Faroeste Caboclo - O Livro

Jorge Leite de Siqueira · Capítulo 11 de 27

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Faroeste Caboclo - O Livro

Capítulo 09: - o Começo da Plantação

A vida de João, em Brasília, começou como em qualquer lugar. Preso em uma carpintaria, durante todo o dia, e à noite estava tão cansado que só pensava em deitar, assistir televisão e dormir.

Os seus primeiros dias foram assim, até que recebeu o primeiro pagamento. Com dinheiro no bolso as coisas começaram a acontecer. Fausto pagava a João o equivalente a outro funcionário aprendiz, que já trabalhava a dois meses na carpintaria. Nos serviços externos, quando precisavam de algum ajudante, os outros funcionários revezavam entre João e o outro rapaz. Quando um ia, o outro ficava para ajudar no prédio da carpintaria. Mas, Fausto ajudava João na alimentação e na moradia, não cobrando nada a mais por isso. Como havia prometido a Seu Fernando. A princípio, João era uma pessoa meio complicada, não tão asseada, deixando de cuidar de seu quartinho como deveria. Não varria, não arrumava suas roupas, e deixava restos de lanches pelos cantos do quarto. Após algumas broncas ele foi se conscientizando de que precisava melhorar. Foi se organizando e também foi aumentando sua amizade com os outros funcionários. Com o dinheiro no bolso começou a sair mais, sempre acompanhado pelos amigos da carpintaria.

Havia, ali perto, um barzinho que o grupo gostava de tomar uma bebida. Era um lugar pequeno, mas bem arrumadinho. Tinha cervejas bem geladas e servia porções de comida.

Sempre o grupo ia para lá, nos finais das tardes, após o trabalho. João, a princípio era meio tímido, mas com o tempo foi se soltando e já começava a beber mais do que era acostumado.

Nunca havia ficado bêbado, mas sempre bebia bastante. Dentre seus amigos, havia também alguns que eram mais malucos que outros. O Milton, por exemplo, bebia e usava drogas. Já havia fumado maconha junto com João. O Tiago, também. Eram os dois mais loucos de todos, e foi justamente com eles que João fez maior amizade.

João estava maravilhado com o lugar e estava tão empolgado com a sua evolução que não percebia que estava saindo da linha. Comia e dormia de graça na casa de Fausto e não teve trabalho em conseguir emprego. Foi tudo muito fácil e ele não estava acostumado. Achava que a sua vida seria assim, dali para frente. Já havia passado alguns meses que João estava em Brasília e agora ele já saía mais com Milton e Tiago, para lugares mais distantes. O uso da maconha era essencial para a boa amizade.

Compravam-na de um traficante do bairro. Nas sextas-feiras eles iam para a Boate Sonho Azul, que ficava mais no centro. Lá, bebiam e namoravam à vontade. Ficaram conhecidos de todas as garotas pelo modo de não ter miséria; gastavam muito. Todo o salário de João era gasto com esse tipo de coisa. As moças, entre si, disputavam para ver quem dormiria com João. Era um negro alto e forte, esbanjador, que só pensava em agradar os amigos, pagando bebidas para todos.

Na Boate, era bem conhecido e, cada vez conhecia mais gente. João passou a freqüentar a Boate acompanhado de Tiago e Milton, mas, depois, passou a dar desculpas para ir mais vezes, sozinho. Bebia bastante e conhecia pessoas diferentes.

Determinado dia, João usou cocaína. Foi a sua primeira vez. Quem lhe ofereceu foi Pablo, um rapaz de vinte anos que estava começando sua carreira de traficante.

– Olá... Tudo bien? – falou Pablo, com uma mistura de sotaque, que ele usava nos primeiros encontros, com a intenção de impressionar. – Oi... Quer um copo? – respondeu João.

João ainda nem o conhecia, mas já oferecia bebida. Era isso que o diferenciava e fazia amizades. Nem sempre eram boas amizades, mas, eram as amizades que existiam naquele ambiente.

– Eu sou Pablo. Qual é o seu nombre?

– João. João de Santo Cristo. Pablo? Que nome diferente. – Sou descendente de peruanos. Minha avó morava na Bolívia, até vir para o Brasil. Você é de onde, João?

– Da Bahia. Tem um ano que moro aqui, cara. – Trabalha em quê? – perguntou Pablo.

– Trabalho numa carpintaria, sou carpinteiro. E você? Pablo parou de falar. Fez suspense. Olhou para um lado, olhou para o outro, como nos filmes. Pigarreou e finalmente disse: – Estou montando um esquema novo aí. É um lance perigoso, pesado... João se empolgou. Pablo havia tocado em seu ponto fraco. – E o que é? – falou, abaixando o tom da voz.

– É um lance que estou começando. Tem um material bom para fumar, você entende?

– Ah... Claro... E como é que é?

– Poxa, cara, comecei há pouco tempo, estou engatinhando. Estou arrumando uns fregueses... Você é chegado? Na erva?

– De vez em quando. Não quero me viciar...

– Ah, deixa disso... Você sabe que na maconha ninguém vicia... Agora, no pó, cara, é foda! Passei por uma fase pesada. Já escapei. Hoje em dia eu só uso por diversão...

– E você consegue usar sem viciar? – perguntou João. – Eu consegui, João. Consegui. Foi difícil, mas hoje sou eu quem manda. Eu uso de vez em quando porque eu quero. Mas, se eu quiser parar, eu paro a qualquer momento.

João ficou observando aquele cara que conseguia dominar a droga. Ele já havia usado maconha, diversas vezes, bebia constantemente, mas nunca usara algo mais forte.

– João – falou Pablo. – Hoje eu não te prometo, mas, sexta-feira, se você quiser, consigo um papel para gente. Dá para voar legal. – Eu não sei, Pablo, estou morrendo de vontade, mas não sei, mesmo, se devo... – João, você não sabe o que é voar, até que você use isso. João ficou com vontade de experimentar. Não sabia o que era “voar”, como falou Pablo.

– Pablo, qual é o efeito? Eu não vou viciar?

– É a melhor coisa da vida. Você cria forças não sei de onde. Você voa... João, você já voou?

– Com drogas, bebidas?

– Você sabe o que eu estou falando, João...

– Olha, Pablo, na minha despedida de Boa Vista teve um lance incrível. Naquela noite a gente estava bebendo para caramba, até que um cara apareceu com um baseado. Nós fumamos, bebemos. Começamos às dez da noite e viramos a noite, bebendo. Voamos alto, depois das duas, mas as cervejas acabaram, e os cigarros também. O pai de um amigo tinha um bar e nós fomos para lá, num lugar mais escondido. Lá rolou de tudo. Acho que foi a noite mais louca da minha vida.

– Então, João, depois que você conhecer o pó, você vai saber o que é voar, mesmo...

E combinaram que iriam se encontrar na sexta-feira. João ficou ansioso, pediu até um vale no emprego, pronto para ter uma noite excepcional.

Chegou à Boate e Pablo já estava lá. Chamou João no canto e conversaram: – João, consegui. Comprei com meu dinheiro, não precisa pagar. Depois você descola umas cervejas, falou? Vamos lá para o banheiro. Foram para o banheiro. Em um dos compartimentos, em cima do vaso sanitário, Pablo ensinou João a usar.

Quando João voltou para a Boate, não sabia onde estava; se andava ou se voava, se falava ou se sorria. Estava completamente alterado. Sentia-se o máximo.

Pablo estava satisfeito. Sabia que não havia mentido para João. A primeira vez é extraordinária.

Daí para João passar a usar mais e mais foi um pulo. Ele se viciou e era com muita ansiedade que esperava os encontros com Pablo. Começou o sofrimento. João achava que trabalhava demais. Era o dia todo no batente e o que ganhava não dava para manter seus vícios. Sentia raiva em trabalhar até a morte e não encontrar melhores empregos. Mas, ele não se perguntava por que não procurava um novo emprego. No tempo ocioso que ele tinha, ele simplesmente se entregava à bebida e à droga.

O tempo passou e ele começou a achar que Fausto e Isabel o exploravam, pagavam mal e não davam chance para ele crescer. João foi se aborrecendo e começou a discutir com Fausto, por qualquer motivo. Raramente via-os após o trabalho. Era o tempo suficiente para a alimentação e ia para a rua, para os bares, para a boate.

Raras foram as vezes que ele conversava amigavelmente com Fausto e Isabel. Também raras foram as vezes que ele se lembrou do passado, da luta que teve para chegar ali, e porque tinha ido para lá.

Certo dia, em entrevista na televisão o ministro da economia explicava os seus atos tentando estabilizar a economia, a redução de juros, a contenção da inflação, mas João não queria aceitar nada. Achava que já estavam falando demais e ele precisava de mais dinheiro, de mais poder. Uma sexta-feira estava conversando com Pablo, sobre a sua situação: – Pois é, Pablo, o meu dinheiro não está dando para nada. Tenho que arranjar um emprego melhor, cara.

– Ou então, João, fazer alguma coisa para aumentar o que você ganha. – O que você quer dizer com isso? – perguntou João. – João, estou com um plano aí. Se der tudo certo, vou fazer uns negócios de umas plantações. Se você quiser, pode entrar na turma. – Plantação de quê? Milho, feijão? Quando eu era pequeno o meu pai mexia com isso, mas eu não sei como é que é.

– João, deixa de ser bobo, é plantação de maconha... Os olhos de João brilharam. - Plantar maconha. Onde? Dá para enriquecer? Pablo contou o plano em detalhes.

Era um grupo de cinco pessoas, incluindo Pablo, que tinha conseguido um patrocínio de uns traficantes de outro estado e estava tudo pronto para começar a plantação. Com João, seriam seis pessoas, com cotas iguais, mas com trabalho igual.

– E como nós vamos fazer? Onde nós vamos plantar? – João! Nós vamos nos encontrar amanhã, à tarde. Se você tiver a fim, pode vir. João pensou no modo que estava vivendo. Não conseguia juntar dinheiro, não conseguia ter dinheiro para seus vícios. Fausto tinha trocado de carro, reformou a casa, e até tinha contratado mais gente para a carpintaria. Estava crescendo bastante, mas, João, não tinha ganhado nada a mais com isso. Continuava o mesmo pobretão.

– Pablo! Vamos começar a plantação!

E pediu mais uma cerveja.

A reunião aconteceu numa casa alugada, exclusivamente para estes encontros. Todos estavam nervosos, quase não se conheciam, mas todos estavam com o mesmo propósito de enriquecer urgentemente, nem que usassem os meios ilegais para isso.

– Vamos começar a falar do plano - falou Paulo, um moreno alto, que parecia muito experiente. – Em primeiro lugar, vamos nos conhecer. E pediu que cada um falasse de sua vida, de suas honestidades e de seus problemas com a justiça. Ali ninguém era santo. O que eles tinham em comum era a droga. Alguns usavam há mais tempo e outros a menos, mas, todos já tinham usado.

Paulo, o líder, já havia sido preso algumas vezes por porte de droga, assalto e tinha cometido um assassinato, mas jurava que não havia sido ele. Felipe era o menos experiente. Nunca teve grandes problemas com a justiça. Era viciado e estava começando a vender maconha. Pablo já usava drogas há algum tempo, mas também nunca teve problemas com a justiça.

Michel já havia sido preso por porte de drogas. Depois que saiu da prisão cometeu três assassinatos e estava envolvido com o tráfico grande. Sentia, neste plano, a chance de começar alguma coisa por conta própria. Roberto era criminoso. Usava drogas desde os doze anos e já não sabia contar os problemas com a justiça que teve. Inclusive, era foragido e não podia andar por todos os lugares, como os outros.

João era usuário e já teve os problemas quando era menor de idade. Ultimamente, não tinha tido nenhum problema sério. Quanto mais João conversava com seus amigos, mais ele se animava com o plano. Era com Pablo que ele mais se identificava. Passava, agora, quase todo o tempo ao lado do amigo.

– Pablo, quem são esses caras do Rio de Janeiro que querem nos financiar? – João, eu já tive um contato com eles na semana passada. É um pessoal barra pesada, mas é um pessoal legal. Eles sabem que nós vamos conseguir vender bastante por aqui e ainda sobrar para eles. Eles estão emprestando a grana, estão dando as sementes e até bancaram a gente para comprar carros, equipamentos, tudo o mais. É um pessoal forte! – E não tem perigo deles se voltarem contra nós? – Claro que tem, mas a gente deve andar desconfiado, não só com eles, mas com os outros caras, também. Você acha que a gente pode confiar no Paulo, no Lipe e nos outros? Claro que não! E fique sabendo que eles também desconfiam da gente.

– Da gente? – perguntou João. – Eu não fiz nada. – Mas eles não sabem o que você já fez no passado. E se você quisesse matar um deles agora, para ficar com maior parte do que os outros? Você sabe o que faz, mas eles não sabem nem o que você pensa! – Pablo, então quer dizer que eles podem querer matar a gente para pegar uma parte maior?

– Claro, João, claro! Temos que ficar de olho! Quando Pablo falou isso, já estava com um plano em sua mente. Sabia da facilidade de João em entrar em seu plano, mas sabia que não era a hora de falar sobre isto. Primeiro precisavam começar a plantação. Foram Paulo, Felipe e Michel em um carro, João, Pablo e Roberto em outro e foram colocar o plano em ação. Visitaram agricultores da região e começaram a oferecer as vantagens em plantar maconha. Seriam financiados pelos rapazes, que já começaram a deixar algum dinheiro com os agricultores. O que eles deveriam fazer era plantar, cuidar da plantação até a colheita, e receber o dinheiro que o grupo ia dar. Tudo, desde a semente, adubos, irrigação, mão-de-obra e todas as outras despesas sairia por conta dos rapazes. Não plantariam muita maconha em apenas um lugar para que não chamasse a atenção das autoridades.

A única coisa que os rapazes queriam era que os agricultores calassem a boca. Ninguém poderia ficar sabendo do que eles estavam fazendo, e aí entravam com a chantagem: se alguém falasse demais, morreria. E deu certo! Pelo menos metade dos agricultores cederam à vantagem financeira que o grupo oferecia.

Algum tempo depois já tinham a primeira colheita. Nessa mesma época, houve um brutal assassinato de Paulo. Quando estava chegando a sua casa, uma dupla em uma motocicleta parou em sua frente e disparou diversos tiros. Paulo não teve a mínima chance.

Os outros rapazes, mesmo chocados com o que havia acontecido, continuaram com o plano. Ainda não haviam negociado, estavam apenas colhendo o material para beneficiamento.

A maconha estava quase boa. Estava quase na hora de colocar a droga no mercado.

Felipe, Roberto, Pablo e João estavam em um bar, conversando, comemorando o resultado das colheitas. Ainda não estavam vendendo, mas o pessoal do Rio de Janeiro estava satisfeito com os resultados até o momento. Inclusive, Michel havia viajado para o Rio de Janeiro, a fim de combinar os detalhes de como iriam transferir a parte deles da mercadoria. Já era mais de duas horas, quando se despediram. Felipe e Roberto seguiram em uma direção e Pablo e João foram em outra. Antes de Felipe e Roberto chegarem a casa, um carro com dois ocupantes, ambos com capuz na cabeça, parou na frente dos dois, freando bruscamente. Os dois saltaram do carro, armados e atiraram nos dois rapazes, sem dar chance para a defesa. Ambos morreram na hora.

Da mesma forma, Michel foi morto no Rio de Janeiro, sem ter aparentemente feito nada.

A polícia notificou o caso como uma queima de arquivo entre grupos traficantes rivais. João e Pablo estavam satisfeitos. Seriam os donos de todo o plano, com seu sucesso.

Na verdade, Pablo e João resolveram adiantar o que eles pensavam que os outros fariam. Fizeram um acordo com o pessoal do Rio de Janeiro e combinaram em exterminar os amigos da região. Da mesma forma pediram que fizesse o mesmo com o Michel. Com isso, ficaria mais fácil a divisão da mercadoria entre os dois e a turma do tráfico do Rio. Em uma das visitas que os cariocas fizeram, de surpresa, pegaram João e Pablo totalmente voltados para o sucesso do plano, o que fez com que ficassem super satisfeitos. Era isso que eles esperavam. Dedicação total para que o plano desse certo.

Eram dois rapazes do Rio. Visitaram a última fazenda que iria entregar o produto. Já estava no ponto para a colheita. Os dois acompanharam João e Pablo nesta última visita.

Chegando à fazenda, encontraram o casalzinho de velhos, sorrindo, felizes com o sucesso da plantação.

– Oi, meus filhos, vocês vieram buscar o produto? – perguntou Seu Sílvio, já idoso, mais de cinqüenta anos, que pareciam mais de sessenta, acabado pela dureza da vida, como ele mesmo dizia.

– Viemos, Seu Sílvio. O caminhão vem daqui a pouco. Estes dois são nossos amigos, do Rio de Janeiro.

– Oi. Muito prazer! Como vai?

– Tudo bem, Seu Sílvio. Com foi a plantação? Tudo certinho? – Foi tudo bem... Só na primeira vez que não deu muito certo. Falhou demais... – Na primeira vez? Qual foi a semente que você usou? – Os meninos trouxeram umas sementes mais escuras... Da primeira vez... Depois, trouxeram umas mais brancas... Aí, não falhou nada. – Ah, Seu Sílvio, aquela semente era ruim mesmo. Todo mundo reclamou. Os rapazes ficaram satisfeitos com a simplicidade do agricultor. – O senhor ficou satisfeito com os rapazes, Seu Sílvio? – Eles foram muito bons, mesmo! Deram-me tudo o que eu precisava. Não faltou nada.

– Daqui uns dias vai ter mais, Seu Sílvio.

E chamaram a todos para dentro da casa, para acertar o pagamento. Seu Sílvio recebeu o dinheiro diretamente das mãos de Pablo e João. Ficou muito contente, afinal, nunca ganhou tanto com a agricultura.

Ficou tudo certo de como os rapazes iriam transferir o produto já beneficiado para o Rio e como ficaria a parte de Pablo e João.

João e Pablo começaram a distribuir o produto. Entraram com tudo no movimento de drogas em Brasília.

Pouco a pouco foram instalando o seu poder e criaram os seus pontos de drogas. Uniram-se a alguns traficantes mais velhos e, devagarzinho foram crescendo. Algum tempo depois começaram os problemas com os traficantes maiores, mas o pior já havia passado.