Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 22 de 25

Páginas do PDF

Minha Versão de Você

Tanner

sorriso dele me arruína”.

Sebastian passa a maior parte da noite lendo. Em alguns momentos, suas maçãs do rosto chegam a ficar úmidas com as lágrimas. Em outras passagens, ele ri – francamente, ele nunca na vida se divertiu tanto como quando se apaixonou por Tanner. Acompanha a narrativa dos dois subindo a montanha, revive aquele primeiro beijo. Relembra a preocupação dos pais de Tanner – os primeiros avisos de Jenna agora parecem quase proféticos.

Vê Tanner se esquivar da verdade e evitar contar para a Autumn o que está acontecendo. Seu coração bate no ouvido quando lê sobre os barulhos que eles fazem, sobre dedos, lábios e mãos deslizando.

Apaixona-se debaixo de um céu cheio de estrelas.

O sol começa a nascer e Sebastian olha com olhos embaçados para a tela.

Com exceção do momento em que se levantou para ligar o notebook na tomada, ele não se move há horas.

Respira fundo, sente-se vazio, mas agitado, claramente feliz. Aterrorizado.

Logo sua família vai acordar, então, se ele planeja fazer alguma coisa, precisa sair antes que alguém o veja. Poderia simplesmente ligar para o Fujita, explicar a natureza pessoal daquela obra, sugerir uma nota.

Seus músculos protestam quando ele se levanta, tira o carregador da tomada, pega o notebook e passa pela porta.

 

Atenciosa, sua mãe se aproxima. Pisca os olhos. Atenciosamente sua mãe se aproxima.

– O que está olhando aí?

– Minhas notas.

Animada, ela deixa escapar:

– Nossa! Como as notas saíram rápido!

Depois, leva as mãos aos ombros do filho, apertando-os enquanto seus olhos deslizam pela lista.

Não que as notas tenham muita importância. Tanner já está separando suas coisas e preparando o surrado Camry para seguir a caminho de Los Angeles.

Mas, as notas, elas não são ruins. O A em Literatura Moderna não foi surpresa para ninguém – ele ia bem nessa matéria. Cálculo também não causa espanto. As demais notas boas também agradam, mas não são exatamente surpresa. Porém, Tanner descobre que tirou A no Seminário, e sabe que não entregou seu livro.

Em piloto automático, ele pega o telefone e disca o número da secretaria do colégio.

– Posso falar com o professor Fujita, por favor?

A voz da senhora Hill, chefe da secretaria, sai límpida ao telefone:

– Só um instante.

– O que você está fazendo? – a mãe de Tanner pergunta, abaixando-se para olhá-lo nos olhos.

Ele aponta para o A bem no meio da tela.

– Não faz sentido.

Aliás, parece quase errado, como se ele estivesse saindo ileso de mais um dos crimes que Autumn parece sempre acusá-lo de cometer. Uma coisa é usar seu charme, mas receber uma nota estelar sem sequer concluir uma atividade que valia a maior parte dos pontos da matéria é outra totalmente diferente.

Alguém atende:

– Alô?

– Professor Fujita? – Tanner pede a confirmação enquanto mexe no grampeador preto e surrado da mesa de trabalho de seus pais.

– Sim.

– Aqui é Tanner Scott. – Uma pausa se instala, e é curioso notar como esse silêncio é significativo. Faz a ansiedade borbulhar dentro dele. – Acabei de ver

minhas notas.

A voz grave de Fujita parece ainda mais rouca ao telefone.

– Sim, algum problema?

– Não entendi por que fiquei com A na sua matéria.

– Eu adorei o seu livro, meu caro.

Tanner fica mais uma vez em silêncio antes de anunciar:

– Mas eu não entreguei nenhum livro.

Agora o silêncio vem do outro lado da linha, quase como se a ligação tivesse caído. Mas Fujita logo raspa a garganta para responder:

– Ele não contou para você? Ah, que droga! Isso não é nada bom.

– Contou o quê?

– Sebastian entregou seu trabalho.

Tanner fecha os olhos bem apertado, tentando chegar a uma conclusão sobre o que aconteceu.

– As primeiras vinte páginas?

– Não. – Mais uma pausa. – O texto completo.

Tanner abre a boca para responder, mas não consegue pensar em uma palavra sequer.

– Ficou ótimo, Tann. Bem, eu pensei em algumas ideias, algumas modificações, porque, como editor, não consigo me aguentar. E o final é péssimo, é verdade, mas, considerando tudo o que estava acontecendo, como não seria, não é mesmo? No geral, gostei muito, de verdade, da sua produção.

Fujita fica em silêncio e, mais uma vez, Tanner não consegue saber o que dizer.

No passado, quando leu em algum lugar a expressão “dar um branco”, essa ideia lhe pareceu exagerada. Mas agora as imagens giram como um filme em sua cabeça: o notebook na gaveta; as palavras “eu sou totalmente gay” em uma página; o rosto de Sebastian pouco antes de ele dormir ao seu lado no sofá, satisfeito, convencido, também um pouco tímido; o final meia-boca do texto.

– Talvez “gostar” não seja a palavra certa. – Fujita prossegue. – Eu sofri com você. E com ele. Já vi essa história se desenrolar tantas vezes que seria incapaz de contar. Fico feliz por vocês terem resolvido a situação.

Fujita faz mais uma de suas pausas e, dessa vez, parece um bom momento para Tanner dizer alguma coisa. Mas fica em silêncio. Agora, está pensando no “fico feliz por vocês terem resolvido a situação”. Perplexidade é a emoção dominante. Faz semanas que ele não conversa com Sebastian.

– O quê?

– Mas acho que você criou algo especial. – Fujita o enaltece, ignorando a pergunta. – Mostrou seu coração. Acho que mostrou, de verdade. E a sua voz

tem vida. Eu sabia que estava escrevendo, mas não imaginei que estivesse criando algo tão promissor.

Essa conversa já avançou demais desde o último momento em que Tanner conseguiu ligar os pontos e entender o que de fato aconteceu. Pelo que lhe conste, seu notebook andou guardado com segurança na cômoda, junto com as meias, caneleiras e algumas revistas que seus pais não conseguem encontrar com aquele software mágico.

Tanner se levanta e corre até seu quarto. Fujita ainda está na linha, mas em silêncio.

– Está tudo bem aí?

Tanner fuça na gaveta. Seu notebook continua ali.

– Sim, só estou... processando as informações.

– Bem, se quiser dar uma passada aqui em algum momento para discutirmos as correções e as notas que fiz, ficarei feliz em conversar. Estarei aqui, terminando algumas coisas, nas próximas duas semanas.

Tanner olha pela janela, para a rua, para o Camry estacionado na sarjeta. Seria loucura demais simplesmente aparecer na casa de Sebastian agora e perguntar como ele conseguiu uma cópia do livro, como conseguiu fazê-la ir parar nas mãos ao Fujita?

Ele volta à realidade e o pânico se arrasta por seu pescoço. Sebastian leu o livro. O texto todo.

– Tanner, ainda está aí?

– Estou. – Responde com a voz trêmula. – Obrigado.

– Vai à sessão de autógrafos mais tarde?

Tanner pisca os olhos para não se distrair. Seu lábio superior agora está úmido e todo o seu corpo prestes a começar a suar frio.

– Ao quê?

– A sessão de autógrafos, no... – Fujita não completa seu raciocínio. – Claro, onde estava a minha cabeça! É claro que você não vai. Ou vai?

– Para ser sincero, não tenho ideia do que o senhor está falando.

Tanner consegue ouvir o ranger da cadeira quando Fujita se mexe. Talvez, esteja ajeitando a coluna, prestando mais atenção ao que diz:

– O livro de Sebastian saiu ontem.

O tempo parece perder velocidade.

– Ele vai fazer uma sessão de autógrafos na livraria Deseret da Universidade, hoje, às 7 da noite. Mas não sei se devo esperar você lá. – Uma risadinha desconfortável atravessa a linha. – Espero que vá. Espero, de verdade, que as coisas aconteçam como acontecem na minha cabeça. Preciso de um final para essa história.

 

Autumn entra no carro.

– Você parece estranhamente pensativo e misterioso. Aonde estamos indo?

– Preciso que seus poderes de melhor amiga estejam ativados. – Tanner encosta o carro no estacionamento e se vira para encará-la. – Não sei como aconteceu, mas Sebastian entregou meu livro para...

Uma olhadela no semblante de Autumn – bochechas rosadas como as de alguém que se dá conta de uma coisa – e Tanner liga os pontos.

Agora ele nem sabe mais porque não desconfiou logo no primeiro instante.

Talvez gostasse da imagem de um Sebastian heroico pulando sua janela, procurando o notebook nas gavetas, fazendo uma cópia do arquivo e montando em seu corcel (a bicicleta) para ir à escola, entregar o manuscrito e salvar o rabo de Tanner. Mas é claro que existe uma explicação bem menos romântica por trás do que aconteceu: Autumn. Ela leu o livro. Entregou-o a Sebastian com ares de

“veja só essa alma ferida, e foi você que provocou isso, seu monstro” e, aí, boom! A culpa tomou conta de Sebastian, que não conseguiu deixar Tanner ser reprovado.

Foi um gesto de pena.

Tanner fica desanimado.

– Ah.

– Você está me dizendo que ele entregou o texto? – Autumn finge surpresa.

– Você está me dizendo que não sabia de nada?

Ela se aproxima com uma expressão urgente.

– Eu não sabia que Sebastian tinha entregado para o Fujita. Juro. Só pensei que ele leria. Pensei que ele pudesse dar uma nota. Sebastian ficou com meu pen-drive por um dia e depois devolveu.

– É uma decisão muito grande que você tomou por mim.

– Eu estava toda emotiva. – Confessa, sentindo apenas um leve remorso. – E o seu livro era incrível. Foi um momento complicado, entende? – E sorri. – Eu tinha acabado de perder a virgindade!

Tanner dá uma risada. Bem-humorado, belisca a perna da amiga. Pelo menos, a relação entre eles voltou ao normal nas últimas semanas. E, para dizer a verdade, nos últimos dias, Autumn anda conseguindo todos os privilégios que quer. Apesar de a relação entre os dois ser novamente tranquila, Tanner ainda não se sente totalmente à vontade para pressioná-la.

– Bem, eu tirei A. – Conta a ela. – E o mundo não acabou. Mesmo assim, não consigo imaginar o quão difícil foi para ele fazer isso. Agora Fujita sabe, é claro.

Já se passaram algumas semanas desde que as aulas terminaram. Talvez, todo

 

mundo já saiba. Ou, talvez, Sebastian tenha dado três passos para trás e se trancafiado outra vez dentro do armário. Tanner continua:

– O livro de Sebastian saiu ontem e ele vai fazer uma sessão de autógrafos na Deseret da Universidade.

Autumn sente um frio na barriga e fica de olhos arregalados ao se dar conta do que eles estão fazendo ali, dentro do carro.

– A gente não...

– A gente sim.

A fila nasce dentro da livraria e se arrasta pela frente das lojas, descendo quase meio quarteirão da universidade. A imagem faz Tanner lembrar do aeroporto, naqueles dias em que centenas de pessoas esperam os missionários que estão voltando para casa. Quando os mórmons saem, eles saem en masse.

Tanner e Autumn se enfiam no fim da fila. É começo de junho, então o vento sopra seco e quente. Além das montanhas, que se levantam da terra, a cidade parece infinitamente plana. Não é plana, de forma alguma, mas tem aquela vibe de baixa expectativa, aquele ar urbano de uma cidade nada ambiciosa.

Ele sente um frio na barriga, um frio que expulsa todo o calor para fora de seu corpo. Vai sentir saudade da Autumn, mas, em breve, estará outra vez perto do mar.

Um homem usando camisa xadrez de mangas curtas se aproxima. No braço esquerdo, traz uma pilha de pelo menos dez livros.

– Vieram para a sessão de autógrafos?

Tanner assente.

– Sim.

– Trouxeram suas cópias ou vão comprar aqui com a gente?

Autumn e Tanner trocam um olhar de incerteza.

– Comprar aqui, eu acho? – Autumn arrisca.

O homem entrega uma cópia para cada um e dois post-its. Tanner quase dá risada. São azuis, exatamente como aqueles que ele usava para expressar sua angústia, seu amor e seu melodrama.

– Escrevam seus nomes aqui. – O homem instrui. – Fica mais fácil para Sebastian autografar quando chegar a vez de vocês.

Uma corda parece apertar o coração de Tanner. Autumn deixa escapar um gemido de solidariedade.

– Depois que ele assinar, vocês podem pagar no caixa.

Nem passa pela cabeça dos funcionários que alguém poderia simplesmente

pegar um exemplar do livro e ir embora sem nem entrar na loja.

O homem segue seu caminho e, segurando sua cópia, Autumn se vira para Tanner.

– Tudo isso é tão estranho.

– É.

Tanner olha para o romance em suas mãos. Na capa, vê uma paisagem em chamas – um vale queimado, mas as montanhas ainda vivas, com o verde pairando sobre as chamas. É uma bela imagem. As cores são sensacionais, quase tridimensionais. Um garoto usando um manto está na base da montanha, onde segura uma tocha. Aos seus pés, o título aparece em relevo: TEMPESTADE DE FOGO

Sebastian Brother

Para Tanner, o título não tem significado algum. Talvez, jamais venha a ter. A ideia de passar – ele olha a última folha – quatrocentas páginas com a mente criativa do Sebastian, parece quase insuportável. Talvez um dia, quando ele estiver em outra e tudo isso parecer uma pequena cicatriz em sua história, abra o livro, veja seu nome escrito ali com uma caligrafia genérica e realmente consiga apreciar as palavras no miolo.

– Não, sério... Se já é estranho para mim, não consigo nem imaginar como é para você. – Autumn diz, afastando-o de seus pensamentos. – Já estou começando a me perguntar que diabos estamos fazendo aqui. Essa visita à livraria pode terminar em desastre.

– Não acha que ele está mais ou menos esperando você?

Tanner reflete por um instante. Não tentou entrar em contato com Sebastian, não depois daquele e-mail. Sem dúvida, Sebastian pensa que ele vai simplesmente desaparecer. Ele devia mesmo simplesmente desaparecer.

– Não.

Ela aponta para a frente, para o fim do quarteirão.

– Bem, estamos convenientemente próximos da Emergency Essentials, caso precise de alguma coisa, eu corro lá para buscar.

– Tudo é tão mórmon nesta cidade. – Tanner resmunga.

Autumn não discute. Eles olham para as lojas na rua, para os três maiores letreiros: Deseret Books, Emergency Essentials, Avenia Bridal.

– É, temos ali três lojas típicas de Utah. Você tem razão, é tudo muito mórmon mesmo.

– Você sente saudade da igreja?

Auddy se escora em Tanner. A cabeça dela mal alcança o ombro dele, então

Tanner a abraça e ela se ajeita abaixo do seu queixo.

– Às vezes. – Responde, olhando para o amigo. Qualquer um espiando pensaria que os dois formam um casal. – Sinto falta das atividades e da certeza de que, se todo mundo está feliz com suas atitudes, você está fazendo as coisas certas.

Tanner repuxa o nariz.

– Que nojo!

– Exato. – Ela concorda, dando tapinhas no peito dele. – É justamente o que eu penso. Sebastian não estava fazendo nada errado com você.

Ele lança um olhar carregado de significado à sua volta e baixa a voz:

– É o que gente como a gente pensa.

Dessa vez, Autumn sussurra:

– Não é errado você estar aqui.

A fila começa a andar e o estômago de Tanner desaba. Será que não é errado eles estarem ali? Nem um pouquinho? Se essa não é a definição de “surpreender alguém”, é provavelmente algo muito próximo. É verdade que Sebastian e Autumn agiram por suas costas ao lerem seu livro, mas aqui eles estão em público. Sebastian vai ter que se controlar. Tanner vai ter que se controlar.

Ele pega a caneta da mão de Autumn para escrever seu nome. Não faz isso para ser irreverente, mas para ser prático. É bem possível que Sebastian fique nervoso demais para lembrar como se escreve T-AN-N-E-R.

A fila vai andando lentamente. Tanner imagina Sebastian atrás de um balcão ou de uma mesa, encantando todos que se aproximam.

Seu estômago ronca e o sol tenta se dependurar no céu antes de desistir de vez e se afundar atrás das montanhas. Quando escurece, o ar esfria pela primeira vez naquele dia.

Autumn bate em um mosquito no braço de Tanner.

– Está bem, vamos enfrentar.

– Enfrentar o quê?

Ela lança um olhar cheio de preocupação para o amigo.

– O que viemos fazer aqui.

Tanner respira fundo.

– Eu só vou agradecê-lo pelo que fez. Sebastian vai saber do que estou falando. E desejar boa sorte na turnê e na missão.

– Só isso?

– Só isso.

Ela se estica para beijar o maxilar de Tanner.

– Você é um doce.

– Você é uma ameaça.

– Pelo menos, não sou mais uma ameaça virgem.

O grupo na frente dos dois se vira, olhos arregalados, escandalizados.

Autumn finge sentir vergonha:

– Ops!

Tanner se abaixa, tenta segurar a risada.

– Um dia desses, essa piada vai causar muito, muito problema.

– Quase que esse dia foi hoje.

Agora os dois estão bem próximos da porta e podem ver que lá dentro a fila é composta por só mais umas quinze pessoas antes de terminar. Antes de Sebastian.

Tanner não consegue vê-lo, mas percebe a vibração na livraria. O salão está cheio de homens de ternos, mulheres de vestidos longos, taças de ponche para comemorar. Também há uma mesa com cupcakes, legumes e molhos. Alguém preparou um bolo. O evento não é só uma sessão de autógrafos; é uma festinha de lançamento.

Os pais de Sebastian estão presentes, conversando em um pequeno semicírculo com uma mulher cujo nome aparece estampado em uma etiqueta e com um homem de terno e gravata. Autumn consegue enfim entrar na livraria; Tanner a acompanha, segurando a porta para quem estiver atrás deles na fila, mas a porta acaba batendo em uma mesa de exposição de livros e o barulho faz Dan Brother olhar naquela direção, sorrindo por instinto, antes de sua expressão se tornar totalmente inflexível.

Nem passou pela cabeça de Tanner que ele veria os pais de Sebastian aqui, que eles o reconheceriam, que o associariam ao câncer que afetou seu filho. Mas é claro que isso acontece.

– E veja só... Ali está o pai dele. – Autumn comenta, assentindo para Dan do outro lado do salão.

– Pois é.

A mãe de Sebastian olha para Dan Brother, buscando avaliar a reação do marido, como se buscasse algum direcionamento. Depois de um instante, os dois conseguem voltar seu semblante ao normal.

Autumn fica de braços dados com Tanner.

– Tudo bem com você?

– Eu quero ir embora, mas agora é tarde demais.

De fato, é tarde. Agora só faltam duas pessoas, e Tanner já vê Sebastian, que está usando uma camisa social azul impecavelmente passada e gravata preta.

Seus cabelos parecem mais curtos. No rosto, aquele sorriso que mais se assemelha a uma máscara. Mas, mesmo nessa livraria mórmon, atrás de uma parede de pessoas mórmons, ele ainda parece o menino da trilha, o menino

comendo comida chinesa, o menino no capô do carro.

Nesse momento, Sebastian ergue o olhar e vê quem é o próximo da fila. E a máscara se desfaz por um segundo. Não, por mais tempo. Ele analisa Tanner com aquele seu jeito tão dolorosamente familiar.

Segurando sua cópia do livro, Tanner dá um passo à frente.

– Oi. Meus parabéns.

O maxilar de Sebastian se repuxa, e ele raspa a garganta, cenho franzido.

– Oi. – Desce o olhar, pega o livro de Autumn e lentamente desgruda o post-it.

– Hum... – Expira um ar trêmulo. Raspa outra vez a garganta, abre o livro na folha de rosto e, com uma mão trêmula, ergue a caneta.

Autumn desliza o olhar freneticamente de um para o outro.

– Oi, Sebastian.

Ele a analisa, parece tentar focar o olhar.

– Autumn, oi. Como tem andado?

– Estou bem. Me mudo para Connecticut nas próximas semanas. Onde vai ser a sua primeira parada?

– Depois daqui? Vou para Denver. – Ele cita mecanicamente as cidades: –

Portland, São Francisco, Phoenix, Austin, Dallas, Atlanta, Charleston, Chicago, Minneapolis, Cleveland... Hum... Filadélfia, Nova York. E, aí, volto para casa.

– Nossa! – ela exclama. – Que loucura!

Sebastian deixa escapar uma risada seca enquanto autografa o livro de Autumn, escrevendo: “Boa sorte em Yale. Tudo de bom e obrigado, Sebastian Brother”.

Então, entrega o livro e pega a cópia de Tanner. Depois de olhar torto para o post-it, arranca-o, amassa-o e joga na lata de lixo próxima de seu pé.

Tanner passou os últimos segundos em silêncio, então Autumn o cutuca. E

balbucia:

– Diga alguma coisa.

– Eu vim para agradecer. – Tanner arrisca baixinho, esperando que as pessoas em volta deles (mais especificamente os pais de Sebastian) não ouçam. O corpo de Sebastian fica tenso e ele se concentra no que está escrevendo. – Pelo que você fez. Não sei se entendo por que fez aquilo, mas me sinto grato mesmo assim.

– Muito obrigado por ter vindo aqui hoje, Tanner. – Sebastian agradece magnanimamente.

Já recuperou parte de sua compostura, então sua voz se projeta além do espaço protegido da mesa. E é um tom tão nauseantemente falso que Tanner quase dá risada. Por fim, ele olha outra vez nos olhos de Sebastian, e é devastador. Sua voz pode ter se recuperado, mas o mesmo não é verdade para seus olhos. Estão

apertados e brilhando com as lágrimas.