Minha Versão de Você
Capítulo um
A Matty, porque este livro não existiria sem você.
A todos os adolescentes que já precisaram ouvir estas palavras: você é perfeito exatamente como é.
E amor é amor é amor é amor é amor é amor é amor é amor, não pode ser morto nem deixado de lado.
Lin-Manuel Miranda
O fim de nossas últimas férias de inverno parece ser quase o início de uma volta olímpica. Estamos no penúltimo semestre da nossa jornada no ensino médio, e falta um último – simbólico, francamente – semestre a vencer. Quero dar início às celebrações como um cara comum: com um momento de privacidade e algumas horas sem pensar em nada, navegando por aquela toca do coelho chamada YouTube. Infelizmente, porém, nada disso vai acontecer. Porque, do outro lado da cama, Autumn me lança um olhar fulminante, esperando a minha explicação.
Minha grade não está pronta, e as aulas começam em dois dias, e as vagas nas melhores disciplinas se esgotam rapidamente, e, Tanner, você é sempre assim.
Não que Autumn esteja errada. Eu sou mesmo assim. Mas não posso fazer nada se ela é a formiga e eu a cigarra nessa relação. Sempre foi assim.
– Está tudo bem.
– Está tudo bem. – Ela repete, jogando a caneta que segura. – Por que não estampa logo uma camiseta com essa frase?
Autumn é minha rocha, meu porto seguro, a melhor dos melhores. Mas, quando o assunto é a escola, ela se transforma em um verdadeiro purgante.
Viro-me de barriga para cima, olho para o teto do quarto. No começo do ensino médio – logo depois que me mudei para cá e Autumn me colocou debaixo de sua asa –, em seu aniversário, dei-lhe um pôster de uma gatinha mergulhando em uma piscina de bolinhas felpudas. Até hoje esse pôster continua firmemente pregado na parede. A gata é uma graça, mas acho que, no penúltimo ano, a doçura de sua inocência foi pouco a pouco manchada pela estranheza inerente. Então, acima da frase motivacional “Mergulhe, gatinha!”, colei quatro post-its com o que acredito que o criador do pôster queria dizer: NÃO SEJA TÃO MULHERZINHA!
Autumn deve estar de acordo com a minha edição, afinal, deixou os post-its exatamente onde eu os coloquei.
Viro a cabeça para olhar em sua direção.
– Por que está preocupada com isso? A grade de disciplinas é minha, afinal de contas.
– Não estou preocupada – garante, mastigando alguns biscoitos. – Mas você sabe que as vagas nas disciplinas legais estão se esgotando super-rápido. Não quero que termine na aula de Química de Hoye, porque ele passa o dobro de
lição de casa, o que vai atrapalhar minha vida social.
Em parte, é verdade. Fazer Química com Hoye de fato atrapalharia a vida social de Autumn – sou eu que tenho carro e que a levo aos lugares na maioria das vezes. Mas o que ela realmente detesta é o fato de eu deixar as coisas para o último minuto e, mesmo assim, conseguir o que quero. Nós dois somos bons alunos, cada um do seu jeito. Ambos temos notas altas e arrasamos nas provas.
Porém, quando o assunto é a lição de casa, Autumn mais parece um cachorro com um osso, ao passo que eu sou como um gato, deitado, em uma janela ensolarada. Se a lição está por perto e parece interessante, eu a faço com prazer.
– Bem, sua vida social é nossa prioridade. – Solto o peso do corpo de um lado a outro, recolhendo as migalhas de biscoito presas em meu antebraço.
Elas deixaram uma marca ali, entalhes vermelhos minúsculos na pele, como pedrinhas deixariam. Autumn bem que podia se levantar e colocar em prática, neste quarto, sua obsessão por limpeza.
– Autumn, meu Deus, você é uma porca. Olhe só como deixou esta cama.
Ela responde enfiando mais um punhado de Ritz na boca, deixando mais um caminho de migalhas no edredom da Mulher-Maravilha. Seus cabelos ruivos estão presos em um coque bagunçado sobre a cabeça e ela usa o pijama do Scooby-Doo que ganhou aos 14 anos de idade. Ainda serve... praticamente.
– Se você trouxer o Eric aqui, ele vai ficar horrorizado – provoco.
Eric é outro de nossos amigos e um dos poucos garotos do colégio que não é mórmon. Acho que, tecnicamente, Eric é mórmon – bem, pelo menos, seus pais são. São o que chamam por aí de “mórmon light”. Consomem álcool e cafeína, mas ainda mantêm uma relação considerável com a igreja. O melhor dos dois mundos, ele diz, embora seja fácil perceber que os alunos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que estudam em Provo High discordam.
Quando falamos de círculos sociais, um “mórmon light” mais se parece com um não mórmon. Como eu.
Algumas migalhas de biscoito voam quando Autumn tosse fingindo repulsa ao ouvir minhas palavras.
– Não quero que Eric passe nem perto da minha cama.
E ainda assim, cá estou eu, deitado na cama dela. O simples fato de eu poder entrar em seu quarto é uma prova do quanto sua mãe confia em mim. Bem, pode ser que a senhora Green sinta que nada vai acontecer aqui entre mim e Auddy.
Já tentamos uma vez, durante as férias de inverno do nosso segundo ano. Eu vivia em Provo há apenas cinco meses, mas rolou uma química imediata entre nós – impulsionada por muitas disciplinas em comum e por um conforto mútuo produzido por nosso status de não mórmons em um colégio tomado pelos mórmons. Infelizmente, a química se dissolveu para mim quando as coisas se
tornaram físicas e, por um milagre, nos esquivamos daquela situação constrangedora do pós-amasso. Não vou arriscar outra vez.
Ela parece se tornar hiperconsciente de nossa proximidade no mesmo momento em que eu percebo, então se ajeita na cama e puxa o pijama para cobrir todo o torso. Eu me sento e apoio as costas na cabeceira: uma posição mais segura.
– Qual foi a primeira que você escolheu?
Autumn olha para sua planilha.
– Polo. Literatura Moderna.
– Eu também. – Roubo um biscoito e, como um humano civilizado, consigo comer sem derrubar uma migalha sequer. Deslizando o olhar e o dedo indicador pelo meu papel, sinto que esse último semestre parece promissor. –
Francamente, meu cronograma não está nada ruim. Só preciso acrescentar alguma coisa aqui ou ali.
– Talvez pudesse fazer o Seminário – Autumn bate as mãos toda alegre.
Seus olhos são como faróis apontando sua emoção para dentro de uma sala empoeirada: ela quer fazer essa disciplina desde o primeiro ano.
O Seminário... Estou falando sério; quando a escola cita a disciplina em seus boletins de notícias ou anúncios, eles chegam a usar letras maiúsculas – tão pretencioso que chega a ser surreal. ESCREVA UM LIVRO EM UM
SEMESTRE, o catálogo alegremente promete, como se isso só pudesse acontecer a quem faz essa disciplina. Como se uma pessoa comum não fosse capaz de reunir palavras suficientes em quatro meses. Quatro meses é toda uma vida.
Os candidatos ao Seminário precisam ter concluído, pelo menos, uma disciplina de Língua Inglesa avançada e ter tido uma média mínima no semestre anterior. Muito embora nosso grupo tenha setenta alunos no total, o professor só aceita matricular quatorze.
Dois anos atrás, o New York Times escreveu um artigo e definiu a disciplina como “um curso ambiciosamente brilhante, dirigido de forma séria e diligente por Tim Fujita, membro da equipe de bestsellers do NYT”. (Conheço essa citação palavra por palavra, porque ela foi impressa, ampliada cerca de cinco mil vezes e dependurada em uma moldura na entrada da escola. Minha maior crítica é o uso excessivo de advérbios, o que faz Autumn me achar petulante). No ano passado, um aluno do último ano chamado Sebastian Brother cursou o Seminário e uma importante editora adquiriu os direitos de seu manuscrito. Eu nem sei quem é esse tal Sebastian, mas já ouvi essa história pelo menos cem vezes. É o filho de um bispo! Escreveu um livro de fantasia! Aparentemente, era incrível. O
senhor Fujita enviou o manuscrito a um agente, que vendeu a obra para um
pessoal de Nova York. O que se seguiu foi uma espécie de esforço de guerra civilizado e boom!, o cara estava pronto para começar a estudar na Universidade Brigham Young, a BYU, mas vai ter que deixar o curso por um tempo para poder fazer um book tour e se
tornar o próximo Tolkien. Ou o L. Ron Hubbard1.
Embora eu ache que alguns mórmons possam não gostar dessa comparação. Eles não gostam de ser misturados com cultos como a Cientologia. Por outro lado, os seguidores da Cientologia também não gostam nada de serem misturados com os mórmons.
Enfim, depois disso, o Seminário é a única coisa (além da equipe de futebol da BYU e do mar de mórmons) que as pessoas citam quando falam de Provo.
– Você foi aceita? – pergunto sem estar surpreso.
Esse curso significa tudo para Autumn e, além de atender todos os verdadeiros pré-requisitos, ela vem devorando romances sem parar na esperança de ter uma chance de escrever seu próprio livro.
Auddy confirma com a cabeça. Seu sorriso se transforma e passa de um oceano a um oceano cintilante.
– Legal!
– Você também seria aceito se fosse conversar com o professor Fujita. – Ela garante. – Tem notas boas e escreve bem. E mais: ele adora os seus pais.
– Nem.
Estou na esperança de receber cartas de aceite de faculdades em qualquer lugar que não seja aqui – minha mãe me implorou para só me candidatar em outros estados. E o “sim” de qualquer uma dessas escolas depende das minhas notas neste último semestre. Não importa o quão fácil eu imagine que uma disciplina possa ser, não é hora de correr riscos.
Autumn cutuca sua unha.
– Porque, aí, você teria que, digamos, acabar alguma coisa?
– Eu acabei com a sua mãe mais cedo. Acho que você sabe do que estou falando.
Ela puxa os pelos da minha perna e eu deixo escapar um grito espantosamente feminino.
– Tanner. – Ela me chama, sentando-se. – Estou falando sério. Seria bom para você. Devia fazer essa disciplina comigo.
– Você fala como se eu quisesse fazer esse curso.
Lançando um olhar fulminante na minha direção, ela fecha uma carranca.
– É o Seminário, seu idiota. Todo mundo quer fazer esse curso.
Entendeu o que eu disse? Ela coloca esse curso em um pedestal e age de um jeito tão nerd que me faz querer proteger a Autumn do futuro, aquela que vai cair no mundo e enfrentar suas batalhas como uma Hermione Nerd. Ofereço o meu
melhor sorriso.
– Sim, claro.
– Está preocupado em ter que criar algo original? – indaga. – Eu posso ajudar.
– Qual é? Eu me mudei para cá quando tinha 15 anos, e podemos concordar que essa idade é o pior momento na vida de qualquer pessoa para se mudar de Palo Alto, na Califórnia, para Provo, Utah, com aparelho nos dentes e sem nenhum amigo. Eu tenho histórias para contar.
Sem contar que sou um indivíduo queer e meio-judeu em uma cidade heteronormativa e mórmon.
Não digo essa última parte em voz alta, nem mesmo para Autumn. Não foi nenhum grande acontecimento em Palo Alto quando, aos 13 anos, percebi que gostava de beijar meninos tanto quanto de beijar meninas. Aqui, porém, isso seria um problema enorme. Autumn é a melhor das melhores, verdade seja dita, mas não quero correr o risco de contar a ela e descobrir que ela não passa de uma progressista em teoria, que não aceita um garoto queer em seu quarto.
– Nós todos usávamos aparelho, e você tinha a mim. – Ela solta o corpo outra vez na cama. – Além disso, todo mundo odeia ter quinze anos, Tanner. É um período em que ereções brotam na piscina, acne e raiva afetam os protocolos sociais... Posso garantir que dez em cada quinze alunos desse curso vão escrever sobre os perigos do ensino médio, porque falta a eles uma fonte mais abrangente de referências de ficção.
Uma rápida olhadela nos arquivos do meu passado faz uma sensação de defesa brotar em meu estômago, como se talvez ela estivesse certa. Talvez, eu não seja capaz de criar algo interessante e profundo, e uma obra de ficção tem de vir das profundezas do ser. Meus pais me apoiam – talvez me apoiem até demais
–, minha família é um pouco louca, mas maravilhosa. Também tenho uma irmã que não é terrível, embora seja dramática e emo demais, tenho meu próprio carro... Não vivi muitas turbulências.
Então aceno uma negação enquanto belisco sua coxa.
– O que torna você tão profunda?
É uma brincadeira, obviamente. Autumn tem muito sobre o que escrever. Seu pai morreu no Afeganistão quando ela tinha apenas nove anos. Depois, sua mãe, tomada por raiva e mágoa, cortou os laços com a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o que, nesta cidade, é uma deserção com um peso enorme. Mais de 90 por cento das pessoas desta cidade são mórmons. Ser qualquer outra coisa automaticamente o deixa às margens do mundo social. Para piorar, o salário da senhora Green mal dá para a subsistência dela e da filha.
Autumn olha com apatia para mim.
– Eu entendo porque você não quer fazer o curso, Tann. Requer muito
trabalho e você é preguiçoso.
Ela me fez morder a isca e acrescentar aquele curso idiota ao meu programa, e, agora, enquanto vamos de carro à escola, juntos, na segunda-feira depois das férias de inverno, Autumn está toda incomodada porque contei que me matriculei no tal Seminário.
Posso sentir seu olhar perfurante na lateral do meu rosto enquanto faço a curva para entrar na Bulldog Boulevard.
– Fujita simplesmente assinou a sua matrícula? – indaga. – Simples assim?
– Auddy, você é louca se estiver irritada com o fato de eu ter me matriculado.
Sabe disso, não sabe?
– E... e aí? – Ela indaga, ignorando minha pergunta retórica e virando-se para olhar para a frente. – Você vai fazer o curso?
– Claro, por que não faria? – Entro no estacionamento dos alunos e busco uma vaga próxima à porta, mas é claro que chegamos tarde e não há nenhum lugar conveniente para deixar o carro por aqui.
Encosto em uma área atrás do prédio.
– Tanner, você se deu conta do que está em jogo nesse curso?
– Como eu poderia estudar neste colégio e não saber o que é o Seminário?
Autumn lança um olhar paciente, mas agressivo para mim, porque acabo de usar meu tom de gozação e ela detesta quando faço isso.
– Você vai ter de escrever um livro. Um livro inteiro.
Quando paro de zoar, o cenário é ligeiramente previsível: a porta do meu carro é empurrada de um jeito mais grosseiro do que o normal e o ar frio entra.
– Auddy, o que foi? Eu pensei que tivesse me chamado para fazer essa disciplina com você.
– Sim, mas você não deveria ter se matriculado se não quer fazê-la.
Ofereço meu melhor sorriso, aquele do qual ela mais gosta. Sei que não devia fazer isso, mas, ah, a gente usa as armas que tem à disposição.
– Então, você não devia ter me chamado de preguiçoso.
Ela deixa escapar um gemido selvagem, do qual acho que gosto.
– Você é tão sortudo e nem se dá conta disso!
Ignoro-a enquanto pego minha mochila no porta-malas. Autumn me deixa bastante confuso.
– Entendeu o que eu queria dizer antes? Que para você é muito fácil? – Ela corre atrás de mim. – Eu tive de me candidatar, passar pela entrevista com ele, tipo, suar muito a camisa. Você entrou no gabinete do professor e ele assinou a
sua matrícula.
– Não foi exatamente assim. Eu fui ao gabinete, conversei um pouco com ele, falei sobre minha família e, só depois disso, ele assinou a minha matrícula.
Minhas palavras são recebidas com silêncio e, quando me viro, percebo que ela está andando na direção oposta, a caminho de uma entrada lateral.
– A gente se vê na hora do almoço, melhor amiga! – grito.
Auddy levanta o dedo do meio.
O calor dentro do prédio é paradisíaco, mas há muito barulho e o chão está encharcado com a terra e a neve derretida que escorre dos sapatos. Vou derrapando pelo corredor até meu armário, que fica entre o de Sasha Sanderson e o de Jack Thorne, duas das pessoas mais bonitas – e mais gentis – de Provo High.
Em termos sociais, aqui as coisas são mistas. Mesmo dois anos e meio depois, ainda me sinto um aluno recém-chegado, possivelmente porque a maioria dos alunos aqui estudam juntos desde o jardim da infância e frequentam os mesmos lugares – quero dizer, são da mesma congregação e provavelmente se encontram em um milhão de atividades da igreja fora do colégio. Eu, essencialmente, tenho Auddy, Eric e alguns outros amigos que são Santos dos Últimos Dias, mas legais, então eles não deixam a gente louco e seus pais não se preocupam com a possibilidade de podermos corromper seus filhos. Nos tempos de Palo Alto, quando eu era calouro, passei alguns meses mais ou menos saindo com um cara e tinha uns amigos que eu conhecia desde o jardim da infância e que não se escandalizavam quando me viam de mãos dadas com Gabe. Queria ter aproveitado mais aquela liberdade.
Aqui, as meninas flertam comigo, claro, mas a maioria delas é mórmon e jamais, de jeito nenhum, poderiam ficar comigo. A maioria dos pais que seguem essa religião têm a expectativa de que seus filhos se casem em seu Templo e eu, que não sou membro da igreja, simplesmente não posso fazer isso. A não ser que eu me converta, o que, digamos... nunca vai acontecer. Tomemos Sasha como exemplo. Sinto alguma coisa surgindo entre nós. Ela adora flertar e ter contato físico, mas Autumn insiste que essa relação não chegaria a lugar nenhum. O
mesmo vale – em medida ainda maior – para as minhas chances com qualquer menino daqui, Santos dos Últimos Dias ou não. Não posso explorar nenhuma oportunidade aqui em Provo. Tenho uma queda por Jack Thorne desde o décimo ano, mas ele está fora dos meus limites por três importantes motivos: (1) homem, (2) mórmon, (3) Provo.
Antes de se irritar comigo hoje de manhã, Auddy me entregou, sem dizer nada, uma cartela de adesivos brilhantes de dinossauros. Então, sem questionar, enfiei-os no bolso; Autumn é conhecia por me entregar coisas que serão úteis em
algum momento da vida, então eu as guardo. Quando abro meu armário, percebo sua motivação: sou notoriamente ruim em lembrar meus cronogramas A e B –
aqui, adotamos a prática de ter as mesmas aulas em dias alternados, com as grades de um a quatro em alguns dias e as grades de cinco a oito no outro. Toda vez tenho que grudar minha programação no armário e toda vez me vejo sem fita adesiva.
– Você é brilhante. – Sasha elogia, aproximando-se por trás para ver melhor o que estou fazendo. – E, ah-meu-deus, que gracinha! Dinossauros! Tanner, você tem oito anos?
– Eu ganhei de Autumn.
Ouço a reação de Sasha em seu silêncio, nas palavras “esses dois estão ou não estão juntos” não verbalizadas. Todos se perguntam se Autumn e eu transamos casualmente.
Como sempre, deixo-a sem resposta. Sua suspeita é positiva para mim.
Involuntariamente, Autumn tem sido meu escudo.
– Belas botas – digo a ela.
Botas que alcançam uma altura sugestiva: pouco acima do joelho. Eu me pergunto de quem ela quer atrair a atenção: dos garotos da escola ou de seus pais em casa. Dou-lhe um adesivo de dinossauro e um beijo na bochecha enquanto passo por ela, antes de atravessar o corredor, levando meus livros comigo.
Provo High não é, de modo algum, uma escola religiosa, mas, às vezes, parece ser. E se tem uma coisa sobre os mórmons que você aprende rápido é que eles focam no positivo: sentimentos positivos, ações positivas, feliz, felicidade, alegre, alegria. Mesmo assim, a disciplina Literatura Moderna com a professora Polo começa com uma notícia inesperada e, sem dúvida, in feliz: nossa primeira leitura será A Redoma de Vidro.
Sinto um leve burburinho se espalhando pela sala enquanto os alunos se mexem em suas cadeiras para trocar olhares furtivos tão dramáticos que seus esforços para serem discretos acabam se provando inúteis. A professora Polo –
cabelos selvagens, saia fluida, anéis nos dedões, você conhece o tipo – ignora a comoção. Aliás, acho que está gostando das reações. Ela se agita em seus saltos, esperando que voltemos a nos concentrar no programa de estudos para descobrir o que mais nos aguarda.
A Bíblia Envenenada, de Barbara Kingsolver; Noite, de Elie Wiesel; A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera; O Castelo de Vidro, de Jeannette Walls, e assim por diante, passando por Sula, de Toni Morrison, até as memórias falsas de James Goddamn Frey. Talvez, o mais chocante seja Elmer Gantry, de Sinclair Lewis, um romance sobre o fanatismo religioso e um ministro assustador. Bastante apropriado. A professora Polo é atrevida e
corajosa, e eu gosto muito de ver o chão dessa gente à minha volta tremer.