Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 8 de 25

Páginas do PDF

Minha Versão de Você

Capítulo Oito

– Talvez, quando o barco estiver pronto, possamos dar uma volta com ele.

Ele apoia a lata ao lado de seu prato.

– Você já fez isso antes?

– Bem, eu nunca levei o trailer sozinho, mas tenho certeza de que consigo.

Você pode ir com a gente a Lake Powell em julho.

O rosto de Sebastian parece desanimado por uma fração de segundo, antes de ele voltar a exibir aquela sua persona padrão tão perfeita.

– Parece uma ideia legal.

– Pode ser que tenhamos sorte e o tempo esquente mais cedo – arrisco –, um verão antecipado.

Eu me pergunto se ele percebe que meu coração está espancando as minhas costelas.

– Espero que sim.

 

Passo todo o meu tempo livre de todas as noites da semana freneticamente localizando e substituindo os nomes “Tanner”, “Tann” e “Sebastian”. Tanner vira Colin; Sebastian passa a ser Evan. Todos os meus colegas de escola recebem nomes falsos e genéricos. Autumn vira Annie; Fujita, Franklin. A sala de aula se transforma em um laboratório de química.

Percebo que é um exercício fútil. Mesmo quando salvo uma nova versão do arquivo, na qual Colin está interessado em Ian, um dos alunos mórmons da sala, sei que as alterações são, na melhor das hipóteses, pouco consistentes e nada convincentes.

Sexta-feira, depois das aulas, com os quatro primeiros capítulos impressos e debaixo do braço, entro em meu carro e dirijo até a casa de Sebastian. Posso jurar que a campainha deles é a mais alta do mundo. Pelo menos é o que parece assim que aperto o botão. Meu pulso acelera; sinto como se meus nervos estivessem sendo atropelados por uma carreta.

Mas agora não tenho como voltar atrás. Estou prestes a entrar na casa de Sebastian. Na casa do bispo.

Não é exatamente a minha primeira experiência do tipo. Já entrei na casa de Eric no passado, mas a casa de Eric é muito mais light. Há uma foto dele agora no lugar onde a foto do Salvador costumava ficar. Eles ainda ostentavam uma foto do templo emoldurada na parede, mas, ao mesmo tempo, tinham uma cafeteira, como qualquer família de pessoas civilizadas.

O que quero dizer com isso é que parte da ansiedade que sinto agora é como a que um arqueólogo deve sentir antes de escavar no Egito: há muito a descobrir aqui.

Passos pesados batem no assoalho lá dentro. Pesados o suficiente para me fazer pensar que pode ser o senhor Brother do outro lado da porta, então imediatamente me pego em pânico porque cortei os cabelos e vesti minha melhor roupa e o que acontece se, em vez de parecer um mórmon, eu estiver muito gay?

E se o pai de Sebastian imediatamente perceber minhas intenções e me mandar embora daqui, proibindo o filho de voltar a falar comigo?

Meu pânico se transforma em uma espiral. Estou arrumado, mas não sou todo perfeitinho; claramente sinto luxúria por Sebastian; meu pai é judeu – isso é ruim? Não existem muitos judeus em Provo, mas, como não somos praticantes mesmo, nunca considerei que esse fator pudesse me excluir ainda mais. Deus, eu nem sei usar a palavra “convênio” direito. Sinto o suor brotando em minha nuca e a porta está se abrindo e...

Mas é apenas Sebastian abraçado com um garoto.

– Este é Aaron. – Apresenta, afastando-se ligeiramente para que eu consiga ver seu irmão melhor. – Aaron, este é Tanner.

Seu irmão é esguio, sorridente, tem cabelos escuros e macios: uma miniatura do irmão mais velho. Mandou bem, genética.

Aaron se aproxima e estende a mão para me cumprimentar.

– Oi.

– É um prazer conhecer você.

Ele tem treze anos e eu agora me pergunto se meu aperto de mão é forte o suficiente. Os mórmons parecem ser muito bons com essas coisas.

Solto sua mão e sorrio, resistindo à necessidade de me desculpar. Os palavrões vão ter que ficar para outra hora ou, no mínimo, terão de ficar dentro da minha cabeça.

Quase como se percebesse que há um Tchernóbil silencioso acontecendo em meu interior, Sebastian leva Aaron para dentro e inclina a cabeça, sinalizando para que eu o siga.

– Entre – convida, e depois sorri –, você não vai pegar fogo.

O interior da casa é imaculado. E muito, muito mórmon. O que me faz pensar se esse espaço é parecido com a casa onde minha mãe cresceu.

Logo na entrada, há a sala de estar com dois sofás, um de frente para o outro, um piano de armário e um quadro enorme do Templo de Salt Lake. Ao lado está uma imagem de Joseph Smith.

Acompanho Sebastian pelo corredor e passamos por um armário peculiar com uma estátua de Jesus com a mão estendida, porta-retratos com fotos dos quatro filhos e uma imagem do casamento de seus pais em que os dois estão totalmente vestidos de branco. Aliás, para ser sincero, eles parecem mal ter entrado na puberdade, e o vestido de casamento sobe até quase o queixo da noiva.

Na cozinha, como esperado, não vejo nenhuma cafeteira no balcão, mas, para meu eterno deleite, na parede bem ao lado da mesa, há uma foto enorme de Sebastian em um gramado verde, sorrindo de uma orelha à outra e casualmente segurando uma cópia do Livro dos Mórmons.

Ele me pega estudando a imagem e raspa a garganta.

– Quer alguma coisa para beber? Cerveja de raiz, suco... limonada?

Desvio a atenção da foto para olhá-lo em carne e osso – de alguma forma tão diferente aqui, diante de mim: olhos mais guardados, pele clara sem nem precisar de Photoshop, barba por fazer no queixo – e, como de costume, meus

olhos se concentram em suas bochechas rosadas. Será que está constrangido ou excitado? Quero descobrir o significado de cada tonalidade de seu rubor.

– Água, por favor.

Ele se vira e eu o vejo se afastar antes de voltar minha atenção a cada uma das maravilhas emolduradas nesta casa. Como, por exemplo, um documento em uma moldura dourada pesada, intitulado “A FAMÍLIA: UMA PROCLAMAÇÃO

PARA O MUNDO”.

Eu nunca vejo coisas desse tipo. Em nossa casa, é muito mais provável que você encontre um manifesto progressista preso à parede.

Li até o quarto parágrafo, no qual a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias proclama que “os poderes sagrados da procriação devem ser empregados apenas entre homem e mulher legalmente na condição de marido e esposa” quando Sebastian me entrega o copo de água gelada.

Estou tão assustado que quase o derrubo no chão.

– Então, isso aqui é interessante – digo, esforçando-me para manter um tom neutro.

Fico dividido entre querer terminar de ler e, de alguma forma, conseguir desler o que já absorvi.

Estou começando a entender o que minha mãe quer dizer quando fala em me proteger da mensagem tóxica da igreja.

– Tem muita informação condensada nesta página – Sebastian concorda, mas não consigo ler em sua voz como se sente com relação a isso.

Eu sabia de tudo isso antes de vir aqui – ou seja, que sexo é para os heterossexuais; pais são obrigados a ensinar esses valores a seus filhos; nada de sexo antes do casamento; e, acima de tudo, orar, orar e orar –, mas ver a mensagem estampada aqui, na casa do Sebastian, faz tudo parecer mais real.

O que, por sua vez, torna tudo o que estou sentindo um pouco mais i rreal.

Fico instantaneamente vertiginoso ao perceber que a família de Sebastian não apenas valoriza as ideais estampadas ali; eles não estão brincando de “não seria legal se...?”. Eles realmente, genuinamente, acreditam nesse Deus, nessas doutrinas.

Olho para Sebastian, que me analisa com olhos indecifráveis.

– Nunca recebi ninguém que não fosse membro aqui em casa – comenta, lendo a minha mente. – Só estou observando você absorver todas as informações.

Decido apostar na mais pura sinceridade:

– É difícil entender.

– Eu me pergunto o que aconteceria se você abrisse o Livro dos Mórmons e lesse uma parte, será que sentiria tocado de alguma forma? – Ele ergue a mão. –

Não estou tentando convertê-lo, só fiquei curioso.

– Posso tentar.

Mas, francamente, não quero.

Ele encolhe o ombro.

– Por enquanto, vamos nos sentar em algum lugar e conversar sobre o seu livro.

A tensão do momento se desfaz e só então me dou conta de que estava segurando a respiração, que todos os meus músculos estavam tensos.

Andamos até outra sala, muito mais aconchegante do que aquela logo na entrada da casa. Aqui, vejo inúmeros porta-retratos com fotos da família: juntos, em pares, sozinhos encostados a uma árvore. Em todas as fotos eles sorriem. E

parecem sorrisos sinceros. Minha família é uma família feliz, mas, durante a nossa sessão de fotos mais recente, minha mãe ameaçou dar a Hailey um guarda-roupa inteiro de vestidos coloridos da Gap se ela não parasse de fechar a cara.

– Tanner – Sebastian me chama baixinho. Olho para ele e um leve sorriso se espalha por seu rosto, até ele não resistir e começar a rir. – É tão fascinante assim?

Sua provocação me faz perceber que estou me comportando como um homem saindo da caverna.

– Desculpa. É que tudo é tão bonito e gracioso.

Ele balança a cabeça e olha para baixo, mas ainda está sorrindo.

– Entendi. Mas e o seu livro?

Sim, Sebastian. Discutamos o meu livro. Meu livro, que é sobre você.

Minha confiança foge, deixando a cena do crime. Entrego a ele as páginas impressas.

– Não acho que esteja muito bom, mas...

Minhas palavras o fazem olhar na minha direção; percebo o interesse brotando em seus olhos.

– Nós chegaremos lá.

Ainda bem que, pelo menos, um de nós é otimista.

Ele sorri, olhando-me nos olhos e dizendo, como se estivesse me provocando:

– Não fique nervoso.

Então, pisca para as páginas em sua mão. Vejo os olhos deslizando de um lado a outro da página e meu coração é como uma granada na garganta.

Por que, mesmo, eu aceitei me submeter a isso? Por que tentei reescrever os trechos que se passam na sala de aula? Sim, eu queria passar tempo com Sebastian hoje, mas não seria muito mais fácil manter o livro em segredo até eu descobrir qual é a situação verdadeira entre nós dois?

Assim que esse pensamento me ocorre, percebo que meu subconsciente já

 

venceu: eu queria que ele se encontrasse na história. Grande parte dos meus escritos vem de nossas conversas. Estou aqui porque quero que ele me diga qual interesse amoroso Sebastian quer ser: Evan ou Ian.

Assente ao terminar de ler e parece voltar e reler a última parte do texto.

Não esperava que ele fosse dizer:

– Estou com tempo nesse fim de semana. Posso ajudar.

Essa provavelmente é uma péssima ideia. Sim, estou interessado nele, mas receio que, se eu escavar mais fundo, não vou gostar dele.

Mas seria melhor assim, não seria? Certamente não faria mal passar algum tempo fora desta sala de aula, obter uma resposta para a minha pergunta: Será que podemos ser amigos? Será que podemos ser algo mais?

Ele engole em seco e eu observo o movimento de sua garganta.

– Pode ser? – pergunta, atraindo meu olhar outra vez para o seu rosto.

– Sim – respondo, também engolindo em seco. Dessa vez, ele assiste. – A que horas?

Ele sorri enquanto me entrega as páginas.

– Uau!

Uau? Estremeço. É claro que ele quis dizer que está horrível.

– Eu me sinto um grande idiota.

– Nada disso – rebate –, Tanner, eu gostei bastante.

– Ah, é?

Ele assente antes de mordiscar o lábio.

– Então... eu estou no seu livro?

Nego com a cabeça. O pino da granada foi puxado.

– Ninguém que conhecemos está. Bem, exceto Franklin, que é uma recriação de Fujita, obviamente. Só estou usando o cenário da escola como estrutura.

Deslizando um dedo por seu lábio inferior, Sebastian me estuda por alguns segundos.

– Acho que... Quero dizer... Acho que a história é sobre a gente.

Sinto todo o sangue deixando meu rosto.

– O quê? Não!

Ele dá uma risada gostosa.

– Colin e... Ian? Ou o professor-assistente é Evan?

– É a história de Colin e Ian. Outro aluno.

Ai, meu Deus. Ai, meu Deus!

– Mas... – começa a falar e logo olha para baixo, enrubescendo.

Eu me esforço para não entregar nada.

– O que foi?

Ele abre o manuscrito em uma página e aponta o indicador.

– Você digitou seu nome errado aqui. Bem aqui, onde acho que era para ter sido Colin. Aí, quando fez uma busca e mandou substituir, o programa não pegou.

DROGA!

O mesmo erro de digitação que sempre cometo ao escrever meu nome.

– Está bem. É... Originalmente era sobre mim e uma pessoa hipotética.

– Sério? – pergunta com olhos cheios de curiosidade.

Cutuco o clipe de papel que usei para segurar as páginas.

– Não, eu sei que você não é...

Ele abre em outra página e me entrega.

Um palavrão me escapa, bem baixinho.

Com os dedos entrelaçados à frente do corpo, Franklin apoia o peso do corpo nos calcanhares.

– Seb tem uma agenda muito lotada, obviamente. – Eu sinto minha mente gemer. Seb... – Mas ele e eu sentimos que essa experiência pode beneficiar todos vocês. Eu acredito que ele vai inspirá-los.

Seb. Esqueci de mandar o programa substituir o apelido de Sebastian.

Ele está prestes a dizer alguma coisa – não consigo decifrar sua expressão, mas não me parece ser de horror – quando uma voz surge, vinda da porta.

– Sebastian, querido!

Nós dois nos viramos para olhar na direção do som. Quero beijar a mulher que me tirou desse buraco de constrangimento. A mãe dele, reconheço pelas fotos, entra na sala. É pequena, com cabelos de um tom escuro de loiro, presos em um rabo de cavalo. Usa uma blusa de manga longa simples e calça jeans. Não sei por que esperava encontrar uma mulher com um vestido floral antiquado e tiara nos cabelos, mas minhas sinapses rapidamente se rearranjam.

– Oi, mãe. – Sebastian a cumprimenta com um sorriso. – Este é o Tanner. Ele está fazendo o Seminário este semestre.

Sua mãe sorri para mim, aproximando-se para me oferecer um aperto de mão e dizer que sou bem-vindo à sua casa. Meu coração continua espancando as costelas, e me pergunto se a minha aparência é a de quem está prestes a desmaiar. Ela me oferece algo para beber e para comer. Pergunta em que estamos trabalhando e nós dois murmuramos alguma coisa blá-blá-blá em um livro, mas não olhamos um para o outro.

Aparentemente, todavia, nossas respostas foram totalmente convincentes, pois ela olha para Sebastian e diz:

– Você retornou a ligação de Ashley Davis?

Como se por vontade própria, os olhos de Sebastian apontam para mim e de volta para sua mãe.

– Quem é essa mesmo?

O esclarecimento dado por sua mãe faz meu estômago afundar:

– A coordenadora das atividades. – Então, uma pausa antes de acrescentar de forma bastante significativa: – Ela organiza a ala dos solteiros.

– Ah. Não, ainda não entrei em contato com ela.

– Então não se esqueça de fazer isso, está bem? – Ela pede com um sorriso caloroso. – Eu falei que você ligaria. Acho que já é hora.

É hora? O que isso quer dizer? Será que seus pais se incomodam por ele estar com dezenove anos e não ter namorada? Pensei que Sebastian não devesse ter namorada quando partisse para cumprir sua missão.

Será que suspeita que seu filho seja gay?

Sebastian começa a falar, mas ela delicadamente o corta, respondendo algumas das minhas perguntas:

– Não estou dizendo que você deva se relacionar com alguém. Só quero que conheça algumas... pessoas... – Que droga, ela está falando de meninas – para quando chegar a hora...

– Está bem, mãe – Sebastian responde baixinho, piscando para mim e desviando outra vez o olhar.

Sorri para ela porque a interrompeu, para que não se sinta insultada.

Ela parece satisfeita com a resposta dele, então prossegue:

– Já temos a programação da sua agente para a promoção do livro?

Sebastian estremece, negando com a cabeça.

– Ainda não.

O sorriso de sua mãe se desfaz e agora um franzir de testa se instala em seu semblante.

– Fico preocupada com a questão do tempo necessário para coordenar tudo. –

Esclarece. – Ainda temos que cuidar da burocracia e coordenar as coisas com o CFM. Se você for em junho, estará perto da data-limite. Não sabemos para onde será enviado, então imagino que precise de três meses no centro antes de partir.

Em qualquer outra casa, esse planejamento detalhado me faria pensar em espiões, e Agente Q, e canetas que se transformam em machados. Aqui, não.

Mas logo os pontos se unem. Meu cérebro de repente parece o antigo GM

Buick de minha mãe. Ela sempre pisava no acelerador antes da hora e o motor encharcava, precisando de alguns segundos para limpar. Preciso desse mesmo

tempo para me dar conta de que Sebastian e sua mãe estão falando deste verão.

Ou seja: ele vai passar dois anos longe de Provo.

CFM é o Centro de Formação de Missionários. Ele vai embora daqui a quatro meses.

Quatro meses que terão de parecer uma eternidade.

– Vou perguntar à agente. – Sebastian diz. – Desculpa. Na última vez que perguntei, eles disseram que me enviariam o itinerário da turnê, com todas as datas e cidades, assim que estivesse pronto.

– Temos muito a fazer antes de você ir – ela reforça.

– Eu sei, mãe. Vou me colocar em dia com as coisas.

Com um leve beijo no topo da cabeça do filho, ela vai embora e a sala parece ser engolida por um silêncio pesado.

– Desculpa pelo que acabou de acontecer – ele pede, e eu espero ver seu rosto se apertar, mas, quando o observo, deparo-me com um sorriso enorme.

A conversa desconfortável entre nós ficou para trás, assim como a conversa desajeitada com sua mãe.

– São tantas coisas para coordenar – continua –, preciso conseguir logo essas informações para ela.

– Claro.

Pressiono meu lábio inferior, tentando descobrir como perguntar o que quero perguntar, mas meu movimento o distrai e a expressão em seus lábios muda quando ele me vê tocando o dedo em minha boca.

Não sei o que se passa nesse pequeno intervalo, mas – bem parecido com sua reação quando ele admitiu que foi me ver naquele dia, quando eu estava trabalhando no barco – nossas expressões dizem muito. Dizem muito porque o sorriso parecia real até ele olhar para a minha boca, e então esse sorriso se estilhaçou por completo.

A sala está tomada por sentimentos não verbalizados. Eles pairam como nuvens pesadas sobre nossas cabeças.

– Aonde você vai? – indago.

Ele analisa meus olhos e agora não há nenhum sinal de sorriso.

– Ah, depois da turnê do livro? Vou cumprir a minha missão.

– Certo, entendi. – Meu coração é como mil bolinhas de gude rolando no chão. Não sei por que preciso que ele diga em voz alta. – E ainda não sabe para onde será enviado?

– Acho que vou descobrir em julho. Como você mesmo ouviu, ainda precisamos enviar a minha documentação, mas só posso fazer isso depois que o livro sair.

Missões, vistas de fora, são difíceis de entender. Homens jovens – e, às vezes,

também mulheres, mas não com a mesma frequência – deixam suas casas por dois anos e são enviados a qualquer lugar do mundo. Seu trabalho? Fazer novos mórmons. E não do jeito que envolve sexo, pelo menos não ainda. Os missionários criam novos mórmons ao batizar pessoas.

Nós todos já os vimos por aí, andando a pé ou de bicicleta, com suas calças impecáveis e camisas brancas de mangas curtas perfeitamente limpas. Aparecem às nossas portas com sorriso enormes, cabelos arrumados e uma plaquinha preta com seu nome e perguntam se gostaríamos de descobrir mais sobre Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. A maioria de nós os dispensa com um sorriso e um

“não, obrigado”.

Mas minha mãe nunca diz não. Independentemente de seus sentimentos com relação à igreja – e acredite quando eu digo que ela não permite que eles sequer citem o Livro dos Mórmons –, essas pessoas estão longe de casa, ela explicava quando morávamos em Palo Alto. E é verdade; muitos deles estão e passam o dia todo em pé, andando. Quando os convidamos para entrar, são tão gentis e bondosos quanto se possa imaginar. Aceitam limonada e um lanchinho, e sua gratidão chega a ser efusiva.

Os missionários são algumas das pessoas mais gentis que você pode encontrar, mas querem que você leia o livro deles, querem que veja a verdade da forma como a igreja a vê.

Enquanto estão longe de casa, não podem assistir TV ou ouvir rádio, nem ler nada além de alguns textos sancionados pela igreja. Estão ali para mergulhar mais fundo do que nunca em sua fé, para ficarem sozinhos e se tornarem homens, para ajudar a expandir a igreja e o acesso ao Evangelho. É claro que não podem se envolver em atos sexuais – e muito menos com membros do mesmo sexo. Eles querem salvá-lo porque acham que você precisa ser salvo.

Sebastian quer ser um deles.

Não consigo afastar da minha cabeça esse pensamento e agora estamos aqui, nesta casa, cercados por essa verdade – é claro que ele quer ser uma dessas pessoas. Ele é um deles. O fato de ter se encontrado com tanta facilidade em meu livro, de saber que tenho sentimentos por ele, não muda nada.

A essa altura, já nem me importo mais com a farsa da minha escrita; eu o deixaria ver a versão original, a versão que deixa claro que não consigo parar de pensar nele, se me prometesse ficar.

Ele quer participar da missão? Quer ir embora daqui e dedicar dois dos seus melhores, mais sensuais e mais aventurosos anos à igreja? Quer entregar sua vida a isso? Realmente entregar a vida a isso?

Olho para minhas mãos e me pergunto o que estou fazendo neste lugar. A Paige e seu coração de glitter são anos-luz mais avançados do que eu. Eu sou o

 

Rei dos Ingênuos.

– Tanner.

Olho para ele, que está me encarando, e fica claro que já me chamou mais de uma vez antes de eu ouvi-lo.

– O quê?

Sebastian tenta sorrir, mas está nervoso.

– Você ficou quieto.

Sejamos francos: eu não tenho nada a perder.

– Acho que ainda estou preso naquela parte em que você passa dois anos longe, cumprindo a sua missão. Tipo, estou me dando conta de que você vai mesmo fazer isso.

Nem preciso dizer mais nada a Sebastian. Ele entendeu tudo. Entendeu as entrelinhas, o “eu não sou mórmon; você é”. O “quanto tempo conseguiremos ser amigos?”. O “eu não quero ser seu amigo”. Vejo em seus olhos.

E, em vez de ignorar, ou mudar de assunto, ou sugerir que eu aprenda a arte da oração, ele se levanta, puxa a bainha da camisa e diz:

– Vamos. Vamos dar uma volta. Nós dois temos muita coisa para digerir.

Existem um milhão de trilhas subindo a montanha e, quando o tempo está bom, você costuma encontrar alguém andando por elas. Porém, em Utah, o clima é imprevisível, e nossa frente de calor já foi embora há muito tempo. Ninguém está fazendo trilha.

Temos o mundo aqui fora para nós, então percorremos o caminho escorregadio até as casas no vale se transformarem em pontinhos e nós dois nos vermos sem ar. Só então paramos e eu me dou conta de quanta força tivemos que usar pela trilha, exorcizando alguns de nossos demônios.

Talvez o mesmo demônio.

Meu coração bate acelerado. Estamos claramente prestes a dar início a uma Conversa com C maiúsculo – caso contrário, teríamos simplesmente deixado de lado o trabalho escolar e ido jogar no Xbox – e as possibilidades de onde isso vai levar me deixam um tanto louco.

Não vai levar a lugar nenhum, Tanner. A lugar nenhum.

Sebastian se senta em uma pedra, abaixando-se para descansar os braços nas coxas e recuperar o fôlego.

Vejo o subir e descer de suas costas protegidas pela jaqueta, os músculos sólidos ali, mas também a postura ereta, aquele equilíbrio que só ele tem – e, em meus pensamentos, eu o corrompo. Imagino minhas mãos deslizando por todo o

seu corpo, suas mãos deslizando pelo meu.

Eu desejo Sebastian.

Com um leve gemido, desvio o olhar, analiso o horizonte, o Y da BYU

estampado no gramado e, francamente, isso é a última coisa que quero ver. É

feito de concreto e, na minha mente, é uma ofensa terrível para os olhos, mas é reverenciado na cidade e no campus da BYU.

– Você não gosta do Y?

Olho para Sebastian.

– Não tenho problemas com ele.

Ele ri – do meu tom de voz, imagino.

– Tem uma história que os Santos dos Últimos Dias contam segundo a qual os nativos americanos que viveram aqui muitos anos atrás disseram aos colonizadores da igreja que os anjos haviam lhes contado que quem se mudasse para cá seria abençoado e próspero.

– O interessante é que os nativos americanos não vivem mais aqui justamente por causa desses colonos.

Ele se aproxima, olha diretamente em meus olhos.

– Você parece muito chateado.

– Eu estou chateado.

– Por causa da minha missão?

– Certamente não é por causa daquele Y.

Ele vacila, sobrancelhas baixas.

– Bem, você não sabia que a maioria de nós parte em uma missão?

– Sim, mas acho que pensei que...

Olho para o céu e só consigo tossir uma risada. Sou mesmo um idiota.

Houve algum momento em que pensei que poderia fazer esses sentimentos pararem de se espalhar por minha corrente sanguínea?

– Tanner, eu só vou passar dois anos fora.

Minha risada sai tão seca que mais parece que estou cuspindo poeira.

– Só isso. – Balanço a cabeça, piscando para o chão ao redor dos meus pés. –

Então, nesse caso, não estou mais chateado.

Ficamos em silêncio e é como se um bloco de gelo tivesse caído entre nós. Eu sou uma piada. Agora, estou agindo como uma criança e tornando essa situação ainda mais constrangedora.

– Você pode pelo menos me ligar quando estiver longe? – pergunto.

Não me importo mais se parecer um louco.

Sebastian nega com a cabeça.

– E-mail ou... mensagens de texto?

– Posso enviar e-mails para minha família – esclarece. – Também posso entrar

no Facebook, mas... só para tratar de assuntos ligados à igreja.

Sinto dor quando ele se vira para me olhar e o vento chicoteia forte meu rosto.

Ao mesmo tempo, tenho a impressão de que o céu está me estapeando para que eu volte aos meus sentidos.

Acorde, Tanner. Acorde, caramba.

– Tanner, eu não...

Sebastian esfrega a mão no rosto e balança a cabeça. Não conclui seu pensamento, então eu o pressiono:

– Você não o quê?

– Eu não entendo por que está tão chateado.

Ele está me encarando agora, o arco de sua sobrancelha se repuxa para baixo.

Mas não é confusão que vejo ali; pelo menos não me parece. Quero dizer, ele sabe que eu sei. Só quer que eu diga em voz alta? Quer que eu fale para que possa explicar com todo o cuidado que nós dois ficarmos juntos é algo impossível? Ou quer que eu admita meus sentimentos para poder...?

Não estou nem aí para os motivos. As palavras são pedras pesadas em meus pensamentos, em todos os meus pensamentos, e, se eu não as colocar para fora, acabarão destruindo todo o meu interior.

– Eu gosto de você – exponho. Mas, quando olho para ele, percebo que essas palavras não são suficientes; elas não alteram a expressão em seu rosto. – E sei que a sua igreja não permite esse tipo de sentimento.

Ele fica parado, completamente parado, como se segurasse a respiração. Eu continuo:

– Não permite que garotos tenham sentimentos assim... por outros garotos.

Ele deixa escapar um “não” quase inaudível.

– Mas eu não sou mórmon. – Afirmo, agora com a voz quase tão baixa quanto a dele. – Na minha família, esse tipo de atração não é uma coisa ruim. E agora não sei o que fazer com meus sentimentos nem como deixar de tê-los por você.

Eu estava certo. Minha colocação não o surpreende, de forma alguma. Seu rosto volta ao normal, mas logo está, outra vez, turvo. Cada músculo se contrai.

Pergunto a mim mesmo se ele preferiria que eu não tivesse falado nada ou se queria que simplesmente fingisse que ele é meu amigo e que eu sentiria falta, durante os dois anos, de nossos encontros platônicos para discutir esse livro ridículo.

– Eu... – Ele começa, mas logo expira controladamente, como se as moléculas de ar saíssem uma de cada vez de seus pulmões.

– Não precisa falar nada – digo a ele.

Meu coração está acelerado. É como uma mão me socando, socando, socando por dentro. Idiota, idiota, idiota.

– Eu só queria explicar por que estava chateado – acrescento, desejando que o chão se abra para me engolir. – E também porque meu livro basicamente narra como é me apaixonar por você.

Observo sua garganta enquanto ele engole em seco.

– Eu acho que eu sabia.

– Também acho que sabia.

Sua respiração agora sai dura e rápida. As bochechas estão rosadas.

– Você sempre... gostou de meninos?

– Eu sempre gostei de pessoas. – Esclareço. – Eu sou bi, na verdade. Acho que gosto de pessoas, e não das partes físicas delas.

Sebastian assente e não para. Continua balançando e balançando a cabeça e assente enquanto olha para suas mãos entre os joelhos.

– Por que você simplesmente não fica com uma menina, então? – pergunta bem baixinho. – Afinal, você se sente atraído por elas. Não facilitaria muito as coisas?

– Isso não é algo que a gente escolhe.

A situação é muito pior do que eu imaginava. Muito mais difícil do que foi contar para o meu pai. Quero dizer, quando me assumi para ele, percebi que ficou preocupado com o modo que o mundo me trataria e o tipo de obstáculo que eu encontraria pelo caminho, obstáculos que ele talvez não pudesse me ajudar a superar. Mas vi sua reação mascarada por baixo da mais firme das disciplinas.

Ele quer que eu seja aceito e faz tudo o que está ao seu alcance para esconder de mim seus medos.

Agora, aqui... Eu estava tão errado no que pensei sobre essa situação. Não devia ter dito nada ao Sebastian. Como podemos ser amigos depois do que aconteceu hoje? Tenho o pensamento melodramático de que isso é o que é sentir o coração partido. Não existe um estilhaçar; só existe uma fissura lenta e dolorosa que se espalha bem no meio.

– Eu acho que... sempre gostei de meninos – ele sussurra.

Meu olhar voa na direção de seu rosto.

Ele baixa as pálpebras, pesadas, enquanto tenta esconder as lágrimas.

– Quero dizer, sei que sempre gostei de meninos.

Ah, meu Deus!

– Eu não sinto nenhuma atração por meninas – continua. – E o invejo por isso.

Sempre orei para que em algum momento passasse a desejá-las. – Solta pesadamente o ar preso em seus pulmões. – Nunca falei isso em voz alta.

Quando ele pisca, as lágrimas escorrem por suas maçãs do rosto. Sebastian olha para cima, para as nuvens, e deixa escapar uma risada entristecida antes de prosseguir:

– Não sei dizer se me sinto bem ou horrível com isso.

Meus pensamentos são um ciclone; meu sangue é um rio transbordando.

Tento encontrar a coisa certa para dizer, o que eu gostaria que alguém me dissesse em um momento assim. O problema é que ele ter admitido para mim é algo enorme. É diferente de tudo o que já enfrentei, mesmo com a minha família.

Aposto no meu primeiro instinto, naquilo que me pai me falou:

– Eu seria incapaz de expressar o quão bom é saber que você confia em mim.

– É. – Ele me observa com seus olhos marejados. – Mas eu nunca... – Balança a cabeça. – Quer dizer, eu... tive vontade, mas nunca...

– Você nunca ficou com um menino?

Ele nega outra vez com a cabeça.

– Não. Nada, nunca.

– Eu já beijei meninos, mas, para ser sincero, nunca... senti isso que sinto agora.

Ele passa um instante absorvendo essa informação.

– Eu tentei mudar. – Sebastian aperta os olhos. – E não me permiti sequer imaginar como seria... ficar com...

Suas palavras são como um soco na boca do meu estômago.

– Mas, aí, conheci você – conclui.

Agora sua fala me atinge com ainda mais força.

Sinto-me arrancado do meu próprio corpo, como se estivesse assistindo a esta cena do outro lado da trilha. Estamos sentados em uma pedra, lado a lado, braços se tocando, e sei que esse momento ficará para sempre gravado na minha história.

– A primeira vez que te vi... – Começo, e ele já assente como se soubesse exatamente o que estou prestes a dizer.

– Sim.

Meu peito se aperta.

– Nunca me senti assim antes.

– Eu também não.

Viro-me para ele e tudo acontece muito rápido. Ele está olhando meu rosto e, no instante seguinte, sua boca encosta na minha, calorosa e doce e a sensação é maravilhosa. Meu Deus. Não consigo controlar os sons guturais que me escapam. Sebastian também os emite, e eles se transformam em uma risada quando ele se afasta com o maior sorriso que os céus já viram, e então se aproxima outra vez para me beijar mais, e mais intensamente, e encostar a mão em meu pescoço.