Faroeste Caboclo - O Livro
Capítulo 23: - Segunda Vez no Inferno - Jeremias e Maria Lúcia
João e Natinho foram para Goiás. Natinho resolveu acompanhar João, pois este não estava muito bem. Natinho sabia o que o esperava. Depois de mais de quatro anos tudo haveria de estar mudado. Seria quase um milagre se Maria Lúcia continuasse igual, principalmente porque João, quando entrou em contato com Maria Lúcia só atrapalhou ainda mais as coisas. Desta vez, foram de ônibus. Desceram na rodoviária e tomaram um coletivo até o bairro onde João havia morado com Maria Lúcia. Em frente a casa, havia uma praça.
Nesta praça, Natinho se despediu de João, desejando-lhe toda a sorte do mundo. Ficaria ali o tempo necessário, até que os dois conversassem e se acertassem. João se dirigiu à casa. Tocou a campainha e pouco depois Maria Lúcia apareceu na porta. Ela continuava linda, agora mais madura, mas João estava muito mais acabado do que quando havia vivido com ela.
– Oi, Maria Lúcia. – disse João. – Resolvi lhe procurar para conversarmos. Maria Lúcia se assustou. Não esperava que João aparecesse mais na sua frente.
– Oi, João. Que surpresa! – disse Maria Lúcia, sem demonstrar alegria. – Tudo bem? Vim lhe ver. Podemos conversar um pouco? – Não sei se isto é bom. As coisas mudaram, João. – Vamos conversar! O que perderemos com isso? Maria Lúcia convidou João para a sua sala. Ainda morava na mesma casa, mas havia móveis diferentes.
– O que trouxe você aqui, João – falou Maria Lúcia, rispidamente. – Maria Lúcia, eu aprendi muito com tudo o que aconteceu com a gente. Quando eu te deixei, era diferente. Eu pensava diferente e não sabia o que estava fazendo. Percebi que é só você a razão de minha alegria. Eu não sei viver sem você. Só não voltei antes porque não pude mesmo, a vida me deu umas porradas. Maria Lúcia percebia um outro João. Era inseguro, maltratado pela vida, e aparentemente, não tinha abandonado os vícios. – João, tudo mudou. Nada mais é como era no passado. – Maria Lúcia, eu sinto a sua falta. Nunca mais eu fui o mesmo depois que eu fui embora. Eu sei que eu sou um idiota, mas deixa eu voltar para casa. Eu sinto falta do teu corpo junto ao meu...
– Você teve isso, João. E jogou tudo fora... Você lembra? – Lembro, mas me arrependi de ter ido embora. Eu aprendi muita coisa depois que eu fui embora...
– Agora as coisas estão diferentes. Esse “eu te quero” já não me convence mais. Você só aparece quando convém aparecer.
– Maria Lúcia, eu lhe amo. Não sei viver sem você. A única coisa que tenho é uma pequena foto sua. Achei o três por quatro teu e não quis acreditar que tinha sido a tanto tempo atrás. Quando eu lhe vejo nesta pequena foto, é como se o meu coração criasse forças para enfrentar o mundo. É só você que me dá essa força...
– Você falou tudo, João. Já faz muito tempo. Eu não gosto de ser rejeitada. Você se lembra de quando me ligou. Falou que vinha e só alguns dias depois, voltou a telefonar dando as piores desculpas. Eu mudei, passei uma fase muito difícil na minha vida. Tudo o que sei é que você quis partir. Demorei para esquecer. Demorei para encontrar um lugar onde você não me machucasse mais. Descobri que o tempo é mercúrio-cromo.
– Eu sinto falta de você, Maria Lúcia – falou João. – Descobri que é só você que me entende do início ao fim. Eu não posso viver sem você. Eu nunca mais vou embora, nunca mais vou lhe abandonar...
– João, você se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era para sempre?
– Eu lhe falei que me arrependi das bobagens que fiz no passado... Nunca mais consegui sair com mulher nenhuma. Quando penso em alguém, só penso em você. E os sonhos não acabam. Vamos ficar juntos para sempre, se você quiser...
– João, o que você acha que eu sou? Você me abandonou! Simplesmente pensando apenas em você, resolveu ir embora. Só você sabe o motivo. Você diz que tudo terminou, e agora, quer voltar? O que você quer que eu faça. Simplesmente o deixe entrar casa adentro, e ignore o sofrimento que me causou. – Você disse que me amava...
– Eu amei você, João. E vou lhe falar uma coisa. Em nenhum momento eu deixei de lhe amar. O que eu procurei é me amar mais do que eu amava. Eu me preocupava com os outros e esquecia de mim. Acabou! Agora eu amo mais a mim...
João resolveu mudar de estratégia e tentou abraçar Maria Lúcia. Achava que a aproximação a faria sensibilizar-se.
– Eu te amo, e preciso de você, Maria Lúcia.
Maria Lúcia o empurrou.
– Não venha para cá, que eu não quero mais saber de você. Maria Lúcia levantou e ficou do lado oposto de João, percebendo que ele tinha um pacote na mão, e não sabia o que poderia ter naquele pacote. Ficou com medo de rejeitar João e tornou-se mais cautelosa. – João, eu sofri muito. O tempo passava e você não aparecia. Você não telefonou. Quatro anos, João! Já tem quatro anos que você se foi. João, enquanto a vida vai e vem, eu procurava alguém que me dissesse: “Quero ficar só com você.” João percebeu que tudo estava acabado, e resolveu jogar sua última cartada.
– Me disseram que você estava chorando, por isso resolvi voltar... – Quem te disse isso, João. Deixa de ser mentiroso. Você nunca ligou para mim. É isso mesmo, você nunca ligou para mim, só ligou para você mesmo. O seu cinismo, essa sedução... Volta para o esgoto, baby, vê se alguém lhe quer. Maria Lúcia estava muito zangada.
– Não me ofende. Eu posso ter meus problemas, mas estou melhorando. Pensei que você pudesse me ajudar, mas estou percebendo que estou perdendo tempo. – É isso mesmo, João, você está perdendo seu tempo. Sai de mim que eu já não quero saber de você...
– Não tem jeito?
– Agora já não tem mais volta...
João voltou-se a sentar. Neste momento entra na sala um menino, de uns dois anos. Corre para os braços de Maria Lúcia.
– Acordou, filhinho. Viu só, nós assustamos o menino. João percebeu que Maria Lúcia era mãe. Então ele realmente é que tinha problemas para ter um filho. Maria Lúcia tinha razão. Se ele tivesse feito os exames e fizesse tratamentos talvez hoje fosse o pai daquela criança. – Quem está ao seu lado, agora? – perguntou João. Maria Lúcia estava linda abraçando aquele menino. – É uma longa história. Acho que Deus me odeia. Jogou este homem na minha vida e ele vem e vai. O nome dele é Jeremias. É do Rio de Janeiro, mas está morando em Brasília.
Foi como se João tomasse um tiro. Doeu mais do que qualquer coisa que tinha acontecido em sua vida. Jeremias conseguiu destruir tudo em sua vida. Aquele maldito, além de derrubá-lo em seu comércio, ainda acabou com a sua única chance de paz.
Abriu o pacote, tinha a Winchester 22. João pegou aquilo nas mãos, olhou para Maria Lúcia com seu filho no colo. Maria Lúcia se encolheu no canto da parede. Sabia que João a mataria. Sabia que João estava louco de ciúme e faria aquela tragédia.
– Maria Lúcia, olhe para mim... – disse João.
Maria Lúcia olhou, devagar, para João.
– Maria Lúcia, eu estou derrotado. Vocês ganharam. Quero que receba isso, como uma lembrança minha. Foi a coisa mais valiosa que me foi dado com carinho por alguém que eu tenho certeza que gosta de mim, sem interesses. É a coisa mais importante na minha vida...
Maria Lúcia foi aos poucos se libertando daquele medo, e esticou devagarzinho a mão, até pegar na arma. Tomou-as em suas mãos. Era realmente, muito bonita. Nova, brilhando.
– Fique sossegada. Nunca foi usada. Esta está virgem. Eu prometi que só a usaria quando fosse capaz de mudar toda uma vida. Seria a última bala da minha vida. Mas, agora estou vendo que nunca a usarei. Quero que a guarde, e se lembre que você foi a pessoa mais importante na minha vida. Eu te amei, eu te amo e sempre te amarei...
Falou isso, virou as costas, saiu. Maria Lúcia viu que João estava chorando. Viu João se dirigir para a praça, encontrar com outro rapaz. Saíram em direção contrária à casa de Maria Lúcia.
Tudo estava acabado. Mas Maria Lúcia ainda amava João.