Minha Versão de Você

Christina Lauren · Capítulo 2 de 25

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Minha Versão de Você

Capítulo Dois

Autumn está sentada de olhos arregalados ao meu lado, ainda sem falar comigo. Já leu quase todos os livros da lista e, se a conheço bem, sei o que está pensando: Ainda dá tempo de pedir transferência e ir estudar Shakespeare com o professor Geiser?

Auddy se vira e me encara com olhos estreitos enquanto lê a minha mente.

Resmunga outra vez, e não consigo segurar a risada que me escapa.

Também já li quase todos esses livros. Autumn insistiu para que eu os lesse.

Solto o corpo no encosto da carteira, entrelaço os dedos atrás da cabeça e lanço mais um sorriso para ela.

Moleza. Tenho um semestre tranquilo à minha frente.

Ron Hubbard foi o fundador da Igreja da Cientologia, religião que recebe influência do Hinduísmo e Budismo e acredita que as pessoas são seres imortais.

 

Quando chega a quarta aula, Autumn está toda nervosa. Animada para o Seminário, mas ainda irritada por eu ter sido aceito do jeito como fui.

Simplesmente sigo-a pelo corredor e tento não a deixar me ver sorrindo, mesmo quando propositalmente me evita, já dentro da sala, aproximando-se de um grupo de carteiras, onde resta apenas uma vaga livre.

– Aqui, Auddy.

De pé na última fileira, guardo uma cadeira vazia para ela e outra para mim.

Ela tem a opção de assistir à aula comigo ou parecer misteriosamente petulante, mas logo se aproxima, resmungando:

– Você é uma peste.

– Eu te amo, mas só um pouquinho.

Auddy ri.

– Não estrague a minha experiência neste curso.

Aí está. Eu poderia arruinar sua experiência sendo um enorme incômodo no meio de algo pelo que ela tanto se esforçou. Será que ela acha que eu poderia querer fazer isso?

Do jeito que estou agindo, Auddy provavelmente pensa que sim.

– Não vou estragar.

Deslizo minha borracha pela mesa, aquela com uma ilustração antiga do He-Man impressa que ela me deu no Natal dois anos atrás. O que no passado fora um quadrado branco, agora não passa de uma bolinha acinzentada. O He-Man atual mal tem rosto e só lhe resta uma perna.

O nariz sardento de Autumn se repuxa enquanto ela me lança uma carranca meio desatenta. Estou perdoado.

O professor Fujita entra com uma pilha de livros nos braços. Desliza-os graciosamente pela mesa posicionada no centro do semicírculo de carteiras e os ignora quando eles caem em uma pilha bagunçada. Uma cópia de A Dança da Morte, de Stephen King, desaba duramente no chão, pousando virado para baixo e aberto. Ele ignora a cena; de canto de olho, posso ver Autumn ajeitando o corpo e sei que agora está extremamente preocupada com as páginas da enorme encadernação, que se tornam mais amassadas a cada segundo que ele passa ali.

– Bom dia! – O professor Fujita cantarola antes de olhar para o relógio na parede atrás da gente. – Ops! Boa tarde! Meu nome é Tim Fujita, mas todos me chamam de Fujita.

Sempre gostei muito do Fujita, mas o jeito como ele expõe seu próprio nome me faz gostar sete por cento menos.

Murmuramos nossos cumprimentos bem baixinho, não sei se porque nos sentimos intimidados ou porque estamos cansados depois do almoço. Ele sorri para nós, analisando nossos rostos, um a um. Olho para a organização da classe à nossa volta: Josh, Dustin, Amanda, Julie, Clive, Burrito Dave, Sabine, Dave do Futebol, Asher, Kylie, McKenna, James, Levi.

Todos são mórmons. Cabelos aparados, mangas curtas, boa postura. Na fileira mais atrás, Autumn e eu somos um par de árvores retorcidas pairando sobre um gramado exuberante.

Ao me ver, Fujita lança uma piscadela em minha direção. Ele considera minha mãe uma super-heroína. Ao meu lado, Autumn deixa escapar uma expiração comedida. Por causa da minha mãe (um gênio da computação) e meu pai (um cirurgião cardíaco muito reconhecido que, segundo os jornais, salvou o governador de Utah), venho recebendo tratamento especial dos professores desde que nos mudamos para esta cidade. Fujita ter me aceitado no Seminário é, sem dúvida, um exemplo desses privilégios.

– Bem-vindos, pessoal. – Ele estende a mão e desliza mais um olhar pela sala.

– Onde está ele?

Ao notar nosso silêncio confuso, Fujita analisa outra vez a sala e então nos observa em busca de respostas.

– Quem? – Dustin, sentado à frente como de costume, enfim pergunta.

Fujita olha para o relógio de pulso como se quisesse confirmar que está no lugar certo.

– Eu esperava que tivéssemos uma surpresa legal, e acho que teremos, mas me parece que ele se atrasou um pouquinho.

Respondemos com um silêncio ansioso enquanto suas sobrancelhas lentamente se arqueiam.

– Teremos um assistente especial neste semestre – revela.

Posso imaginar que esteja esperando um rufar de tambores, mas, em vez disso, sua pausa dramática abre espaço para uma sensação desconcertante e anticlimática.

– Acho que vão ficar feliz em saber que Sebastian Brother vai ser o mentor de cada um de vocês!

Um coro de ruídos animados se espalha, vindo dos outros quatorze corpos na sala – um herói mórmon vai vir aqui e dedicar seu tempo a nós. Até Autumn chegou a levar a mão à boca. Para ela – Santo dos Últimos Dias ou não –, Sebastian é uma celebridade local.

Com os dedos entrelaçados à frente do corpo, Fujita apoia todo o seu peso nos

calcanhares.

– Seb tem uma agenda muito cheia, obviamente. – Sinto minha mente gemer.

Seb... – Mas ele e eu sentimos que essa experiência pode beneficiar todos vocês.

Acredito que ele vai inspirá-los. Depois de fazer exatamente este curso, ele, que só tem dezenove anos, está construindo uma carreira literária de prestígio. –

Baixando o corpo, Fujita acrescenta confidencialmente: – É claro que li o romance dele. É maravilhoso! Impressionante!

– Será que ele já ouviu falar de Christopher Paolini? – Sussurro para Autumn.

Com seu olhar congelante, ela basicamente me manda calar a boca.

Fujita puxa uma pilha de papéis de uma pasta rasgada e começa a distribui-los.

– Imagino que possamos deixar de lado a pergunta do porquê de vocês estarem aqui. Estão aqui para escrever um livro, certo? – Quase todo mundo assente com entusiasmo. – E farão precisamente isso. Quatro meses não é muito tempo, verdade, mas vocês vão escrever. Vão dar um jeito. É por isso que eu estou aqui. Vamos começar a trabalhar...

Ele anda pela sala enquanto continua falando:

– Sugeri uma lista de leituras e tenho uma variedade de fontes sobre como começar e quais tipos de processos de escrita existem por aí, mas, na verdade, a única maneira de escrever um livro é efetivamente escrevendo. Não importa como vocês fazem, cada um tem seu processo.

Olho para o programa de estudos e a programação da disciplina que ele colocou em minha carteira e sinto minha cabeça arder, sinto aquele formigar do pânico se arrastando por meu pescoço.

Eu tenho que ter uma ideia esta semana.

Uma semana.

Quando sinto a atenção de Autumn focada em mim, viro-me e lhe ofereço um sorriso tranquilo. Porém, parece que meu gesto não saiu tão tranquilo quanto eu esperava. O sorriso dela falha, repuxando-se para um lado.

– Você dá conta – ela diz baixinho, lendo minha reação.

Peça-me para diferenciar funções trigonométricas e eu arraso. Entregue-me um kit de modelagem molecular e sou capaz de criar o composto orgânico mais lindo que você já viu na vida. Mas pedir para eu extrair algo das minhas emoções e dividir com o mundo? Caos mental. Não sinto exatamente prazer em trabalhar, mas junto com isso vem meu pavor de entregar um trabalho ruim, independentemente do que seja. Nunca antes tentei ser criativo, e só me dei conta disso agora, sentado aqui.

Para piorar as coisas, Fujita acrescenta:

– Mas a experiência me fez aprender que a maioria de vocês já tem uma ideia

 

em mente. Ao longo da próxima semana, Sebastian e eu os ajudaremos a aprimorar, a polir essa ideia. Depois, vocês mergulham de cabeça!

Não consigo sequer achar graça no fato de ele ter repetido o slogan motivacional no pôster de gatinho de Autumn porque, pela primeira vez em...

bem, talvez pela primeira vez em toda a minha vida, sinto-me sobrecarregado pelas dificuldades.

Autumn coloca a borracha do He-Man na minha mesa e a usa como desculpa para apertar minha mão.

As portas laterais se abrem e as cadeiras se esfregam levemente no assoalho enquanto os alunos se viram. Todos sabemos quem é, mas, mesmo assim, olhamos.

A única vez que vi Autumn bêbada foi no verão passado. Também foi a única vez que ela admitiu estar apaixonada por mim. Pensei que tivéssemos chegado a um acordo depois de nossa sessão de amassos dois anos atrás, mas parece que não. Em algum momento, depois de beber quatro limonadas com álcool, mas antes de me acordar com fortes sacudidas no chão de sua casa e me implorar com hálito embriagado para esquecer tudo o que disse, ela balbuciou por uma hora sobre os sentimentos secretos que vinha alimentando nos últimos anos.

Lembro-me de três frases claras pronunciadas em meio à confusão gerada por minha própria embriaguez e somada à bagunça de suas incoerências alimentadas pelo álcool:

Seu rosto faz sentido para mim.

Às vezes, tenho a estranha sensação de que eu não seria suficiente para você.

Eu te amo, mas só um pouquinho.

Sendo quem somos, a única maneira de vencer o profundo constrangimento que possivelmente surgiria em seguida foi fazer brincadeiras com o ocorrido ao longo de toda uma semana.

Eu te amo, mas só um pouquinho se tornou nosso novo mote de melhores amigos. Autumn tentou explicar a lógica de o meu rosto fazer sentido para ela algumas vezes, mas não conseguiu – tinha alguma coisa a ver com a simetria dos traços e como eles a agradavam em um nível instintivo. Mesmo assim, esse tornou-se um dos meus non sequiturs preferidos quando a vejo se estressando com alguma coisa. Apenas digo: “Auddy, fique calma, seu rosto faz sentido para mim”. E ela não se aguenta. Toda vez, começa a rir.

A segunda frase, às vezes, tenho a estranha sensação de que eu não seria suficiente para você, me afetou mais. Embora eu viesse tentando reunir a coragem necessária para me assumir para Auddy, depois que ela disse isso, mudei de ideia. Suas palavras fizeram brotar uma sensação destoante dentro de mim, o conflito interno sobre o que significa ser bissexual. É como o diabo em meu ombro, a percepção ignorante que recebo de todos os lados, tanto de dentro quanto de fora da comunidade queer. As pessoas dizem que a bissexualidade está ligada à indecisão, que os bissexuais não conseguem se satisfazer com uma única pessoa, que é um rótulo para não se comprometer com ninguém. E aí surge o anjo no outro ombro – no qual os livros e panfletos a favor da diversidade me fazem acreditar – dizendo que não, que significa que estou aberto a me apaixonar por qualquer pessoa. Fico feliz em ter um compromisso com alguém, mas as partes íntimas não importam tanto quanto a pessoa como um todo.

Todavia, como nunca me apaixonei e nunca senti aquela ardência feroz por ninguém, não sei se a pessoa certa vai ser um menino ou uma menina. Quando Autumn falou sobre não ser suficiente para mim, deixei passar e fingi ter esquecido suas palavras. O problema é que eu, de fato, lembro. Aliás, vivo obcecado por elas enquanto finjo não esperar dolorosamente o momento quando alguém vai me derrubar, me fazer ter certeza de que o quero tanto quanto nunca quis nada em toda a vida.

Então, quando Sebastian Brother entra na sala de aula e me vê e eu o vejo, tenho a sensação de que estou caindo da cadeira.

Estou embriagado.

E sei o que Autumn quis dizer sobre os traços do rosto.

Eu já o vi antes, nos corredores do colégio, mas nunca dei muita atenção: é um dos garotos perfeitos, uber mórmon. É filho de um bispo e, pelo que me consta, incrivelmente devoto.

Mas aqui me vejo incapaz de desviar minha atenção. Sebastian não é mais um garoto. Noto seu maxilar bem marcado e seus olhos amendoados, as bochechas avermelhadas e o pomo de Adão se movimentando ansiosamente enquanto ele engole em seco com o peso dos nossos olhares.

– Oi, pessoal – cumprimenta, acenando e andando apressadamente até o centro da sala para dar um aperto de mão em Fujita.

Os olhos de toda uma sala de aula miram nele como se fosse um alvo.

Fujita abre um enorme sorriso para nós.

– O que foi que eu disse?

Os cabelos de Sebastian são raspados na lateral, cheios na parte superior. Seu sorriso é tão enorme, e iluminado, e puro: ele é lindo pra caramba. Mas tem algo mais, alguma coisa em seu jeito de se movimentar que provoca a minha fascinação. Talvez seja o fato de seu olhar não repousar tempo demais em uma pessoa. Talvez seja o fato de eu sentir que ele está ligeiramente assustado com a

gente.

Sebastian observa a classe a partir da primeira fila e seus olhos brilham ao encontrarem os meus – por uma pequena fração de segundo, e depois de novo, como um prisma refletindo a luz. Porque ele me olha outra vez. Essa fração de segundo é o suficiente para Sebastian perceber minha paixão imediata. Puta merda, ele nota muito rápido! Esse tipo de coisa deve acontecer com esse cara o tempo todo – um olhar de adoração vindo do outro lado da sala –, mas, para mim, estar tão instantaneamente apaixonado é totalmente estranho. No peito, meus pulmões são animais selvagens arranhando a jaula.

– Nossa, cara! – Autumn murmura ao meu lado. – O sorriso dele me deixa boba.

As palavras dela são um leve eco de meus próprios pensamentos: o sorriso do Sebastian me arruína. A sensação me deixa desconfortável, um golpe dramático me dizendo que preciso ter esse cara ou não vou conseguir ficar bem.