhar com ele naquele período, e iriam a pé para o trabalho. João Luiz morava perto da Fábrica e ia andando.
Devido aos assaltos que ocorriam, eles sempre andavam juntos. Tanto na entrada quanto na saída do trabalho. Só que nesse dia, quando iam passando por uma esquina, os rapazes atacaram-nos, acertando principalmente João Luiz, que desmaiou e foi carregado para um carro. Marcos iria substituí-lo no plantão. À meia-noite houve a troca da segurança. Henrique e Marcos substituíram os seguranças que estavam saindo.
Um dos seguranças desconfiou e perguntou:
– Você é novo? Não te conheço!
– Oi, eu sou o Marcos. Trabalho na outra filial, mas me transferiram para cá, hoje. Acho que é por pouco tempo.
– Prazer! Seja bem-vindo – falou o segurança, saindo. Assim que os dois seguranças foram embora, o plano começou. Houve a chegada dos carros com o restante do pessoal. Alex desligou todos os alarmes. Os rapazes entraram pela porta que havia sido aberta por Henrique e não deram chance ao restante dos seguranças de se defenderem. Todos os seguranças que trabalhavam internamente foram surpreendidos e amarrados. Apenas um deles reagiu e foi morto no local.
Tudo corria bem, quando escutaram o barulho de carros do lado de fora. Houve tiroteio e um anúncio:
– Saiam com as mãos para cima. Vocês estão cercados. Era a polícia. Algo havia dado errado. O que seria? Tentaram por meia hora uma negociação, tendo os vigilantes como reféns, mas não adiantou. Eles não eram ladrões profissionais para negociarem com a polícia. Renderam-se.
Todos foram presos.