Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 20 de 25

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Minha Versão de Você

Capítulo Vinte

– Ainda não sei. – Suas palavras saem abafadas. – Eu gosto de muitas coisas na igreja. Conversar com Deus é um instinto, como se eu tivesse nascido para isso. Não consigo imaginar o que faria se simplesmente desse as costas para tudo. Seria como estar em um campo aberto e tentar apontar para quatro paredes.

Minha vida sem a igreja perde as estruturas.

Eu me pergunto se ele precisa mesmo deixar sua religião, se a escolha é tão binária assim.

– Talvez, as coisas sejam mais tranquilas em igrejas de outras cidades –

suponho –, como nas de Los Angeles, por exemplo.

Ele ri, tocando os dentes em minha clavícula.

Ficamos um tempo sem dizer nada.

Mantenho um ouvido aberto para detectar passos nas escadas e dedico o outro a ouvir os sons que Sebastian emite.

 

Uma breve advertência: não tente dormir de conchinha no sofá. Para começo de conversa, você vai cair. Além do mais, vai acordar com torcicolo. E é muito provável que, quando você despertar no chão com seu pai encarando seu corpo sem camisa e com restos de um pote de pipoca virado, acabe ficando de castigo.

– Sebastian dormiu aqui em casa?

– Hum... – Ao ouvir a pergunta de meu pai, sento-me e olho em volta. Sem nem precisar ver minha imagem no espelho, sei que meus cabelos estão em pé.

Puxo um grão de pipoca de onde ele perigosamente se localiza, bem próximo do meu mamilo. – Para dizer a verdade, não sei. Acho que ele sumiu.

– Mais ou menos como a sua camisa?

– Pai...

É difícil levar seu tom ríspido a sério quando ele está usando a calça

de um pijama do Come-Come que Auddy lhe deu no Chrismukkah5 de dois anos atrás.

– Você está atrasado. – Repreende, virando-se. Consigo ver o sorriso que ele tenta esconder. – Vá se vestir e comer alguma coisa.

Pego uma tigela de cereal e corro para o meu quarto. Tenho muita coisa a escrever.

Sebastian não responde a mensagem com emojis de pintinho, pipoca e paisagem que envio pouco antes de as aulas começarem. Também não aparece no Seminário desta tarde. Quando chego em casa, envio um e-mail para seu endereço particular.

Oi, sou eu. Só para ter notícias. Está tudo bem? Vou ficar em casa hoje à noite, caso queira dar uma passada. – Tann

Ele não responde.

Tento ignorar a dor familiar que se apossa de meu estômago, mas, quando chega a hora do jantar, não sinto fome. Meus pais trocam olhares de preocupação quando perguntam se conversei com Sebastian hoje, e respondo

 

com uma bufada. Hailey até se oferece para lavar as louças.

No dia seguinte, envio nosso antigo código – o emoji da montanha. A resposta não vem.

Na hora do almoço, ligo para ele. Cai direto na caixa postal.

Depois, minhas mensagens aparecem em uma bolha verde, como se seu iMessenger estivesse desligado.

Nada hoje.

Nada hoje.

Já se passaram quatro dias desde que Sebastian veio aqui em casa e, enfim, recebo um e-mail dele.

Tanner,

Sinto muito se não me fiz claro para você com relação aos meus sentimentos ou à minha identidade. Espero que a minha falta de clareza não tenha lhe causado muita dor.

Não desejo nada além do melhor para você em suas futuras aventuras na UCLA.

Atenciosamente,

Sebastian Brother

Não sei o que dizer nem o que pensar depois que termino de ler. É óbvio que li esse e-mail umas dez vezes, porque, nas primeiras nove, não conseguia acreditar no que estava bem diante de meus olhos.

Abro minha pasta, aquela na qual guardo suas cartas. Leio frases soltas e fico ainda mais estupefato com a distância e a formalidade de seu e-mail.

É estranho eu querer passar cada segundo ao seu lado?

Às vezes, é difícil não ficar olhando para você na aula. Acho que, se alguém me visse olhando para você, mesmo que por um segundo, esse alguém descobriria tudo.

Ainda sinto seu beijo no meu pescoço.

Mas não, ele não se fez claro com relação aos seus sentimentos.

Envio minha carta oficial de aceite à UCLA, mas minha mão treme quando

 

assino a declaração de que a matrícula depende das minhas notas deste semestre.

O plano é que eu me mude em 7 de agosto. A orientação será em 24 de agosto.

Envio uma mensagem a Sebastian para contar, mas ele não responde.

Hoje, eu contei. Nos últimos seis dias, enviei 20 mensagens com emojis.

Loucura? Esse número não é nada comparado ao de mensagens “de verdade”, com palavras, que comecei a escrever e depois deletei. Auddy, minha mãe e meu pai estão dispostos a me ouvir sempre que preciso deles. Manny e eu almoçamos; ficamos em silêncio, mas foi bem fácil ficar em silêncio. Até Hailey está se mostrando um amor de pessoa.

Mas eu só quero conversar com ele.

O prazo da entrega do meu livro é amanhã e eu não tenho ideia do que fazer.

Sebastian aparece no segundo capítulo. Fujita disse que tenho de entregar, pelo menos, cem páginas para tirar uma nota razoável, mas ele sabe que escrevi mais do que isso. Se eu apresentar as primeiras cem páginas, Fujita chegaria àquela parte em que Sebastian me contou que sente atração por meninos. Chegaria à parte em que nos beijamos.

O mais curioso é que, se você tivesse me observado por mais de dois minutos naquelas aulas, quaisquer alterações que eu pudesse fazer no texto seriam irrelevantes. Eu poderia levar a história a um universo alternativo, a um planeta chamado SkyTron-1, trocar o nome dele para Steve Rogers e o meu para Bucky Barnes e nos dar superpoderes. Ainda assim, os personagens desse livro seriam óbvios. Não consigo esconder nada quando ele está na sala, e meu coração se derrama em cada página, independentemente dos detalhes.

Se eu tirar D nessa matéria – a nota que vou tirar se não entregar o livro final ou se entregar só vinte páginas ao Fujita –, ainda consigo me formar, mas acabo perdendo pontos. Acho que a UCLA ainda me aceitaria. Acho.

Percebo que o fim deste livro é péssimo e me empenho pouco para fazer algo interessante. Esse é o fim que tenho. Que tipo de idiota eu fui para começar um livro sobre escrever um livro imaginando que chegaria a um final feliz? Final feliz e vida simples. Mas acho que é melhor eu ter aprendido a lição agora, em vez de aprendê-la mais adiante, quando não estiver mais vivendo com meus pais e o mundo não for tão bonzinho.

Tenho tido tanta sorte que acabei virando um cara que não tem a menor ideia de como um mundo realmente funciona.

Estou diante do gabinete de Fujita. Ele está com uma aluna – acho que é Julie

– que chora e se mostra estressada com a entrega de seu livro, mas eu me sinto estranhamente entorpecido. Não, não é totalmente verdade. Sinto-me aliviado, como se os meus dois medos – o de Sebastian terminar outra vez comigo e o de enfrentar essa questão do livro – estivessem ficando para trás e, pelo menos, assim, não terei mais que me preocupar com nenhum deles.

Quando chega a minha vez, entro na saleta. Fujita olha para o notebook em minhas mãos.

– Não trouxe uma cópia impressa?

– Não.

Ele me encara todo confuso.

– Não tenho nada para entregar – admito.

Há algo quase elétrico em ouvir um professor dizer:

– Que merda é essa?!

– Não tenho nada. – Troco o apoio de um pé para o outro, desconfortável com a intensidade de sua atenção. – Eu escrevi um texto, mas não posso entregar.

Não posso entregar as cem páginas que pediu.

– Por quê?

Nem isso posso explicar. Olho atrás dele, para sua mesa bagunçada.

– O que espera que eu faça? – Fujita pergunta baixinho.

– Me reprove.

– Sente-se – propõe –, reflita melhor por cinco minutos. Você ficou louco?

Sim, fiquei. Qual outra explicação existe para isso?